3. FREMGANGSMÅTE
3.1 L AB FREMGANGSMÅTE
3.1.2 Sertifikathåndtering
Por onde se examine, o terceiro texto de Vista parcial da noite permite mais de uma leitura sobre a década de 1970 no Brasil. Na superfície, “Estação das águas” é a história de um filho rebelde que foge de casa para evitar o sofrimento da mãe (pessoa que ama) e para
692 A gravação na voz da cantora Emilinha Borba está disponível em YouTube:
http://www.youtube.com/watch?v=JKs7yPcrsOk. Acesso em: jul. 2011.
693 O álbum de estúdio de Dalva de Oliveira que contem esta musica foi lançado em 1970,
mas é possível que a composição seja de 1969.
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esquivar-se das “lições exemplares” do pai (pelo qual sente grande animadversão). No fundo, nas águas negras do poço, parece haver uma alusão ao Brasil dos anos Médici695. O recurso alegórico (explica Walter Benjamin em Origem do drama barroco alemão) é variável em forma e intensidade. Diante da possibilidade de substituição, ambigüidade ou multiplicidade de sentidos696 (sempre que o texto assinale um sentido implícito), o leitor possivelmente se encontre frente a uma alegoria. “A homenagem”, história precedente, descrevia o irmão de Teresa como um menino travesso que se escapa para brincar, que
vive sob ameaça paterna, que briga e apanha, desafia as normas e é corporalmente marcado697. A visão do chefe de família fica às claras em uma frase de Zé Bundinha:
“Prefiro ele estropiado que marginal”698. De uma forma distorcida (“antiguista”699
), praticamente cavernícola, este pai procura o bem do filho.
Estropiados, os pés afundam na areia podre do braço-do-rio. O silêncio de fim-de-tarde de dezembro só o corrói o revolteio da passarinhama em seu curtos vôos pelas grimpas das árvores e o chuá-chuá das águas embrutecidas que carreiam tumultuosas galhos e troncos700.
Pés estropiados afundam na areia podre. O “braço” é apenas um desvio do leito, o rio traz água e perto das águas geralmente há vida. Uma extremidade vital se decompõe. Estão em dezembro e o silêncio corrói. Atuante, esse silêncio se refere tanto ao clima sonoro como à fatura por cobrar que cresce dentro do andarilho, à raiva gerada pelas agressões de quem supõe-se deve dar-lhe o pão de cada dia e livrá-lo de todo mal. As águas aparecem embrutecidas, revoltas e cheias de restos. Lembram os troncos podres dos versos de Jorge de Lima que encabeçam cada volume de Inferno provisório701. Agitação, mágoa, melancolia... as primeiras linhas da história de Isidoro (que serão também as últimas, no emprego de um procedimento circular) trazem a força de uma enchente702.
695 Apesar dos avanços em matéria econômica (na época do “milagre”, de 1968 a 1973), o aparelho repressivo
se institucionaliza na década de 1970. Em janeiro desse ano, a oficialidade brasileira cria os Centros de Operações para a Defesa Interna (CODI) e os Departamentos de Operações Internas (DOI). Com freqüência aparecem citados como DOI-CODI, siglas que se utilizam para explicar o trabalho conjunto das dependências. Enquanto o CODI se ocupava da parte administrativa, o DOI tomava conta da parte operacional (dizer DOI na rua equivalia a dizer “centro de tortura”). No fundo, a aliança associava os órgãos de informação militares aos órgãos de segurança da polícia.
696 Walter Benjamin, São Paulo: Brasiliense, p. 199.
697 O destaque é nosso, apenas para ressaltar as características da personagem. 698 Ruffato, Op. Cit., p. 30.
699 Op. Cit., p. 21. 700 Op. Cit., p. 45.
701 A introdução do primeiro capítulo deste trabalho arrisca um possível sentido para
os versos da Invenção de Orfeu (no contexto do Inferno provisório).
