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In document 15-01915 (sider 40-51)

Como pontuamos anteriormente, a redação de vestibular é uma prática de produção de texto autêntica, determinada por um contexto situacional específico de produção escrita e inserida em uma esfera de atividade de avaliação institucionalizada, o exame de vestibular. Como gênero, é designada pela função e intenção que a caracterizam, ou seja, a exposição e o posicionamento do produtor frente a um tema específico. No caso das redações do vestibular da PUC-SP, edição de 2014, o tema proposto foi anonimato na internet.

Nesta pesquisa, atestamos que expor um posicionamento frente a um dado tema demanda a construção do objeto de discurso tema, que denominamos de objeto de discurso central, para o qual concorre também a representação de outros objetos de discurso no texto. A evolução desses objetos de discurso se dá por contínuas recategorizações confirmadas por processos referenciais anafóricos que envolvem, para sua laboração, tanto os conhecimentos de mundo, enciclopédicos, socioculturais, textuais, quanto vivências do produtor e conhecimentos linguísticos.

Assentimos, ainda, que para construir a representação dos objetos de discurso e laborar os processos referenciais anafóricos, o produtor lança mão da ancoragem em diferentes contextos, oferecendo as pistas de sentido necessárias para a realização de inferências pelo interlocutor.

Assim, são dois os aspectos que conduziram as análises empreendidas, tendo em vista a exposição do posicionamento do produtor frente ao tema anonimato na internet: a construção da representação do OD tema, e de outros OD, por recategorizações, confirmadas por processos anafóricos, e a elaboração do processo de ancoragem nos contextos, fator determinante para a construção dessa representação.

Com base nas redações analisadas, podemos afirmar que as representações construídas para o OD o anonimato na internet, e outros OD, confirmadas pelos processos referenciais anafóricos, viabilizaram a exposição do posicionamento do produtor frente ao tema central. Observamos, entretanto, duas situações diferentes em relação a essa exposição: definição do posicionamento ou apagamento do posicionamento, como mostra o quadro que apresentamos a seguir.

Redações OD Central Outros OD R14 Anonimato na internet (valoração +) Posicionamento favorável Anonimato na internet, anonimato, crime e liberdade relevância (+) (-) R 23 Anonimato na internet (valoração +) Posicionamento favorável Anonimato na internet, internet, sujeito anônimo relevância (+) (-) R34 Anonimato na internet (valoração + e -)

Posicionamento favorável e desfavorável

Anonimato na internet, sociedade brasileira relevância (+) (-) R53 Anonimato na internet (valoração +) Posicionamento favorável Anonimato na internet, anonimato, internet relevância (+) (-) R06 Anonimato na internet (valoração -) Apagamento do posicionamento Anonimato na

internet, homem, lei e internet relevância (-) (+) R65 Anonimato na internet (valoração -) Apagamento do posicionamento Anonimato na internet, internet, sujeito anônimo, lei

relevância (-) (+)

Quadro 10 – Síntese do posicionamento do produtor nas redações

A síntese apresentada no Quadro 10 revela que, ao construir a representação do OD central, o produtor lhe atribui uma valoração positiva ou negativa, o que colabora para evidenciar o posicionamento favorável ou desfavorável em relação ao tema. A exceção ocorre em relação à R34, em que o produtor apresenta as duas possibilidades, e é esse o seu posicionamento.

Nas análises realizadas, entretanto, identificamos a presença de outros OD no texto, conforme indicado nos quadros 4 a 9, os quais antecedem as análises das redações. Atestamos, nas considerações específicas de cada análise, que a presença e a construção da representação desses outros OD no texto apresentam duas manifestações distintas que interferem na exposição do posicionamento do produtor: ou elas concorrem de maneira cooperativa para a elaboração do processo anafórico referencial do OD tema que está sendo construído no texto, reforçando o posicionamento do produtor, ou ocorrem de maneira não cooperativa, o que revela um deslize temático e, consequentemente, opera o apagamento do posicionamento do locutor frente ao tema.

Assim, verificamos que nas redações R14, R23, R34 e R53, a inserção de outros OD, ao serem construídos no texto, colaboram para a construção da representação do OD central e reiteram o posicionamento assumido pelo produtor frente ao tema.

