2. TEORETISK RAMMEVERK
2.3 SHIFT- RAMMEVERKET
“Como construir não um texto sobre casas, mas casas com um texto?”– provoca-nos Ludmila Brandão (2002, p. 17). O conceito de heterotopia encorajou-me a embaralhar esses lugares. Foi Walter Benjamin quem me ensinou, com o método “montador”, “colador” de citações através do qual tece sua escrita. Aprendi, também com ele, a rejeitar dicotomias como “objeto e método”, “conteúdo e forma”, “ciência e arte”(BRANDÃO, 2011), permitir-me orquestrar diálogos e monólogos que aparecem e recuam, no momento em que a teoria os reclama ou deles carece para refrescar-se. A presença dessas múltiplas vozes me permitirão criar diálogos entre atmosferas entre outro tempo e a paisagem atual, já que a presente escritura é uma experiência, de certo modo, vertiginosa, cheia de idas e vindas no tempo. São vozes que passam a ser anônimas quando introduzidas por travessões, provocadoras de outros encontros possíveis, em acordo ou saudável dissonância, apenas aparentemente descomprometidas com o rigor – dobras críticas, saltos temporais, mudanças de assunto, provocações. Além dessas
vozes anônimas, as de Benjamin, Ruskin, Valéry e Loos; de moradores com quem tive encontros ao longo da pesquisa, diálogos esses que me presentearam com a medida da alteridade, quando cessou minha especulação imaginativa e romântica e inaugurou-se o lugar de fala do outro, cuja eventual indiferença ainda me faz estremecer; das próprias grades, animizadas, e outras vozes, reais ou imaginadas, medidores poéticos não por isso menos reveladores de uma “plasticidade humana” (ISER apud BRANDÃO, 2005) que não está só em seu filtro. Além dessas conversas, a presente escritura alimenta-se de enxertos, igualmente dialógicos, que dela irão nutrir-se, para constituírem um corpo só. Eles são espécies de aparições – seriam “funcionamentos”, como nas palavras de Wolfgang Iser (apud BRANDÃO, 2005, p. 10)? – cujo “estrangeirismo” interrompe mais bruscamente o fluxo do texto, sob a forma de curtos ensaios, de caráter mais livre, mas que garantem sua integridade, e a do conjunto, na retomada.10
No alicerce dessas estratégias discursivas, deve estar o que Luis Alberto Brandão (2005) chamou de “aventura crítica”, capaz de suspender certo “regime de conclusividade” do texto acadêmico em prol de outro, de “sugestividade”, não menos potente em seu caráter reflexivo. É um “potencial articulador” ao qual ele se refere, operando “mais sintética que analiticamente”, e por sintético podemos compreender a vocação dessas vozes e enxertos em construir imagens que, apesar de aparentemente dispersas, funcionam como conformadoras e integradoras de paisagem crítica. Aqui, voltamos ao início do texto, quando afirmei ter aprendido com o autor a importância da palavra “concretização”. Ele explica que a teoria não pode ser tomada de modo puramente instrumental, e reivindica para ela uma “habilidade formulativa” e uma “potência concretizadora”. Neste raciocínio estão convocados a relacionar-se o real, o ficcional e o imaginário, esferas que esta metodologia híbrida coloca em contato. De acordo com o autor, se há uma “plasticidade humana” manifesta de maneira mais evidente nas artes literárias, será por serem estas capazes de, através de uma operação
10 Aparecem na tese também sob a forma de comentários de obras de arte, como esta de Lucia Koch,
cujas heterotopias nos fazem compreender modos sensíveis (e não menos potentes) de refletir sobre as questões que se anunciam. Também é possível identificá-los em alguns ensaios e narrativas livres, que aparecem intitulados (e sem numeração) no corpo do texto. Grande parte deles tive oportunidade de publicar ao longo desses anos de estudo, em livros e revistas acadêmicos ou não, tais como o Guia Morador Belo Horizonte, a revista Piseagrama e a revista Pos, que aparecem com o registro de meu nome na bibliografia da tese. Foi um exercício importante de divulgação de tais estratégias metodológicas híbridas, bem como da própria pesquisa.
ficcionalizante, concretizar o imaginário presente em qualquer atividade humana, o que significa dizer que esta operação “concretizadora” pode ser, além de poética e ficcional, teórica e crítica. “Em que medida as ficções que traduzem o imaginário podem ser consideradas representativas de sua amplitude?”– Brandão (2005, p. 13) pergunta, para, em seguida, identificá-lo como um “campo de operações” em funcionamento, que não deixa de ser identificável e abordável. Um “imaginário teórico”, portanto, articulável, que “traz em si um poder de teorização, uma espécie de ‘teoria imaginária’, em geral bastante difusa, por não fazer uso dos protocolos que identificam o gesto explicitamente teórico” (BRANDÃO, 2005, p. 17), mas que é capaz de “configurar algum saber”. Não seria a outra metade da estratégia benjaminiana?
_ Não se esqueça que forjar é também inventar, criar.
_ Isso me faz lembrar novamente Bachelard, quando ele conecta a imagem do ferreiro à do poeta, associação que ele belamente chama de “devaneios de sutileza”, pensando que a têmpera na ferraria é capaz de forjar “a aquisição simultânea da dureza e da elasticidade” (BACHELARD, 2001, p. 118), no “momento em que o ferreiro mergulha o ferro em brasa na água fria”, quando “todo um enxame de sonhos levanta-se nele” (BACHELARD, 2001, p. 110).