702 Isidro (que deriva do nome Isidoro) é o santo a que vários povos de origem hispana pedem auxílio com as
colheitas. Por estar associado a milagres com atividades da terra, muitos devotos rezam (e muitas crianças cantam): “San Isidro Labrador, quita el agua y pon el sol”. Em ocasião do aniversário da beatificação de São
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Apesar de acompanhar os passos do menino (um detalhe que se descobre nas proximidades ou distâncias assinaladas), o narrador se detém na paisagem sonora: crianças brincam, lavadeiras ciciam, mães reclamam, carros passam, risos brotam. Ainda que breves, as ambientações dão “profundidade” aos episódios trágicos. Refrescante pela humanidade que revela, o quadro abre passo à recordação da mão dura de Zé Bundinha: “doloridos lanhos nas costas, braços, pernas, rosto, que o pai quando zunia a tala-de-couro, nem de desguiar a mão cuidava, (...) sua cartilha graduava beliscão, puxão-de-orelha, lambada de vara-de-marmelo na bunda e, nas gravidades, coça de corrião”703. Qual a chance de vingar
de um menino cujo A-B-C foi a punição? Apesar da idade (é uma criança), entre Isidoro e o pai há uma severa disparidade de convicções.
Rueiro por excelência, o menino sente-se à vontade em coletivo. O confronto entre seu grupo (uma amostra da juventude do Beco do Zé Pinto704) e o da Vila Teresa de
Baixo705 não se faz esperar. A referência ao emergente fenômeno das gangues é um lembrete da década que no fundo está sendo discutida. A datação pontual, porém, manifesta-se em um passatempo. Sentindo-se “adulto”, o irmão de Teresa troca “o saquinho de bilosca, o finco do pisse-pisse e o pião, criancices”706, por um jogo-de-botão do
Vasco. Gildo organiza o intercâmbio. Na escalação: Andrada, Fidélis, Brito, Renê, Eberval, Alcir, Buglê, Luiz Carlos, Nei, Valfrido e Acelino, um time cujos “botões” foram estrelas de futebol, de carne e osso, entre os anos 1969/1970707.
Formalmente, Isidoro é apresentado como estudante da quinta série. Omite-se o ano, mas a referência futebolística indica que não passa dos dez, onze anos no máximo. Fora da escola, o estudante se entretém invadindo uma chácara com os amigos, furtando frutas, vendendo material descartável a um ferro-velho e utilizando o ganho simbólico para jogar sinuca no botequim do Zé Pinto. A infância vai ficando atrás e o interesse em magazines de faroeste (e na troca que ele mesmo agencia aos domingos na porta do Cine
Isidro, o Diario de Cuyo dedicou um pequeno comentário à tradição em Argentina (em 12 de junho de 2005): http://www.diariodecuyo.com.ar/home/new_noticia.php?noticia_id=100954. Acesso em: 23 mai. 2011. Não deve ser um acaso a relação de Caboré com a água.
703 Ruffato. Idem ibidem.
704 Gildo, Gilmar, Luzimar, Jorge Pelado e Vicente Cambota.
705 O Beco de Zé Pinto faz parte da Vila Teresa. Por oposição, deve encontrar-se na Vila Teresa de Cima. 706 Ruffato. Idem ibidem.
707 A Taça Jules Rimet (outorgada ao primeiro lugar do tricampeonato mundial) colocou a seleção vascaína na
linha dos campeões cariocas em 1970. Pelo que explica a home page do Vasco, a torcida aguardava fervorosamente pelo título desde 1958. Os jogadores Andrada (como goleiro), Alcir e Buglê (no meio-campo) e Silva (no ataque) tiveram destaque na época. O sítio www.vasco.com.br oferece detalhes cronológicos da atuação do time. Acesso em: jun. 2011.
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Edgard) o confirmam. Entre os gibis de sua preferência estão os inspiradores Cheyenne708,
Gunsmoke, Comanche, Tex, Cavaleiro Negro, Flecha Ligeira709, Coyote, Zorro e Durango Kid.
