2 BEHANDLING AV SØKNADER OM DAGPENGER FRA
2.2 Vurdering av permitteringsårsak
2.2.2 Sesongbasert virksomhet
O convite feito a Hevila para participar da pesquisa foi encaminhado por e-mail, em 29 de junho de 2015, com obtenção da seguinte resposta:
Estou com muito desejo de comunicar a minha experiência na Universidade e a boa nova da minha vida: a conquista do direito de lecionar, que só agora se efetivou. Não restam dúvidas de que quero sim participar de sua pesquisa (E-mail enviado por Hevila, em 30 de junho de 2015, em resposta ao convite).
Diante da aceitação, marcamos a entrevista para o dia 10 de julho de 2015, na Escola Estadual Padre Café, em Guanhães-MG, onde ela atua como docente. A decisão de me deslocar quase 300 quilômetros para gerar os dados não foi por um acaso, haja vista que poderia entrevistá-la pelo Skype. No e-mail da resposta, Hevila informou que, havia cinco dias, estava atuando na docência, depois de quase três anos reivindicando judicialmente o direito que lhe foi negado pelo fato de ser cega. Assim, seria
enriquecedor para o estudo observar as relações implícitas nesse ambiente educacional e registrar, no diário de campo, minhas impressões e sentimentos acerca de acontecimentos que surgiam no momento empírico da pesquisa.
Quando cheguei à escola, fui recebida pela vice-diretora, que me conduziu até a sala de professores, onde Hevila me aguardava, acompanhada da professora de apoio. Estava corrigindo atividades realizadas pelos seus alunos. Encontrava-se presente também seu esposo, que havia levado um lanche, mas logo se retirou.
A escola, localizada no centro da cidade, tem um prédio de quatro andares que dificulta a acessibilidade física. Hevila informou que a entrevista poderia acontecer em uma sala de aula, no terceiro andar. Ao subirmos as escadas, foi possível observar a ausência de corrimões. Hevila não usava bengala, e colocou a mão direita no ombro da professora que a conduzia.
Ao chegarmos à sala, a professora de apoio demonstrou que ficaria presente durante a conversa, sentando-se ao lado da Hevila, como se fosse uma extensão do seu corpo. Percebi certo desconforto da entrevistada. Assim, agradeci à professora e pedi que ficasse à vontade para se retirar, pois a entrevista seria apenas com Hevila. Ela se retirou demonstrando insegurança, sem ter certeza de que deveria mesmo se afastar. A expressão de seu rosto demonstrou preocupação. Ao mesmo tempo, levou uma das mãos à sua cabeça e parecia confusa. Ao sair, se esqueceu de levar a sua pasta, e voltou algum tempo depois para buscá-la.
Hevila, natural de Guanhães, estava com 30 anos. Declarou-se de cor parda. Assumia quase sempre papel de liderança nos grupos a que pertencia (grupo de estudantes, grupo de amigos, grupo familiar). Começou a perder a visão aos três anos de idade, consequência de artrite e uveíte ocular, ficando cega. Formou-se em Pedagogia na UFOP, em 2012, e morava com o esposo e a mãe na cidade em que nasceu. Recentemente, assumiu a função de professora de uma turma do 5º ano do Ensino Fundamental e estava se preparando para ser mãe.
Membro de uma família numerosa, de seis irmãos (que, na época da entrevista, residiam em Guanhães, em Belo Horizonte e nos Estados Unidos), Hevila sempre contou com o apoio dos familiares na trajetória escolar, principalmente, do pai, já falecido, e da mãe, ambos com formação escolar da primeira etapa do Ensino
Fundamental. Ela recebeu o Benefício de Prestação Continuada34 até 25 de junho de 2015, data em que solicitou a suspensão especial, uma vez que iniciou as atividades profissionais.
Hevila iniciou os estudos em 1991, com seis anos de idade, em uma escola particular de Guanhães. Sua experiência na Educação Básica foi marcada pela busca constante do direito a uma educação escolar que respeitasse as suas singularidades. Ela afirmou:
Ainda tenho bem nítido, na minha lembrança, aquele dia do mês de janeiro, de 1991, em que ouvi um diálogo entre minha mãe e meus irmãos, em que os mesmos comentavam que havia chegado a hora de eu entrar na escola; e que uma instituição particular era a única escola que tinha aceitado me matricular. Eu, na minha candura infantil, não entendi a frase: “A única escola que tinha aceitado me matricular”. Mas confesso que algo me intrigou, indicando que alguma coisa estava escapando da normalidade (Entrevista concedida por Hevila, em 10/07/2015).
Hevila relatou uma experiência traumática vivenciada na primeira escola. Contou que a professora colocou sobre a mesa uma folha de papel e uma lata de lápis de cor, recomendando a todos que colorissem para ficar bonito. Os colegas coloriram, entretanto, ela não podia. Como permaneceu quieta, logo começou a chamar a atenção dos colegas, que indagavam o motivo, fazendo que ela desse conta da sua deficiência:
Acredito que, naquele instante, eu comecei a entender o porquê das outras escolas terem me rejeitado. Naquele momento, eu percebi que era diferente. De imediato, a professora não reagiu, hoje penso que ela não sabia lidar
com uma aluna com deficiência visual, e nem mesmo ousou tentar (Entrevista
concedida por Hevila, em 10/07/2015).
