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Sherry R. Arnsteins “A Ladder of Citizen Participation”

Segundo Henrich (1992, p.3), a noção de “imagem do mundo” poderia ser compreendida, no contexto argumentativo kantiano, como uma operação da mente sem

43 . Para sustentar essa visão também são evocados indiretamente os trabalhos de Deleuze (1994), Allison (1992

e 2001), Marques (1987), Crawford (1974), Guyer (1996 e 1997), Lebrun (1993), Philonenko (1972) e Zammito (1992).

a qual o mundo em questão não poderia se “abrir” para nós. A possibilidade de um mundo da natureza foi sustentada por Kant pelas regras que guiam a atividade sintética, exercidas sobre o que nos é dado na sensação. Já procuramos formalizar anteriormente que o paradoxo de um projeto auto-reflexivo de razão tem a ver com a idéia de que a fonte a partir da qual o mundo tem sua origem é igualmente dependente deste mundo. Inicialmente, isso pode indicar – para uma saída possível do paradoxo - que o princípio a partir do qual nós somos capazes de descrever o mundo tenha de permanecer independente da descrição em si. Uma investigação minuciosa, porém, prossegue Henrich, descobre que o princípio, ele mesmo, permanece incompreensível, a menos que execute a atividade a partir da qual o mundo se origina. Essa questão é típica do método epistemológico kantiano, chamado por ele mesmo de “transcendental”. Tal método pretende demonstrar que a “unidade da auto-consciência não pode ser concebida a não ser pelas muitas funções de unidade que tem como ponto de partida a constituição dos objetos do mundo” (HENRICH, 1992, p.3)44. Dessa forma, podemos compreender não somente a origem deste mundo, mas também por que ele é natural e indispensável para nós e por que as exigências do nosso conhecimento a respeito dele são justificadas.

O mesmo tipo de argumentação pode ser transferido para o campo da ética. O agente e o princípio moral que regula sua conduta, inicialmente, parecem ser independentes de uma concepção particular de mundo. A tese de que as noções da filosofia prática excluem a necessidade de tratar de problemas metafísicos e cosmológicos reforça o argumento de tal independência. Essa postura entra em conflito com o fato de que o agente moral e o agente cognitivo são uma e mesma subjetividade e de que a ação moral, incluindo suas intenções, não pode ser vista como uma resposta automática para necessidades imediatas do ambiente. Pelo contrário, em muitos casos, ela decide exatamente pela direção contrária a certas demandas imediatas. Assim, é sempre possível questionar por que se deveria agir de uma determinada forma e, desse modo, duvidar da validade das exigências morais. Mas

44 . “[...] the unity of self-consciousness could not even be conceived unless that very unity functions as the point

isso implica aceitar que o agente moral tenha pensamentos e crenças sobre a natureza e a fonte de sua conduta e, se isso ocorre realmente assim, podemos atribuir a ele crenças a respeito do mundo dentro do qual age e onde tenta realizar suas intenções.

Essas “crenças morais” são insuficientes se comparadas, em termos quantitativos, com as inumeráveis crenças que construímos a respeito do mundo dos objetos no campo cognitivo. Contudo, sugere Henrich (1992, p.4), tais crenças morais podem ser igualmente ricas em sua estrutura: “Se as crenças que são inseparáveis do ponto de vista do agente moral são consistentes e unidas dentro de um único sistema, podemos chamá-las de ‘uma imagem moral de um mundo45’” (HENRICH, 1992, p.4).

A conseqüência é que agora podemos ter duas ou mais concepções de mundo conflitantes. Certamente, não podemos querer que o mundo dos objetos e o mundo tomado do ponto de vista moral sejam totalmente separados. Para a ação moral se realizar nas situações ou circunstâncias concretas, precisamos considerá-la como parte de um mundo físico, ainda que as explicações físicas e as motivações das ações não possam ser totalmente reconciliadas (pelo menos não com facilidade). Uma relativa aproximação, baseada no argumento de que precisamos e recebemos várias imagens do mundo com referência ao mesmo acontecimento, aparentemente não basta. Segue- se disso, segundo Henrich (1992, p. 5), que mesmo o agente moral esclarecido precisa de um critério moral que reúna duas condições: primeiro, que ele relacione as várias visões de mundo de maneira a prevenir que a multiplicidade resulte em anarquia e confusão; segundo, que sobreviva à exposição aos competidores (competitors). A visão moral deve ficar razoável e imune ao peso das arbitrariedades e irracionalidades, ou melhor, precisa manter uma certa centralidade no meio de outras visões e uma certa superioridade sobre elas. Se tudo isso tivesse sido realizado, prossegue Henrich, estaríamos em condições de falar de uma “imagem moral do mundo” no singular.

45 . “If the beliefs that are inseparable from the viewpoint of the moral agent are consistent and linked togheter

A exposição feita até aqui teve o propósito de estabelecer os contornos das questões que dizem respeito a uma “imagem do mundo”. Como já está claro, a compreensão do sentido dessa complexa expressão, na filosofia kantiana, só é possível na medida em que questões desenvolvidas nas três críticas sejam articuladas no mesmo contexto argumentativo. As três críticas, em conjunto, visam analisar a constituição do discurso racional e investigar o caminho do qual ele se origina. Segundo Henrich (1992, p.5), a finalidade do projeto crítico é determinar os alcances e os limites de validade do discurso racional e relacionar o que é tratado nas três críticas de tal forma que seja possível garantir um papel legítimo para o ponto de vista moral e também fornecer uma adequada e compreensiva filosofia moral, cujo conceito-chave é o de liberdade. A leitura de Henrich, portanto, posiciona a liberdade no centro da filosofia kantiana e também propõe tomar as três críticas no horizonte de um mesmo projeto sistemático que orbita em torno desse conceito.

2.2. A CFJ COMO ALARGAMENTO DO PROJETO CRÍTICO: NOVOS