Os flagras de suas primeiras experiências sexuais (com uma égua primeiro e depois com Lucas, filho de dona Eucy) fazem com que a mãe se atribua a culpa de todos os males, perguntando-se em que errou: “dona Fátima se desesperara, lastimando arqueada em alinhavos e arremates, medições e provas, o ta-ta-tá da máquina-de-costura que o embala, que o desperta”710
. A preocupação materna leva o moço ao arrependimento e a constantes promessas de retificação. Recuperando os versos de Carlos Drummond de Andrade na epígrafe de O mundo inimigo711, na história do lado de Caburé há remorso. Nenhum cuidado
da mãe, nenhuma reprovação (nem da própria consciência) faz com que Isidoro desatenda o “chamado da rua, livre, selvático”712. Selva, rua, tanto faz: neste momento da vida em
sociedade os substantivos se equivalem713. O inferno de Isidoro se configura na
impossibilidade de acatar normas, no espírito outsider. Em um estudo intitulado justamente com esse vocábulo inglês, pensado na linha da sociologia do desvio e escrito originalmente na década de 1960, o estadunidense Howard S. Becker diz o seguinte:
Todos os grupos sociais fazem regras e tentam, em certos momentos e em algumas circunstâncias, impô-las. Regras sociais definem situações e tipos de comportamento a elas apropriados, especificando algumas ações como “certas” e proibindo outras como “erradas”. Quando uma regra é imposta, a pessoa que presumivelmente a infringiu pode ser vista como um tipo especial, alguém de quem não se espera viver de acordo com as regras estipuladas pelo grupo. Essa pessoa é encarada como um outsider714.
Múltiplas perspectivas são analisadas no ensaio de Becker (a de quem cria as normas, a de quem as respeita, a de que não as respeita) porque seu objetivo, afinal, é a compreensão do comportamento desviante. O que importa observar aqui, porém, é a discordância que encarna o filho de Fátima e Zé Feliciano. Isidoro reconhece a dedicação da mãe (na doença, nos imponderáveis), mas simplesmente não sente o dever de incorporar
708 A EBAL (Editora Brasil-América), responsável pela publicação destas histórias em quadrinhos, existe
desde 1945. Cheyenne, por exemplo, fez parte da coleção de revistas “Reis do faroeste”. Em alguns casos, os gibis vinham acompanhados por carteiras de identidade dos heróis. A de Cheyenne trazia pelo lado da frente seu apelido, nome real (John Bodie), filiação (Jack e Marta Bodie), cidade de origem (Texas), estado civil (solteiro), impressão digital e assinatura; e pelo revês uma síntese de sua história e duas breves listas (a dos amigos e a dos inimigos). Parte desta informação está disponível no sítio: http://guiaebal.com. Acesso em: ago. 2010.
709 A versão HQ de Cavaleiro Negro e Flecha Ligeira foi editada no Brasil pela Rio Gráfica Editora,
ativa desde a década de 1930 e conhecida como Editora Globo desde meados da década de 1980.
710 Ruffato, Op. Cit., p. 46. 711 “Toda história é remorso”. 712 Ruffato, Idem ibidem.
713 Uma das acepções da palavra “caburé” é “rueiro”: “indivíduo que só sai à noite”. 714 Outsiders. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008, p. 15.
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a seu código moral regras que em teoria devem ser cumpridas. Ser um bom filho (como a sua irmã) não se parece com ele. Para compensar, inflige-se castigos só por ele compreendidos: mente para Fátima dizendo que jantou (para não incomodar quando chega tarde, embora se deite com fome) e atravessa a cidade mancando (sem justificação física). O pai alcoolizado no botequim é a surpresa que o aguarda à saída da escola. A vontade de que morra (sendo o pai a figura normativa por excelência) e a lembrança dos mandamentos “Horar pai e mãe” e “Não matarás” são indícios do turbilhão infeccioso que se forma em seu interior: “Como (...) camuflar o ódio que peçonhava em seu sangue? (...) Como, se por- tudo-por-nada estranhava-se com a mãe, envergonhando-a na frente das freguesas com sua ignorância, sua estupidez, sua valentia?”715
.
Se até agora a solução de algumas personagens do Inferno provisório foi “ficar”, a de Caburé é “fugir”. A partida do moço é descrita em termos de “escape”. Sabe que sentirá falta das mulheres de casa e dos amigos, mas precisa liberar a mãe do peso de seu comportamento. Tendo em mente o relatório do projeto Brasil: nunca mais (uma pesquisa sobre a ditadura brasileira realizada entre 1979 e 1985716), um trecho da narrativa sobre Isidoro remete o leitor a esse período da história brasileira:
(...) assumiria a vez a condição de renegado: nunca mais sentar numa carteira de escola, nunca mais escovar os dentes, nunca mais tomar banho todo dia e, principalmente, nunca mais apanhar do pai, sentir o hálito azedo de cachaça e cigarro nunca mais –adeus, adeus, que já nada o demoveria717.
