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4.3 Illustrasjonsoppdraget

4.3.4 Serie 3 – Beskrivelser – bevegelse i motivene

A importância do leite para a alimentação e da comercialização de seus derivados para a melhoria de renda da família foram aspectos frequentemente citados pelos agricultores para justificar a opção por possuir gado. Como mencionei na seção anterior, esse foi o único ponto em que as tentativas de explicação dos extensionistas para a maciça escolha da bovinocultura como destinação dos recursos do Projeto Quilombolas coincidiram com o que os agricultores disseram.

“o gado dá uma renda boa... a gente cria uma vaca de leite... tira o leite... pra gente fazer queijo... requeijão... um bolo... pra tomar... leite é muito bom (M.J.)

Quando aprofundei a discussão com os agricultores, eles reconheceram haver fatores que dificultavam a comercialização do leite e seus derivados. Com relação ao leite, muitos agricultores disseram que ordenhar as vacas quando as pastagens estavam escassas – o que vinha ocorrendo em função dos severos episódios de seca dos últimos anos – seria, nos termos deles, uma “judiação” com os animais. Nos raros casos em que os agricultores conseguiam garantir alimentação suficiente para que as vacas produzissem um excedente de leite passível de ser comercializado, a dificuldade era outra. A legislação sanitária exige o acondicionamento do leite em tanques refrigerados nos pontos de coleta das propriedades rurais e os agricultores familiares não conseguiam arcar com os custos de aquisição do equipamento. A organização em associações ou cooperativas – que seria uma opção para aquisição dos tanques – não era comum na região.

“[vender leite] ficou ruim [com a exigência de que o fornecedor possua tanque de resfriamento]... porque só os fazendeiros entregam... os pequenos produtores não podem entregar porque não têm o tanque pra colocar...” (M.J.)

A produção de derivados – como queijo, manteiga e requeijão – para comercialização era também considerada inviável porque nas poucas situações em que havia excedente de leite, o volume era reduzido e a disponibilidade irregular. A verbalização da agricultora L.J. evidenciou que – diante dessas circunstâncias – o baixo volume e a variação da receita gerada pela venda dos produtos não compensava o trabalho necessário para a produção.

“[vender leite] é mais fácil do que fazer o requeijão... fazer o requeijão é ruim... vende ´espinicado´ [referindo-se à frequência das vendas e ao volume irregulares]... o dinheiro a gente recebe hoje... recebe depois... quando a gente recebe o último... a gente não sabe quando foi o primeiro... [requeijão] é barato... e dá trabalho...”(L.J.)

Outros estudos indicam que a opção pela bovinocultura é também comum em outras partes do mundo em que a atividade também é desenvolvida com dificuldades pelos agricultores. Tribos de Uganda, no leste da África, mantinham grandes rebanhos de gado em regiões semiáridas, mesmo com um percentual de mortalidade por fome que variava de 10 a 15% nos períodos de seca (DESHLER, 1965). Grupos familiares de 25 a 30 pessoas possuíam rebanhos de 70 a 130 animais. O fato de serem mantidos grandes rebanhos em situações climáticas desfavoráveis era em parte explicado pela modesta produção individual de leite, sangue e carne, o que levava à necessidade de um número maior de animais para que se aumentasse o

volume de alimento produzido. As pessoas utilizavam o gado de diferentes formas: 1) O leite era consumido fresco ou coalhado; 2) O sangue cru ou cozido também servia de alimento. Nos períodos de seca os agricultores retiravam sangue do gado com menos frequência e mais cuidado, em procedimento similar ao adotado pelos agricultores do Norte de Minas em relação às ordenhas na estiagem; 3) A carne era consumida, principalmente quando o gado morria de fome ou por outros motivos. Animais eram sacrificados apenas em caso de extrema necessidade de alimento por parte dos agricultores; e 4) Bovinos eram vendidos para o governo e o valor recebido era aplicado em milho e sorgo para alimentar o rebanho remanescente. Também como ocorre no Norte de Minas, o maior volume de venda de gado acontecia durante o período de seca, quando o gado se encontrava em piores condições de nutrição. Esse estudo revelou ainda que – devido às restrições impostas pelo clima em Uganda – a contribuição dos bovinos para a subsistência naquelas sociedades era mais sutil do que sugeria a literatura. No caso empírico desta pesquisa, a baixa produção de leite e derivados permite inferir que a bovinocultura constituiria fonte de alimento ainda menos importante para as famílias participantes do Projeto Quilombolas. Principalmente porque o sangue dos bovinos não é utilizado como alimento e em nenhuma oportunidade qualquer agricultor disse criar gado para consumo da carne.

