2. TEORETISK FORANKRING
2.1 S PRÅK OG KOMMUNIKASJON
2.1.3 Setningsforståing
um ideal frustrado na Itália do pós-guerra e de mais uma característica que fundamente o recorte do corpus desta pesquisa: segundo Corti, Beppe Fenoglio, com seu romance póstumo Il partigiano Johnny, constitui a única exceção de uma épica popular bem sucedida nos autores neorrealistas.
A terceira constante trata da tensão moral e formal de que estavam dominados os escritores do Neorrealismo na Itália. Tal tensão, como também a segunda constante da ―idéia de uma potencialidade narrativa nova‖, nasce da impossibilidade de aqueles escritores permanecerem, em qualquer lugar da península, indiferentes a ―uma nova realidade popular e a um novo sentido de coletividade como força ativa e comunicante‖. De onde deriva a constante que está expressa no ―programa de engajamento, a consciência de um engajamento como modelo de comportamento absoluto do intelectual e do artista‖51.
Logo, o que entendo aqui como Neorrealismo é um conjunto de obras e autores que estavam lidando em seus textos diretamente com essas questões, sem resolvê-las. Pois o Neorrealismo ―é um modo de organizar-se da experiência histórico-social de um momento da coletividade italiana; daqui sua função de signo em uma tipologia da cultura italiana pós-bélica‖52.
2.3 A literatura neorrealista em divergências
Faço minhas, novamente, as palavras de Corti, quando a autora afirma que poucos são os autores cuja produção possa ser entendida como inteiramente neorrealista, já que o Neorrealismo nasce de um momento histórico, e não de uma imposição ou suposição
50 A autora cita em resposta a célebre frase do germanista Cesare Cases: ―Vivemos em um país onde se
verificam sempre as causas e nunca os efeitos‖. A discussão prossegue no texto em questão, a que enviamos para possível aprofundamento (CORTI, 1978, p. 35).
51
Sobre o desenrolar mal sucedido de muitas das pretensões explicitadas nessas constantes, enviamos ao mesmo texto de Maria Corti, em que a autora trata das dificuldades, para o escritor neorrealista, em realizar plenamente seu propósito (CORTI, 1978, p. 36).
52
estética a priori, momento esse em que se produziu
uma verdadeira fratura nas condições políticas em que a consciência do rompimento é não apenas genuína, mas com raízes novas, resistenciais, de onde seu caráter mais coletivo e ligado a um processo liberatório generalizado: a humanidade assistiu e participou de grandes fatos e por isso nela explode (...) a vontade de narrá-los 53.
A partir do argumento de maior ou menor aproximação a esse momento histórico (fato que não decorre necessariamente de uma coincidência cronológica, mas, advindo de caminhos distintos, é percebido diretamente nas obras literárias), Corti apreende a relação dos autores com o Neorrealismo. Segundo a autora, Elio Vittorini e Cesare Pavese, comumente enquadrados entre os neorrealistas por se tratarem de autores já em exercício antes do fenômeno da Resistência, teriam sofrido menor influência e seriam, principalmente, grandes referências aos autores jovens, que começariam a escrever a partir da experiência da Resistência, estes, sim, neorrealistas.
Elio Vittorini, nascido no sul da Itália, desenvolveu uma escrita muito mais ligada ao ―Verismo‖, com a problemática meridional e o dialeto siciliano ocupando forte papel na narrativa. Apenas o livro Uomini e no (1945) é visto por Corti como neorrealista54.
Cesare Pavese via muito desconfiadamente os partigiani. Não lutou na Resistência, não empunhou armas, nunca compreendeu direito porque devesse necessariamente fazê-lo. A Resistência aparece em sua obra muito mais como um fato mítico que se soma a tantos outros do que como fator determinante ao desenrolar dos fatos e/ou evoluir dos personagens. Apenas o livro Il compangno é considerado por Corti uma obra neorrealista.
53
CORTI (1978, p. 30).
54
A autora exclui da produção neorrealista do autor seu livro mais célebre, Conversazione in Sicilia, alegando ter temática neorrealista, mas afirma que o ―nível formal da obra guia para uma leitura mítico- lírica que com o Neorrealismo não tem nada em comum‖ (CORTI, 1978, p. 25).
Italo Calvino, por sua vez, profundamente formado pela Resistência – foi partigiano nas montanhas –, escreveu apenas seu primeiro livro dialogando diretamente com o Neorrealismo (Il sentiero dei nidi di ragno, de 1947). Após a publicação de muitos textos apenas de memória e crônica jornalística daquele ambiente, Il sentiero é considerado unanimemente pela crítica o primeiro texto do pós-guerra já definitivamente uma transposição literária do ambiente resistencial. Depois dele, Calvino passou para a chamada ―fase fantástica‖ (Il barone rampante, Il cavaliere inesistente e Il visconte dimezzato) e, a partir daí, sua produção passou a ser esteticamente muito mais ligada ao surrealismo e ao OuLiPo55 do que propriamente ao Neorrealismo.
