Dentre as práticas familiares de escolarização observadas, encontramos a valorização do estudo como recorrente, aparecendo associada ao cultivo da importância do estudo como meio de tornar-se “alguém na vida”, como herança, como mecanismo de mobilidade social, aposta na construção de um futuro melhor para os filhos via escola e consequente melhoria de qualidade de vida. Essa valorização aparece, ainda, em falas que apontam a priorização do estudo em detrimento do trabalho e até mesmo como exercício de sacrifício necessário para tornar-se alguém na vida. Grande parte dessas formas de valorização foram também
identificadas nos estudos de Andrade (2012), Carvalho (2012), Lacerda (2006), Portes (1993; 2001), Souza (2009), Viana (1998; 2009; 2012); Zago (2000) podendo, também ser compreendidas como decorrentes de uma relação utilitarista que alguns membros das camadas populares desenvolvem com a escola. Sobre isso, Van-Zanten (1996) considera que tal relação utilitarista com a escolarização manifesta-se em casos em que se vincula o estudo à rentabilidade econômica. Isto é, a busca pela escolarização pode ter como pano de fundo a obtenção de um diploma rentável, tanto social, quanto economicamente e que resulte na formação profissional e conquista de um bom emprego. Talvez seja essa uma característica peculiar a essas famílias entrevistadas. Principalmente se levarmos em conta a heterogeneidade das lógicas socializantes familiares em meios populares (THIN, 1998). Ou, se levarmos em conta os pressupostos de Bourdieu (1974), de que as aspirações educativas familiares orientam-se segundo o meio social a que pertencem. Isso faria com que os membros das camadas populares ajustassem suas expectativas de acordo com o que lhes era reservado em função de sua posição social. Ou seja, esperariam um prognóstico de pouca rentabilidade escolar, tendo em vista o pouco domínio das regras de funcionamento do sistema educativo, bem como as dificuldades de ordens diversas consequentes à pouca apropriação de capitais culturais, econômicos e sociais dominantes. No entanto, quanto a esses alunos entrevistados, além de destoarem do habitus de classe, as expectativas depositadas no estudo, parecem ter influenciado esses percursos escolares. Afinal, as aspirações podem desempenhar um papel importante, no sentido de se tornarem, um indicador dos percursos e agente facilitador do sucesso escolar (BRINBAUM, 2011).
Nessa direção, em uma das biografias pesquisadas, a do aluno Carlos, representante do curso de Ciência e Tecnologia de Alimentos, percebe-se a presença da valorização do estudo como expectativa de mobilidade social, de formação como pessoa e até mesmo nas falas em que a formação via escola torna-se prioritária em relação ao trabalho. São princípios familiares, portanto, que aparecem de maneira clara na história desse aluno, parecendo favorecer sua chegada ao ensino superior.
Minha avó nunca me cobrou nada. Então, o que eu acho que ela queria é que a gente fosse alguma coisa na vida. Mas, nunca pôs aquilo como regra não. Ela queria que a gente formasse, depois que formasse fosse trabalhar...mas o mínimo que tinha que ter era o terceiro ano. Era o que ela exigia da gente mesmo. Isso ela exigia. (Aí tanto sua avó quanto a sua mãe?) Tanto a minha avó quanto a minha mãe. (Carlos, Ciência e Tecnologia de Alimentos.)
Dão muito valor. Dão muito valor porque é... como a minha avó fez até a quarta série, ela não queria que fosse pra gente a mesma coisa que foi pra ela. Aí como pra gente era muito mais fácil. Porque ir pra escola era a maior facilidade. Então, ela queria que a gente formasse mesmo. Aí ela dava muito valor ao estudo. A gente não podia perder aula de jeito nenhum. (Mas você percebe porque ela dava valor pro
estudo?) É porque ela não teve. Aí e vó sempre quer o bem da gente. E ela falava
assim que com estudo era difícil, sem ele era muito pior. (Carlos, Ciência e Tecnologia de Alimentos.)
(Você teve alguma experiência de trabalho enquanto cursava o Ensino Fundamental e Médio? O que seus pais pensavam sobre isso?) Não. Não.
