O aumento crescente da sobrevida ao episódio de doença aguda em simultâneo com o aumento da esperança de vida e consequente envelhecimento, traduz-se num crescente número de pessoas com AVC, as quais vêem a sua independência subitamente afectada na satisfação das suas necessidades humanas básicas, influenciando de forma dramática a sua dinâmica familiar.
Na sequência de um episódio agudo de uma doença, nomeadamente por AVC, as pessoas que ficam em situação de dependência, têm o direito de voltar a ter uma condição de vida de acordo com as suas potencialidades e, tanto quanto possível, as suas expectativas, no sentido de alcançar autonomia nas suas actividades de vida, readaptando-se ao seu contexto de vida e readquirindo capacidades de agir por si próprio.
Os AVC, primeira causa de morte em Portugal, são também a principal causa de incapacidade nas pessoas idosas, em que as sequelas decorrentes podem conduzir a grande incapacidade psicomotora, tornando-se cada vez mais premente uma intervenção especializada por parte do EER. Este tem como finalidade melhorar a qualidade de vida da pessoa, maximizando o seu potencial funcional e independência e ajudando-a, bem como à respectiva família, a adaptar-se à nova situação com a máxima satisfação. (HOEMAN, 2000).
O estudo sobre a problemática escolhida constituiu um momento oportuno para abordar uma temática actual e inquietante, assim como para articular aprendizagens apreendidas ao longo de todo este percurso formativo e no contexto da prática de cuidados, onde foram atingidos os objectivos a que me propus, visando o desenvolvimento de competências preconizadas para o EER pela OE (2010), conduzindo à obtenção do grau de especialista. Apesar de haver pouca documentação sobre as intervenções dos EER nos doentes com alterações da comunicação/linguagem, após a pesquisa bibliográfica consegui organizar e implementar cuidados específicos que deram resposta às minhas inquietações. Para além das competências desenvolvidas na área motora e respiratória, foi possível explorar um ramo da actuação do EER que ainda se encontra pouco desenvolvido. Como ponto de partida para o planeamento do processo de reabilitação, o EER deve
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ter por base “(…) o princípio de fazer das necessidades humanas, o fundamento dos cuidados de enfermagem (…)”, pois assume o papel de “(…) guia para a promoção da saúde, bem como, para cuidar na doença.” (Henderson, 2004, p. 16).
Ao longo da prática clínica, verifiquei que para satisfazer as necessidades humanas básicas da pessoa com AVC e seus familiares/cuidadores, foi necessário treino de actividades e de aquisição de habilidades da pessoa e seu cuidador; adaptação à situação de saúde actual; suporte económico e estabelecimento de parcerias com entidades locais, que ajudaram na promoção da reinserção domiciliária e social. Relativamente aos doentes que apresentavam alterações da comunicação/linguagem, os doentes e familiares manifestaram a sua satisfação relativamente ao facto de haver cuidados de enfermagem dirigidos para esta consequência do AVC. Foi possível planear e implementar intervenções, como exercícios de gesticulação facial em frente a um espelho no doente com disartria, que apresentaram resultados positivos na redução da ansiedade causada pela dificuldade em comunicar e uma melhor interacção na prestação de cuidados.
A actual política de cuidados de saúde a nível hospitalar caminha no sentido de reduzir o mais possível o tempo de internamento dos doentes, assim sendo, a articulação com os recursos da comunidade assume um papel essencial na continuidade do processo de reabilitação. Constatei, que em alguns momentos a articulação de contextos é deficitária comprometendo todo o processo. Há que entender que a continuidade “só é exequível se o Enfermeiro desenvolver um trabalho em equipa concentrado, integrado e pró-activo (…) para se atingir o mesmo objectivo: a maximização da autonomia, com ganhos de funcionalidade e de bem- estar da pessoa com AVC” (Menoita [et al], 2012, p. 196).
É e será, sem dúvida, uma preocupação que assumirá relevo minha prestação de cuidados especializados em enfermagem de reabilitação, pelo que quando é elaborada uma carta de alta no meu serviço, realizo o registo dos cuidados especializados que prestei de forma diferenciada e que permita dar continuidade de forma rigorosa Por outro lado, iniciei em conjunto com a enfermeira especialista a elaboração de uma folha de registo de cuidados de Enfermagem de Reabilitação, com o intuito de garantir a sua continuidade e, por consequência, dar-lhes visibilidade no seio da equipa multiprofissional.
