1 Introduction
1.3 Signal transmission
Sem dúvida, Lacan (1957/1998g) se refere à Jakobson, ao comentar o trabalho do linguista sobre as afasias. Ele recorda que as lesões que ocorrem nos hemisférios cerebrais, e que conferem à função da linguagem seu centro mental, proporcionam déficits que se distribuem segundo “duas vertentes do efeito significante do que aqui chamamos de letra, na criação da significação” (Lacan, 1957/1998g, p. 498). Se a linguagem abordada por Lacan não é tomada sob o ponto de vista das “diversas funções somáticas e psíquicas que a desservem no sujeito falante” (Lacan, 1957/1998g, p. 498), é para falar de sua estrutura e da função das duas vertentes do efeito significante no inconsciente, que Lacan extrai dos déficits afásicos as relações com a metáfora e a metonímia. Já foi visto que os distúrbios analisados por Jakobson em Linguística e Comunicação consistem nos distúrbios da similaridade e da contiguidade. Assim, ocorreria uma incapacidade entre a metáfora e o distúrbio da similaridade, e entre a metonímia e o distúrbio da contiguidade. São essas duas figuras da retórica que Lacan irá discutir em A Instância da Letra.
Lacan (1957/1998g) encontra na metáfora e na metonímia as duas formas de articulação dos significantes, designadas por ele como as leis do inconsciente. Ele designa por significância o momento da operação significante, o significante no seu momento ativo, produtivo. A significância é o momento em que o significante passa para o estágio de significado e, como consequência, passa a carregar-se de significação. Trata-se, portanto da tradução do termo alemão Bedeutung (significação) encontrado na Traumdeutung (A
Interpretação dos Sonhos) de Freud, em que o prefixo be marca o ato ou a operação de dar
Lacan (1957/1998g) relê A Interpretação dos Sonhos, sobre a qual constata que Freud não fornece outra coisa senão as leis do inconsciente. Certamente, é com os recursos da linguística que Lacan realiza essa leitura, podendo, então, afirmar que o trabalho do sonho segue as leis do significante e que para além dos sonhos, “a experiência psicanalítica não é outra coisa senão estabelecer que o inconsciente não deixa fora de seu campo nenhuma de nossas ações” (Lacan, 1957/1998g, p. 518).
Texto freudiano de fundamental importância, para Lacan (1957/1998g), A
Interpretação dos Sonhos recupera toda a dimensão de estrutura literante – fonemática – em
que se articula e se analisa o significante no discurso do sonhador. Por isso, é necessário entender o sonho ao pé da letra, como uma carta enigmática (rébus), em que as figuras não naturais do barco sobre o telhado ou do homem de cabeça de vírgula, evocados no exemplo de Freud (1900/1996e), apontam que as imagens do sonho apenas devem ser retidas por seu valor de significante. Valor que nos indica que a imagem não tem nada a ver com sua significação, mas, a exemplo dos hieróglifos do Egito, aponta-nos que se está diante de uma escrita em que até a pretensa figura ideogramática é uma letra. Nesse sentido, Lacan busca identificar em todos os elementos do trabalho do sonho, os elementos ou as funções da própria letra. Isso consiste em que se substitua a decodificação pela decifração, reconhecendo que, no sonho, ao invés de uma simples pantomima ou um mundo de imagens simbólicas, trata-se de um verdadeiro sistema de escrita (Nancy & Labarthe, 1991).
É por isso que Freud de certa forma antecipa as formalizações da linguística de Saussure em muitos aspectos, conforme Lacan (1957/1998) chama a atenção:
Peço desculpas por parecer estar eu soletrando o texto de Freud; não o faço apenas para mostrar o que se ganha ao simplesmente não recortá-lo, mas para poder situar em balizas primárias, fundamentais e nunca revogadas, o que aconteceu na psicanálise. Desde a origem, desconheceu-se o papel constitutivo do significante no status que Freud fixou de imediato para o inconsciente, e segundo as mais precisas modalidades formais. E isso por duas razões, das quais a menos percebida, naturalmente, é que essa formalização não bastava, por si só, para que se reconhecesse a instância do significante, já que, quando da publicação da Traumdeutung, antecipava-se em muito às formalizações da linguística, para as quais sem dúvida poderíamos demonstrar que, por seu simples peso de verdade, ela abriu caminho (p. 516, grifo nosso).
Lacan faz referência ao processo de transposição (entstellung) apontado por Freud no trabalho do sonho (traumarbeit) como a precondição geral da função do sonho, fazendo corresponder ao que Saussure depois designou como o deslizamento do significado sobre o significante, sempre em ação inconsciente no discurso (Lacan, 1957/1998g). Desse deslizamento, Lacan concebe que o significante, para fazer emergir um efeito de significação, entra no significado, ou seja, é como se, de tempos em tempos, significante e significado
parassem de deslizar e se unissem para formar uma significação, como visto na pontuação do analista na operação do ponto de estofo.
Lacan (1957/1998g) define uma tópica do inconsciente freudiano, ilustrada na fórmula de uma função que, segundo Nancy e Labarthe (1991), pode ser lida como: a função do significante é pôr um termo sobre uma barra resistente à significação (Figura 5):
Figura 5: A incidência do significante no significado Fonte: Lacan, 1957/1998g, p. 518
Nessa fórmula, Lacan nos mostra que é na incidência do significante no significado que podemos constatar os efeitos de significação. Esta se dá através de uma co-presença no significado não apenas de elementos da cadeia do eixo horizontal, mas das contiguidades no eixo vertical, ou seja, das possibilidades de transposição da barra resistente à significação. Lacan afirma que há duas vertentes da incidência do significante no significado, localizadas por ele no texto de Freud (1900/1996e): a condensação (Verdichtung), que segue a estrutura de superposição de significantes, em que ganha campo a metáfora; e o deslocamento (Verschiebung), que realiza um transporte da significação, demonstrando pela metonímia um meio mais adequado do inconsciente para despistar a censura (Lacan, 1957/1998g).