Quando eu cheguei aqui que eu trabalhei. Depois que eu formei o terceiro ano. Minha avó priorizava muito o estudo, né? Estudando tava tudo certo. Aí quando a gente ia com uma nota pior ela mandava falar com a gente que era pra largar os estudos e ir trabalhar, então. Já que não queria. Mas ela falava brincando. Nunca falava sério. Mas só pra pesar na mente da gente mesmo, que trabalhar era bem pior
que estudar. É muito pior. É muito pior." (Carlos, Ciência e Tecnologia de
Alimentos.)
O próprio aluno parece ter absorvido, via transmissão familiar, o sentido utilitarista dado ao estudo:
(E pra você estudar tem algum significado?) Ah, tem. Tem muito. Porque falar
que eu gosto assim, eu não gosto não. Mas colocar a palavra gostar é muito forte pra mim. Mas, eu vou muito na escola sim. Acho que vale a pena. (Mas você consegue
me dizer porque que você acha que vale a pena?) Eu lembro do pensamento da
minha avó. Porque com o estudo hoje tá muito difícil. Quanto mais cê estuda, parece que mais difícil vai ficando. Mas sem ele é muito pior. (Mas você fala pior em que
sentido?) Porque ocê tendo o estudo, no mínimo um emprego cê consegue depois.
Sem estudo hoje é quase que impossível cê ter um emprego digno assim. Uma coisa que dá pra você ter uma estabilidade muito rápido assim. Não precisa ser rico, mas tendo a estabilidade pra sobreviver precisa de estudo. (Carlos, Ciência e Tecnologia de Alimentos.)
(Então você acha que sua experiência agora é de uma expectativa melhor para o estudo?) Isso. Que realmente é isso que vai me tornar uma pessoa diferente no
mundo do mercado depois., no trabalho. (Carlos, Ciência e Tecnologia de Alimentos.)
[...] Eu pretendo formar aqui, mesmo. Trabalhar e meu sonho ainda é fazer Engenharia. Eu pretendo depois de um tempo, quando eu já tiver mais estável assim. Tiver num emprego mais ou menos bacana, pretendo formar em Engenharia Civil, ainda. Ou qualquer uma das outras. Como eu faço elétrica, quem sabe até Engenharia Elétrica mesmo. De automação também, que tem uma relação até interessante. Porque isso é sonho, entendeu? Mas agora eu tô usando isso daqui mais como sobrevivência, se é o que eu posso falar assim, entendeu? (Então você acha
que o curso de hoje vai te dar mais uma expectativa de sobrevivência?) Isso.
Estabilidade melhor. Porque eu não consegui juntar sonho com as habilidades. Que é o que eu tentei fazer no início. Fazer o que eu gostava. Que eu gosto. Que eu sonhava, né? Porque gostar, eu gosto muito do curso aqui também. Mas eu acho que ele que vai me fazer como diria lá: um pezinho de meia. Aí depois que eu fizer o pezinho de meia, tiver melhor aí eu volto e faço. Que nem eu falei com o meu irmão uma vez: nem que seja a última coisa que eu faço. Nem que eu nem vá trabalhar
com isso, mas eu vou fazer. É uma coisa da minha cabeça. (Carlos, Ciência e Tecnologia de Alimentos.)
Sentido esse que, apesar de adquirido no contexto doméstico, é reafirmado pelo contato do aluno com o meio externo. Pois, além da socialização vivenciada no núcleo familiar, outras experiências também exercem influência sobre a mobilização dos indivíduos em torno de um projeto (ZAGO, 2011).
Quando eu cheguei aqui, que eu vim pra cá, foi no início de 2014. Aí eu não tinha conseguido passar na UFOP, ainda. Aí eu fui trabalhar. Até o dia que eu bati o meu dedo lá. Aí eu troquei de ideia, viu? Que eu trabalhava de servente, Aí a caneta pesa menos que uma pá. Muito menos. Muito menos. No dia que eu descobri que eu passei aqui, eu fiquei numa felicidade!! Até chorei. Nossa!. (Carlos, Ciência e Tecnologia de Alimentos.)
Ademais, o fato de julgar a escola enquanto mecanismo de ganhos futuros associados à sobrevivência parece ter funcionado como motivo para permanência no sistema educativo pregresso, favorecendo a constituição de disposições de futuro. Disposições essas concebidas por Viana (2009) como uma aposta na construção de um futuro melhor para os filhos via escola, o que geraria ações como evitar a situação de trabalho e estudo concomitantemente.
