Após a análise fílmica, observa-se que a narrativa busca ressaltar a segregação existente na época, expondo o racismo e o preconceito destacados nas manifestações de personagens brancos e/ou homens. Os aspectos identificados na análise encontram-se resumidos no Quadro 9.
Quadro 9 – Aspectos relacionados à diversidade de gênero e étnico-racial
Aspectos Identificados Autores Tempo
Gênero
Menores chances de se capacitarem profissionalmente nas áreas mais rentáveis, cujas vagas são destinadas
majoritariamente aos homens Carreira et al, 2001.
15'06'' 46'38'' Manifestação sutil de preconceito Mor Barak, 2016. 1h01’12’’ 15'50 A mulher foi Incorporada em um ambiente de trabalho
previamente dominado pelos homens Queiroz et al., 2014 16’38 Ideia de subordinação da mulher ao homem Costa, 2010 1h13'52'' 17'14 As mulheres tendem a ter menos acesso a uma variedade de
informações dentro da organização, como as relativas a vagas em cargos mais elevados e as relativas ao trabalho próprio trabalho executado por elas
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Mulheres, para alcançarem cargos de maior hierarquia organizacional, tiveram que se adaptar às organizações que foram criadas com base em valores masculinos.
Consequentemente, começaram a negar suas próprias identidades
Pires et al. 2010, 27'24''
A mulher era considerada um ser mais frágil e incapaz para
assumir a direção e chefia do grupo familiar Costa, 2010 28’51’’ Trabalho feminino como uma extensão do trabalho doméstico D’Alonso, 2008 36'14'' O trabalho da mulher estruturou-se como uma extensão do
trabalho doméstico - profissões são pouco valorizadas pela
sociedade Zauli et al., 2013. 36'14''
Teto de vidro Ethos, 2010 46'38''
Mulheres precisam provar diariamente sua capacidade laboral Cappelle et al., 2007. 1h13'52'' Exclusão das decisões organizacionais Steil, 1997. 1h20'18'' Mito da capacidade intelectual da mulher Araújo 2005 1h31'03''
Étnico- Racial
Historicamente, os grupos discriminados possuem menores qualificações requeridas às posições valorizadas no mercado de trabalho
Alves e Galeão-Silva
2004 59''
Tensão policial Marable 1983. 4'02
Marginalização e o isolamento social Mor Barak, 2016 39'32 Negros se empreguem nas camadas menos privilegiadas das
organizações Myers, 2003 16'38
Trabalhadores negros, com os mesmos níveis de escolaridade, ainda sofrem com a discriminação, pois percebem salários mais baixos e demandam mais tempo para subir na hierarquia das organizações
Myers, 2003 1h01'12'' Estereótipo do negro pobre e incapaz para o mercado de
trabalho Oliveira, 2007 13'45 4'02
Não reconhecimento da existência de preconceito e
discriminação racial Rosa et al., 2010 1h33'
Racismo Institucional Souza, 2011 12'13
Políticas de segregação Xavier; Xavier, 2009. 2'58'' Crença da supremacia da raça branca sobre as demais,
principalmente à negra. Xavier; Xavier, 2009. 17'14 21'24 Dificuldade em ascenderem socialmente Xavier; Xavier, 2009. 47'28 Fonte: o autor (2018).
Conforme observado no quadro, ao analisar a diversidade organizacional no filme, é possível verificar que a NASA se caracterizava como uma organização monolítica, predominante de homens brancos, detentores dos melhores cargos.
No início da narrativa, devido à separação dos grupos diversificados, a tensão cultural era praticamente inexistente, pois os grupos culturalmente diversos viviam e trabalhavam em um ambiente homogêneo.
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Foi possível observar que, no decorrer do filme, manifestações preconceituosas vinda não somente de pessoas de grupos majoritários, mas também de pessoas pertencentes a grupos de minoria. Isso pode ser observado na descrença dos personagens Levi e Johnson que, mesmo sendo negros, em algum momento do filme, duvidaram da capacidade laboral das mulheres. Outro exemplo pode ser visto nas atitudes da Sra. Mitchell. Ela, repetidas vezes na narrativa, demonstrou-se preconceituosa com suas colegas negras, apesar de também ser mulher. Isso pode ser explicado pela teoria da identidade social, que elucida que a ideia de diversidade depende de como cada grupo de identidade experiencia a exclusão e a inclusão. Desta forma, em uma sociedade machista e racista, um homem negro sofre menos exclusão do que uma mulher negra, e uma mulher branca se sente mais incluída na sociedade do que uma negra (NKOMO; STEWART, 2004).
Além dessas atitudes preconceituosas citadas acima, outros aspectos apresentados na narrativa caracterizam-se como barreiras à diversidade, conforme exposto no Quadro 10, abaixo.
Quadro 10 – Barreiras à diversidade na narrativa
Aspectos Identificados Apresentado por Autores Tempo
Ceticismo dos próprios funcionários sobre os programas e a sua efetividade.
Ceticismo mostrado pelos funcionários da NASA em relação a inserção das personagens negras em postos de trabalhos mais elevados.
