2. Teoretiske perspektiver
2.5 Sigma, theta, lambda
Comentar a respeito de um lugar é tarefa complexa que exige discernimento e cuidado para não sobrepor as impressões do autor, desviando assim a atenção de como realmente o lugar se apresenta. Para Merleau-Ponty (1999, p. 5), “o real deve ser descrito, não construído ou constituído”. Assim, descreve-se São José de Ribamar com o cuidado de não desenvolver comentários dúbios que venham a comprometer a descrição do real.
O município de São José de Ribamar/MA (Figura 6) teve como primeiros habitantes os índios Gamela, quando da chegada dos franceses, por volta de 1612. Segundo Miranda (2009, p. 4), com os europeus vieram os religiosos missionários os quais “encontraram os índios transportando as imagens de um lado a outro e depositando-as sempre numa rocha mais elevada”.
Figura 6 - Município de São José de Ribamar/MA Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2010 Adaptado por FONSÊCA, Alexandre Vítor de Lima, 2012
Depois, diziam: “in riba, in riba”. Com o tempo, descobriu-se que a expressão significava “acima”. Assim, o nome “Ribamar” significa “acima do mar”. Sua vida política efetivou-se em 1757 quando o então governador Gonçalo Pereira Lobato e Souza elevou o lugarejo à categoria de “Lugar”. Por volta de 1913, foi elevada à categoria de vila e a partir de 1938, foi transformada em distrito do município de São Luís, capital do Estado do Maranhão.
Em 1948, foi restaurada como município e elevada definitivamente à categoria de município em 24 de setembro de 1952 pelo governador Eugênio de Barros com o nome de São José de Ribamar (IBGE - Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, 1959 p. 299).
A cidade se constitui em um polo de turismo do Estado com destaque para o complexo formado por uma basílica, uma estátua de São José com 17,5 metros de altura (Figura 7), que se destaca para os viajantes que chegam pelo mar e adentram na baía do mesmo nome, uma gruta, réplica da gruta de Nossa Senhora de Lourdes existente na França, e uma concha acústica no formato de uma Bíblia aberta onde são celebradas as missas campais por ocasião do festejo religioso de São José, padroeiro do estado do Maranhão. O festejo ocorre no mês de setembro, porém a data é variável e acontece de acordo com o movimento da lua.
Vista da Baía de São José Figura 7 - Estátua de São José Fonte: Arquivo do autor, 2010
Outras atrações turísticas da cidade são: o “lava-pratos”, carnaval fora de época que acontece no primeiro final de semana após a quarta-feira de cinzas. Para alguns folcloristas constitui-se no primeiro grito de carnaval fora de época do país. O “lava-bois” que é uma festa popular que reúne brincadeiras de bumba-meu-boi da Ilha e ocorre no primeiro sábado após o dia de São João.
Além das atrações turísticas já citadas, a cidade também é conhecida como “cidade balneária”, denominação criada no século próximo passado quando famílias abastadas economicamente se deslocavam da capital do estado no período das férias escolares de seus filhos para a cidade de São José, com o propósito de descansar e, consequentemente, tirar proveito de suas praias, nas horas de lazer. Destaque para a Praia de Banho (Figura 8), situada na zona urbana, próxima ao complexo religioso; Araçagi, na porção setentrional do município; Boa Viagem, na porção sudeste e Panaquatira, na porção nordeste do município.
Final de tarde Figura 8 - Praia de Banho Fonte: Arquivo do autor, 2010
A praia de Panaquatira é muito frequentada por banhistas nos finais de semana que a usam para o lazer e por pescadores artesanais que frequentemente desenvolvem suas atividades profissionais como, por exemplo, a pesca com redes de enseada e malhadeira, a pesca com espinhel, linha de mão, entre outros equipamentos, por se tratar de uma área piscosa e de grande relevância para a manutenção das práticas tradicionais dos pescadores ribamarenses.