Esse é o caso da representação do OD crime, na R14, exemplos R14D, R14G, R14K, que está amalgamada à representação de valoração negativa construída pelo produtor para o OD anonimato na internet, como recurso à prática de crimes, ao logro e à mentira, causando insegurança e desconfiança. Em R23, exemplos R23F, R23G, R23H e R23J, a representação do OD sujeito anônimo (contestador) também está fortemente ligada à representação de valoração positiva construída para o OD central como garantia de proteção, segurança e sobrevivência, evocando-a e confirmando-a no texto em diferentes momentos.

Em R53, os exemplos R53B e R53D, relativos à representação do OD anonimato, e o exemplo R53C, relativo à representação do OD internet, também confirmam a representação de valoração positiva construída para o OD central como recurso para disseminação de ideais democráticos e libertários.

Entretanto, há uma focalização maior, quase única, na construção da representação do OD anonimato na internet, em R34, praticamente em todo o texto, o que se explica pelo fato de o produtor não se definir por um único posicionamento frente ao tema, uma vez que o coloca para a discussão na sociedade. A posição do produtor é exatamente a dificuldade em tomar uma posição, pois a representação positiva do OD anonimato na internet, construída por ele no texto, está condicionada a uma sociedade mais madura para se efetivar. Essa condição expressa pelo produtor constrói a representação do OD sociedade brasileira como imatura e despreparada.

Nessas redações, a imbricação das representações de diferentes OD confirma a exposição do posicionamento do produtor frente ao tema central, colaborando para que o atendimento à proposta seja bem-sucedido.

Aferimos, no entanto, que nas redações R06 e R65 os OD lei e internet ganham relevância maior do que o OD central na elaboração dos processos referenciais, invertendo o processo. Nesses dois casos, ocorre o oposto, ou seja, é a representação do tema central que colabora para evidenciar as representações construídas para os OD em questão.

Podemos atestar, pela análise realizada, que a elaboração dos processos referenciais anafóricos em R06 confirma as representações do OD lei em R06 A e R06 C, e do OD internet em R06 F, R06 G, R06 H e R06 I, salientes em todo o desenvolvimento do texto. As representações construídas para o OD lei estão atreladas à manutenção da liberdade e de controle na internet; as representações construídas para o OD internet estão atreladas à ideia de liberdade e de não responsabilidade, o que remete à necessidade da lei. O OD anonimato na internet, nas duas únicas vezes em que é inserido no texto, R06 D e R06 G, é representado como uma ação nociva ao homem e que só ocorre por consequência da falta da aplicação da lei. Verificamos, portanto, que as representações dos OD lei e internet estão relacionadas e imbricadas entre si e que a representação do OD central serve apenas para confirmar as representações construídas para esses dois OD, que são colocados em maior relevância no texto.

Essa inversão de relevância entre os OD construídos no texto também ocorre em R65. Nesse texto, os processos referenciais anafóricos confirmam a representação do OD internet em R65 A, R65 C, R65 D e R65 E, e do OD lei em R65 B e R65 A, salientes em todo o desenvolvimento do texto. A representação construída para o OD internet como um lugar que permite ações nocivas, inclusive anônimas, por falta de controle da lei, e a representação do OD lei como algo ultrapassado que precisa ser alterado para controlar as ações na internet, utilizam a representação construída para o OD central – consequência nociva da falta de controle na internet − para confirmá-las. A análise mostra que também nessa redação, R65, as representações dos OD lei e internet estão relacionadas e imbricadas entre si e que a representação do OD central serve apenas para confirmar a representação criada para cada um desses dois OD, que são colocados em maior relevância no texto.

Nas duas redações, R06 e R65, a imbricação das representações de diferentes OD confirma um deslize temático do produtor, o que destaca o seu posicionamento frente a dois outros OD, relegando o OD tema para segundo plano e propiciando o apagamento da exposição do posicionamento do produtor frente ao tema. Esse fato contribui para que o atendimento à proposta não seja bem-sucedido.

Assim, podemos afirmar que a análise dos processos referenciais anafóricos nas redações, ao construir a representação do OD central, viabiliza a exposição do posicionamento do produtor frente ao tema da redação, anonimato na internet, mas

não da mesma forma e nem com a mesma centralidade. Essa constatação nos mostra que os aspectos de saliência e relevância concorrem para a laboração dos processos referenciais anafóricos em que está implicada a imbricação de outros OD, viabilizando a exposição do posicionamento do produtor frente a um dado OD tema de maneira bem-sucedida ou não.