Alves e Galeão- Silva, 2004 13'50'' Dificuldades de mudanças
nas rotinas administrativas de recursos humanos.
Demonstrado no caso de Dorothy que, inicialmente, não teve acesso ao cargo de supervisora.
Alves e Galeão- Silva, 2004 12'13'' Preconceito e discriminação, explícitos ou encobertos.
Ao longo da narrativa o preconceito e a discriminação foi demostrado como uma barreira ao trabalho das mulheres negras. Mor Barak, 2016 12'13''; 13'50''; 15'50'' As pessoas podem não
querer investir tempo e energia para aprender sobre outras culturas.
Em nenhum momento do filme pôde-se observar o interesse dos outros trabalhadores da NASA em aprender sobre a cultura das protagonistas.
Mor Barak,
2016 Implícito Percepção de práticas de
diversidade como uma ameaça à sua segurança no emprego.
Demonstrado principalmente pelo personagem de Paul. Percebe-se que quanto mais Katherine obtia sucesso em seu trabalho, cada vez mais Paul se sentia ofuscado.
Mor Barak,
2016 Implícito
Falta de apoio no planejamento de carreira.
Barreira evidenciada na falta de estabilidade no emprego experienciada pelas personagens negras. Primeiramente pelas mulheres do WCG que seriam demitidas depois da instalação do IBM, e, depois por Katherine que foi informada que não trabalharia mais no STG pelo mesmo motivo. Mor Barak, 2016 1h26'50'' ; 1h39'40''
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Marginalização e isolamento social.
A marginalização e o isolamento social são demostrados nas situações em que a maioria branca lança mão de artifícios para criar barreiras entre os grupos de diversidade.
Mor Barak,
2016 23'54'' Ambiente de trabalho sem
apoio.
Barreira sofrida pela personagem de Katherine, que foi inserida em um ambiente no qual seus colegas reiteradas vezes demostraram que não apoiavam a presença dela.
Mor Barak, 2016 20'29''; 39'49'' Dificuldade em mudar as
atitudes sobre a diversidade em toda a força de trabalho.
O preconceito e o racismo entranhado na sociedade da época fez com que uma das principais barreiras
encontradas na narrativa foi a dificuldade na aceitação de práticas de diversidade na organização.
Marquis et al., 2008 23'54'' Dificuldade em aumentar a
competência em diversidade entre os executivos.
Demostrada pela relação tumultuosa entre Katherine e Paul, pois ele sendo um executivo da alta cúpula da NASA, criava barreira para o trabalho de Katherine.
Marquis et al., 2008 20'29'' Desconsiderar o impacto da
cultura organizacional.
A inserção de Katherine e Mary em um ambiente predominando por homens brancos desconsiderou a cultura organizacional. Mor Barak, 2016 13'50; 16'44'' Negação do preconceito e da discriminação racial.
Representada principalmente pelas atitudes de Mitchell quando ela nega que haja privilégios na organização e quando fala que ela não tem nada contra Dorothy (mulher negra), porém suas atitudes revelam o contrário.
Rosa et al., 2010 1h33'40'' Historicamente, os grupos discriminados possuem menores qualificações requeridas às posições valorizadas no mercado de trabalho.
O longa mostra que na época tanto o ensino médio quanto o superior eram praticamente inacessíveis aos negros.
Alves e Galeão- Silva, 2004 59''; 46'38'' Trabalhadores negros percebem salários mais baixos.
Característica evidenciada quando Katherine revela que o pagamento que recebe por seu trabalho não é suficiente para comprar um colar de pérola, diferentemente das funcionárias brancas.
Myers,
2003 1h01'12'' Trabalhadores negros
demandam mais tempo para subir na hierarquia das organizações.
A narrativa mostra a dificuldade das personagens em acender na organização, particularmente pelas barreiras institucionais e pelo preconceito presente na NASA.
Myers,
2003 12'13'' Lado pessoal dos indivíduos
não é abordado de maneira adequada, constituindo assim outra barreira para a criação de um local de trabalho inclusivo.
Barreiras evidenciada principalmente na não preocupação com o bem-estar e com as necessidades básicas das protagonistas negras em seus novos ambientes de trabalho. Mor Barak, 2016 21'41; 42'46 Fonte: o autor (2018).
Na narrativa, Paul e Mitchell aparecem como principais representantes das dificuldades enfrentadas pelas protagonistas. Tais personagens atuam como uma forma de personificar as barreiras encontradas a inclusão de minorias em grupo de trabalho na organização.
Por outro lado, os personagens de Al Harrison, John Glen e Karl Zielisnk aparecem como principais vetores das práticas de diversidade analisadas no filme. Na
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narrativa, tais personagens são figuras de alta gestão e autoridade da NASA, o que corrobora com a ideia de Thomas (1990) e Cox e Blake (1991) que afirmam que as práticas de gestão da diversidade devem está alinhada com as ideias da alta cúpula da hierarquia organizacional. Tais práticas podem ser observadas conforme disposto no Quadro 11.
