1. Introduction
1.2 Sex differences of ADHD across a lifespan
Córdova e Silveira (2009, p.31-33) assumem que pesquisas científicas podem ser classificadas não somente quanto à abordagem (qualitativa e/ou quantitativa) mas, também, quanto aos procedimentos considerados úteis aos propósitos cultivados por um pesquisador. Para as referidas autoras, a fim de que um trabalho científico possa ser devidamente construído, “é indispensável selecionar o método de pesquisa a utilizar. De acordo com as características da pesquisa, poderão ser escolhidas diferentes modalidades de pesquisa, sendo possível aliar o qualitativo ao quantitativo.” (2009, p.36). Torna-se necessário, assim, delinear a modalidade de pesquisa própria a este trabalho, a saber, a análise documental. Para tal, contribuições de Cellard (2010) serão utilizadas enquanto fontes primárias para a descrição dos principais aspectos desse tipo de pesquisa.
4.2.1: Documentos: definição e classificações
Cellard (2010, p.296) explica que a História, enquanto ciência, foi a principal responsável por produzir teorizações a respeito da noção de “documentos” como alvo de estudo, uma vez que estes foram (e ainda são) uma de suas ferramentas de trabalho mais importantes. De modo geral, a partir de estudos realizados por Langlois e Seignobos ao final do Século XIX (1898), o autor descreve duas noções para o termo, a saber, uma restrita e outra de caráter mais abrangente. Assim, a noção de documento mais limitada refere-se essencialmente a arquivos oficiais, sobretudo em virtude da própria abordagem de trabalho assumida por historiadores e autores de épocas passadas, os quais privilegiavam fatos e gestos dos políticos. (2010, p.296-297). Ao longo do tempo, contudo, a visão que restringia a noção de documento enquanto uma produção ligada a setores específicos da vida social (notadamente aqueles de natureza política) passa a ser ampliada e revisada devido ao próprio avanço científico da História. Assim, outras noções mais recentes e amplas defendem a ideia de que “tudo o que é vestígio do passado, tudo o que serve de testemunho, é considerado como documento ou ‘fonte’, como é mais comum dizer, atualmente.” (CELLARD, 2010, p.296).
A partir das considerações colocadas pelo referido autor, é possível afirmar que perspectivas mais atuais não restringem o objeto “documento” apenas a textos ou artefatos que contenham elementos escritos, visto que passam a contemplar, também, “documentos de natureza iconográfica e cinematográfica, ou de qualquer tipo de testemunho registrado, objetos do cotidiano, elementos folclóricos, etc.” (2010, p.296- 297). Considerando tais apontamentos, no caso da pesquisa em questão, pode-se afirmar
que tanto os livros didáticos selecionados quanto alguns dos documentos, normas ou resoluções oficiais mencionados ao longo deste trabalho (tais como o Edital de Convocação para obras inscritas no PNLD-2015) configuram documentos escritos produzidos e disponibilizados, respectivamente, nos meios impresso e digital.
Além de tecer esclarecimentos sobre as principais noções que podem balizar a maneira como documentos são encarados, Cellard propõe dois critérios gerais para classificá-los, a saber, quanto à natureza (de domínio público ou privado) e à forma de tratamento (documentos arquivados e não-arquivados). Levando em conta tais critérios, documentos públicos passam a designar quaisquer tipos de documentação usualmente numerosa e classificada de acordo com aspectos específicos. Além disso, ainda que sejam de domínio público, o acesso a esses documentos pode ser limitado ou mesmo inviável, especialmente se forem arquivados. Tais apontamentos são colocados por Cellard (2010, p.297), para o qual documentos públicos arquivados correspondem a “arquivos governamentais (federais, regionais, escolares ou municipais)” e “arquivos de estado civil, como alguns arquivos de natureza notarial ou jurídica.” Para o referido autor, documentos públicos não-arquivados englobam, por sua vez, “jornais, revistas, periódicos e qualquer outro tipo de documentos distribuídos: publicidade, anúncios, tratados, circulares, boletins paroquiais, anuários telefônicos, etc.” (2010, p.297). Documentos privados, por fim, correspondem precisamente àqueles que não estão vinculados ao domínio público, embora também possam ser arquivados. Frequentemente, documentos dessa natureza são de difícil acesso e incluem, geralmente, “autobiografias, diários íntimos, correspondências, histórias de vida, documentos da família” ou outros documentos pessoais (CELLARD, 2010, p.297-298).
Assumindo as classificações descritas pelo autor supracitado, é possível categorizar os livros didáticos selecionados nesta pesquisa como documentos públicos não-arquivados, uma vez que constituem produções distribuídas por meio de um programa de iniciativa pública federal. Entretanto, cabe ressaltar que tal distribuição foi direcionada a um público preferencial, a saber, alunos do Ensino Médio e professores de Língua Portuguesa de escolas públicas. Assim, enquanto informação responsável por elucidar o aspecto relativamente restrito da distribuição dos volumes utilizados neste trabalho, é válido destacar que tais obras foram entregues ao autor desta pesquisa em 2014, durante o período em que trabalhava como Professor Auxiliar de Língua Portuguesa em uma escola pública da Rede Estadual localizada no interior do Estado de São Paulo. Os volumes foram distribuídos como material de divulgação de editoras cujas
coleções de livros haviam sido aprovadas pelo PNLD-2015, para possível seleção do corpo de professores que delas desejasse fazer uso nos anos seguintes. Por estar acessível digitalmente e poder ser consultado por quaisquer indivíduos que detenham computadores ou dispositivos com acesso à internet, o Edital de Convocação com critérios de avaliação para livros submetidos ao PNDL-2015 também pode ser classificado enquanto um documento de natureza pública não-arquivado, a partir das considerações de Cellard.
Acerca dos processos que envolvem a construção de uma análise documental, o autor mencionado aponta como importante atividade a descrição das condições sociais que permearam a produção de determinado documento, levando em conta seus autores e possíveis públicos-alvo. Essa ação se justifica pelo fato de ser considerada essencial às diferentes etapas de uma pesquisa documental, partindo desde a formulação de um problema até a realização da análise propriamente dita (CELLARD, 2010, p.299-300). Mencionar o processo de criação do PNLD e suas características mais expressivas no terceiro capítulo desta dissertação (notadamente a partir da seção 3.2.2) tornou-se, portanto, uma atividade útil ao entendimento dos principais aspectos do cenário político e educacional ligado à produção de livros didáticos destinados ao ensino público brasileiro. Desse modo, contextualizar a formação e o desenvolvimento do referido Programa pode favorecer a análise dos volumes considerados nesta pesquisa, especialmente ao se levar em conta a existência de documentos oficiais direta ou indiretamente associados a eles.
Além de reconhecer o papel do contexto, das problemáticas e dos conhecimentos teóricos envolvidos na construção de uma pesquisa, Cellard não deixa de reconhecer a própria posição teórica ou ideológica assumida pelo pesquisador enquanto outro elemento influente no fazer científico. (2010, p.304). Essa colocação pode estabelecer paralelos com pressupostos da pesquisa de base interpretativista descritos por autores como Erickson e Moita Lopes mencionados na seção 4.1 deste capítulo uma vez que, a depender do paradigma teórico assumido por um pesquisador, podem ser encontradas diferentes possibilidades para a compreensão de um mesmo objeto, fenômeno ou situação. Desse modo, assumir determinadas perspectivas teórico-metodológicas pode fundamentar a ênfase dada a questões específicas abordadas por um pesquisador, tornando-se igualmente relevante a delimitação das possíveis justificativas que o levaram a elaborar um ou mais objetivos para seu trabalho, como será feito a seguir.