Sabendo, portanto, não haver uma única perspectiva de estudo da ética, passarei agora a expor o lugar de onde estarei falando, a ética da alteridade radical de Lévinas, cuja intenção não foi construir um sistema ético ou um conjunto de preceitos morais fechados sob a forma de conteúdos dogmáticos. Muito longe disso, Lévinas ao rejeitar a filosofia tradicional – caracterizada mais como sistema e arquitetura das questões do ser – ambicionou expor de forma absolutamente radical a necessidade de uma discussão ética, de um pensar sobre ética, aliás, de uma escuta ética do humano.
Sem querer rever teorias já estabelecidas ou complementá-las, o filósofo Lévinas criou um pensamento original, pois na sua concepção a civilização ocidental falhou na tentativa de dar conta do próprio sentido do humano e do social. O seu pensamento não pode ser compreendido descontextualizado do seu período de vida, marcado por alguns acontecimentos significativos do século passado, como:
as duas guerras mundiais, que mostraram a ineficácia dos princípios éticos que norteavam as sociedades; [...] a crise da razão e das ciências humanas; a disseminação e perda do sentido, com a inevitável ruína de humanismos prometedores, de instituições veneráveis e o abalo profundo que faz estremecer toda a tradição cultural do Ocidente. Não se pode omitir a perseguição nazista aos judeus
que fez milhões de vítimas e a própria experiência de Lévinas como oficial judeu prisioneiro de guerra (PIVATTO, 2000, p. 79).
Com toda uma discussão extensa e difícil sobre o humano – a qual sequer ambiciono dar conta não apenas por sua profundidade característica, mas principalmente por sua ruptura com a discussão da verdade absoluta, com a ordem das coisas já ditas e estabelecidas –, sei de antemão não poder domesticar as suas idéias, nem enquadrá-las em algum conceito ou em um conteúdo dogmático. Assim procedendo, estaria transformando seu dizer em um dito, para usar os termos levinasianos, e rompendo com a compreensão do filósofo quanto ao caráter processual do dizer, de sua capacidade de sempre se re-dizer e pelo fato do dizer ter menos importância pelo seu conteúdo informativo do que pelo fato de dirigir- se a um interlocutor (LÉVINAS, 1982). Implicada por sua obra, terei na escuta ética de Lévinas um dos fios com o qual irei tecer este estudo sobre a questão do cuidado na prática do psicólogo em instituições públicas de saúde na cidade de Fortaleza.
Por que então Lévinas e sua ética da alteridade radical? Primeiro, não tenho como passar pela leitura levinasiana e não ser afetada por ela, pela presença do outro que a todo instante, e a cada palavra, exige um novo posicionamento – literalmente, uma outra postura. Leitura essa, preciso enfatizar, de difícil compreensão, dado o jogo com as palavras e o uso constante de hipérboles e contradições, mas também provocadora em nós, os seus leitores, de uma contínua reflexão e, como não podia deixar de ser, de uma afetação pela própria diferença em sua obra.
Em Lévinas o outro ocupa lugar essencial, contrastando com outras concepções filosóficas – como aquelas abordadas anteriormente – presas ao ser, preocupadas com o sujeito, com sua autonomia e com a satisfação de suas necessidades, preterindo o olhar sobre o outro, o outro em si e a relação intersubjetiva. Tais concepções caracterizam o pensamento da identificação, do poder, da neutralização do outro e da injustiça – mais próximas de verdadeiros impérios do egoísmo e do movimento para si. Por isso, o filósofo põe em questão todo o legado da tradição dominante baseado nos ideais do ser, do poder e do saber e expõe um novo sentido para o humano, tendo como ponto de partida o que Pivatto (2000) denominou de experiência originária do encontro humano.
