5 Validation
5.1 Shell and former research
A concepção de adolescência que temos na atualidade é fruto de uma evolução histórica. As características fisiológicas e psicológicas que marcam esta fase do desenvolvimento sempre existiram, no entanto, elas eram negadas pela sociedade adulta (SPRINTHALL; COLLINS, 2003). A evolução da reflexão sobre a adolescência ocorreu paulatinamente e teve uma maior visibilidade e aceitação a partir do início do século XX.
Áries (1981) lembra que a evolução da compreensão do que é a fase da adolescência e da infância aconteceu em consonância com as mudanças dentro da instituição familiar. Segundo o autor não havia, por parte da família na Idade Média, uma responsabilidade de transmissão formal de conhecimentos e valores. Esse processo era feito de maneira difusa, e, via de regra, a aprendizagem acontecia por meio da vivência, não era formalizada.
Nessa época, não havia uma valorização das crianças, fato evidenciado nas situações de falecimento de crianças, que não costumavam gerar grande sofrimento à família, vez que não havia, na época, fortes laços afetivos unindo as famílias. As crianças e adolescentes participavam das festas, brincadeiras, trabalhos, vivências dos adultos, de forma indiscriminada, eles eram tidos como adultos em miniatura. A maneira como as crianças eram vestidas, retratadas, e como eram inseridas no contexto social, refletia a visão que se tinha delas. Nesse período o que marcava a passagem da criança para a fase adulta era o simples fato de ela começar a ter
certa autonomia. Não havia ainda o reconhecimento de uma fase intermediária entre a infância e a idade adulta – quando se deixava de ser criança logo se era considerado adulto (ÁRIES, 1981).
A partir do século XVII, a infância começou a ser vista da forma como a vemos atualmente, contudo, pôde-se perceber que a infância como fase diferenciada de desenvolvimento, e que demandava atenção especial, foi mais amplamente aceita em classes sociais mais elevadas, que não dependiam do trabalho infantil. Porém, em relação à adolescência houve maior resistência, pois somente no final do século XIX e no início do século XX essa fase passou a ser reconhecida como distinta da infância e da idade adulta, mas que, entretanto, estava situada entre essas duas fases (ÁRIES, 1981).
Acontecimentos históricos como a industrialização e a escolarização contribuíram sobremaneira para a emergência da adolescência como fase do desenvolvimento reconhecida pelos adultos. Com a industrialização e o crescimento da demanda por mão de obra especializada surgiu a necessidade de se manter os jovens por mais tempo na escola. Além disso, com o crescimento da força laboral adulta, os sindicatos passaram a demandar maior proteção a esse público, que ficaria ameaçado pelo trabalho infanto-juvenil, que por ser menos preparado cobrava menores salários. Desse movimento é que surgem as opiniões contrárias ao trabalho infantil-juvenil, ou seja, a priori, a proibição desse tipo trabalho não estava somente ligada à defesa das crianças e adolescentes (SPRINTHALL; COLLINS, 2003).
Nasceu, a partir da proibição do trabalho infanto-juvenil, um movimento para se criar leis que protegessem as crianças e os adolescentes. Surgiu ainda uma forte demanda por aumento da escolarização e da profissionalização desses jovens que no futuro se tornariam mão de obra adequada à indústria. Sob esse prisma, a fase da adolescência representaria o momento propício para a profissionalização e aprofundamento do processo de escolarização. Data de meados do século XX os primeiros estudos focados na adolescência, tratando-a como fase diferenciada, porém extremamente relevante para a vida humana (SPRINTHALL; COLLINS, 2003). Esses estudos, no entanto, traziam em si uma visão da adolescência como fase conturbada, problemática, uma visão que persiste até hoje, e que ainda faz parte da representação da adolescência de boa parte da população.
De acordo com Sprinthall e Collins (2003), o pesquisador G. Stanley Hall, psicólogo americano dos anos 50, foi um dos primeiros a tratar do tema e a perceber a adolescência como uma fase especial do desenvolvimento propensa a grandes variações de humor. Sigmund Freud, psicanalista austríaco do século XIX, também deu importância a esse período, tratando-o como uma fase necessariamente difícil e turbulenta. Para esse autor, a socialização na infância e na adolescência tem o papel essencial de orientar e canalizar as pulsões instintivas para que elas se tornem socialmente aceitáveis. O enfoque da adolescência trazido por Freud e seus sucessores foi, em geral, o de uma fase de desenvolvimento turbulenta que precede a fase adulta, que é mais tranquila. Margaret Mead deu forte contribuição em estudos antropológicos ligados ao tema, por meio da pesquisa que realizou na ilha de Samoa onde, segundo seus estudos, as mudanças de fase de desenvolvimento são realizadas sem grandes conflitos ou pressões. Esse estudo traz uma mudança de percepção, pois mostra a forte influência do comportamento social nas fases do desenvolvimento (SPRINTHALL; COLLINS, 2003). Houve ainda, no âmbito dos estudos relativos ao desenvolvimento, as pesquisas realizadas por Jean Piaget na área psicogenética, que caracterizavam a adolescência como a fase de aquisição do pensamento hipotético dedutivo e de moral autônoma (OLIVEIRA, M., 2006).