_ Os senhores sabem que vários tratados de Arquitetura escritos na época do Renascimento se nutriam de uma dimensão ficcional? Criaram narrativas em camadas, incorporando personagens mitológicos, inexistentes, responsáveis por rechear esses textos de ideias metafóricas, como o fizeram Filareto, Alberti e um certo anônimo que escreveu um livro de amor e arquitetura, chamado Hypnerotomachia Poliphili, entre outros tantos.
Mantendo atrelada a escritura e os saberes narrativos à experiência de investigação histórica e seu poder documental, poderíamos pensar, ainda, em um “imaginário histórico”, onde habitaria a figura do historiador transtemporal, trazida por Carlos Brandão (2011). Para o autor, a noção de anacronismo deve ser substituída pelo método transtemporal, permitido e a ser conduzido com cautela, para “fazer contíguos tempos e temporalidades distintos”, não por seus núcleos ou totalidades, mas por suas “franjas”, por alguns de seus aspectos. Assim como a “transdisciplinariedade” faz com as disciplinas, a “transtemporalidade” aproximaria temporalidades distintas, realizando traduções, migrações, avizinhamentos, sem que os
contextos necessitem possuir “grandes zonas de transição e mediação”, desde que se mantenha viva a tensão entre eles e que, ao fim, reapresentem-se novos sentidos. Para isso, episódios, documentos, autores e ações históricas específicas devem ser, de acordo com o autor, “desistoricizados”, dando passagem ao universal e transtemporal. Há que se evitar ainda a tendência histórica “de um sentido único fixado para todo o sempre”, e para isso deve-se dar valor ao estranhamento e ao insólito.
O historiador transtemporal é um diretor de cenas: ele coreografa uma dança de amor a dois, ou até a três, mas também de intransponível solidão. (...) Seu objetivo é interpretar, compreender, prender e friccionar um tempo com o outro para provocar a faísca de um significado e de um sentido inéditos. (BRANDÃO, 2011, p. 2)
De acordo com o autor, a transtemporalidade é urbana, resultante das camadas contraídas de espaços, tempos e culturas citadinas – que contrariam qualquer cronologia – cuja consequência é o avizinhamento de saberes e disciplinas, os quais devemos saber mover de modo “ziguezagueante” e plástico, abrindo novos horizontes e desenhando mundos possíveis. Daí ele dizer que os documentos servem a uma “tese adivinhada”, mais do que levam a outra, antecipável. Contagiar e deslocar os lugares e espaços temporais e físicos, desconstruir fronteiras disciplinares, multiplicar os vínculos entre os saberes, períodos históricos, lugares geográficos e hierarquias culturais, eis a tarefa.
Para Luis Brandão (2005), por sua vez, a abordagem histórica pode ser uma forma de atribuir sentido à vida, “uma forma de narrativa”, de relato, de elaboração da experiência. Tal narrativa é irrevogavelmente ficcionalizante – como o são as escrituras, e a memória –, colocando em funcionamento o passado e o futuro, na medida em que o tempo não deve ser considerado como algo linear. O autor vai dizer, ainda, que a escrita da história é algo que exige a indistinção entre o decifrar e o inventar, um trabalho de “reconstrução”, do historiador e do leitor, mais uma vez ao modo de um montador, como foi Benjamin e como ele nos convida a ser: “Qualquer esforço para se definir a narração deve fazer menção ao ato de se estabelecerem conexões entre elementos a princípio não interligados. Narrar pressupõe, assim, ação associativa” (BRANDÃO, 2005, p. 105).
_ “Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo ‘como ele de fato foi’. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo.” (BENJAMIN, 1994, p. 224)
_ Vida experimentada somada à vida lembrada (e por isso imaginada), creio que seja esse o trabalho da memória.
Importa insistir no caráter ficcionalizante dessas narrativas – “memória verdadeira”, para Vera Chacham, “hoje em dia refugiada no gesto e no hábito, nas ocupações onde se transmitem os saberes do silêncio, nos saberes do corpo” (CHACHAM, 1994, p. 29), cuja condição é avessa à ontologia e aos grandes relatos historiográficos. Para a autora, ainda, “no que diz respeito ao lugar, não é o monumento, mas a narrativa que o funda, sendo que o espaço da escritura é tomado como figuração do tempo” (CHACHAM, 1994, p. 19). Para a presente empreitada, consiste em se apoiar na metáfora fornecida pelas grades para alcançar sobreposições de sentido, de tempo e de espaço transparentes e, de certo modo, voluptuosas, como são seus desenhos.
O que está em jogo, por fim, é o estabelecimento de parâmetros críticos e estéticos próprios para se alcançar (não a única, mas) uma medida possível para a interseção entre Arte e Arquitetura, para, a partir daí, encontrar um lugar para o objeto de estudo junto a uma comunidade de “saberes de fronteira”. Minha pretensão é esboçar imagens nem tanto exatas, mas possíveis, imagináveis, para então constituir paisagens teóricas, gráficas, memoriais, imaginativas, contemplativas e, por isso mesmo, reflexivas. Entender e conceber o inventário como heterotopia e a tese como prática narrativa e escritural – ambos temperados pelas dimensões poética e ficcional – pode ser um caminho potente para estruturar a relação entre Arte e Arquitetura, no sentido de organizar, figurar, espacializar, dar lugar às reflexões orbitais.
Recomeço.