No início de suas trajetórias, inúmeros arquitetos buscam nas experiên- cias de outros colegas soluções que os inspirem na resolução de suas obras. O caso de João Filgueiras Lima não é diferente, como pudemos observar em relação às preocupações com a pré-fabricação, que absorve de Oscar Niemeyer. Contudo, de maneira direta ou indireta, outros mestres da arquitetura – Alvar Aalto, Mies Van Rohe, Marcel Breuer, Buckminster Fuller, Lúcio Costa – poderiam ser mencionados como influentes na construção de um repertório que será fundamental na produção arquitetônica de Lelé.
Outro arquiteto importante no início da carreira de Lelé foi Aldary Tole- do11, com quem ele trabalhou no IAPB. Aldary Toledo foi fundamental para formação
artística e técnica de Lelé, que vinha de um colégio militar, “Aldary abriu meus olhos e fui muito influenciado por ele até pela arquitetura que fazia, mas, na verdade, estava num período de esponja, de absorver o que fosse”.12 Essa afirmação demonstra
o quanto Lelé estava aberto a arquitetos experientes e de posição intelectual mais voltada às preocupações ideológicas da arquitetura.
Na época de estudante, Lelé frequentava a casa de Aldary Toledo, que mantinha um grupo de alunos para discutir arquitetura e arte. Grupo que se for- mou por acaso - graças a um sobrinho do arquiteto – e se manteve por gerações de formandos, já que os veteranos levavam colegas novatos. Os alunos que mais se destacavam trabalhavam também como estagiários para Adary, caso do Lelé. Nesse ambiente, Lelé conheceu Oscar Niemeyer e Darcy Ribeiro, realizando inúmeros trabalhos juntos.13
Aldary Toledo (arquiteto-adjunto) trabalhou com Jorge Moreira Machado
11 - Aldary Toledo (Rio de Janeiro, 1915-1998) pintor e arquiteto. Foi discípulo de Candido Portinari entre 1932-1935. Trabalhou com Oscar Niemeyer, Francisco Bolonha e Edgar do Vale em diversos projetos na cidade de Cataguases (MG) durante a década de 1950.
12 - LIMA, João Filgueiras. In MENEZES, Cynara. João Filgueiras Lima: O que é ser arquiteto. Rio de Janeiro: Record, 2004, p.34
13 - História contada pelo arquiteto Luiz Carlos Toledo, filho do Aldary Toledo, para o autor em entrevista (No prelo) publicada no Portal Vitruvius.
Figura 07 - Lelé com traje Sun Zhongshan em 28/10/2010 Foto: André Marques
Figura 08 - Hospital de Puericultura, Arquitetos Jorge Moreira Machado e Aldary Toledo, Rio de Janeito, 1962. Fonte: CZA- JKOWSKI, 1999, p.132.
(arquiteto-chefe) na implantação da Cidade Universitária do Rio de Janeiro na Ilha do Fundão. No projeto do Hospital de Puericultura na Cidade Universitária (1949- 1953) podemos encontrar diversos aspectos, mais tarde reproduzidos na obra de João Filgueiras Lima: o uso da quinta fachada com sheds, a síntese das artes e a planta funcionalista – uma circulação- tronco que une três edifícios, resultando em pátios abertos para a paisagem. Uma flagrante influência de um projeto para outro. O termo “influência” é entendido aqui como parte importante da concep- ção do projeto, pois se trata de uma voluntária seleção de repertório por parte de um arquiteto na sua formação profissional, como pode se observar nesta passagem de Abilio Guerra:
“Quando se fala de inluência na área da cultura, não se pode perder de vista que o sujeito inluenciado escolheu em alguma medida seu objeto de desejo dentre um conjunto expressivo de ofertas culturais. A inluência cultural é, desde sua origem, um processamento que implica em seleção e adaptação, mesmo considerando que em parte ela possa ser contraban- deada por mecanismos sutis da subjetividade ou por imposições culturais (em termos psicanalíticos, poderíamos chamar estes mecanismos de in- consciente e superego)”.14
É possível notar traços de Marcel Breuer no Centro Administrativo da Bahia, em Salvador (1973), de Lelé, com o Centro de Pesquisa da IBM na França (1960-1962), de autoria do arquiteto húngaro Breuer. Em ambas ocorrem a utili- zação da curva na planta, o gabarito de altura baixo ( três a quatro pavimentos), materiais aparentes sem acabamentos posteriores e a solução de soltar parcial- mente o corpo do edifício através de elegantes pilotis no térreo. A força estrutural também marca as duas obras: paredes externas autoportantes divididas em módulos- janelas criando na fachada um ritmo regular que salienta a forma sinuosa do edifí-
14 - GUERRA, Abilio. O brutalismo paulista no contexto paranaense. A arquitetura do escritório Forte Gandolfi. Resenhas Online, São Paulo, n. 09.106.02, Vitruvius, out. 2010 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/09.106/3792>.