Ao invés do pensamento do igual, Lévinas traz a idéia do Infinito – palavra cujo sentido escapa à referência lingüística tradicional e implica num pensamento do desigual, num conhecimento sem a priori, não representável ou não compreensível, cuja idéia ultrapassa os meus poderes, não de modo quantitativo, mas pondo-os em questão. Freire (2002, p. 40), inclusive, afirma ser o Infinito “a incondição do pensamento”. O Infinito pauta-se não por um
saber, mas pelo Desejo – uma vez mais traz um termo de sentido inusitado, o qual difere do senso comum, cujo significado é falta ou necessidade, para assumir uma outra ordem, qual seja: de não poder jamais ser satisfeito. Lévinas ainda expõe a categoria do Rosto, central em sua obra, que tem implicações com o modo como o outro se apresenta de forma integral, sem defesa alguma e sem possibilidade de figurar como tema ou como objeto. Ultrapassando também o sentido convencional, o rosto não é visto, porque em Lévinas (1982) a visão é a busca de uma adequação. O acesso ao rosto é, num primeiro momento, ético, pois “O rosto está exposto, ameaçado, como se nos convidasse a um acto de violência. Ao mesmo tempo, o rosto é o que nos proíbe de matar” (LÉVINAS, 1982, p. 78).
O outro não mais é passível de tematização, nem de conceituação, nem pode mais ser tomado como um objeto conhecido; o outro levinasiano é outro de uma outra ordem, a qual não cabe na lógica racional do pensamento universal. A ética em Lévinas não deve, portanto, ser lida sob a ótica racionalista, com a qual estamos tão “seguramente” adaptados; ela exige uma outra via: a dos sentidos, a da afetação e da sensibilidade – onde se é afetado pela diferença, pela alteridade, pelo outro.
Sobre o outro não há poder, não posso exercer qualquer saber ou domínio, pois ele não pode ser objeto de meu interesse. Não devo ter interesse nele enquanto um objeto passível de transformação em algo da ordem do idêntico ou do mesmo, pois assim estaria anulando sua diferença – o outro não pode ser objeto absolutamente, nem deve ser meio para nenhum fim. Não há opção alguma, pois a partir da ética da alteridade radical não se têm escolhas: é da ordem da intimação, da obrigação, a qual é anterior à própria existência. Eis porque, para o filósofo, o primeiro gesto é ético. Dito de outro modo, a ética é a questão original, é a filosofia primeira e não mais o ser: “A deposição da soberania pelo ‘eu’ é a relação social com outrem, a relação des-inter-essada. Escrevo-a em três palavras para realçar a saída do ser que ela significa” (LÉVINAS, 1982, p. 43, grifo meu em negrito).
O desinteressamento em Lévinas é não tentar se apropriar do outro, da alteridade, nem considerá-lo um meio para qualquer fim, mas sim permitir ser afetado, ser desalojado e de acolhê-lo em sua exigência ética por respeito e cuidado. O importante é o desinteressamento de si em favor do outro, traduzido por Pivatto (2000) pela expressão ser para:
viver é perpassado pelo dinamismo do ser para o próximo. No fundo do ser, não está o cuidado de si a prevalecer, mas a exposição como significância do um-para-outro. A unicidade não consiste na autonomia, mas em ser para, invertendo, de alguma forma, o movimento centrípeto em centrífugo (PIVATTO, 2000, p. 94, grifos meus).
Nada mais distante da proposta levinasiana, portanto, do que a produção de verdades sobre o outro que leve à dogmatização, à rotulação e à cristalização, enfim à anulação da diferença. Não se tem como ficar alheio ao novo, ao estranho, à diferença, ressalta o filósofo em uma de suas principais obras – Totalidade e Infinito – com afirmações do tipo “o outro cura da alergia” (p. 176) ou “só o frente-a-frente torna possível o pluralismo da sociedade” (p. 271).
Nesse livro, Lévinas descreveu um tipo de relação inteiramente diverso, em oposição ao modelo tradicional que pretendeu tornar o outro objetivamente conhecido, o que, no entanto, só levou a uma totalidade – ora humana, ora divina – sem espaço para a singularidade, para a diferença do outro. A peculiaridade dessa obra está na defesa da subjetividade como acolhimento e hospitalidade ao outro, onde minha estruturação como sujeito dá-se a partir do outro, de forma puramente afetiva, significando dizer que minha condição de sujeito dá-se não pela razão, ou pelo conhecimento, mas pela afetividade, pois a “afecção pelo outro é afetação à responsabilidade” (FREIRE, 2002, p. 69).