A praia do Panaquatira (Figura 9) apresenta algumas particularidades, entre elas destaca-se a presença de um grande estirâncio com pouca declividade, chegando a alguns trechos a medir 1,5 km de comprimento. Já há alguns séculos, esses locais eram percorridos por exploradores e estudiosos que procuravam descobrir os encantos das areias após os refluxos. Para Corbin (1989, p. 129), “o estirâncio convida a experimentar alternadamente a subida e a retirada das águas; essa zona disponível suscita o sonho binário da submersão e da dessecação. O mar é então essencialmente percebido como um espelho em cuja superfície se pode ler o casamento da água e do ar”.
Vista para oeste
Figura 9 - Praia do Panaquatira Fonte: Arquivo do autor, 2012
É nesse local onde se percebe com maior nitidez as alternâncias das marés (fluxo e refluxo) e também é onde ocorre o contato entre o visitante e o nativo (pescador). Esse encontro social irá possibilitar trocas de experiências, sobretudo as relativas à fauna e flora marinha, observadas durante a maré baixa.
Não se pode negar que o conhecimento prévio dos recursos naturais desperta no cidadão a afetividade e cria um vínculo de pertencimento com o lugar, pois cada lugar tem sua própria identidade.
4 O MAR E O PESCADOR ARTESANAL DE SÃO JOSÉ DE RIBAMAR
OJANGADEIRO Música: João do Vale (cantor e compositor maranhense) Nunca temeu ao mar, mas sempre o respeitou Por viver sempre no mar ele tem amor Tem orgulho do que é, mas o que ele não quer É que seu filho pra viver Tenha que enfrentar o mar Tenha que vim ser Pescador
O mar sempre foi uma fonte de inspiração e o meio de ganhar a vida para os moradores do litoral brasileiro e, em particular, o maranhense. Perceber os movimentos das ondas, observar as enchentes e as vazantes das marés, acompanhar os movimentos de ir e vir de canoas, barcos de pesca, lanchas e outras embarcações, a movimentação das pessoas na beira-mar, entre outras dinâmicas, faz parte do dia-a-dia dessas populações que habitam o litoral e usufruem do espaço marítimo para a prática do lazer e, principalmente, para o trabalho, pois se constitui como o principal meio para a sua sobrevivência.
Para Diegues (2004, p.3), “[...] essa atração está radicada nas lembranças do mar enquanto meio primordial da vida, à semelhança do útero materno e seus líquidos para o qual o ser humano gostaria de voltar”. Embora a afirmação tenha um caráter mais antropológico e visceral, é com esse meio primordial de ganhar a vida através da atividade que o mar lhes proporciona, com sua dinâmica diária, que acontece este estudo sobre os pescadores artesanais do porto do Vieira, em São José de Ribamar/MA.
Na concepção de Corbin (1989, p.221), “[...] a praia representa o ponto de articulação entre o trabalho da terra e o do mar [...]”. Tal fronteira permite aos homens e mulheres que lidam com a atividade pesqueira a não medirem esforços para retirar da interface terra/mar o sustento de suas famílias.
Para Lima (2006, p. 46), “[...] é nesse espaço, que se realizam os encontros e desencontros com companheiros, parentes e desconhecidos; onde crescem os filhos e filhas; nascem e forjam-se as estratégias de organização e luta; onde se inicia e finaliza o trabalho de cada pescaria e realizam-se outros meios de vida [...]”, consequentemente são os espaços que fortalecem os elos entre os membros da família, mesmo em condições adversas. Os laços familiares, o companheirismo, as afinidades são fortalecidos a partir da comunidade, do local da moradia e também do trabalho; é onde brota a vida, a integração destes membros.
Na concepção de Maldonado (1986, p. 18), “[...] um dos traços que prevalecem entre pescadores artesanais é a importância da família como unidade de produção e consumo [...]”. Nesse sentido, se destacam os pescadores das embarcações responsáveis pelas tarefas de ir e vir do mar, e os familiares, em terra, com o apoio logístico e afetivo.