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Adepto a uma visão empírico-analítica, Hobbes força o nascimento de uma nova ciência política, apresentada como extensão do exato método resolutivo- compositivo e fiel ao movimento e às relações mecânicas internas e externas aos corpos, sendo que as propriedades do movimento apontam para um reino de leis imutáveis às quais os corpos não podem transgredir.
As premissas do movimento saem do âmbito da filosofia natural, perpassam os átomos da matéria, voltam-se aos movimentos internos humanos e chegam a seu termo, em filosofia política, na personificação da guerra ou da paz. Esse deslocamento de perspectivas gera uma aberta oposição à tradição e nos leva a procurar e a conhecer melhor os termos sob os quais se inscrevem a crítica hobbesiana à cosmofísica aristotélico-ptolomaica e à neo-aristotélica.
Tendo por base a geometria euclidiana e a nova física de Galileu, Hobbes capitania uma série de críticas à cosmofísica e à política aristotélica, questionando a força filosófica e científica sobre a qual a tradição vinha trazendo vivas e intocáveis as idéias do pensador estagirita. Qual é a geometria do mundo? Essa é a importante pergunta que a física moderna procura responder, e, à medida que se aprofunda na resposta, contrapõe-se necessariamente às idéias instituídas. Essa mudança foi provocada por motivações internas no campo da astronomia, e externas, referentes ao clima intelectual da Europa do século XVI. A questão principal girava em torno da dificuldade de comprovação da cosmofísica vigente que se provava, a cada nova suposição e descoberta, incapaz de explicar coerentemente o universo em termos físicos.
O caminho da contraposição hobbesiana à física e filosofia tradicionais perpassa, além de Galileu e Euclides, por Nicolau Copérnico e seus predecessores. Copérnico, ao iniciar o caminho de rejeição da síntese tradicional, subscreve o neoplatonismo23 afirmando a existência de uma matemática universal da natureza e
23 A filosofia neoplatônica ressurgida em fins da Idade Média tinha como pontos centrais: a existência das formas e idéias eternas; a interpretação dos órgãos dos sentidos como meros desencadeadores de estímulos à compreensão das formas universais; a definição das matemáticas como uma das formas universais e a concepção do universo em termos geométricos.
de um cosmo harmônico, simples e geométrico. Em suas experimentações, os resultados dos cálculos sugeriam que as localizações e os movimentos dos corpos físicos não eram apenas instrumentos, mas estruturas simétricas e reais de um universo regular e geometricamente ordenado.
Copérnico é resoluto em afirmar a esfericidade da terra e os movimentos uniformes e circulares dos corpos celestes. Ele anuncia o heliocentrismo em oposição ao geocentrismo professado pela tradição científica e defende ser a grandeza da terra desprezível se comparada a do universo. Esses e outros novos postulados científicos resultam num vigoroso renascimento do estudo da matemática, o que acaba imprimindo a importância dessa ciência nas pesquisas científicas ulteriores. Copérnico teria iniciado o que Galileu continuaria, a saber: a implantação de uma nova visão de cosmo que se estenderia ao pensamento de vários filósofos modernos, entre eles, Thomas Hobbes.
A modernidade e Hobbes se apresentam anunciando que o meio mais propício ao desenvolvimento da física é, como vimos, sua junção com a matemática, o que teria tornado seus problemas acessíveis à explicação, cálculo e comparação. Por parte da tradição − os seguidores de Aristóteles e Ptolomeu − um dos problemas da nova ciência da natureza se assentava na possível violação dos princípios fundamentais de superioridade, uniformidade e regularidade dos corpos celestes. O novo postulado de explicação unificada para as diferentes características dos movimentos planetários apresentava-se em desacordo com o antigo e ainda vigente sistema.
Essas inovações exigem, pois, uma nova metafísica e outras bases filosóficas às quais a tradição insiste em resistir. Mas a confiança na força da ciência tem potência suficiente para cobrar o desapego ao testemunho dos sentidos e da tradição metafísica em vigor até ali. Aos poucos, pela via da dedução, se tornará irrevogável a tese de que a terra é um planeta que gira em torno do seu eixo e em volta do sol, descoberta que acaba por mudar, também, o lugar do homem no cosmo. A revolução astronômica implica, consequentemente, numa revolução filosófica, pois como afirma Mariconda − na introdução à sua tradução do Diálogo de Galileu − Copérnico, ao descentralizar o observador e colocá-lo em movimento, provoca
um impacto de fundamental importância sobre o conjunto epistemicamente organizado da cultura, opondo-se diretamente ao
conjunto do saber, da ciência, da religião e da opinião comum. No plano científico, com Copérnico, o movimento do observador passa a ter uma função radical ou primitiva, de modo que “salvar as aparências” quer dizer agora restaurar sob as aparências os princípios da física que as explicam e que, portanto, tornam possíveis estas aparências. (MARICONDA, 2001, p. 26).