Percebeu-se, ainda, que na trajetória desse aluno, em específico, a relação de proximidade com a avó materna, que o cria junto com a mãe, parece ter contribuído para a assimilação da importância dada ao estudo. Nas próprias falas anteriores, o aluno deixa claro que o sentido de valorização ao estudo é percebido por ele a partir da interação com a avó. Nos relatos do entrevistado, ela aparece como um modelo a ser seguido:
[...] (E da sua história de vida? Você percebe alguém que foi marcante pra
você?) Minha avó. Minha vó. Sem dúvida nenhuma. A pessoa que eu mais respeito
até hoje é a minha avó. Porque ela sempre quis que a gente fosse o contrário do que ela foi, entendeu? Não porque o que ela foi é vergonha. Hora nenhuma eu nunca me envergonhei da minha avó não. Porque muitas vezes ela sabia muito mais que muita gente que estudou muito. E minha avó faz conta muito bem, diga-se de passagem. E até pra quem tem até quarta série é muita coisa. Mas sempre achei ela meu espelho de vida mesmo. Uma pessoa digna de acompanhamento assim. (Carlos, Ciência e Tecnologia de Alimentos.)
Mas até mesmo eu entrar na escola, até na primeira série, eu só ficava com a minha avó. Tanto é que eu nem chamo minha mãe de mãe. Não tem nada a ver não, mas eu não chamo minha mãe de mãe, chamo minha avó de mãe. Por causa de convivência
e tudo mais. Ela ia trabalhar eu ia com ela. Ficava mais com a minha avó mesmo. Minha avó como referência. (Carlos, Ciência e Tecnologia de Alimentos.)
A propósito, Coutrim, Cunha, Assis e Aleixo (2012) identificaram o papel dos avós como coadjuvante no contexto educacional intrafamiliar. Papel esse que pode acontecer não diretamente ligado às atividades escolares, mas à participação dos mesmos em eventos escolares como festas, reuniões, contribuindo para o sustento material, participando da convivência cotidiana, ou mesmo estimulando-os a “irem mais longe na vida” via escolarização.
De forma um pouco menos expressiva que no depoimento anterior, a valorização do estudo na concepção da família da aluna do curso de Direito, Andréa, aparece como algo relacionado não apenas ao alcance de uma profissão, mas como expectativa de vida, melhor qualidade de vida. Sentidos esses que também estão vinculados à noção utilitarista dada à escola. E como tal, influentes para se seguir a carreira escolar.
(Qual o lugar que o estudo/escola ocupam na sua família? E para você?) Não só profissional, mas como expectativa de vida, uma melhor qualidade de vida. (Andréa, Direito)
No entanto, apesar de identificarmos na fala anterior de Andréa, o sentido utilitarista dado ao estudo em seu ambiente familiar, seu depoimento sugere a coexistência de significados outros, como o de socialização, que pode ter sido igualmente importante para sua aproximação do universo escolar:
(Você consegue me dizer sobre o papel da escola na sua vida?) Era assim meu momento preferido, porque em casa eu sempre ficava sozinha. Minha mãe trabalhando, meu pai saía. Era um momento mesmo de socialização que eu tinha. (Andréa, Direito)
Tal lógica de valorização do estudo, em seu sentido utilitarista, também aparece no depoimento da aluna da área de Medicina, em que a vulnerabilidade material e a consequente instabilidade das condições de vida parecem ter um grande peso, tal qual descrito por Zago (2011), sobre o percurso e as formas de investimento escolar.
Eles (os pais) sempre recomendavam que eu deveria fazer o ensino superior, né? Pra eu ter um bom futuro e tudo, mas o curso eu que escolhi. (Aline, Medicina)
Apesar da minha mãe ter feito o ensino superior e tudo, ela não trabalhou na área. Ela sempre trabalhou assim, tipo, pros outros, igual auxiliar de escritório. Até que ela ganhava bem e tudo, mas ela foi demitida. Até que ela passou uns anos desempregada e a gente passou o maior perrengue. E o meu pai não fez ensino superior e também, assim, passou um tempo que ele conseguiu emprego, tudo. Mas, depois ele ficou desempregado na mesma época que a minha mãe e a gente ficou bem mal mesmo. Então o estudo, o ensino superior pra eles, pra gente era uma expectativa de um futuro melhor, entendeu? (E pra você?) Pra mim também. Porque eu quero, não quero passar dificuldade igual a gente passou, entendeu? (Aline, Medicina)
Nota-se aqui, também, o adiamento da inserção no mundo do trabalho, não apenas como uma forma de valorizar o estudo, priorizando-o, mas como uma forma de a família preservar seus filhos e que pode ser considerada como uma prática educativa adotada por ela. Zago (2011) já havia identificado tal ocorrência em famílias desfavorecidas, mas como decorrente, no entanto, de uma maior estabilidade financeira familiar.
