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5. Bruer i Børsa

5.2 Overgangsbru Børsa

6.5.4 Setningsmåling på bru og fylling, 2005-2011

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Agora chegou enfim o momento de começarmos a relacionar Bakhtin com o Jornalismo Opinativo que, afinal, é a proposta desta tese. Depois de uma etapa em que nos aprofundamos com o afã necessário para entender Mikhail Bakhtin em seu pensamento nada trivial, o objetivo agora é relacionar o que foi dito com o nosso objeto de trabalho. Somente arranhamos no todo os trabalhos do pensador russo, que ainda se dedicou bastante ao estudo do romance, da psicologia, das questões de ética e estética, autoria e também a temas de cultura. Contudo, dentro do âmbito da teoria discursiva, propusemos abordar de uma maneira abrangente suas ideias, e agora buscaremos alinhavá-las à nossa proposta.

Mesmo ainda no campo das teorizações, já é possível delinear traços e desenhar entendimentos do que acontece na vida. Como dissemos, para Bakhtin, teoria e vida são imbricadas. Olhamos essencialmente para as fagulhas quiméricas produzidas nas relações discursivas – também este um lugar da luta não física. Para não haver dúvidas, veremos um rápido exemplar de como os dizeres são ideológicos. Mesmo que o texto não faça parte dos editoriais, serve como exemplo cabal do que estamos pronunciando sobre a teoria da Filosofia da Linguagem. No dia 02 de agosto, quando estava a esquentar a disputa política, a colunista Maria Rita Kehl (2010) escreveu uma coluna denominada Dois pesos para o jornal O Estado de S.Paulo. De início ela elogiou o jornal por assumir a postura de apoiar José Serra, depois falou sobre classes sociais (diz que não existem mais) e o espetáculo em que a política se transformou, com destaque para a maquiagem que a TV produz (algo que, segundo a autora, não acontece na discussão política via internet).

O texto seguia falando sobre as "correntes" de internet que desqualificam o projeto Bolsa-família, destratando o fato de algumas pessoas considerarem a distribuição direta de renda como uma esmola ou compra de votos. O ponto principal de Maria Rita era falar que o programa dá tão pouco dinheiro, que é preciso ser muito pobre para aquela renda fazer diferença na vida de alguém, bem como existe um discurso de manutenção do status quo – haja vista que ricos precisam ter serventes sempre à disposição. Ela prosseguiu na mesma linha de pensamento até o gran finale:

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos (KEHL, 2010).

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Bem escrita pela psicanalista, a coluna criou uma celeuma dentro do Estadão. Primeiro porque o texto recebeu diversas críticas dos leitores do jornal (na internet foram 467 comentários e, de acordo com o que a autora disse em entrevista posterior, ela teria cometido um "delito"39 de opinião). O imbróglio se formou após Kehl ter sido demitida, afirmando ser por causa das reações ao que havia escrito no episódio citado e em anteriores – chegando até a insinuar parcialidade40: "É tudo tão absurdo... A imprensa que reclama, que alega ter o governo intenções de censura, de autoritarismo..." (KEHL apud FERNANDES, 2010)¹. O próprio jornalista Bob Fernandes (2010)² se incumbiu de entrevistar o diretor de conteúdo do Grupo O Estado de S.Paulo, Ricardo Gandour, que se defendeu dizendo haver praticado um revezamento de colunistas (o que seria comum na imprensa) e que já havia tido conversas da troca antes mesmo do episódio, só que sem a presença de Kehl.

Até mesmo a questão de censura foi muito tocada, só que de maneira errônea, já que o ato, a priori, constitui na não publicação – o que não aconteceu no caso específico, posto a coluna ter saído. Sem deixar de admitir que foi uma "coluna forte" em um "momento delicado", o diretor sustentou a tese de que a colunista estaria fugindo daquilo para o que havia sido estipulado, ao contratá-la:

O projeto original no caderno C2 + Música é de ter ali, aos sábados, um espaço em torno da psicanálise. Um divã para os leitores. Mas esse não era o enfoque que ela vinha praticando e frequentemente conversávamos sobre isso (GANDOUR apud FERNANDES41, 2010).