Respaldados na fundamentação teórica, atestamos que a construção da representação para qualquer OD impõe ao produtor do texto lidar não apenas com o que dispõe do material linguístico, mas também com seus conhecimentos prévios, suas vivências e os dados de contextos. No caso dessas redações, vimos que o artigo de opinião corresponde ao contexto imediato, ao passo que o contexto mais amplo consiste na bagagem sociocultural do produtor, seus conhecimentos formais e enciclopédicos, bem como suas vivências em relação ao tema.

Antes de tecer as considerações sobre o processo de ancoragem implicado nas representações construídas para o OD tema nas redações, apresentamos o Quadro 11, que sintetiza as ocorrências analisadas.

Redações/

excertos Contexto mais amplo Contexto imediato

vivências conhecimentos Univ. disc.

Construído Artigo de opinião

R14 J;K G; H F A; B;C;D;E;I Pistas de sentido x;x x; ᴓ; X x;x;x;x;x;x R 23 I; J E; F; G; H E; A;B;C;D; Pistas de sentido ᴓ; x ᴓ; ᴓ; ᴓ; ᴓ x; x;x;x;x; R34 F; G; H D; E; G; I; J C; H; I A;B;C Pistas de sentido x; x; x x; x; x; x; ᴓ x; x; x ᴓ;x;x R53 F D;E;F A;B;C Pistas de sentido ᴓ x;x; ᴓ x;x;x R06 F B; C; D; F E A;G Pistas de sentido x x; ᴓ; ᴓ; x X x;x R65 E C A;B;D Pistas de sentido ᴓ ᴓ x;x;x

Quadro 11 – Síntese da ancoragem e das pistas de sentidos nas redações50

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50 Legenda: as letras maiúsculas (A; B; C...) correspondem aos excertos analisados em cada

redação. A letra “x” indica a presença, no texto, de pistas de sentido e marcas linguísticas que apoiam a ancoragem, já o símbolo {ᴓ} indica a ausência de pistas de sentido e marcas linguísticas que apoiam a ancoragem.

Podemos atestar, por meio da síntese realizada no Quadro 11, a maior incidência de ancoragem em dados do contexto imediato, principalmente em R14, R23 e R65. Tal presença em todas as redações, no entanto, nos indica que o produtor, candidato de um exame de vestibular e produtor ainda não proficiente, assegura-se nos conhecimentos do texto de referência da prova para construir a representação do OD tema e para expor um posicionamento frente a ele. Essa ancoragem também garante a presença de pistas de sentido no texto para orientar o interlocutor, em praticamente todos os excertos analisados.

A situação delineada, expressa no quadro em tela, nos leva a tecer algumas considerações a respeito da elaboração da representação mundo/linguagem em textos de produtores ainda não proficientes, evidenciada em redações de vestibular.

Por um lado, a situação de ancoragem privilegiada, embora não garanta que o produtor seja bem-sucedido no atendimento à proposta da redação em sua totalidade, oferece mais chances de ele estabelecer uma negociação de sentidos mais bem-sucedida com seu interlocutor, pela possibilidade de realização das inferências necessárias para preencher as lacunas do texto.

Por outro lado, essa situação produz representações do OD tema repetitivas e bastante vinculadas ao artigo de opinião (como recurso para crimes e como forma de garantir o direito à liberdade de expressão ou à sobrevivência de quem luta pela liberdade), o que acaba por revelar pouco do produtor, do seu conhecimento e das vivências sobre o tema, por meio do que se percebe apenas a reprodução do discurso do texto de referência. Podemos considerar, assim, que o propósito de ser bem-sucedido na avaliação, atendendo à proposta, se sobrepõe ao propósito de realmente expor o “seu” posicionamento, isto é, de expressar um posicionamento que corresponda às crenças, aos julgamentos e às vivências do produtor em relação ao tema.

Em alguns casos, essa ancoragem mascara as fragilidades do texto e pode causar uma falsa primeira impressão sobre a exposição do posicionamento do produtor frente ao tema, como atestamos na análise de R65. Por meio da leitura dessa redação, em que o processo de ancoragem ocorre por remissão a vários dados do contexto imediato, isto é, às informações do jornalista apostas no artigo de opinião, podemos ter uma primeira impressão de que o produtor atende à proposta, mas o texto, na verdade, mostra um deslize no atendimento ao tema.

