2.3 Trusselfaktorer
2.3.2 Signalkreps
A cultura brasileira é tema recorrente da Sociologia e da Antropologia, mas o mesmo não pode ser dito da área dos Estudos Organizacionais. Tal como posto na introdução deste trabalho, existem importantes iniciativas para a construção de referencial teórico sólido que constitua o pensamento de uma administração “tipicamente” brasileira, mas o caminho a ser trilhado é longo e existem ainda muitas lacunas a serem preenchidas.
As pesquisas encontradas sobre brasileiros vivendo nos Estados Unidos priorizam a investigação do fenômeno da imigração em si. Portanto, investigam o perfil, motivações e os caminhos percorridos pelos brasileiros que se estabeleceram naquele país. São abordados assuntos como ilegalidade (quando o imigrante permanece no país sem visto adequado), trabalho não qualificado e a construção de redes sociais. Temas como cultura brasileira e realidade organizacional são marginais. A ausência, portanto, de investigação específica sobre a perspectiva que profissionais brasileiros qualificados e legais têm da cultura brasileira já é fato suficiente para justificar a adoção de estratégia metodológica exploratória qualitativa (GODOY, 1995). Mas essa não é a única razão que sustenta a opção metodológica que orienta esta pesquisa. O método qualitativo é o mais adequado nesta investigação também por conta dos pressupostos sobre cultura assumidos neste trabalho.
Técnicas quantitativas são viáveis e úteis quando a pesquisa parte de hipóteses claras e definidas e quando as premissas que sustentam essas hipóteses são passíveis de medidas e quantificação (GODOY, 1995), ou seja, métodos quantitativos implicam pressupostos conceituais objetivos e concretos (MORGAN; SMIRCICH, 1980, p. 493).
Importa resgatar o conceito de cultura que orienta essa pesquisa: “O homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias” (GEERTZ, 1989, p. 15). Ora, se a cultura é significado e esse significado é
construído pela experiência de cada um, não existe aí objetividade passível de ser medida, o que exclui a possibilidade do trabalho quantitativo.
Enquanto a pesquisa quantitativa conta com um arcabouço cristalizado de técnicas, o método qualitativo pode ser considerado um “guarda-chuva” que abriga diferentes caminhos de investigação. Segundo Flick, a pesquisa qualitativa suporta abordagens que se diferenciam de acordo com seus pressupostos teóricos. O foco metodológico e a maneira como o objeto é percebido diferenciam três abordagens: o interacionismo simbólico, a etnometodologia e o estruturalismo ou psicanálise (FLICK, 2002, p. 16). Este trabalho está fundamentado no interacionismo simbólico.
Os pressupostos teóricos do interacionismo simbólico giram em torno dos significados produzidos a partir da interação entre homem e sociedade (GODOY, 1995, p. 2). O ponto de partida da pesquisa do interacionismo simbólico são três premissas básicas:
1.Os homens agem de acordo com o significado das coisas que o cercam – sejam elas objetos físicos, sociais e/ou abstratos;
2.Os significados desses objetos são socialmente construídos por meio da interação das pessoas;
3.Esses significados são situacionais, pois são “gerenciados” e modificados de acordo com processos dinâmicos de interpretação desempenhados pelos sujeitos ao interagir com o mundo que os cercam (BLUMER, 1969).
As premissas repousam em conceitos-chave, ou como Blumer chama, root images (BLUMER, 1969, p. 6), que descrevem a estrutura conceitual do método de estudo que o interacionismo simbólico utiliza para examinar sociedades e condutas. Tais conceitos contemplam a natureza dinâmica dos grupos sociais, o homem como ator, a ação humana e a inter-relação das ações.
Portanto, as premissas acima devem levar em conta que o interacionismo simbólico, como abordagem para uma ciência social empírica, entende as sociedades como produto das ações das pessoas no empenho em viver coletivamente. Tais ações são desenvolvidas em resposta às diversas situações às quais os homens são submetidos o tempo todo; uma vez que vivem em interação, tais respostas devem também ser harmônicas em relação às ações dos demais. No processo de interação, os homens sugerem e recebem significados aos objetos que os cercam, também os significados são interpretados o tempo todo e, tal interpretação influencia as ações tomadas. Blumer (1969) salienta que esse processo deve considerar ainda peculiaridades pessoais originadas dos diferentes grupos dos quais as pessoas fazem parte, tais como profissão, gênero, etc, uma vez que tais grupos influenciam a composição de mundos diferenciados.
Dentro da abordagem interacionista, os termos “objeto” e “mundo” têm sentido específico. Um objeto é qualquer coisa que possa ser indicada ou descrita. Os objetos são classificados em três categorias: objetos físicos, como móveis, roupas, alimentos; objetos sociais, dado por papéis sociais, tais como marido, estudante, professor e objetos abstratos, como princípios, doutrinas e idéias. Os objetos são produtos sociais uma vez que seu significado é formado e transmitido por meio da interação social.
Cada homem vive em seu mundo específico, composto por objetos cujo significados foram construídos a partir do processo interpretativo da interação social. Segundo Blumer, um ambiente consiste apenas no conjunto de objetos que o homem reconhece, enquanto o seu mundo é carregado de significados idiossincráticos. Ele exemplifica dizendo que pessoas podem viver lado a lado, no mesmo ambiente, e ainda assim viverem em mundos diferentes (BLUMER, 1969, p. 11).
Afirmar que as pessoas agem de acordo com o significado das coisas que as cercam pressupõe que o pesquisador tenha habilidade em identificar quais objetos são relevantes no
mundo das pessoas pesquisadas. “Tentar identificar objetos que fazem parte do mundo de um indivíduo ou uma coletividade não é simples ou fácil para o pesquisador que não está familiarizado com aquele mundo.” (BLUMER, 1969, p. 51), portanto, buscar a compreensão do fenômeno da perspectiva interna é crucial.
Uma vez que vivo nos Estados Unidos há pouco mais de uma ano, sinto-me relativamente familiarizada com o mundo dos sujeitos desta pesquisa. Por conta da minha própria situação de vida, hoje, percebo o mundo à minha volta de uma maneira próxima aos meus entrevistados. Acredito que essa vivência facilite captar com mais clareza os sentimentos dos sujeitos e identificar o significado dos objetos do mundo que os cercam.
O interacionismo simbólico traz implicações também na coleta de dados. Blumer (1969) entende que questionários e outras ferramentas que impõem variáveis predefinidas, não são eficientes na abordagem do interacionismo simbólico por que os pontos-chave do significado do mundo que cerca os sujeitos devem ser descobertos por meio da rede de interação social em que este sujeito está envolvido. O pesquisador deve apreender dos próprios sujeitos como eles vêem o mundo que os cercam, onde e como eles estabelecem e interpretam o sentido para orientar suas ações. Tal requisito influenciou a construção do roteiro de entrevista.
A interação social e o processo interpretativo permanente foram considerados durante a análise e conferem dinamismo à categorias encontradas. Tal análise é coerente ao conceito de cultura que permeia a pesquisa, uma vez que a cultura produz e é produzida pelo homem, ao interpretar o brasileiro longe do Brasil, o interacionismo simbólico proporciona uma interpretação dinâmica da cultura brasileira.
A análise apresentada no capítulo subseqüente contempla a abordagem interacionista simbólica porque:
- destaca da fala dos sujeitos o significado por eles atribuído na interação com o outro; - entende a dinâmica situacional por meio da percepção dos sujeitos.
A seguir, serão apresentadas as recomendações conceituais que orientaram o planejamento da pesquisa, a coleta de dados, a seleção dos sujeitos e a análise dos dados.