Figura 09 - Centro de pesquisa da IBM, Marcel Breuer, 1960- 62, França.
Fonte: COOBERS, 2009, p.70. (vista aérea e desenho do detalhe da fachada)
Figura 10 - Centro Administrativo da Bahia, João Filgueiras Lima, 1973, Salvador.
Fonte: LATORRACA, 2000, p.55-63. (vista da fachada – foto e croqui)
Direita:
Figura 12 - Igreja Riola, Alvar Aalto, 1975-78, Riola, Italia.
Fonte: WESTON, 1996 p.213. Esquerda:
Figura 11 - Igreja de Brotas, João Filgueiras Lima, 1980, Salvador.
Fonte: LATORRACA, 2000, p. 122.
cio.
A Igreja de Brotas (1980), em Salvador é outra obra de Lelé em que
podemos observar grande referência dos arquitetos modernos Ela apresenta inúmeras características da Igreja Riola (1966-68) de Alvar Aalto. Ambas têm o predomínio do tijolo aparente e iluminação natural a partir de sheds na cobertura; o desenho também se assemelha no corte, com a sucessão de semicircunferências escalonadas. O shed, uma solução muito comum em projetos industriais do início do século XX, utilizada por Le Corbusier e J. M. Sert em inúmeros projetos possivelmente influen- ciaram Alvar Aalto.
A influência constatada pode ser confirmada no depoimento de Lelé a Marcelo Ferraz e Roberto Pinho, em que ele confirma seu apreço por Alvar Aalto:
“Depois eu iz algumas viagens muito proveitosas, principalmente quando fui a Finlândia visitar as obras de Alvar Aalto pessoalmente. Foi exce- lente! Fui em 1969, já estava um pouco mais maduro. Fiquei um tempo lá, conheci Arne Jacobsen, que tem um trabalho muito bom seguindo a coisa da arquitetura nórdica, que é uma arquitetura diferente, uma proposta que considera o problema do clima e de toda a formação cultural deles. Eu acho que o trabalho do Alvar Aalto é muito rico. Foi uma contribuição enorme!”15
Lelé ainda comenta a importância da arquitetura da Finlândia em seu trabalho:
“O que enriquece muito a arquitetura do Alvar Aalto é a preocupação coma as funções em um prédio e com os detalhes. Eu acho que ninguém fez isso com mais propriedade do que ele. O detalhe é fundamental, isso você aprende com Aalto, com Chacowiski e vários arquitetos importantes dessa geração. Gosto muito do Arnold, também. Eu aprendi muitas coisas
15 - LIMA, João Filgueiras. In LATORRACA, Giancarlo (org). João Filgueiras Lima: Lelé. Lisboa: Editorial Blau, São Paulo: Instituto Lina Bo e P.M. Bardi, 1999, p. 22.
Figura 13 - Dymaxion House, Buckminster Fuller, 1920, Estados Unidos.