Apesar da atenção atribuida ao tema da adolescência por alguns autores, dentro da Psicologia do Desenvolvimento, o estudo dessa fase do desenvolvimento foi relegado a segundo plano, o que favoreceu, de certa maneira, a proliferação de mitos e representações distorcidas em relação a essa fase do desenvolvimento. Outras abordagens relativas ao estudo do desenvolvimento na fase da adolescência, partindo de outros pressupostos de matriz de desenvolvimento humano, foram sendo desenhadas ao logo dos últimos anos. Surgiram, entretanto, alguns estudos relativos ao desenvolvimento humano na adolescência com a visão desse fenômeno como multifacetado, e que levam em conta não só fatores biológicos como também sociais, para compreensão do fenômeno.
A teoria psicológica de abordagem sistêmica vem trazer um enfoque diferenciado em relação ao desenvolvimento humano, visto que ela o percebe como influenciado pelo contexto no qual o indivíduo está inserido. Segundo esse pensamento, o indivíduo enfrenta mudanças ao longo de toda a sua vida, e elas não vão depender só da fase de desenvolvimento na qual ele se encontra, mas também
das mudanças na sociedade da qual ele participa. A adolescência pode ser vivenciada de forma diferenciada nas diferentes culturas. A teoria sistêmica caracteriza o desenvolvimento como um processo contínuo e dinâmico, no qual a pessoa se encontra integrada a sistemas organizados. Ela leva em conta as características de predisposição genética e os padrões socioculturais estabelecidos (SIFUENTE; DESSEN; OLIVEIRA, 2007).
Uma importante vertente de pesquisas na área do desenvolvimento do adolescente foi oferecida por Erikson (apud PEREIRA, 2005) com a teoria psicossocial. Segundo seu pensamento, as características psíquicas são adquiridas ao longo do desenvolvimento. O autor imagina que uma sequência de crises vitais que ocorrem, à medida que o indivíduo amadurece, manifestam forças separadas e distintas em diferentes fases da existência. Esse pensamento defende que a construção da identidade é uma tarefa indispensável na adolescência.
A abordagem narrativa dialógica do desenvolvimento também traz uma visão diferente em relação às fases do desenvolvimento. Ela tem por base o pensamento histórico-cultural, e entende que os fenômenos psicológicos devem ser compreendidos em sua gênese, no processo de sua formação e transformação na linha do tempo. Nessa abordagem, constructos com self,1 identidade e subjetividade remetem à totalidade do sujeito, e não a comportamentos ou funções mentais, e se organizam interna e externamente em relação ao outro e à cultura e por meio da linguagem. Tendo por base este entendimento, Oliveira, M. (2006, p. 432) afirma que “a configuração do adolescente passa, num primeiro nível, pela coordenação entre fatores biológicos e fatores de ordem psicossocial e cultural”. Os fatores biológicos do adolescer são universais, mas mesmos eles são influenciados pela cultura. Fatores biológicos aliados a intensas mudanças em experiências psicossociais fazem da adolescência um período de forte desenvolvimento do self. Essa abordagem deixa claro que não são somente os fatores biológicos determinam
1 De forma bem geral, o termo self pode ser entendido como aquilo que define a pessoa na sua
individualidade e subjetividade, isto é, a sua essência. Em português o termo self pode ser traduzido por "si" ou por "eu", mas a tradução portuguesa é pouco usada, em termos psicológicos. Self (Psicologia). Disponível em: <URL: http://www.infopedia.pt/$self-(psicologia)>.
o adolescer, mas especialmente a forma como o indivíduo será inserido no contexto de práticas sociais (OLIVEIRA, M., 2006).
Bronfenbrenner (apud PEREIRA, 2005) é outro autor que discute o desenvolvimento do adolescente. A perspectiva com a qual ele trabalha é a da ecologia das relações humanas. Nessa teoria, o desenvolvimento do adolescente é visto como inserido em um contexto familiar, comunitário ou mesmo de um país. O desenvolvimento é influenciado por pares, parentes, escola, religião. Eles são influenciados por fatores sociais e ambientais, o que Bronfenbrenner (apud PEREIRA, 2005) chamou de sistemas.
A visão da adolescência trazida por esses e outros pensadores possibilitou a construção de entendimentos relativos a essa fase, pautados pela visão do adolescente como um ser em fase especial de desenvolvimento, que necessita de tratamento diferenciado. Foi a partir deste e de outros pensamentos que as legislações que tratam dos direitos dos adolescentes e crianças foram criadas.