Com essa obra, Lévinas provoca, incita e expõe uma impossibilidade de se fechar ao outro ao revelar a exigência ética de se deixar afetar pela alteridade, de deixar que a realidade provoque alguma diferença. Eis outra de suas características marcantes: a heteronomia; a qual rompe com a autonomia típica dos grandes modelos filosóficos, sobretudo os desta contemporaneidade marcadamente indiferentes ao outro e à alteridade. Deixo então o próprio filósofo expor o seu dizer:
O outro mantém-se e confirma-se na sua heterogeneidade logo que é interpelado, quanto mais não seja para lhe dizer que não se lhe pode falar, para o catalogar como doente, para lhe anunciar a sua condenação à morte; ao mesmo tempo que apanhado, ferido, violentado, ele é ‘respeitado’. O invocado não é o que eu compreendo: não está sob um categoria. É aquele a quem eu falo (LÉVINAS, 1988, p. 56, grifos no original).
Falo para o outro, que me intima, provoca, afeta e exige de mim uma resposta, ou melhor, uma responsabilidade. Logo, do ponto de vista ético a preocupação é para com o outro, não para comigo, afirma Freire (2002, p. 39), para quem a condição ética é a abertura ao outro, pois “Pré-reflexiva e pré-ontologicamente, o sujeito é já um sujeitado, em dívida para com outrem, intimado a responder em seu nome”. O foco não mais é as práticas de cuidado de si, como o quer nossa época tardo-moderna, mas sim a disposição de passividade, vulnerabilidade e sensibilidade para com o outro – Freire (2002) prefere o termo sujeição – onde minha constituição como sujeito dá-se por, pelo e para o outro. É então a sujeição ao
outro o pressuposto de todas as relações sociais. Pressuposto esse “Se não existisse, nem sequer diríamos, diante de uma porta aberta: ‘Primeiro o senhor!’. É um ‘Primeiro o senhor!’ original que procuro descrever [com a ética da alteridade radical]” (LÉVINAS, 1982, p. 81).
A dimensão ética para Lévinas é a da responsabilidade de ser por, pelo e para o outro. Estar, portanto, a serviço do outro é a própria moralidade para Lévinas, a qual começa com o acolhimento do outro:
É preciso dispor a escuta para esse outro de forma a responder a ele, ao seu sofrimento (nudez e miséria em Lévinas). Essa resposta é responsabilidade [...] Estar a serviço do outro, portanto, é o que se espera de quem trabalha em um ‘serviço de psicologia’. Oferecer um lugar para o outro – lugar este que desde sempre já seria dele –, abrindo portas e janelas para sua visitação, oferecendo o melhor cômodo e a melhor comida, garantindo-lhe um espaço de habitabilidade, ou seja, um ethos, uma morada confiada e serena onde ele possa renovar-se para retomar suas dores no mundo (FREIRE, 2003b, p 14, grifos meus em negrito).
Acolhimento esse que coloca a relação com o outro fora das dicotomias tradicionais – como por exemplo, o certo e o errado, o justo e injusto – e no qual a presença do outro, por si só, já traz como intimação o pôr em questão “minha alegre posse do mundo”, para exemplificar com outra expressão levinasiana. E a radicalidade dessa escuta ética está exatamente na afirmação da impossibilidade de se ficar alérgico a outrem! Somente o frente- a-frente da relação com o outro pode curar da alergia, pois
O ser que se exprime impõe-se, mas precisamente apelando para mim da sua miséria e da sua nudez – da sua fome – sem que eu possa ser [ou permanecer] surdo ao seu apelo. De maneira que, na expressão, o ser que se impõe não limita, mas promove a minha liberdade, suscitando a minha bondade (LÉVINAS, 1988, p. 179).
Não é a toa que Lévinas faz uso, de forma absolutamente impactante, das figuras da viúva, do órfão, do estrangeiro e do pobre, consideradas como exemplos ímpares da metáfora do desamparo, da miséria e da desassistência, típicas desta época tardo-moderna. Frente a essas figuras não há escolhas, pois a primeira palavra para com elas é obrigação – em seguida, há o acolhimento e a hospitalidade. Não posso ser de outra maneira, o que sai da esfera do dever ser para o ter de ser: tenho de ser para o outro, tenho de ser responsável por todos os outros, tenho de desprender-me de mim, tenho de ser interpelado – tudo isso, enfim, é de uma ordem ética. Minha responsabilidade pelo outro é absoluta e não posso exigir dele a recíproca – eis mais uma característica dessa relação social para com o outro: a assimetria, na qual o outro não me deve nada.