Fonte: BEHLING, 2002, p.161.
na Finlândia. Visitei uma cidade no norte do país, Tampere, onde havia um hospital de seiscentos leitos maravilhoso. Eu iquei empolgado com o hospital; o ambulatório cheio de sheds, com aquela luz entrando (eu fui lá no verão), cheio de jardins e, ao mesmo tempo, com a mais alta tecnologia. Era o único hospital na época, em 1969, onde já faziam ci- rurgias inteiramente computadorizadas. E apesar de toda a absorção da tecnologia, o prédio era super humano, com obras de arte, aquela coisa integrada, sem excessos, comedida, com mobiliário bonito, brinquedos. Você ica apaixonado pelos brinquedos de madeira feitos ali.” 16
Outro arquiteto moderno que podemos sugerir como referência à obra de Lelé, mesmo que indiretamente, é Buckminster Fuller, autor,nos anos 1920, de uma residência industrializada que poderia ser implantada em qualquer clima – a Dymax- ion House. Essa casa provia inúmeros artifícios para resolver as questões climáticas e de conforto ambiental como teto aerodinâmico para melhor ventilação dos ambi- entes internos; cama de embutir; mesa suspensa; e máquinas de lavar e secar roupa. A casa foi construída em aço e suspensa por um único pilar central contendo todas as instalações, distribuídas em planta hexagonal e dividida por biombos pré-fabrica- dos.
A semelhança com Buckminster Fuller diz respeito à inventividade e experimentação. Fuller era acima de tudo um cientista, é possível constatar isso em suas obras. Generalista ao extremo, desenvolveu projetos cartográficos, desenhou e construiu casas, automóveis e barcos. Na mesma linha, Lelé desenvolveu in-
úmeros projetos para a rede Sarah, desde a cama-maca , ônibus, barcos, elevadores, mobiliários e hospitais. Ambos os projetistas se dizem grandes fracassados em razão do insucesso de inúmeras experiências quando na busca de avanço tecnológico.
“Projetistas que transitam nas fronteiras do conhecimento, investiga-
16 - LIMA, João Filgueiras. In LATORRACA, Giancarlo (org). João Filgueiras Lima: Lelé. Lisboa: Editorial Blau, São Paulo: Instituto Lina Bo e P.M. Bardi, 1999, p.30.
Figura 14 - Casa Tropical, Jean Prouvé, 1949, montada na oicina de Maxéville.
Fonte: Fonds Jean Prouvé
tivos, curiosos e insaciáveis na busca do aperfeiçoamento de suas ideias, estarão inevitavelmente sucessíveis ao risco de falhas, dado o conteúdo de inovação indissociáveis de suas descobertas e propostas”.17
Outra experiência com elementos análogos à obra de João Filgueiras Lima é a “casa tropical” – protótipos industrializados, montáveis e desmontáveis, para serem utilizadas na África –, de Jean Prouvé, 1949. Prouvé busca provar com esse projeto que sua casa industrializada se adapta melhor ao clima quente do que as construções vernaculares daquela região. A sua proposta provou sua teoria, mas o custo mostrou-se inviável; a produção era cara, demorada e apenas três unidades foram construídas.
17 - REBELLO, Yopanan Conrado Pereira ; Maria Amélia D. F. D’Azevedo Leite. O Mestre-construtor. In PORTO, Claudia Estrela (org). Olhares:
Figura 15 - Pavilhão dos Estados Unidos, Buckminster Fuller, 1967, Geodésica para a Expo 67.