O quadro elaborado também revela as ocorrências de ancoragem em indícios do contexto mais amplo, tanto em relação a vivências e conhecimentos socioculturais partilhados quanto em relação a conhecimentos prévios, incluindo a bagagem sociocultural do produtor e os seus conhecimentos enciclopédicos. Na sequência, tecemos algumas considerações sobre tais ocorrências.

As ancoragens em que o produtor remete a suas vivências e a conhecimentos socioculturais, partilhados mais amplamente entre usuários da internet e das redes, estão presentes em todas as redações. Elas permitem deixar espaços lacunares que oferecem mais possibilidades de serem preenchidos pelo interlocutor. No caso de R34, esses dados são bem trabalhados nos excertos R34F, R34G e R34H, em que o produtor cita casos de pedofilia, cyberbullying e exposição da vida íntima de celebridades para a construção do OD anonimato na internet, atribuindo-lhe valoração negativa.

Consideramos que essas são as ancoragens que mais permitem perceber a presença do produtor no texto, ou seja, o seu “querer dizer”, e em que a laboração dos processos referenciais anafóricos confirmam-se como processos criativos, conforme atesta Marcuschi (2007).

Essa escolha do produtor mostra que ele pretende negociar os sentidos no texto e que ele conta com os conhecimentos de seu interlocutor e com a sua colaboração, tendo em vista seu perfil de leitor maduro e proficiente que, mesmo não sendo um especialista no tema, é alguém com bagagem sociocultural que lhe permite fazer a ancoragem com base nesses conhecimentos.

Nesse caso, o fato de a especificidade da interação entre os interlocutores nessa prática social de linguagem ser mais marcada hierarquicamente, ou seja, o fato de o interlocutor ser um professor e leitor experiente interfere de maneira positiva nas escolhas do produtor, ainda não proficiente, pois, pelo perfil projetado para o seu interlocutor, ele pode contar que esses conhecimentos sejam partilhados.

No entanto, a ancoragem realizada em conhecimentos prévios, enciclopédicos e resultantes da formação do produtor, embora esteja presente nas redações, é a que mais prescinde de pistas de sentido. Essa é uma ocorrência comum que as redações analisadas manifestam de duas maneiras diferentes, seja quando o produtor recorre a conhecimentos enciclopédicos específicos, seja quando recorre a conhecimentos socioculturais e históricos mais amplos.

Para a primeira manifestação, destacamos a R6, em que o produtor lança mão de seus conhecimentos enciclopédicos, no âmbito da filosofia, sem que esses dados sejam desenvolvidos no texto de forma a colaborar para as representações que constrói para o OD tema e, consequentemente, para o seu posicionamento frente a ele. Nos excertos R6C e R6D, o produtor cita o nome de filósofos e seus conceitos sem deixar pistas de sentido para que o interlocutor possa fazer as inferências necessárias, relacionando-as à representação dos OD que deseja construir.

A segunda está bem exemplificada em R23, nos excertos R23F, R23G, R23F e R23H, em que o produtor faz referência a contextos socioculturais e históricos, sem deixar pistas de sentido suficientes, como nos exemplos em que se refere a opressores e a ideais dominantes para construir a representação dos OD anonimato na internet e sujeito anônimo.

Em relação à ancoragem em dados do contexto mais amplo, encontramos um exemplo bem-sucedido em R34D, em que o produtor, ao lançar mão de seus conhecimentos enciclopédicos ou adquiridos por educação formal, fornece pistas de sentido suficientes, como é o caso da ideia filosófica de Kant sobre o respeito mútuo, que colaboram para a representação do OD anonimato, atribuindo-lhe valoração positiva.

Podemos aferir, portanto, que em várias ocorrências nas redações, quando se trata da ancoragem em dados do contexto mais amplo, em relação aos conhecimentos enciclopédicos, sobretudo advindos da educação formal, o produtor labora os processos referenciais anafóricos sem garantir a acessibilidade. Assim, percebemos haver um desequilíbrio no balizamento que o produtor faz entre os explícitos e os implícitos no texto, o que se pode perceber por suas escolhas relativas tanto às diversas âncoras contextuais quanto às marcas linguísticas e às expressões referenciais, que lhes servem como pistas de sentidos.