Meu pai sempre fala que ele quer que a gente estude e não que a gente trabalhe. Agora não. (Sua mãe concorda com isso?) Concorda. Os dois falam pra investir nos estudos, entendeu? Apesar de que assim, a minha irmã como está quase formando, a minha mãe põe ela pra frente pra conseguir arrumar um trabalho, entendeu? Mas eu, eu falo que às vezes eu tenho vontade de trabalhar...e ela fala: “não. Cê não vai mexer com isso agora não.” (Aline, Medicina)
Similar ao que foi descrito pelos outros três casos, o significado atribuído à escola pela família de José, aluno do curso de História, aproxima-se de ações que evitam a concomitância estudo-trabalho; que buscam por uma melhor condição de vida via escola; que reconhecem o valor social do certificado escolar, por propiciar a formação, inserção profissional. Surge, no entanto, como elemento distinto das falas anteriores, o sentido atribuído pelo próprio aluno de que o estudo o formaria como sujeito:
Então, é...eu acho que a melhora de condições ela passa obrigatoriamente pela educação. Tanto condições financeiras, condições humanas, né? Podem ser sociais e tal. Enquanto formação do sujeito ela sempre passa pelo ensino, sabe? E o ensino superior no Brasil ele infelizmente é na verdade o que manda, né? (José, Licenciatura em História)
Estudar é....tornar-se um sujeito. É tornar-se um sujeito, sabe? É tornar-se um si mesmo, sabe? Se tornar o eu. Eu me tornar o eu mesmo. (Você fala no sentido de
se humanizar, de se formar como pessoa?) Isso. Isso. No sentido de me formar
(Como foi feita a escolha do curso/Universidade? O que o (a) motivou?) Então.
A Universidade de São João, que também tá numa cidade histórica, ela é a mais próxima da minha casa. Só que eu não queria ir e voltar todo dia. Eu queria ter uma vivência longe de casa também. E Ouro Preto é uma cidade bonita, ne´? Fiquei pensando assim: nada melhor do que estudar História em uma cidade histórica, né? Ajuda bastante! Lá não vai faltar emprego e arquivo pra mim ler e tal. Acho que é isso. (Então você tava preocupado com a questão do emprego?). Sim. Sempre preocupado com a questão do emprego. Com certeza. Sempre preocupado, ne´? Porque eu não vou fazer uma coisa inviável. Só que eu, também, de qualquer forma já tenho o curso técnico. Então, se, por exemplo, nada der certo na área da História, eu posso trabalhar como técnico em alimentos. Que talvez o salário seja melhor e seja uma estabilidade maior, como concurso, coisa assim. (José, Licenciatura em História)
é...meu pai nunca achou que eu devia trabalhar se eu tivesse estudando . Acho que pra ele estudar também é uma profissão. Isso foi uma grande vantagem, eu acho. (José, Licenciatura em História)
É uma espécie de dar o retorno. Tanto para os meus pais, quanto para a sociedade. (José, Licenciatura em História)
Então..., os meus pais não estudaram muito e foram trabalhar, sabe? Então, eu acredito que pra eles representa além das mudanças, igual eu te disse, de condição, né? A própria família. Eu acho que representa também uma espécie de conquista, sabe? De conquista por parte deles por sempre incentivar e sempre tornarem isso como obrigatório, sabe? (José, Licenciatura em História)
Em sinergia com os depoimentos anteriores, observa-se que o peso da valorização social do certificado escolar aparece, ainda, nas falas dos alunos Daniela, da Engenharia Ambiental, Tiago, do curso de Ciências Biológicas e Mariana, que faz licenciatura em Letras:
Sempre falaram que, como muita gente fala, que o estudo é tudo na vida. Porque eles que são mais antigos eles não tiveram essa oportunidade e eu tô tendo isso tudo gratuito agora. Então eles falavam pra aproveitar isso. E...cheguei no ensino superior e ficaram super felizes. Tão super felizes e tudo mais. (Tiago, Ciências Biológicas)