Claro que posso lidar com o outro como um tema, um conteúdo, ou como um objeto de meu interesse e de minha atuação técnica, mas assim estou extremamente distante da discussão proposta por Lévinas em sua filosofia social, na qual o acesso ao outro é ético e não mais através da percepção, do conhecimento, ou mesmo do julgamento – os quais, além de anular a alteridade, não põe em contato com o verdadeiramente outro.
A negação e a redução da alteridade são típicas do homem teórico, definido por Andrade e Morato (2004) como aquele portador de um saber racional, capaz de dar conta das diferenças apenas através de práticas de controle e de ajustamento às normas estabelecidas. Essas autoras ao discutirem a prática dos psicólogos nas instituições dos conselhos tutelares, embora não o façam a partir da ética da alteridade radical, aproximam-se – sem o saberem, acredito – dessa leitura ética, quando caracterizam o homem ético como aquele
que se deixa afetar pelo estranho [pelo diferente], por aquilo que não é da ordem do representacional ou de seus códigos familiares [já conhecido ou estabelecido], e ao acolher a alteridade e a produção de diferença emergente, vive um processo transformador e instituinte de novos modos de estar no mundo. Transmuta-se do lugar da explicação sobre para o lugar do aprender com ou aprender entre (ANDRADE; MORATO, 2004, p. 347, grifos no original).
Acredito ser preciso, então, pôr em questão o saber e o poder sobre o outro, sobre as coisas já possuídas e as relações cristalizadas, porque o respeito ao outro em sua diferença permite vê-lo, como por exemplo o doente na instituição de saúde, não simplesmente como aquele que precisa de um “conserto” ou de um paliativo, mas, sobretudo, como aquele de quem me aproximo em seu sofrer. É buscar aproximar-se do seu sofrimento, sem anulá-lo ou minimizá-lo, e sim resgatar o que tem de ser a função maior para a psicologia: o cuidado – não mais o “dever ser”, cuja idéia é de normatividade, de obrigação moral. Lévinas (1988), inclusive, afirma de modo radical que a prova suprema da liberdade não é a morte, mas o sofrimento, pois sofrer com outrem não é reduzir o outro à categoria de objeto, mas sim mantê-lo soberbamente em sua subjetividade, em sua singularidade – como sujeito, antes de tudo.
Como será, então, que o psicólogo de atuação em uma instituição de saúde, como o hospital, caracterizada como um ambiente asséptico, inóspito, de regras e rotinas próprias, alheias à singularidade do doente – que chega em busca de tratamento e cuidados e se percebe desalojado de sua morada, de sua identidade, passando a ser visto como um número de leito ou de prontuário –, como pode então esse profissional promover seu acolhimento? Será o melhor caminho a tematização, o poder, o saber e o conhecimento do outro como objeto
passível de uma intervenção tecnicista ou, como criticou Gadamer (2002), passível de uma prestação objetivadora? Será que o psicólogo na área da saúde insiste em ficar surdo ao apelo do outro (FREIRE, 2002) e busca ocupar-se dele em sua empiria, persistindo numa sincronia e simetria das relações entre os vários pólos envolvidos – paciente, equipe de saúde, família e a própria instituição de saúde? Como o psicólogo pode promover a escuta do outro, de um outro modo, e assim assumir a caracterização de um sujeito ético-político? Sujeito esse que busca refletir constantemente sobre suas ações e deixar afetar-se pelo outro, tornando-se mais capaz de dar acolhimento e morada – ethos – à alteridade, sabendo que, a partir de Boff (1999), o encontro com o outro promove o ethos necessário à sociabilidade, às relações verdadeiramente humanas.
Considero importante resgatar a dimensão ética levinasiana e entender o psicólogo da saúde como um sujeito ético a partir da responsabilidade pelo outro. Freire (2003a), inclusive, acredita que a própria psicologia tem muito a contribuir com uma prática não restrita à técnica e à “ortopedia”, desde que o psicólogo abstraia da sua
capacidade de intervir no outro, de sabê-lo mais que ele mesmo não se sabe, de exercer qualquer poder, disciplinador ou não, sobre ele. Abrir-se ao outro, pela escuta ética, é pôr esta perícia em xeque, é pôr o ser-saber-poder em questão (FREIRE, 2003a, p. 135, grifos meus em negrito).
Em decorrência dessa ética radical e a partir de uma inflexão heideggeriana, Freire (2004) pressupõe a dimensão do cuidado em Lévinas, a qual merecerá uma maior discussão.