A defesa do movimento e da não centralidade da terra propicia, então, mudanças significativas e traz consigo uma nova ordem em torno dos saberes. E algo fundamental para o homem moderno se origina desse novo construto e se refere à possibilidade da reflexão sobre si mesmo e sobre seu lugar no cosmo, desencadeando a hipótese de que o movimento da terra vai muito além do espaço astronômico preconizado por Copérnico. As conotações filosóficas advindas desse fato obrigam o “novo homem” a assumir uma postura ativa em relação ao universo e a si próprio. Assim, para além de Galileu, na visão de Thomas Hobbes, não só a astronomia necessita de uma nova física, mas grande parte da estrutura do pensamento moderno, inclusive em seu aspecto humano-político.
Percebe-se que a luta de Galileu subscrita por Hobbes combate, sobretudo, o princípio de autoridade estabelecido pelas concepções tradicionais e apresenta a reflexão, a observação e a experimentação, como seus traços mais característicos, contra o emprego ingênuo dos sentidos. Entre as idéias basilares do matemático italiano encontram-se a justificação do copernicionismo e a construção de uma ciência matematizada do movimento dos corpos. Duas de suas obras são marcadamente importantes neste intento: Diálogo sobre os dois máximos sistemas de mundo ptolomaico e copernicano (1632) e Discursos e demonstrações matemáticas concernentes às duas novas ciências (1638). Nos dois casos, a questão principal refere-se à compreensão geométrica dos problemas da física.
Dirigindo-se à cosmologia aristotélico-ptolomaica, Galileu critica a teoria dos movimentos naturais e a dicotomia estabelecida por ela entre céu e terra. Isso porque não havia como fundar a nova física sem jogar por terra a cosmofísica estagirita e toda a sua tradição. Hobbes acompanha esse trabalho e, amparado pela ciência, direciona à filosofia de Aristóteles uma de suas maiores críticas. Porque, na concepção hobbesiana, erigir um novo sistema político contratual e uma filosofia lógico-racional exigia colocar à margem toda a base metafísico-filosófica da escola peripatética.
cosmo nas regiões lunar e sublunar e defende a tese de que os corpos da região lunar − banhados pelo quinto elemento, o éter − são inalteráveis; e que os corpos da região sublunar − compostos por água, ar, terra e fogo − são alteráveis. A distinção do cosmo entre as duas regiões dá origem à teoria dos movimentos naturais. Segundo o estagirita, dos quatro elementos terrestres derivam dois movimentos naturais: os movimentos retilíneos para cima, dos corpos leves, e para baixo, dos corpos pesados; todos em direção a seus lugares naturais. Do quinto elemento, o éter, origina-se os movimentos dos corpos celestes: circulares, superiores, contínuos e eternos.
E, pela via da indução, a física aristotélica segue dividindo os movimentos dos corpos em dois grandes grupos: movimentos naturais e movimentos violentos. Parte- se do pressuposto de que os movimentos naturais se desenvolvem nos corpos e seguem a estrutura a priori do cosmo para o alto, para baixo ou em círculo; e de que Terra e fogo, água e ar fundem fisicamente os movimentos naturais corruptíveis e variáveis. Já o éter, assegura o movimento circular comum apenas aos corpos celestes, incorruptíveis e invariáveis. Assim, independentemente de sua direção, os movimentos naturais são considerados por Aristóteles como a forma que o “Ser” encontra para levar de volta os corpos aos seus lugares naturais, onde devem repousar e permanecer. Quaisquer movimentos contrários a esses implicam uma desordem e um desequilíbrio na estrutura perene do cosmo, sendo, por isso, considerados movimentos violentos.
Já a proposta da ciência moderna implica uma mudança radical nessa estrutura. O novo estatuto científico obriga o rompimento com as teorias dos movimentos naturais, das direções a priori e dos lugares naturais a serem ocupados pelos corpos. Contrariamente à tradição Aristotélica, Galileu afirma não haver em absoluto, assim como Hobbes, lugares naturais aos corpos ou direções predeterminadas a serem seguidas por eles. Aos poucos será abandonada a concepção de universo fechado e colocado em seu lugar um universo aberto, o que implicará no abandono das noções aristotélicas de lugar natural, movimento natural e movimento violento. Nesse contexto, uma única certeza animava o pensamento moderno: era preciso dar lugar ao raciocínio bem conduzido de base geométrica e à observação sistematicamente organizada para que os fatos pudessem ser quantitativamente determinados.
não poderia estar errada. Contra Aristóteles e seus seguidores, afirma que os corpos pesados caem “não por causa de um apetite para repousar e conservar sua natureza no lugar mais adequado para eles”. Isso seria um contra-senso, seria atribuir “de maneira absurda, a coisas inanimadas o apetite e o conhecimento do que é bom para a sua conservação.”24 (L, 1, II, p. 17-8). Nesse sentido, ele avalia:
Se desejardes saber por que razão um certo tipo de corpo cai
naturalmente no chão enquanto outros se elevam dele naturalmente, as escolas dir-vos-ão, baseadas em Aristóteles, que os corpos que caem são pesados e este peso é que os faz descerem. Mas se lhes perguntardes o que entendem por peso, defini-lo-ão como uma tendência para se dirigir ao centro da terra, de tal modo que a causa pela qual as coisas caem é uma tendência para estar embaixo, o que é o mesmo que dizer que os corpos descem ou sobem porque o fazem. Ou dir-vos-ão que o centro da terra é o lugar de repouso e conservação para coisas pesadas, e portanto os corpos tendem a ir para lá como se as pedras e os metais tivessem desejos, ou
pudessem discernir em que lugar querem estar [...].25 (Ibid., 4, XLVI,
p. 564).