É. Eu acho que foi uma coisa que eu já disse, de eles sempre falarem pra seguir a escola porque isso é o que dava futuro agora. Estudo é o que ia conseguir ser alguma coisa na vida. E eles não tiveram isso. (Tiago, Ciências Biológicas)
(Na sua família, o que significa estudar/ir para a escola? E para você?) Acho
que talvez seja trabalhar, atualmente. Nos dias de hoje eles devem pensar isso. Estudo significa profissão, emprego. (Mas numa perspectiva de conseguir
emprego ou de ter o estudo já como uma profissão?) Não. Acho que de
conseguir. Pra poder ter uma vida balanceada, conseguindo o próprio dinheiro e tudo mais. Porque, tipo, geralmente hoje acho que muitos dos empregos cê precisa de
uma formação. Algumas coisas, ensino médio, mas acho que a maioria é às vezes de ensino superior. E, tipo, o que eles fazem não precisava de estudo. Mas, tipo, pedreiro, meu pai, é uma coisa que ele faz, mesmo sem estudo, faz bem, ganha um dinheiro bacana, mas que talvez pra eu conseguir esse dinheiro que ele ganha, pra mim vai ter que ser com estudo. Porque sem estudo talvez eu não vou conseguir uma coisa. Então eu acho que é isso que eles pensam. (E pra você? O estudo também
tem essa conotação?) Sim. Sim. Vejo da mesma maneira. (Você acha que é mais no sentido de você ter uma formação pra conseguir um emprego melhor?) Isso,
mas também tem que pensar nessa formação como uma paixão. Não adianta só cê ter um ensino superior, trabalhar e ter dinheiro, mas não gostar do que faz. Tem que ser feliz. (Tiago, Ciências Biológicas)
Olha, o que que é estudar pra minha família? Acho que estudar é...eles sempre...acho que é um valor muito grande, conhecimento. Por mais que eles acham importante, não é que assim, tipo, a minha irmã não estuda. Aí ela começou a fazer um curso porque eu incentivei. Eu incentivo mais. Estudar era uma coisa muito....minha mãe sempre dizia que você estudando você consegue mais oportunidades. Você tem que estudar. Tem que estudar. Mais eu acho que é isso, de conhecimento. (Mariana, Licenciatura em Letras)
[...] E minha mãe não. Ela sempre quis que eu tivesse um emprego que voltasse tudo que ela gastou comigo, sabe? Mas ela sempre me deixou escolher. (Daniela, Engenharia Ambiental)
A valorização da escola para Fabrício, do curso de Ciências da computação, por sua vez adquire o significado de que o estudo o tornaria alguém na vida, nessa perspectiva de adquirir visibilidade, status social, mas como produto de uma grande dedicação, que ganha conotação até mesmo de sacrifício. Esse traço ascético estaria associado ao esforço de adentrar em um mundo desconhecido para essa família: o do universo escolar. Pois, tal qual relatado pelo aluno, a escola era vista como local de aquisição de conhecimento “legítimo”, adquirido em instituições de ensino, exigindo dedicação. Há, assim, um trabalho familiar de inculcação de uma ordem moral: sacrificar-se por um bem maior: tornar-se alguém na vida a partir da educação institucionalizada. Concordamos, assim, com Lahire (1997) quando afirma que “a moral do bom comportamento, da conformidade às regras, moral do esforço, da perseverança, são esses traços que podem preparar, sem que seja consciente ou intencionalmente visada, no âmbito de um projeto ou de uma mobilização do recurso, uma boa escolaridade.” (P. 26)
O lugar da escola era pra aprender, né? Porque, por exemplo, minha mãe ela mandava eu ir pra escola direto e falava...é...cê tem que estudar, que cê tem que fazer faculdade...tem que tentar uma universidade federal e pra ela assim, por exemplo, o estudar é seria isso mesmo. Seria sacrifício. Tem que ter muita
dedicação. É. Eles queriam que eu fosse alguém na vida. (E pra você? O que
representa estudar? O que a escola representa?) É. É sacrifício, né? (Fabrício,