Fonte: a2d-architecture.com
Utopia e revoluções – contracultura
“Soyez réalistes: demandez l’impossible” (“Seja realista: exija o impos- sível”) André Breton
Poucos são os momentos que a história destaca como uma grande vi- rada de página. O ano de 1968 marcou profundamente inúmeras gerações que o sucederam; é possível notar ainda hoje sinais desse tempo. Todo ideário ecológico, hoje chamado de sustentabilidade, deu seus primeiros passos a partir daí. No cin- ema, o filme norte-americano de ficção científica Planeta dos Macacos (Planet of Apes, 1968) mostrava nossa incapacidade de evitar a extinção da raça humana. A imagem do astronauta Taylor (Charlton Heston) junto às ruínas da Estátua da Liber- dade exemplifica a visão coletiva do que se esperar do homem e de suas atitudes temerárias.
As questões da liberdade intelectual, sexual e comportamental hoje tão defendidas foram colocadas em pauta neste período, que tem como uma de suas grandes expressões a chamada contracultura.
“A contracultura é então deinida como reverso da cultura estabelecida, e encontra seus aspectos mais distintivos no antiautoritarismo, na original- idade, na criatividade, na espontaneidade, no amor, no gosto e no prazer, no jogo e no trato direto, no espírito tribal e nas comunas. As comunas K1 e K2, em Berlim, seriam emblemáticas desta nova atitude. Com elas surgem também, pela primeira vez documentados, os novos problemas cotidianos – a divisão de tarefas, o seu caráter rotativo, a formação de casais e situações assimétricas, a obtenção de recursos econômicos, a liderança e o surgimento de tendências tribais, a limpeza, etc. –, obrig- ando a um aprendizado do espírito antiautoritário no âmbito da intimi- dade que integra hoje a tradição de um movimento, o dos squatters ou
Figura 16 - Estrutura geodésica transportada por helicóptero. Autor e data desconhecidos.
Fonte: http://mfareview.wordpress.com/
okupas, disperso atualmente por todo o mundo”.18
Importante notar a presença e a força das manifestações culturais e políticas deste momento no Brasil e no mundo. O Brasil vivia os quatro primeiros anos da ditadura militar, anterior à radicalização ocorrida em 1968 com o AI-5,19
portanto ainda com frestas que possibilitavam manifestações populares de âmbito cultural e social de grande relevância. Na música, em 1967, com crescimento da popularidade da Bossa Nova, Antônio Carlos Jobim grava nos Estados Unidos o álbum “Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim” fato que marca profundamente a historia da música brasileira.20
O cenário mundial era marcado pelas grandes manifestações juvenis e ideológicas, em vários idiomas podíamos ouvir a expressão o “povo no poder”. Ideo- logia alimentada pelas propagandas da nova república socialista chinesa, conhecida como a grande revolução proletária, iniciada pelo líder revolucionário Mao Tsé-tung (1893-1976). Com endurecimento da ditadura em 1968, esses ideários comunistas, claramente inspirados nos líderes revolucionários cubanos 21, vão levar estudantes de
diversas partes do país às manifestações de guerrilha urbana.
Outro aspecto importante dos anos 1960 é a tecnologia. Nesse período, Lelé, afastado na UnB em razão do fechamento da escola, executa em Taguatinga seu primeiro projeto hospitalar. O hospital foi todo executado em pré-moldados pesa- dos de concreto armado, onde cada célula de fechamento poderia chegar a quatro toneladas. Um ano antes (1967), no Canadá, é construído o protótipo de habitação popular, o Habitat 67, desenhado por Moshie Safdie (1938). Moshie explica por que o uso da pré-fabricação no projeto em Montreal:
18 - ÁBALOS, Iñaki. A boa-vida: visita guiada as casas da modernidade. Barcelona: Gustavo Gili, 2003, p. 122.
19 - O Ato Institucional n. 5 (AI-5) redigido em 13 de dezembro de 1968, entrou em vigor durante o governo do então presidente Artur da Costa e Silva. O ato sobrepôs à Constituição de 24 de janeiro de 1967, dando poderes extraordinários ao Presidente da República e suspendia várias garantias constitucionais.
