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3.7 Short Term Forecast
Ao abordar a intencionalidade da imagem estamos afirmando o desejo de atingir e transmitir algo, ou seja, a mensagem ao receptor. Quando ambicionamos uma determinada recepção-reação, manipulamos a mensagem, e a sua estrutura para tal efeito, como foi elucidado na abordagem anterior.
Sabemos que a imagem cinematográfica (fotografia) é composta pela atuação dos atores, cenário, pelos ângulos e movimentos de câmera, mas para avivar a composição da imagem deve-se acrescer luz a ela, produzindo uma atmosfera particular e atribuindo-lhe significados. Sendo assim, o valor plástico de uma imagem cinematográfica depende da composição da luz para constituir seu poder expressivo.
121 A nosso ver, o elemento visual explorado com força no filme para tocar sentidos do texto fonte, é a luz. No filme O veneno da madrugada é nítida a atmosfera psicológica, emocional e simbólica criada pela iluminação. Em vários momentos ela é fortemente focalizada dirigindo o olhar do receptor. Em outros cria altos contrastes (claro-escuro) contribuindo com a ideia de dualidade que enlaça o romance.
Ao falarmos em percepção visual é importante esclarecer que a luz é o fator essencial para tal evento. É por meio deste elemento que enxergamos formas, cores e espaços. O sol, a lâmpada, a chama da vela, despem os objetos da escuridão, sendo estes criaturas da luz. Segundo Arnheim (2002) a importância da luz está além das explicações físicas, ela transborda e banha outros campos do conhecimento, inclusive, o psicológico e o simbólico.
3.5.1 Qualidades gerais do elemento artístico visual: luminosidade
Para compreender o arranjo luminoso do filme, primeiramente, devemos esclarecer algumas particularidades sobre a percepção da luz, tais como a diferença entre claridade e luminância. Esta última característica está atrelada à capacidade física que objeto possui em absorver e refletir luz, quer dizer, é o que torna o objeto visível. Por outro lado, a claridade é um aspecto relativo, varia de acordo com a quantidade de luz dentro de um ambiente, e pode ser uniforme ou gradiente. Quando a luz é distribuída uniformemente não gera variações tonais (tons escuros, médios e claros), tais oscilações são geradas pelos gradientes de luz e sombra que também geram profundidade e tridimensionalidade. Concluímos então que a iluminação é diferente da claridade. “A iluminação é uma imposição perceptível de um gradiente de luz sobre a claridade e cores do objeto do conjunto”. (ARNHEIM, 2002, p.299)
Para que a luz seja considerada elemento visual artístico é necessário que existam áreas de claro-escuro, o que a caracteriza como iluminação. A sua posição, direção, intenção, e sua interação com o espaço deve ser um procedimento consciente, pois a luz interfere na configuração do objeto, podendo criar um aspecto plano ou tridimensional: “os efeitos de iluminação são fortemente influenciados pela distribuição da luz percebida no ambiente espacial total”. (ARNHEIM, 2002, p.302) Portanto, ao observar uma determinada composição que enfatiza este elemento, devemos nos ater em seu relacionamento com regiões isoladas e com o todo.
Há diversas maneiras de organização artística luminosa, um exemplo simples, é a luz lateral que separa áreas luminosas e obscuras em lados opostos permitindo que o olhar
122 reconheça esses dois extremos. A lateralidade da luz origina ordenação e unicidade na imagem, porém, provoca nos objetos próximos sombras bastante escuras, e se a intenção é amenizar tais efeitos outras fontes podem ser usadas, de maneira criteriosa. Porém, se a intenção é trabalhar com contrastes intensos é indispensável o conhecimento dos tipos de sombra, que são: as sombras próprias e as projetadas. A primeira faz parte do objeto e indica volume, a segunda é gerada de um objeto e imposta sobre o outro criando áreas escuras, modificando sua unidade e também criando espaços. No filme, identificamos a iluminação por meio de altos contrastes, sombras próprias e projetadas, composta de forma a gerar violentas oposições entre áreas luminosas e não luminosas.
3.5.2 Os arrebatadores contrastes
A composição, enfatizando a luz e a sombra e seus altos contrastes (que veremos na análise), aparece na pintura barroca com artistas que fizeram da iluminação sua grande ferramenta pictórica. É bom esclarecer que no Renascimento o claro e escuro foram uns dos elementos que inovaram a maneira de pintar, pois, era por meio desse “chiaroscuro”86 que as figuras ganhavam rotundidade e aspectos de estarem vivas.
Entretanto, no barroco a luz não tem apenas a função de modelagem tridimensional, ela cria atmosfera simbólica, ela é intencionalmente utilizada para atingir o emocional do receptor. Afinal, a pintura que carregava tal iluminação, muitas vezes arrebatadora, tinha função religiosa, ou seja, de catequizar fieis. Por meio de imagens bíblicas, a luz era o condutor sentimental, o espiritual presente na obra. “A iluminação tende a guiar a atenção seletivamente, de acordo com o significado desejado”, concluiu Arnheim. (2002, p.315) Novamente surge a ideia de indução e intenção, e é essa amarra que faremos com a iluminação da obra O veneno da madrugada.
3.5.3 O movimento e direção visual gerado pela luz e sombra
Tanto Arnheim quanto Ostrower diferem o fenômeno natural luz, do elemento visual luz. Nas artes visuais, é conhecido como iluminação. É considerado atributo artístico visual quando gera contraste entre luz e a sombra. Segundo Ostrower “para que o elemento se torne expressivo, é preciso todo o movimento visual desdobrar-se através de valores claro e escuro”. (2004, p.88) São as oscilações entre as áreas iluminadas e não iluminadas que vão movimentar e direcionar os olhos dentro da obra.
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123 O movimento é ocasionado pelas áreas claras que avançam e as escuras que recuam, originando, assim, vibração no olhar. “Quanto mais intenso o contraste (...), tanto mais visível é o efeito da vibração: o claro, referidos aos escuros, vai avançar, e o escuro, referidos aos claros, vai recuar”. (OSTROWER, 2004, p.88)
A intensidade do movimento depende da maneira como o elemento luz é manipulado. Pode ser suave, mas, também, violento, tais resultados dependem das intensificações, das variações e das inversões aferidas aos valores contrastantes. Quanto mais impetuosos os contrastes, maior o efeito vibratório de avanço/recuo simultaneamente. Ostrower esclarece, “a profundidade não mais se apresenta tridimensional, pois não percebemos as dimensões de altura e largura. Em vez disso, vemos o tempo. (...). O artista os formula como ritmos”. (2004, p.91) O olhar é envolvido em um ritmo luminoso que transcende a tridimensionalidade, não há peso nem densidade, o espaço aos olhos do observador é incorpóreo. Conforme a mesma autora, (2004) a composição que enfatiza o elemento visual luz, arquiteta uma imagem constituída de pura energia.