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Entendemos que os limites do rural com o urbano são cada vez mais tênues, embora existam algumas diferenças ainda claras. Isso tem sido analisado por estudiosos, principalmente, a partir da segunda metade do século XX, período em que o processo de urbanização, no mundo, torna-se mais intenso.

As mudanças nas relações rural-urbanas, como exibe Veiga (2007), tanto do ponto de vista econômico, quanto social, político e até ambiental, repercutem fortemente no processo contínuo de produção do espaço geográfico.

Diante dessas mudanças causadas pela urbanização, buscou-se desenvolver teorias que explicassem as relações rural-urbanas. Mediante o estreitamento das fronteiras entre o campo e a cidade, exacerbado na década de 1970, surgiram duas matrizes teóricas, que são antagônicas no que tange às suas hipóteses. Uma, desenvolvida por Henri Lefèbvre, privilegia o polo urbano, enquanto a outra, defendida por Bernard Kayser, privilegia os valores rurais. Contudo, é comum aos dois teóricos a interrelação desses dois polos, constituindo um continuum rural-urbano.

1.2.1 Teorias do Continuum Rural-urbano

A teoria do continuum rural-urbano representa um ponto em comum entre as duas citadas visões, ou seja, rompe-se com a ideia da dicotomia e busca-se explicar, a partir de polos diferentes, que há uma continuidade no que tange às relações sociais e econômicas dos dois espaços – o rural e o urbano – no sentido da valorização, talvez pouco descrita, do princípio da totalidade do espaço geográfico.

Outro ponto em comum entre Lefèbvre e Kayser é a base conceitual da diferenciação do rural e do urbano: ambas diferenciações se dão a partir da

perspectiva da divisão do trabalho e dos instrumentos de produção, defendidos por Karl Marx.

A partir de uma visão centrada no urbano, Lefèbvre defendia a teoria da completa urbanização, mediante a qual o espaço rural se “esvaziaria” com o crescimento urbano, já que se acreditava no urbano como fonte do progresso, o que levaria ao domínio do urbano sobre o rural.

Por sua vez, Kayser com sua hipótese do renascimento rural, tomava como base a ideia de que há uma relativa aproximação e integração dos dois polos antagônicos – o rural e o urbano, formando um continuum espacial, com elementos dos dois espaços. Este continuum refere-se tanto às atividades econômicas, quanto ao modo de vida e às posições sociais (WANDERLEY, 2001).

Não se pode mais pensar o espaço rural e o espaço urbano como isolados ou dicotômicos. Presentemente, pensaremos numa relação complementar, ou seja, num continuum.

Atualmente, o continuum é cada vez mais evidenciado, sem haver uma preponderância nem do urbano sobre o rural nem do rural sobre o urbano. Desta feita, parece coerente que:

Na atual etapa da globalização, a ruralidade dos países avançados não desapareceu, nem renasceu, fazendo com que as duas hipóteses fossem ao mesmo tempo parcialmente verificadas e refutadas, o que leva à formulação de uma terceira: o mais completo triunfo da urbanidade engendra a valorização de uma ruralidade que não está renascendo, e sim nascendo. (VEIGA, 2004, p. 58).

Portanto, é preciso compreender o dinamismo da “ruralidade” dos nossos dias, pois as classificações sustentadas em atividades econômicas ou morfológicas para delimitar as diferenciações entre os espaços urbanos e rurais tornaram-se insuficientes. Por isso, atualmente, as fronteiras entre os espaços rurais e urbanos tornaram-se cada vez mais imprecisas. Nesta perspectiva, Kayser (1996) já não fala mais em um renascimento rural, mas, de novas

ruralidades, desse modo a ruralidade que trabalharemos é nessa perspectiva de Kayser.

Abramoway (2000) aponta restrições no sentido da nítida separação entre esses espaços, uma vez que a classificação oficial é definida na intenção de arrecadação fiscal, o que contribui para uma interpretação parcial do espaço, quando se menospreza a dimensão geográfica, social e cultural, baseando-se apenas em aspectos econômicos. Nesse sentido, geralmente se traduz o rural como atrasado e o urbano como o moderno e próspero (ABRAMOWAY, 2000).