20 - Sobre a história da Bossa Nova, ver: CASTRO, Ruy. Chega de saudade: a história e as histórias da Bossa Nova. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
21 - Revolução Cubana aconteceu em 1 de janeiro de 1959, coordenada pelo movimento 26 de julho que tinha como líder o advogado cubano Fidel Castro (1926) e o médico argentino Ernesto Guevara (1938-1967) que naquele ano tinham 32 e 30 anos respectivamente.
“O aspecto tecnológico era fácil de explicar. Nos anos 1960 nós acredi- távamos que a industrialização poderia reduzir enormemente o custo da habitação, melhorar sua qualidade e rapidez de entrega. A lógica pare- cia clara e da tradição de Buckminster Fuller. Segundo o qual o aper- feiçoamento dos meios de produção poderia reduzir os custos e tornaria a habitação acessível a todos os segmentos da sociedade”.22
Esses novos ideais transformam a arquitetura mundial e novos pensadores modernos tomam a dianteira nas discussões, substituindo os antigos argumentos defendidos pelos primeiros mestres modernos, como Le Corbusier ou Frank Lloyd Wright. Pensamentos imbuídos de preocupações ambientais e motivados pelas novas tecnologias, como os presentes nas ideias de Buckminster Fuller (1895-1983), guru da contracultura americana segundo Luis Fernandez-Galiano:
“Fuller fue uno de los héroes de mi generación. Para los que iniciamos la carrera en 1968 – El año del mayo francés y la primavera de Praga, pero también del Whole Earth Catalog, la biblia de la contracultura ameri- cana – y la terminamos coincidiendo con la primera crisis del petróleo en 1973-74, la arquitectura era inesperable del cambio social impulsado por los movimientos alternativos y de la mudanza técnica estimulada por el agotamiento de los combustibles fósiles”.23
Fuller influencia toda uma nova geração de arquitetos e engenheiros. Principalmente o grupo Archigram (1961-1974), que tinha como membros os ar- quitetos Peter Cook, Warren Chalk, Ron Herron, Dennis Crompton, Michael Webb e David Greene. Suas propostas revolucionárias e utópicas entraram no imaginário dos jovens estudantes de arquitetura do mundo inteiro. Mas é na Inglaterra que essas
22 - SAFDIE, Moshe. Além do Habitat. Tradução Silvana Rubino. Óculum, Campinas, n. 7/8, CAD FAU PUC-Campinas, 1996, p. 49 23 - FERNÁNDEZ-GALIANO, Luis. BUCKMINSTER FULLER 1895-1983. AV monografias, n. 143, 2010, p. 3
Figura 17 - Plug-In-City, Peter Cook, Archigram, 1964. Fonte: essential-architecture.com
ideias se fortificam. Nos anos 1970, a arquitetura inglesa terá os principais arqui- tetos da chamada arquitetura high-tech. Neste contexto temos o arquiteto Norman Foster, muito influenciado por Buckminster Fuller:
“Tuve el privilegio de colaborar con Bucky durante los doce últimos años de su vida, y esta relación inluyó profundamente en mi trabajo y mi manera de pensar. Inevitablemente, también adquirí una visión cercana de su ilosofía y sus logros. (...) En 1951 Fuller se ocupó de los temas ecológicos, tan vitales en nuestra cultura, cuando se reirió a la Nave Espacial Tierra y a la fragilidad de nuestro planeta, haciendo que su tra- bajo y sus observaciones sean hoy aún más importantes de lo que fueron durante su vida”.24
Em seu livro sobre a sustentabilidade na arquitetura e no urbanismo, o arquiteto britânico Richard Rogers – que fora sócio de Norman Foster no escritório Team 4, com suas respectivas esposas, Su Brumwell e Wendy Cheesema – coloca uma citação de Buckminster Fuller em seu primeiro capítulo:
“Para começar a correção de nossa posição a bordo da grande nave, o planeta terra, antes de mais nada devemos reconhecer que a abundân- cia dos recursos imediatamente consumíveis,inevitavelmente desejáveis ou absolutamente essenciais, até agora, foi suiciente para permitir que continuemos nossa jornada, apesar de nossa ignorância. Estes recursos, em última instância esgotáveis e dilapidáveis, foram adequados até este momento crítico. Aparente, essa espécie de amortecedor dos erros de sobrevivência e crescimento da humanidade foi alimentado, até agora, da mesma forma que um pássaro dentro do ovo se alimenta do liquido envoltório, necessário para uma etapa de seu desenvolvimento somente até um certo ponto”.25
24 - FOSTER, Norman. BUCKMINSTER FULLER 1895-1983. AV monografias, n. 143, 2010, p. 3
Figura 18 - Habitat 67, Moshe Safdie, Montreal, 1967. Fonte: http://www.ppow.com.br/portal/2012/03/09/lego- arquitetura/
Outro arquiteto que expressa em sua atuação o ideário da contracultura dos anos 1960 é o ítalo-americano Paolo Soleri, idealizador da cidade utópica de Arcosanti (1970), construída no meio do deserto norte-americano do Arizona, com grande apuro formal e geométrico para se tornar um protótipo urbano a fim de abrigar sete mil habitantes.