De posse dessas pressuposições, há questões pontuais da cosmofísica tradicional que a nova física trataria de derrubar. Em primeiro lugar, a física não poderia basear-se numa teleologia metafísica ao modelo daquela defendida pela tradição aristotélica26. Também não poderia ir à diante fundamentada na crença da existência de naturezas qualitativas ou em realidades hierarquicamente ordenadas que dessem vida e desejos aos corpos inanimados. Numa frase: os corpos e os seres não poderiam estar distribuídos em ordens pré-determinadas ou ocupando
24 “[…] out of an appetite to rest, and to conserve their nature in that place which is most proper for them; ascribing appetite, and knowledge of what is good for their conservation, (which is more than man has) to things inanimate, absurdly.” (L, 1, II, p.15).
25 “[...] If you desire to know why some kind of bodies sink naturally downwards towards the Earth, and others goe naturally from it; The Schools will tell you out of Aristotle, that the bodies that sink downwards, are Heavy; and this Heavinesse is it that causes them to descend: But if you ask what they mean by Heavinesse, they will define it to bee an endeavour to goe to the center of the Earth: so that the cause why tings sink downward, is an Endeavour to be below: which is a much as to say, that bodies descend, or ascend, because they doe. Or they will tell you the center of the Earth is the place of Rest, and conservation for Heavy things; and therefore they endeavour to be there: As if Stones, and Metalls had a desire, or could discern the place they would bee at […].” (L, 4, XLVI, pp. 467-8). 26 A teleologia aristotélica define que todas as coisas estão destinadas a um fim em conformidade com a causa final de sua existência. Nesse sentido, tudo quanto existe possui uma matéria, que em potência pode adquirir ou receber uma forma específica por meio de uma causa eficiente, que o molda para a causa final de sua existência. O ato representa a própria existência do objeto e está para a potência como forma de sua concretização. O que transforma a potência em ato é o movimento, que gradativamente a conduz ao seu termo final (telos), isto é, à sua perfeita realização. O ato representa, ainda, a ordenação hierárquica da realidade que vai de um limite inferior, a matéria, ao Primeiro Motor, o ato puro, eternamente ativo. (Sobre a teoria das quatro causas e a relação entre ato e potência trabalhada por Aristóteles, ver a obra Metafísica do capítulo VI ao X).
lugares naturais e específicos no espaço, seguindo uma compreensão estática do cosmo.
Em segundo lugar, a nova física não poderia concordar com a cosmofísica tradicional na tese de que repouso e movimento são qualidades inerentes aos móveis. No sentido contrário, a física moderna assume a postura de que movimento e repouso não são processos antagônicos que definem a natureza de um corpo, mas estados relativos aos corpos que não os alteram. Disso resulta que um movimento circular pode pertencer tanto aos corpos terrestres quanto aos corpos da região celeste, assim como o movimento reto pode ser encontrado em corpos lunares sem nenhum sentido de desordem. Ademais, o movimento circular não poderia ocorrer naturalmente sem o movimento reto como seu precedente. Afinal, o movimento é um estado e não uma qualidade inerente aos corpos.
Em seu aspecto geral, a cosmofísica aristotélica tinha a dificuldade de identificar o espaço concreto do cosmo finito e bem ordenado com o espaço da geometria. Nela, o movimento é considerado um procedimento que afeta e altera diretamente o corpo, tendo sentido apenas dentro do quadro de passagem da potência ao ato. Isso leva necessariamente à crença na existência de uma fonte externa, o chamado “motor imóvel”, como princípio do movimento. E a oposição de Galileu a esse modelo de movimentos, entre outras razões, baseia-se na defesa de que há movimentos que não são nem naturais nem violentos, o que é o caso do movimento circular de uma esfera. Ele explica que, em princípio, não é natural à esfera o movimento, não há nela nenhuma propensão para tal. Por outro lado, seu movimento também não é violento, pois ele é contínuo e pode se prolongar indefinidamente.
À medida que a modernidade se impõe, a reapreciação da cosmofísica tradicional torna-se uma exigência. A maioria dos seus pressupostos, axiomas e postulados tendem a ser revistos, já que o ideal de um cosmo repousante, finito e limitado não é mais aceitável. A questão fundamental é que a velha física deixava em aberto pontos essenciais para os novos padrões do conhecimento, mostrando-se demasiadamente apegada à metafísica em um campo que se apresentava, doravante, mais tendente à observação e experimentação das racionalizações e abstrações. Reflexos dessa revisão são emitidos diretamente na filosofia, que, a partir de então, é obrigada a pensar-se de novo e a lançar um olhar sobre si mesma, abrangendo os mais variados campos de sua própria reflexão.