Se, por um lado, o diretor do jornal não mentiu ao dizer que a troca entre colunistas é constante na imprensa, até para garantir a pluralidade de vozes, por outro ele mostrou, digamos, uma contraposição em termos: a cronista escrevia quinzenalmente para um suplemento extra dentro do Caderno 2 do Estadão desde 6 de fevereiro de 2010. Quando da própria apresentação de Kehl aos leitores, o texto mostrava que a autora prometia experimentações, notadamente para o lado das crônicas, e que os leitores não deveriam esperar temas psicanalíticos na coluna (como depressão ou mulher freudiana) (cf. COZER, 2010). Mesmo com Azevedo (2009, p.63) sustentando que a pluralidade externa dos editoriais é reduzida, não sendo permitida a visibilidade plena de atores políticos e sociais relevantes da sociedade civil – as

39 Vide Referências: Fernandes (2010).

40 A própria Kehl nunca classificou como censura o acontecimento, mas sim como um ato em que o jornal não permite uma visão diferente da do veículo.

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estratégias utilizadas nos gêneros editoriais, com abordagens diversas de estilos e temas, dão novo significado ao conceito que Melo (1992) classificou como "pequenas rebeliões". Nesse caso exemplar, também podem ocorrer revoltas nos editoriais – quando um tema não agradável transbordou à política editorial da empresa.

Visualizar o lado da psicanalista ou do jornal mais a fundo não é o nosso foco, haja vista, uma vez mais, que a coluna da autora nem está dentro do nosso corpus pré- determinado. Mesmo assim, é válido mostrar como um texto gerou uma grande polêmica – chegando ao ponto, até mesmo, do desligamento efetivo de sua autora – passando da materialidade do texto para a simbologia da defesa de um argumento e retornando para o afastamento. Se lermos calmamente podemos até conceber que Maria Rita Kehl não fez nenhuma defesa aberta ao programa de transferência de renda do governo petista, tampouco assumiu uma posição radical de negação. Por meio de uma estruturação elegante, ela simplesmente elencou vários argumentos que já estão dispostos na sociedade – em um trabalho até mais descritivo que analítico (ou seja, não apresentou nenhum argumento novo)42.

O burburinho, aliado ao momento em que o país estava vivendo na corrida eleitoral foi estopim que levou a uma consequência drástica (tanto que até jornais concorrentes comentaram o fato, transformando o caso em notícia) e nos auxiliam enormemente a demonstrar como questões discursivas são ideológicas e fazem parte da vida cotidiana. De certa maneira a colunista aglutinou opiniões dispersas da internet, portanto do contexto da ideologia não oficial, e as transpassou para um gênero estabilizado, em um dos mais tradicionais periódicos. O problema foi tais argumentos terem ganhado o espaço público da coluna, chegando até o público leitor, tendo "vez" em um jornal de grande circulação e peso político.

Claro que o conflito ficou aparente, bakhtinianamente falando, quando o discurso de outrem (dos defensores dos programas de transferência de renda) tomou um espaço onde ele não era "bem-vindo". No entanto, o próprio rechaço por parte dos leitores – e a aceitação das reclamações por parte do jornal, culminando na demissão, dá margem para várias interpretações, como a do interesse do jornal em não apoiar tal discurso, ou o atendimento do jornal às expectativas de seus leitores mais radicais, ou até mesmo o estabelecimento de uma estratégia para não ser acusado de censura prévia: publica-se o texto e depois se consolida a impossibilidade de a psicanalista prosseguir

42 Também não somos ingênuos ao ponto de não crer que a autora é filiada à tese de que a Bolsa Família é um bom programa de governo. Se não fosse, não teria perdido tempo de comentá-lo na coluna.

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titular da coluna (configurando a velha disputa patrão-empregado), ou até mesmo nenhuma das versões anteriores. O que se destaca é que a Filosofia da Linguagem ultrapassa as fronteiras da questão de língua e assume posto no dia a dia – aberta a interpretações, porém nunca distante de ser uma disputa ideológica relacionada ao contexto sócio-histórico. De todo modo, um texto/discurso nunca é uma mera tábula rasa sem emanar significados – seja no caso que utilizamos ou em qualquer outro exemplo de gênero discursivo.