O historiador Roberto Segre relembra o impacto das primeiras imagens de Arcosanti:
“O que diferenciava as imagens utópicas de Soleri das restantes – mais inspiradas na alta tecnologia e nas rigorosas geometrias de células ar- ticuladas – era a fusão entre homem, natureza e tecnologia, numa trama compacta de gigantescas unidades habitacionais enraizadas na terra, porém que ao mesmo tempo pareciam complexas naves espaciais. In- tegravam entre si a herança orgânica de Wright, a tradição construtiva dos romanos e a visão das megacidades da icção-cientíica, num sistema gráico totalmente inédito, cujo monocromatismo lembrava as fantasias espaciais e formais de Piranesi”.26
E completa, explicando a sua relevância dentro dessa geração de arquitetos:
“Na realidade Soleri aparece como uma igura mítica aos que nos ini- ciamos no debate arquitetônico na década dos sessenta. Aqueles eram tempos heroicos de fervor e esperanças no futuro da humanidade. A Rev- olução Cubana e Che Guevara; o movimento estudantil de maio de Paris; os textos de Marcuse; os hippies, Martin Luther King e a oposição à guer- ra do Vietnã, implicavam num compromisso político e ético identiicado com as propostas ambientais que desejavam controlar a deterioração da
Gustavo Gili,199, p. 1.
26 - SEGRE, Roberto. Paolo Soleri. Entrevista, São Paulo, n. 02.007.01, Vitruvius, jul. 2001 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevis- ta/02.007/3345>.
Figura 19 - Arcosanti, Paolo Soleri, Arizona, 1970. Fonte: www.arcosanti.org
natureza e as contradições geradas pelo gigantismo das megalópoles. Por um lado apostavam na aplicação de métodos racionais para resolver os novos problemas ecológicos gerados pela espécie humana – a coniança de Tomas Maldonado no ato projetual; a busca de um equilí- brio entre ambiente e sociedade, colocado por Amos Rapoport, Edward Hall, John Mc Hale, Christopher Alexander e J. Broadbent –; por outro lado surgiram múltiplas imagens de um contexto físico dominado pela alta tecnologia: as cúpulas geodésicas de Buckminster Fuller; as cidades “espaciais” e as megaestruturas – que tanto entusiasmaram Rey- ner Banham – de Yona Friedman, os Metabolistas japoneses, Archigram; as bioestruturas de Alfred Newman, Paul Maymont, Moshe Safdie, D.G. Emmerich, Walter Jones, Zvi Hecker e outros”.27
É importante entender que estava em jogo não somente uma forma nova de olhar o projeto e a construção, mas um projeto novo de sociedade. Lelé se aproxima de Soleri em uma “dedicação passional a um projeto totalizador, baseado não somente numa realidade construtiva, arquitetônica e urbanística, mas também