Assim sendo, Carneiro (1998) diz sobre o conceito de trás características comuns ao modo de viver urbano também chegaram ao campo, sem, contudo, descaracterizá-lo.

Diante de uma ruralidade que se renova e de uma urbanidade que, também, se encontra cada vez mais autêntica, percebe-se que é preciso entender em que medida a relação urbano-rural deve ser vista como um processo dialético e complementar. Assim, é preciso entender o papel da AU neste processo integrativo, que é a relação urbano-rural.

Ao falar em complementaridade rural-urbana, não a colocamos no sentido de harmonia e equidade de exploração entre ambos. Isso porque compreendemos, como Corrêa (1994), que já houve uma ruptura deste equilíbrio desde que a sociedade primitiva perdeu sua estrutura igualitária, ao produzir excedentes e novas formas socioespaciais deste modo de produção, entre elas a cidade.

Também não nos esquecemos de que todo o desenvolvimento tem uma base territorial e que o espaço rural também é dotado de capital social, além de todos os outros fatores que, juntos, são capazes de promover desenvolvimento dos territórios, como defendem Abramoway (2000) e Veiga (2002 e 2004). Nesse sentido, segundo Mougeot (2000, p. 05), a AU “complementa a agricultura rural em termos de autoconsumo, fluxos de comercialização e fluxos de abastecimento do mercado”, contribuindo assim para a reflexão sobre a complementaridade entre o rural e o urbano.

Desse modo, ao falarmos em complementaridades rural-urbanas, não significa, necessariamente, discorrer sobre equidade da “troca de recursos” entre os espaços, mas preponderantemente é fazer referência à interação entre estruturas, funções e formas espaciais. É nesse sentido que acreditamos haver complementaridade entre o rural e o urbano, assim como também, entre a agricultura e a cidade. Nesse sentido, a AU assume papel importante no processo de desenvolvimento dos espaços.

1.2.2 – A agricultura e a cidade

Um dos mais importantes elementos mais característicos e que contribui na delimitação dos espaços rurais sempre foi a predominância das atividades agrícolas. E, mesmo diante da atual multifuncionalidade do espaço rural, essa delimitação ainda ocorre pela morfologia da paisagem. Contudo, é importante atentar para o fato de que a agricultura e a cidade nutrem, desde o princípio, uma relação de conexidade, ou seja, complementaridade.

Por sua vez, a agricultura tal como atividade típica do “mundo” rural sempre esteve presente nos espaços urbanos, desde que existem cidades, como afirma Boukharaeva et al. (2005).

Nesta linha de pensamento, Jacobs (1971) é enfática ao afirmar que a origem da agricultura é na cidade. Para esta autora, a agricultura passou a ser produzida nos espaços rurais apenas quando a cidade não detinha área disponível suficiente para o cultivo.

Independente da origem da agricultura, se no campo ou na cidade, as economias urbanas sempre influenciam diretamente nos espaços rurais e vice- versa.

A integração do rural com o urbano levanta aspectos de cunho econômico, social e cultural com repercussão no espaço há muito tempo. O que se percebe é que a agricultura existe nas cidades desde seus primórdios. Atualmente, tanto a AU, quanto a periurbana e a rural são importantes para a sociedade e as economias. É consenso, entre os estudiosos, que os espaços urbanos e rurais

estão cada dia mais inter-relacionados. A AU é um elemento integrador do rural com o urbano por excelência, mesmo que ela exista mediante integração específica ao modo urbano de vida. Por isso, defendemos que a AU é uma atividade integradora que fomenta complementaridades rural-urbanas.

As reflexões sobre essa tênue relação rural e urbano são constantes e aplicáveis aos mais diferentes contextos. Desse modo, pretendemos refletir sobre a relação rural-urbano, observando a agricultura praticada dentro do espaço urbano, com a ideia de ruralização da cidade, na qual a população possui costumes rurais, por exemplo, praticando a agricultura, mas ao mesmo tempo estabelecendo relações econômicas e sociais com a cidade. (ARAUJO, 2003)

Assim sendo, para entender a natureza e a funcionalidade da AU, na atualidade, é preciso perceber as mudanças ocorridas no espaço geográfico, já que ele é, ao mesmo tempo, meio, condição, objeto e produto social, sendo, portanto, condicionante da reprodução social, tanto no âmbito do rural como no do urbano.