Assim, podemos pensar na questão da Filosofia da Linguagem a partir de uma metáfora apresentada pelo teórico da comunicação, professor Jesus Martín-Barbero, em uma palestra proferida na Faculdade de Comunicação, no Máster de Comunicación y Cultura da Universidade de Sevilha, Espanha. O docente apontou como foi a formação do seu conceito de mapa noturno43, elaborado nos anos 1980 e revisto no início de 2000. A ideia centelha de Martín-Barbero, explicada na palestra, mostra-nos que o escritor Antoine de Saint-Exupéry foi pioneiro na aviação noturna sobrevoando a Espanha até a África. Muitas vezes, pela noite, antes de todo maquinário de precisão de hoje, os guias eram mapas nada precisos: no auxílio da leitura da bússola estavam estrelas e luzes em terra. Assim, para o professor, era uma caça incessante do aviador, sentado sobre toneladas e prosseguindo sobre um “vazio”. O mapa noturno, dentro de um voo igualmente noturno, assinala um quê de não se saber precisamente para onde estará indo, mas sempre tomando em conta sinais outros.

Porém, como um fumo escuro, a noite ia crescendo e já enchia os vales, confundindo-os com os campos. E também já se alumiavam as aldeias, e as constelações que elas formavam respondiam umas às outras. E ele, por sua vez, acendendo e apagando as luzes de posição respondia às aldeias. A terra enchia-se de apelos luminosos, cada lar ateando a sua estrela perante a noite imensa, tal como a luz dum farol voltado para o mar. Tudo o que abrigava uma vida humana cintilava já (EXUPÉRY, 2009)44.

Martín-Barbero disse que desenhar um mapa noturno é dizer aquilo que não pode ser mostrado em um mapa feito para a luz diurna: é ver de longe sinais diferentes do que se está acostumado a ver. Ainda segundo o professor, vivemos um mundo sem saber claramente como será o futuro: tudo se turva. Nas palavras dele: a esfera

43 Não é nossa preocupação adentrar neste conceito teórico, mas sim fazer uma relação possível com a nossa teoria. O conceito de Jesus Martín-Barbero de mapa noturno refere-se: “con el que buscaba reubicar el estudio de los medios desde la investigación de las matrices culturales, los espacios sociales y las operaciones comunicacionales de los diferentes actores del proceso” e “un mapa para indagar la dominación, la producción y el trabajo pero desde el otro lado: el de las brechas, el consumo y el placer” (MARTIN-BARBERO, 2002, p.6).

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econômica passou a ser regida pela velocidade e fluxo de dados e valores; o mundo do consumo é feito para ser fugaz e criar a necessidade do hábito de compra; a juventude prega outros valores e escandaliza os mais velhos; as migrações se fazem constantes, mas, agora, em um fluxo global; o trabalho formal cai enormemente e nasce a informalidade laboral – destituindo do seu trono a figura de classe (coletivo sob o jugo de um patrão).

Nesse cenário é que chegamos: primeiro mostrando que a relação espaço-tempo se alterou junto com os processos mediativos e comunicacionais. Fluxos, espaços, migração, mediação, e, claro, condições de produção já não são os mesmos. Os processos deixaram de ser entendidos em um sentido único, tornando-se mais uma forma de rede, uma interligação, interconexão entre situações e cenários variados de um mundo amplo e cada vez menor nas relações sociais e comunicativas. A supraestrutura se mesclou com a infraestrutura no todo da vida cotidiana. Então, no âmbito da comunicação, temos não somente que inverter o olhar que antes visava apenas entender as mediações sociais e culturais dos meios de comunicação. O momento é ver a cultura e as mediações a partir da comunicação, da discursividade. Nossa maneira de entender mudou e, com nosso olhar, o mundo mudou junto, nos mostra Martín-Barbero:

Y es desde esa multiplicidad de cuestiones y experiencias, de datos duros y de metáforas, que se van construyendo articulaciones más y menos fuertes de lo económico, lo laboral y lo político, avizorando encrucijadas estratégicas de la economía con la cultura, puntos focales en la reorganización de las instituciones y las socialidades (MARTÍN-BARBERO, 2002, p.5).

92 Elas desejam ser olhadas de azul – Que nem uma criança que você olha de ave. Uma didática da invenção – Manoel de Barros