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Penso que o desenvolvimento deste projecto de estágio permitiu consciencializar a equipa multidisciplinar, do serviço, do vasto leque de conhecimentos e competências que o EER possui; e ainda alertar todos os elementos para a importância de intervir para além das consequências motoras do AVC. Uma dificuldade com que me deparei foi a articulação com a terapeuta da fala nomeada para o serviço, ponto que tenciono melhorar no futuro.
No acto de aprender está implícita a crescente capacidade de autoconhecimento, a operacionalização de experiências anteriores e a racionalização das emoções, afirmando-se como uma mais-valia tanto no campo académico como na prática, facilitando o processo de transição para a especialização. Os conhecimentos adquiridos e as competências desenvolvidas pressupõem “que mudemos frequentemente o nosso modo de olhar as coisas a fim de melhorá-lo e ajustá-lo às situações” (Hesbeen, 2003, p. 135).
Desenvolvi competências como EER, mobilizando conhecimentos, atitudes e habilidades, nas várias situações de cuidados. A prática clínica aliada aos conhecimentos complementaram-se de forma indispensável à construção de competências. Como perspectivas de intervenção após esta aquisição de competências como EER, e integrando um serviço de internamento de um centro hospitalar, encontro-me em situação de concretizar a prática do dia a dia com efectividade, mas também mostrar a minha intervenção como EER e facilitar o processo de transição do doente que apresenta uma incapacidade temporária ou definitiva. Tenciono continuar a desenvolver conhecimentos sobre a intervenção nos doentes com alterações da comunicação/linguagem e fazer o paralelismo dos meus cuidados ao doente com disartria e disfagia, pois muitos artigos referem que o planeamento de cuidados é sobreponível em muitos pontos. Quero ainda, continuar a contribuir para capacitar a equipa para a melhor prestação de cuidados aos doentes com este tipo de consequência do AVC, através de formação em serviço e de orientações sobre a intervenção mais adequada da equipa multidisciplinar nestas situações.
Considerando que os cuidados de enfermagem devem ser suportados numa prática baseada na evidência, o desenvolvimento desta temática permitiu estabelecer estratégias de intervenção aos doentes com alterações da comunicação e
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linguagem que foram adoptadas pelo serviço onde desenvolvi o estágio.
Para Benner “a teoria oferece o que pode ser explicitado e formalizado, mas a prática é sempre mais complexa e apresenta muito mais realidades do que as que se podem apreender pela teoria” (2001, p. 61). Desta forma, o enfermeiro é o resultado de vivências e experiências ocorridas no percurso pessoal e profissional, devendo integrar a prática, a reflexão, a formação e a investigação na sua prestação de cuidados diários, com vista a alcançar a excelência.
A aquisição de conhecimentos ao longo deste período formativo permituiu-me integrar diferentes intervenções na minha prática, e sinto que tenho maior capacidade na minha tomada de decisão e que as minhas intervenções são mais adequadas à singularidade da pessoa e apresentam resultados mais imediatos. Também sinto que olho para a enfermagem e para a pessoa de outra forma, pois desenvolvi o meu pensamento crítico e aumentei o leque de fundamentos para a minha prática.
Por último, gostava de realçar a importância do EER nas equipas de saúde a nível hospitalar como pivot, promovendo e liderando os cuidados de saúde especializados necessários à pessoa com AVC, articulando estratégias de prevenção de novas incapacidades e de adaptação à sua dependência, de formação dos seus pares, primando pela abordagem holística da pessoa – um ser único e indissociável.
No futuro espero continuar a desenvolver os meus conhecimentos e competências como EER e poder aplicá-los na minha prática diária, com especial atenção á área da comunicação/linguagem. Quando penso na minha posição no serviço onde presto cuidados, vejo um caminho onde irei promover o trabalho em equipa de forma coordenada e capaz de delinear/implementar um plano de cuidados de reabilitação baseado nas reias necessidades da pessoa e com a finalidade de atingir o seu máximo potencial. Penso que já iniciei o caminho profissional que defini após esta formação,mas em breve espero espelhar a ideia que me levou a escolher esta especialidade de enfermagem: o EER deve constituir recurso e referência para toda a equipa, não só na área da prestação de cuidados, através da utilização de um vasto leque de métodos e técnicas baseadas em conhecimentos científicos, mas também na área da formação, introduzindo modos de intervenção inovadores.
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