Nas redações em que a acessibilidade é mais bem laborada, como em R34, podemos aferir que há uma maior articulação entre o que o produtor evoca nos contextos e o que expressa no texto. O balizamento equilibrado entre implícitos e explícitos no texto facilita a negociação de sentidos com o interlocutor e permite que este realize as inferências, preenchendo os espaços lacunares necessários à produção de sentidos.

As análises realizadas permitiram-nos observar, ainda, a relação entre os processos referenciais anafóricos e a construção da coesão e da coerência nos textos. Assumimos, neste trabalho, no Capítulo 2, que os processos referenciais anafóricos funcionam como um fio condutor, uma base para a construção de um texto coeso e coerente. O processo de recategorização dos OD e a construção das cadeias referenciais contribuem, sobretudo, para as representações globais da coerência, aquelas que exigem cálculos de sentido, inferências, conhecimentos compartilhados e dados dos contextos.

Assim, observamos que, em R14 e R34, a construção da representação do OD anonimato na internet, a ancoragem nos dados de contextos, mais amplo e imediato, e as pistas de sentido oferecidas colaboram para a configuração de um texto mais coeso e coerente em nível global. Além disso, ao viabilizar a exposição do posicionamento do produtor frente ao tema, os processos referenciais anafóricos permitem perceber a coerência entre a orientação argumentativa e a posição assumida.

Em R14, por exemplo, o posicionamento do produtor é desfavorável ao anonimato na internet, o que se manifesta no texto desenvolvido por argumentos e exemplificações que reiteram a posição assumida. Já em R34, o produtor não se posiciona de forma unívoca e desenvolve o texto por meio de argumentos e contra- argumentos, revelando a complexidade do tema e reiterando a posição assumida.

Podemos aferir em R06, R23 e R65 maior fragilidade em relação à construção desses dois critérios de textualização. Em R23, a configuração de desarticulação no texto é ocasionada pela escolha excessiva de pronomes indefinidos e demonstrativos, que funcionam como expressões referenciais, para efetivar as anáforas. Já em R06 e R65, o deslize em relação à temática e a relevância dada a outros dois OD colaboram para a desarticulação do texto e para a incoerência que se instaura entre a exposição do posicionamento do produtor frente ao tema proposto e a orientação argumentativa desenvolvida no texto, que tende a ser construída em direção aos outros OD.

Vale destacar que o uso das anáforas encapsuladoras, principalmente na função argumentativa/avaliativa, como uma estratégia sofisticada, contribui tanto para a construção da coesão e da coerência quanto para a confirmação da orientação argumentativa nos textos. Destacamos em R14M, R14N e R14O que o encapsulamento laborado em relação ao OD tema, nas expressões referenciais “o

assunto”, “este recurso” e “uma farsa”, além de articular o texto localmente, colabora para a articulação da orientação argumentativa, o que também ocorre em R34M no tocante ao uso da expressão referencial “esta realidade”.

O empreendimento analítico realizado mostrou-nos que os processos referenciais anafóricos colaboram para viabilizar o atendimento a uma proposta de redação no que diz respeito à exposição do posicionamento do produtor frente a um dado tema, permitindo, inclusive, maior compreensão do que ocorre no texto do produtor aprendiz quando há deslize de temática.

Além disso, a análise dos processos referenciais anafóricos nos revelou vários outros aspectos relativos ao processo de escrita em que eles estão implicados, como a acessibilidade da ancoragem e a saliência dos OD no texto, a construção da coesão e da coerência e sua relação com a orientação argumentativa desenvolvida nos textos.

Analisar os processos referenciais em textos escritos, autênticos, de produtores aprendizes da escrita, permitiu-nos compreender de forma mais ampla a complexa relação entre linguagem, mundo e pensamento, em que sujeitos marcados sociocultural e historicamente interagem para produzir sentidos e para construir novas versões da realidade.

Assim, entendemos que os estudos dos processos referenciais constituem um conteúdo importante a ser incorporado ao currículo do ensino e da aprendizagem de língua materna, na educação básica, sobretudo no que diz respeito à escrita, área em que se situa esta pesquisa.

Conforme postulam Cavalcante, Custódio Filho e Brito (2014), não se trata de despejar a teoria nas aulas, “como se na educação básica, os estudantes

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