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Há o hábito e a orientação para que as crianças sempre façam as trocas de livros no dia e no horário pré-determinados para sua turma. Como o espaço da biblioteca é pequeno, os professores não levam seus alunos e não os autorizam a sair da sala para trocar o livro ou fazer qualquer tipo de consulta. Outra questão está relacionada à falta de organização. As obras não têm uma ordem; são colocadas na prateleira aleatoriamente e têm apenas a separação relacionada ao que a professora de biblioteca acredita ser adequada aos primeiros e segundos anos, aos terceiros e quartos anos e ao quinto ano, cada um, respectivamente, em uma prateleira da única estante para guardar o acervo literário. Quando há necessidade de pegar algum livro, é necessário olhar cada um para conseguir encontrá-lo, o que demora e inviabiliza a busca por um livro específico, pois ele pode estar emprestado ou, até, não ser possível achá-lo simplesmente por falta de organização e adoção de critérios para a guarda do material.

Somente quando o professor precisa de algum material, como globo terrestre ou mapa, ele solicita para que um aluno da turma o busque; logo, dificilmente há estudantes ou docentes na biblioteca. Durante os oito meses em que acompanhei os trabalhos, apenas uma criança foi atendida na biblioteca fora do horário pré-estabelecido, fato inusitado na rotina da escola.

A escola brasileira tem sido depositária de um acervo de qualidade aceitável para uso de professores, de alunos, e quem sabe, da comunidade próxima. O que se constata, no entanto, é que grande parte desses acervos não são animados por professores, muito menos por alunos. Permanecem fechados em caixas, abandonados em cantos, em prateleiras empoeiradas, jamais manuseados.

Esse cenário, pode-se dizer, se deve, em grande parte, ao fato de professores, dirigentes de escola, responsáveis por bibliotecas escolares e municipais em número não definido, mas amplo, não estarem preparados para conhecer a riqueza que esses materiais representam, nem de avaliar o quanto podem contribuir para a construção da interioridade daqueles que tiverem oportunidade de manuseá-los. Não consideram o ato de ler como um processo de significação de textos representativos de distintos gêneros textuais, entre os quais da necessidade de interpretar o que subjaz às linhas, nas entrelinhas, para se apropriar de ideias que possam contribuir significativamente no processo de constituição do sujeito enquanto leitor e, consequentemente, do cidadão leitor (SANTOS; MARQUES NETO; RÖSING, 2009, p. 14).

Não há nenhum tipo de trabalho com leitura e literatura desenvolvido na escola, em conjunto, que una os docentes e a professora de biblioteca ou utilize o espaço físico destinado ao acervo. As iniciativas de projetos são individuais: cada um desenvolve o seu e solicita, quando necessário, o apoio da supervisora. No período da pesquisa, nenhum professor realizava qualquer tipo de atividade na biblioteca – muitos, inclusive, nunca tinham ido até lá. A professora de biblioteca do anexo 2 apresentou um projeto que iria desenvolver com seus alunos, e a da sede, devido à minha constante presença, decidiu realizar um projeto com as crianças, mobilizada pela pesquisa – segundo ela, iria ser “mais bonito” ver o trabalho das crianças com os livros do PNBE.

No turno da tarde, a titular do espaço destinado aos livros do anexo 2 costuma realizar com os alunos um projeto chamado Rei e Rainha da Leitura. A atividade começa com a escolha, por ela, de duas crianças, que estão com a “leitura boa”, para subir em um palco (parte elevada dentro do refeitório) e, fantasiados de Rei e Rainha, ler, em voz alta, para os demais colegas. De acordo com a professora de biblioteca do anexo 2, as crianças ficam animadas com o uso das vestimentas, e isso as incentiva a ler e treinar a leitura.

Para que realmente exista leitura, é preciso agregar aos signos vários sentidos, e não apenas decodificar o código linguístico disposto sobre o papel. Smith (2003) atribui à questão da identificação de sentido não apenas a identificação das letras, mas também a sua

compreensão, apresentando a diferença entre identificar e compreender a escrita: “A diferença, acerca da compreensão, é que os leitores trazem ao texto questões implícitas sobre o significado, em vez de sobre as letras ou palavras. O termo identificação do sentido também ajuda a enfatizar que a compreensão é um processo ativo” (SMITH, 2003, p. 186).

Associar letras com ideias, imagens e pré-conhecimento é indispensável para a realização do ato de ler. A figura do mediador pode ser exercido pelo pai, pela mãe, por um coleguinha ou por outros interlocutores, por se tratar do vínculo com a educação na escola. Tal papel ensinante é exercido pelas figuras dos professores regentes ou de biblioteca, pois:

[...] a enunciação é o produto da interação de dois indivíduos socialmente organizados e, mesmo que não haja um interlocutor real, este pode ser substituído pelo representante médio do grupo social ao qual pertence o locutor. A palavra dirige-se a um interlocutor: ela é função da pessoa desse interlocutor: variará se se tratar de um grupo social ou não, [...] se esta estiver ligada ao locutor por laços sociais mais ou menos estreitos (pai, mãe, marido, etc.). Não pode haver interlocutor abstrato; não teríamos linguagem comum com tal interlocutor, nem no sentido próprio nem no figurado (BAKHTIN, 2004, p. 112).

A atividade de leitura no estágio da alfabetização é complexa, em princípio, e extremamente difícil na evolução até o domínio linguístico em que praticamente o ato de ler se torna quase imperceptível aos nossos comandos inconscientes. Parece ser algo aparentemente simplório para quem domina esse ato cultural; contudo, também pode ser de grande dificuldade para quem não conhece ou compreende apenas rústica ou superficialmente esse emaranhado de significados. As conexões estabelecidas pelo leitor para o sucesso da leitura partem de aspectos gerais, daquilo que constitui o seu próprio universo de referências. Martins (2004, p. 30) considera a

[...] leitura como um processo de compreensão de expressões formais e simbólicas, não importando por meio de que linguagem. Assim, o ato de ler se refere tanto a algo escrito quanto a outros tipos de expressões do fazer humano, caracterizando-se também como acontecimento histórico e estabelecendo uma relação igualmente histórica entre o leitor e o que é lido.

No mês de junho, a professora de biblioteca ainda não havia iniciado o projeto (apenas realizou algumas simulações), pois decidira começá-lo depois das férias do mês de julho.

Foto 23 - Rei da Leitura. Foto 24 - Rainha da Leitura.