Quadro 11 – Principais apoiadores das práticas de diversidade na NASA
Aspectos Identificados Autores Personagens Tempo Integração entre grupos culturalmente
diferentes. Cox, 1991 Colaborador do Space Task Group 56'38'' Consciência de diversidade. Cox; Blake, 1991 Harrison 1h28'58'' Esclarecer a visão Thomas 1990 Harrison 1h28'58''
Mentoria. Mor Barak, 2016 Zielisnk 15'06''
Abertura de canais de comunicação e
aumento do poder de decisão. Mor Barak, 2016 Harrison 1h20'49'' Reconhecimento do seu trabalho e da
preocupação sobre seu lado pessoal. Mor Barak, 2016 Harrison; Ruth 1h39'40'' Reconhecimento. Pereira; Hanashiro 2010
Dorothy; Zielisnk e subordinados; John Glenn; Harrison 28'; 59'37''; 1h47'14''; 1h56'40'' Integração entre grupos culturalmente
diferentes a no ambiente de trabalho; líderes atentam para o lado pessoal.
Cox, 1991; Mor
Barak, 2016 John Glenn 37'38'' Líderes dão o exemplo, os funcionários
se conectam mais aos valores organizacionais. Práticas de
diversidade devem estar diretamente relacionadas com a alta administração.
Mor Barak 2016; Cox, 1991;
Thomas, 1990 Harrison 1h03'13'' Pioneirismo nas práticas de
diversidade. Thomas, 1990 Juiz George Manson; Mary 1h10'35'' Criação de sistemas e clima que
permitam que as pessoas façam o que
lhes é cobrado. Thomas, 1990 Harrison 43'56''
Modificação de suposições. Thomas, 1990 Harrison 1h20'49'' Fonte: o autor (2018).
É válido salientar que, embora contassem com ajuda de alguns gestores, a mudança comportamental acontecida na NASA, em grande parte, dependeu das atitudes revolucionárias das protagonistas.
Diante do exposto, pode-se usar o modelo de avaliação do nível de diversidade organizacional de Cox (1991) para mostrar a evolução da NASA ao decorrer da narrativa. A organização, ao final, mostrou características de uma entidade multicultural, após iniciar como monolítica e progredir para plural, conforme demostrado no Quadro 12.
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Quadro 12 – Graus de diversidade organizacional na NASA
Fase Descrição
Monolítica
A NASA apresentava um baixo nível de integração estrutural denotado pela segregação total dos grupos. Por isso, também, a integração informal era quase inexistente.
Representações constantes de preconceito e discriminação são observadas.
O nível de conflitos era baixo, uma vez que membros de grupos identitários distintos não se relacionavam. Os grupos de trabalhos eram homogêneos: de um lado mulheres negras, de outro homens brancos.
Plural
Nesta fase a NASA ainda era segregada. Porém, com a inserção de Katherine e Mary em seus novos postos de trabalho, nota-se um maior nível de integração estrutural na organização. Porém, os níveis de integração informal permaneceram baixos.
O preconceito e a discriminação continuam existindo em níveis elevados, porém com uma maior sensibilização do funcionários sobre o assunto.
O nível de conflito era alto, devido às diferenças identitárias entre os grupos que, agora, se relacionam corriqueiramente.
Multicultural
Ao final do filme a integração estrutural é completa. Isso é demostrado na relação entre Katherine e Paul que, agora, conseguem trabalhar juntos e pela multiculturalidade do grupo responsável pela IBM.
Nessa fase, é possível notar traços de integração informal entre grupos diversos de identidade cultural.
Baixo nível de conflito cultural demostrado pela convivência pacifica entre grupos diversos Fonte: o autor (2018).
Em relação aos benefícios gerados pelas práticas de diversidade, nota-se o da redução de custos (COX; BLAKE, 1991) que se deu com a contratação de Katherine para o
Space Task Group. Com isso, houve a redução da rotatividade de matemáticos no grupo, pois
segundo a Sra. Mitchell (16’08’’), esses empregados não costumavam durar muito mais que dias na função. Mitchell chega a citar que a rotatividade chegou a ser de uma dúzia de empregados por mês. Outro exemplo desse benefício foi a realocação das mulheres do WCG para a setor do IBM. Tanto os recursos materiais, quanto o tempo para a contratação de novos trabalhadores foram economizados.
A inclusão das três protagonistas em seus respectivos cargos trouxe benefícios na solução de problemas e no aumento da criatividade organizacional (COX; BLAKE, 1991) que futuramente contribuiriam para o sucesso dos lançamentos dos voos espaciais. Mary na engenharia do revestimento dos propulsores, Dorothy na solução dos problemas de programação do IBM e Katherine desvendando os números para os cálculos do Go/No Go, foram cruciais para o alcance dos objetivos da NASA, posicionando os Estados Unidos em um patamar a frente da então União Soviética na corrida espacial.
Outro benefício encontrado foi o aumento da flexibilidade organizacional (COX, 2008). Com a quebra da proibição da participação de mulheres nas reuniões do pentágono, houve a possibilidade de Katherine ter acesso mais rápido às mudanças de parâmetros dos voos. Isso proporcionou maior fluidez aos processos de tomada de decisões estratégicas dentro da organização.
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