Ao coletar e organizar os dados primários e secundários a pesquisadora utilizou-se de uma abordagem indutiva com uma observação mais livre. Nesse processo, com as informações obtidas nos relatórios e nas entrevistas, emergiram as categorias que vieram a orientar o tratamento e análise dos dados. Essas categorias surgiram por meio das informações que apareceram com ênfase e forte ligação com a gestão ambiental nos relatórios e principalmente nas entrevistas.
Ao longo de todo o processo de coleta, organização e tratamento dos dados as categorias, que emergiram inicialmente, foram refinadas e reorganizadas para que os dados obtidos pudessem ser analisados com mais consistência e clareza. Além disso, era preciso enquadrar as categorias nas dimensões de análise propostas por Pettigrew (1987). Esta situação de readequação das categorias encontra respaldo em autores como Richardson (1999), que alerta que a categorização pode ser reformulada até que se obtenham categorias adequadas tanto para a teoria quanto para os dados, e Bardin (2004), que ressalta que as categorias definitivas são determinadas da união progressiva de categorias com generalidade mais fraca e terão seus nomes definidos ao final da análise. Ao final do processo as categorias foram definidas.
Quadro 1: Dimensões e Categorias DIMENSÕES
Contexto Interno
Contexto
externo Conteúdo Processo
Acionistas e
Corpo Diretivo Legislação Repertório Investimentos Características de Desempenho Temática Ambiental Perfil Institucional Alterações Estruturais C A T E G O R IA S
Tecnologia Conjuntura Principais
Obras Diretrizes de Ação Fonte: Elaboração da autora
O contexto interno, então, foi analisado a partir das seguintes categorias:
presidentes que comandaram a empresa e os acionistas. A justificativa dessa categoria se dá pela intenção de perceber se as mudanças no corpo diretivo e de acionistas interferem nas decisões ambientais;
• Características de Desempenho – revela os indicadores relativos ao número
de ligações de água e esgoto, percentual de cobertura dos serviços e o número de funcionários.
• Tecnologia – considerados os equipamentos, sistemas operacionais e de
informação, softwares e matéria-prima.
O contexto externo foi analisado a partir das seguintes categorias:
• Legislação - nesta categoria foram pesquisados dispositivos legais que
interferem nas atividades da organização, tanto do ponto de vista ambiental quanto do setor de saneamento básico. A escolha desta categoria se justifica por ser a organização estudada diretamente regulada pelos dispositivos legais e para que se possa entender a influência da legislação sobre a gestão ambiental;
• Temática ambiental – são relatados os eventos e acontecimentos ocorridos
num cenário macro que estão ligados ao tema do meio ambiente. Com essa categoria pretendeu-se investigar qual a influência dos debates mais gerais sobre o tema na empresa estudada;
• Conjuntura – nessa categoria, investiga-se os acontecimentos gerais ocorridos
no Brasil, em Santa Catarina, no setor de saneamento e no contexto externo mais próximo que podem ter influência direta na empresa.
O conteúdo das mudanças organizacionais em gestão ambiental foi investigado com base em dados agrupados nas seguintes categorias:
• Repertório – nesta categoria são investigados os tipos de relatórios expedidos
pela empresa, quais termos estão em destaque nestes relatórios, qual a preocupação principal que a organização demonstra no relatório e quais os seus objetivos principais;
• Perfil Institucional – esta categoria busca pesquisar quais atividades,
programas e projetos estão sendo realizados pela empresa, tanto os gerais quanto os ambientais;
• Principais Obras – nesta categoria busca-se observar onde a empresa está
realizando investimentos e obras. Procura-se investigar se as escolhas de obras são condicionadas por elementos ambientais;
das seguintes categorias:
• Investimentos – nesta categoria são pesquisados quais os financiamentos
obtidos pela empresa, seus financiadores e sua orientação ou não para projetos ambientais. • Alterações Estruturais – através desta categoria é possível perceber e
entender as mudanças na gestão ambiental a partir de alterações na estrutura orgânica da empresa. Essa categoria revela como a empresa formaliza na estrutura a relação com a gestão ambiental;
• Diretrizes de Ação – esta categoria busca investigar as ações ambientais
executadas pela empresa, a participação em comitês, câmaras, conselhos e outras práticas ligadas à temática do meio ambiente.
Definidas as categorias em cada uma das dimensões de contexto, conteúdo e processo, foi possível seguir o tratamento e a análise dos dados seguindo os estágios da direct research. Neste momento, já tendo coletados os dados e organizado-os cronologicamente e de acordo com as dimensões e categorias, iniciou-se o processo de inferência de eventos de transição e posterior definição dos períodos.
Para esta etapa de inferência e definição, resgatou-se a teoria acerca de gestão ambiental. Os autores que tratam de gestão ambiental, na tentativa de demonstrar o envolvimento das organizações com o meio ambiente, estabelecem classificações ou tipologias, em que determinam fases ou etapas graduais diferenciadas que costumam variar ao longo do tempo. Nesse sentido, é possível que uma organização apresente diferentes classificações, em fases ou etapas, ao longo de sua existência, visto que se as organizações passam por mudanças é provável que a relação da organização com o meio ambiente também se altere.
Em face disso, percebeu-se que os eventos de transição seriam aqueles que demonstrassem de modo mais visível as mudanças da relação da organização com o meio ambiente em diferentes momentos de sua existência. Percebeu-se, então, que os eventos de transição foram aqueles que impactaram a estrutura formal da organização, pois, eles eram os que estavam em mais evidência dentre os dados coletados. Assim, os trinta e oito anos de existência da organização estudada foram recortados por meio de eventos de transição reconhecidos como marcantes na história da organização com o meio ambiente.
Com a identificação dos eventos de transição, foram determinados os períodos de análise. A incidência de um evento de transição (alteração na estrutura organizacional) determinava o início de um período.
em 1995 e a apreciação iniciou-se em 1971, o evento de transição definidor do período foi considerado a própria criação da empresa. Em face disso, os períodos a partir da incidência dos eventos de transição foram assim definidos:
• 1º Período – 1971 a 1994 – Evento de transição: Criação da Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (Casan);
• 2º Período – 1995 a 2000 – Evento de transição: Criação da Gerência de Recursos Hídricos e Meio Ambiente (GMA);
• 3º Período – 2001 a 2005 – Evento de transição: Criação da Assessoria de Meio Ambiente (AMA);
• 4º Período – 2006 a 2009 – Evento de transição: Criação da Superintendência de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SMA).
Com os dados secundários sistematizados nas categorias de cada uma das dimensões e juntados às informações obtidas através das entrevistas (dados primários) e com a definição dos períodos, foi possível caracterizar cada um deles por meio de um padrão de comportamento ambiental.
Os comportamentos ambientais dos quatro períodos foram confrontados individualmente com as tipologias ou classificações descritas por autores para identificar em qual fase/etapa de gestão ambiental a organização se encontrava em cada um dos períodos considerados.
Importante observar que essas classificações foram elaboradas pelos autores com o intuito de avaliar principalmente as organizações com características industriais e, aqui, se utiliza as classificações para a análise de uma organização pública. Portanto, faz-se necessário compreender o distanciamento entre algumas características mencionadas pelos autores e a realidade da organização estudada, que será explorada na análise.