“Renegados” (agindo em prol de um bem maior e fora da lei) costumam ser os heróis dos faroestes. A fuga acontece em setembro, cedo de manhã. Se a narrativa começa um dezembro, é possível que o moço tenha cumprido mais um ano. O escape é a escusa perfeita para que o autor se detenha na paisagem (na que o moço de fato vê e na da rotina que acredita não verá mais). A Chácara, o campinho, o Bairro-Jardim, o atalho para o (bairro) Paraíso, os eucaliptos do morro, a Industrial, a Ponte-Velha, a torre da Matriz, a Ponte-Nova, a Cadeia, o hospital, a Pedreira e a curva do Rio Pomba aparecem no caminho real de Isidoro. O apito da fábrica às 9h50, o enxame de bicicletas, o pé-de-amêndoa na frente do botequim, Antônio Português na Mercearia Brasil, Zunga preparado para o jogo- do-bicho, o cheiro da cozinha de dona Hilda, Zulmira indo ao encontro de Marlindo, a
715 Ruffato, Op. Cit., p. 47.
716 Brasil: nunca mais, Arquidiocese de São Paulo, Petrópolis: Vozes, 1996, 28a edição. A pesquisa original tem
em torno de 5.000 páginas. Versão resumida da pesquisa, este livro foca apenas o terceiro tomo do relatório principal: “Perfil dos atingidos”.
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insônia de dona Olga, as saídas do pai à procura dos amigos e a mãe no aguardo de Filhinha (esposa do dono da mercearia) são resgatados no caminho da saudade. Uma figura trajada de branco de pé a cabeça que o cumprimenta, transforma a “mudança definitiva” em “tentativa de fuga”. De alguma forma, esse “alguém” e a lembrança de que nesse ponto do caminho “armara-se uma tocaia”718
(não se diz quando nem contra quem), provoca medo no moço e obriga-o a retornar à casa.
Fátima interpreta o regresso como o desfecho de mais um sumiço. A frase: “Entendeu como aviso o golpe”719 refere-se à aparição do homem de branco, mas a
compreensão do que aconteceu (do que realmente essa aparição significou) fica mais uma vez em suspense720. Animado a endireitar seu caminho, Caburé decide vender picolés com Fábio, de início no Beira-Rio. Com o intuito de ampliar a freguesia, o moço vai até a Ilha. O segurança do bordel detém o ingresso do vendedor, que coincide com a passagem de Zé Feliciano. A repreensão verbal, áspera, e o pontapé na bunda, não demoram. A punição completa (da qual o filho é merecedor a juízo do pai) apenas se adia.
Isidoro fica fora do perigo no estádio, “escapulindo da torrente de gargalhadas que mordendo-lhe os calcanhares ecoava em-dentro da cabeça”721. Uma mistura de vergonha,
impotência e humilhação conduzem-no a antigas andanças. Um flagra, roubando mangas no quintal de Simão (outrora pracinha da Força Expedicionária Brasileira), desata a ira do pai. A cólera de Zé Bundinha indica que o pecado venial será cobrado como pecado mortal. Caburé consegue um esconderijo no guarda-roupa de um barraco vizinho (o de Bibica), de onde é tirado violentamente. O exagero da pena faz com que os vizinhos intervenham, mas o pai só é contido pela gravata de Zé Pinto e Zé Preguiça, bem depois de Fátima ter saído lesionada.
Como em um passe de mágica, Isidoro foge novamente. Eis a sua arte. Por conta da estrutura circular do texto, a interpretação temporal fica em aberto: sucederam-se dez meses desde o início da história (de dezembro a setembro)? Ou apenas quatro (de setembro a dezembro)? A dúvida, meramente formal, não é outra coisa que um reflexo do abismo sem fundo que vive o jovem Isidoro: uma trágica órbita que parte da violência e, no final do percurso, a ela retorna.