Lacan utiliza a noção de metáfora para mostrar que o mecanismo de condensação, no qual Freud (1900/1996e) localiza uma figura composta que desponta no sonho, sem dúvida, trata-se de uma superposição de significantes, isto é, de uma substituição de um significante por outro. Lacan (1957/1998g) ilustra isso a partir de um verso do poema Booz adormecido, de Victor Hugo: “Seu feixe não era avaro nem odiento...” (Victor Hugo, citado por Lacan, 1957/1998g, p. 510). Tal verso produz o que se denomina como “uma criação metafórica”, “uma centelha poética”, que consiste na substituição de uma palavra por outra. Mas, podemos constatar que essa centelha criadora de uma metáfora não brota da presentificação de dois significantes, ou seja, não há duas imagens acústicas atualizadas simultaneamente. O efeito metafórico só brota entre dois significantes, sendo que um deles substitui o outro assumindo o seu lugar na cadeia significante, enquanto o significante oculto permanece presente em sua conexão com o resto da cadeia. No poema de Victor Hugo, o verso remete à história bíblica de Booz e faz referência à sua fecundidade. Pois, embora já fosse de idade avançada, Booz foi capaz de gerar filhos em sua mulher. Sendo assim, “seu feixe” ganha outra significação, pois
sua presença no verso, substitui metaforicamente o órgão sexual do personagem hebreu (Lacan, 1957/1998g).
A substituição de significantes pode ser escrita de forma simplificada como um significante (S’) sobre outro (S), separados pela barra. Desse modo, podemos ver que o efeito de poesia operado na metáfora, deixa o significado em suspenso, como no exemplo de Lacan, em que o sentido do “feixe” de Booz não foi claramente dado, mas emergiu como efeito de significação: (S’)Feixe/(S)Pênis. Lacan escreve a metáfora com uma fórmula, como a que segue (Figura 6):
Figura 6: Fórmula lacaniana da metáfora Fonte: Lacan, 1957/1998g, p. 519
Na figura acima, Lacan (1957/1998g) formula que a função significante de substituição de um significante por outro é congruente (
) à ultrapassagem da barra na emergência da significação, um mais de sentido indicado pelo sinal positivo (+). A barra existente entre os significantes S’ e S equivale ao próprio recalcamento, de modo que o significante S’ substitui o significante S recalcado (sob a barra), sendo contudo, mantida entre eles uma relação de similaridade.
A estrutura metafórica de articulação entre dois significantes é própria do sintoma, que é definido como um nó de significação, no qual a falta de um significado exato indica que se trata de uma articulação de significantes que continuam a deslizar (Quinet, 2008). O sintoma- metáfora é determinado pela substituição de um significante corporal no lugar de um outro significante recalcado, sendo que esta substituição torna a significação inacessível ao sujeito do inconsciente. O significante recalcado constitui um enigma do trauma sexual, sendo o significante substituto, aquele que, na cadeia significante, faz metáfora, fixando um sintoma, um esquecimento, uma formação do inconsciente (Lacan, 1957/1998g).
Na metonímia – segunda lei do inconsciente – a articulação de um significante ao outro se dá por deslizamento. O exemplo dado por Lacan é a expressão: “trinta velas”. Nessa expressão, no lugar da palavra “barco”, temos a palavra “vela”, que é a parte de um barco. Assim, a metonímia consiste em tomar a parte pelo todo – toma-se uma parte do barco, a vela, para fazer referência ao barco como um todo – por meio da articulação significante,
implicando, nesse caso, na falta de significação própria à cadeia significante, que faz com que haja um constante reenvio de significação, de significante em significante, característica da associação livre. A fórmula proposta por Lacan para a metonímia é a que se segue (Figura 7):
Figura 7: Fórmula lacaniana da metonímia Fonte: Lacan, 1957/1998g, p. 519
A fórmula da metonímia nos indica que a função de conexão do significante com o outro significante (S...S’) é congruente à não cristalização de um significado, de modo que o sinal negativo (-) representa aí a resistência à significação, o menos de sentido, mantendo a barra que retém o significado fora do alcance do significante. O envio da significação sempre a outro significante da cadeia metonímica corresponde à característica do desejo marcado pela falta. Segundo Lacan (1958/1998i), a metonímia incide no campo do desejo, como
o efeito possibilitado por não haver nenhuma significação que não remeta a outra significação, e no qual se produz o denominador mais comum entre elas, ou seja, o pouco de sentido [...] que se revela no
fundamento do desejo” (p. 628-629).
O significado assim mantido fora do alcance do significante pode, então, designar o objeto do desejo como falta-a-ser, por aquilo que não se tem, por ser o desejo sempre o desejo de outra coisa. Através dessa falta, o desejo é condenado a funcionar como o remetente, ao longo do encadeamento, da metonímia dessa falta (Nancy e Labarthe, 1991).
2 INCONSCIENTE E PULSÃO: SABER E MEMORIAL DE GOZO
“...o sujeito experimenta, nesse intervalo, uma Outra coisa a motivá-lo que não os efeitos de sentido...” (Lacan, 1960/1998k, p. 858).