Foi neste momento que Hevila tomou consciência de sua deficiência. E, frustrada por não fazer as atividades propostas e ficar sozinha na sala de aula, nos momentos de lazer, ela começou a querer saber por que, em casa, fazia coisas que não era possível fazer na escola. Diante de tamanha frustração, passou a recusar ir para escola e a família acatou sua decisão. Assim, a escola onde foi alfabetizada passou a ser o seu lar: “Todos eram muito pacientes e com uma pedagogia suave, foram dando conta
34 O BPC é um benefício da Política de Assistência Social, individual, não vitalício e intransferível, que garante a transferência mensal de um salário mínimo ao idoso, com 65 anos ou mais, e à pessoa com deficiência, de qualquer idade, com impedimentos de longo prazo, de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, que comprovem não possuir meios para prover a própria manutenção nem de tê-la provida por sua família.
de saciar a minha fome de saber”. Porém, as tentativas da família de buscar uma escola pública que aceitasse matricular Hevila não cessaram.
Três anos depois, em 1994, já com nove anos, uma escola estadual bem próxima de sua casa aceitou a sua matrícula. Propositalmente, ela ficou na turma do filho da sua irmã, pois havia esperanças da família de que ele pudesse apoiá-la. Durante toda a Educação Básica, Hevila não recebeu apoio da administração da escola e dos professores. O apoio recebido vinha da família, que não media esforços para fazer o que fosse necessário para otimizar seus estudos, e do sobrinho e colega de sala, Lucas, sempre pronto a conduzi-la. Até o segundo ano do Ensino Médio, eles estudaram na mesma sala de aula e construíram, coletivamente, estratégias de acessibilidade.
Para as letras, ele pegava na minha mão, eu decorava o contorno. E a minha família passou a comprar as letras táteis, porque eu também não tive acesso ao Braile. Era o Lucas quem ditava, passava do quadro para mim. Eu escrevia, mas eu mesma não lia. Mas eu escrevia para ocupar meu tempo. Então, o meu sobrinho foi comigo até o segundo ano do Ensino Médio (Entrevista concedida por Hevila, em 10 de julho de 2015).
Lucas era amigo e tutor. Todas as atividades eram realizadas pela dupla, que criava as próprias metodologias e se destacava pela independência e aprendizagem. Eles eram sempre os primeiros, tendo sido considerados, em várias ocasiões, os melhores da classe, com medalhas de honra ao mérito. Porém Hevila se sentia excluída: “Quando os professores achavam que eu não ia dar conta de alguma coisa, já me excluíam sem consulta, sem verificar se eu dava ou não conta, se eu tinha outra possibilidade”.
As adaptações pedagógicas eram de responsabilidade da família, que recebia orientações de uma psicopedagoga de um hospital público, em Belo Horizonte. Todo recurso de acessibilidade era oportunizado pela família, que sempre fez questão de garantir a ela condições para independência e desenvoltura. No entanto, lhe era proibido levar, para a escola, tecnologias para a acessibilidade: “Eu tinha uma carteira inclinada que minha família mesmo comprou. A escola não a preservou e, com menos de quatro meses, estava toda destruída. Então, proibiram-me de levar as tecnologias, porque não iam se responsabilizar”.
No segundo ano do Ensino Médio, Hevila deixou de contar com o apoio do amigo, tutor e sobrinho. Lucas desejava estudar à noite, para ficar próximo da namorada, e Hevila se recusava a estudar no período noturno:
A namorada do Lucas era da turma da noite e estudar neste turno, para mim, era inviável. Também eu já estava mais consciente sobre os meus direitos, da minha independência, eu não queria estudar à noite e entendi que a escola tinha que se adaptar a mim. Nessa época, eles me deram, por escrito, uma recomendação para que eu passasse a frequentar as turmas do supletivo.
Minha irmã teve que ir até a Secretaria de Educação e protestar (Entrevista
concedida por Hevila, em 10/07/2015).
A partir de então, Hevila ouvia as aulas, mas não participava, não realizava as atividades, porque não havia acessibilidade, pois era proibida de levar o notebook para a sala de aula. Disse ela: “[...] ia à escola só para debruçar na carteira, porque não tinha o Lucas, não tinha mais nada”. Então, passou a ir à escola somente para realizar as avaliações.
Comecei a constatar que, em casa, eu aprendia mais que na escola, pois eu podia usar meus recursos, podia ler um livro e eu aprendia mais. Então, eu comecei a entrar num processo meio depressivo e de resistência, tanto que a maioria do meu terceiro ano foi com base em atestado médico. Porque eu passei a questionar: se a escola era só para me avaliar, eu ia passar a ir lá
só para fazer a avaliação. Foi isso que aconteceu (Entrevista concedida por
Hevila, em 10/07/2015).
Hevila reforçou a importância do apoio da família, que, quando ela ainda era pequena, aos poucos, a ensinava a buscar ser independente, reivindicar por si mesma os direitos e lutar pelos sonhos. Um deles era graduar-se em Pedagogia e se especializar em Psicopedagogia: “Sempre tive certeza que queria cursar Pedagogia. Meu objetivo, na verdade, sempre foi ser psicopedagoga pelo suporte que eu recebi de uma psicopedagoga, cujo nome é Lenira, que foi tão importante na minha vida!”. Ela deixou claro que a escolha profissional teve influência do trabalho realizado pela psicopedagoga, na orientação à família.
Assim, logo após a conclusão do Ensino Médio, seguiu na busca de acesso ao Ensino Superior, para a concretização da formação profissional. Entretanto, isso implicava a superação de novas barreiras. Então decidiu silenciar por um tempo esse sonho, para realizar outro, o casamento. Com o apoio do marido, iniciou o percurso no Ensino Superior. A seguir, é apresentado o relato de acessibilidades e de barreiras nesse nível de ensino.