Quase como confirmação da tese sustentada por Corti de que Pavese e Vittorini foram pouco influenciados pela linguagem/temática da Resistência e Calvino, rapidamente, seguiria outro caminho, agrego aqui um argumento biográfico fundamentado no papel por eles desempenhado no sistema literário italiano do pós-guerra. Os dois primeiros exerciam já uma função decisiva no mundo da literatura durante a Guerra; Pavese, como tradutor, Vittorini, como editor. Calvino, embora mais jovem, desde muito cedo resenhava, escrevia críticas e artigos em jornais italianos. Em comum, diria que o percurso dos três autores aconteceu dentro de uma das maiores editoras da Europa naquele momento, a Einaudi, onde eles exerceriam papéis de grande importância no país, lendo tudo o que se publicava na Itália, emitindo juízos de valor sobre os textos, filiando-se e desfilando ao Partido Comunista, discutindo, teoricamente, que Itália propor e que Itália negar, ocupando posições na imprensa nacional, traduzindo, resenhando e levando a público livros e autores.
Beppe Fenoglio, também segundo Corti, permaneceria, ao contrário dos outros três, um exemplo produtivo de autor neorrealista. Sua obra, e daqui decorre uma das principais hipóteses fundadoras desta pesquisa, está fortemente inserida na Resistência, fenômeno chave para o Neorrealismo, com seus temas, ritmos e dramas característicos. Considero então sua produção paradigmática para pensar os problemas vividos pela literatura
55
Surgida na França no ano de 1960, o OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentielle) é uma corrente literária formada por escritores e matemáticos que propõe a libertação da literatura, aparentemente de maneira paradoxal, através dos chamados constrangimentos literários. Seus principais autores são Raymond Queneau, François Le Lionnais e Georges Perec, além do próprio Italo Calvino.
naquele período. Fenoglio, além de ter sido um outsider da literatura italiana pela separação física dos outros autores do período e do mundo da literatura (nunca uma resenha, uma crítica, um ensaio), foi também o único cuja cronologia das obras, mesmo com alguns pontos obscuros, mostra um autor em pleno 1963 ainda escrevendo literatura sobre a experiência da Resistência italiana em que vigora o desafio de muito mais de um século: como continuar narrando literariamente na modernidade, com que língua, em que tipos textuais, com que temática, em que registro, a partir de que relação entre experiência e literatura ou tradição e literatura ou ainda morte e literatura.
Capítulo II
1 Duas obras em duas vidas: Walter Benjamin e Beppe Fenoglio
Naquele momento de transição, num pós-guerra de cenário desolador e ao mesmo tempo esperançoso, Beppe Fenoglio começaria a escrever num diálogo profundo com muitas das problemáticas levantadas alguns anos antes por Walter Benjamin. Provavelmente alheio a elas – é sabido que a biblioteca do escritor era composta principalmente de obras literárias, poucas de teoria da literatura –, a produção literária de Fenoglio parece pedir uma aproximação à teoria de Benjamin: um teórico que pagou com a vida o horror de uma experiência que um escritor narraria toda a vida.
Partindo da concepção de que em literatura a vida dos autores ou teóricos nem sempre é relevante, chego convicta à conclusão de que no caso de Benjamin e Fenoglio é extremamente relevante e até necessária uma compreensão da obra desses autores também em relação às suas vidas. No caso específico desses dois autores, obra e vida estão ligadas numa inseparável relação, que perpassa os escritos de ambos: Benjamin e Fenoglio se aproximam e conversam entre si quase que inevitavelmente. Nessa
chiaccherata por mim realizada, falam de suas obras – se aproximam principalmente por causa delas –, mas falam também de suas vidas, que, em comum, alimentam a lucidez, a clareza, o valor estético, o pessimismo e a esperança da modernidade e de a humanidade achar saídas para suas falências. Na conversa, ambos concordam que a maior dessas falências foi a Segunda Grande Guerra e que esse fato marcaria profundamente suas vidas e, consequentemente, suas obras.
Por isso, nesta pesquisa, o fio condutor da aproximação nada aleatória das duas vidas/obras é dado exatamente pela Segunda Guerra Mundial: ponto de partida e de chegada para as vidas e obras dos respectivos autores, com o desdobramento da Resistência, uma consequência trágica, mas também transformadora, que permitiria a Fenoglio propor uma nova tentativa de narração sobre a qual Benjamin não pôde refletir ou teorizar.
Aqui nasce o cerne da tentativa de aproximação entre Walter Benjamin e Beppe Fenoglio. Benjamim viveu, teorizou e foi morto pela mesma Segunda Guerra a que Fenoglio iria sobreviver alguns anos depois e sobre a qual iria escrever durante toda a vida. Ambos viveram a mesma encruzilhada histórica em momentos e perspectivas distintas e dela surgiu a obra teórica de Benjamin e a obra literária de Fenoglio. Benjamin teorizou sobre aquela crise e afirmou que, com todas as mudanças que alteraram também a sociabilidade – como a modernidade, o capitalismo e as guerras permitidas por um estrondoso desenvolvimento técnico –, a literatura também passaria por uma transformação. Disse também que uma nova forma de narrar deveria nascer dessa transformação: Fenoglio escreveu sobre e a partir dessa crise, na tentativa de transformação permitida pela Resistência – que depois se mostrou frustrada –; de dentro da crise, falando dela, num exercício de invenção desse novo modo de fazer literário.