A suposta proibição do sacrifício de bovinos e da utilização da carne para alimentação é tradicionalmente associada ao mito da vaca sagrada na Índia. Marvin Harris (1965; 1966) realizou uma extensa revisão de literatura que o permitiu, mesmo sem visitar a Índia, opor esse tabu a aspectos concretos relacionados à importância do gado para a vida dos agricultores daquele país. Diversos autores afirmaram que uma obediência a crenças irracionais restringia a utilização desses abundantes recursos alimentares que eram substituídos por outros alimentos mais escassos e de menor valor nutricional. De acordo com esses autores, os agricultores indianos seriam condicionados a sacrificar as próprias vidas para garantir a sobrevivência de seus animais. Numerosos estudos revisados por Harris indicaram, no entanto, que humanos e bovinos mantinham não uma relação competitiva, mas simbiótica. Como a agricultura na Índia era baseada em implementos de tração animal, cada agricultor necessitava de pelo menos dois bois para realizar operações de preparo da terra, cultivo e colheita. O fato de esses procedimentos acontecerem de forma simultânea nas diversas propriedades rurais – em função da temporada de chuvas para o plantio ou das delimitadas épocas de colheita –, cada agricultor precisava possuir seu próprio par de bois. Em relação às vacas, para além da produção de leite, elas eram importantes para a geração dos bezerros que

aumentavam os rebanhos. Os excrementos dos bovinos eram utilizados como combustível para cozinhar, como fertilizante nas plantações e até na composição de cimento para as construções. Mesmo com o tabu, a carne era consumida em cerimônias ou – como também ocorria em Uganda – em situações de morte natural do gado. Pele e chifres eram destinados à enorme indústria de couro então em atividade naquele país. A alimentação do gado – que muitos autores relatavam competir com os humanos – era, de acordo com Harris, composta por coprodutos da agricultura, por plantas não apropriadas para o consumo humano ou por sobras de comida. E era exatamente em busca de sobras de alimentos que as vacas eram vistas pelas ruas da Índia em uma convivência harmoniosa com as pessoas. Essa harmonia, porém, não existia por força do mito, mas pelas numerosas contribuições que os bovinos ofereciam ao dia-a-dia dos indianos. E o tabu da “vaca sagrada” era um elemento adicional para preservar aquele ecossistema.

A mística dos bovinos também foi objeto de interesse de James Ferguson (FERGUSON, 1997; FERGUSON; LOHMANN, 1994) em Lesoto, no sul da África. O autor realizou um estudo acerca de um projeto de “desenvolvimento” [aspas no original] que prometia “racionalizar” a bovinocultura em uma região denominada Thaba-Tseka. Idealizadores do projeto – pertencentes a quadros de organismos transnacionais – estavam frustrados com o que eles denominavam “formas tradicionais e não-comerciais” de criar gado. De acordo com os “especialistas em desenvolvimento”, os proprietários de rebanhos em Lesoto eram orientados por “razões tradicionais” que valorizavam o prestígio conferido pela posse do gado e privilegiavam a quantidade em vez da qualidade dos animais. Também lá a tradição era vista como algo a ser superado. Quando finalmente os projetos fracassavam no intento de “racionalizar” a bovinocultura, os “especialistas” acusavam os agricultores de derrotistas ou de não serem sérios em relação à agricultura ou, ainda, culpavam o governo por não ter compreendido o projeto.

Em sua análise, o autor evitou o que ele denominou duas linhas convencionais de explicação para a “mística dos bovinos”: a teoria utilitária e o dualismo, ambas as linhas criticadas por ele. A teoria utilitária trataria exclusivamente dos valores de uso do gado, o que reduziria a prática social a uma espécie de consenso voluntarioso acerca do bom senso econômico70. O dualismo, por sua vez, seria uma explicação que se deixaria levar pelo conceito de inércia

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A La Chayanov: observa Ferguson quando caracteriza o que ele considera uma explicação ad hoc que sempre defende a racionalidade econômica dos africanos.

atribuído às praticas tradicionais como resultado do equilíbrio dinâmico entre as forças conservadoras da tradição puxando para um lado e das forças da modernidade puxando para o outro (e.g. atividade de subsistência versus práticas de mercado). A proposta do autor é que a “mística dos bovinos” em Lesoto só poderia ser compreendida em relação a um conjunto de regras culturais que definem e valorizam o gado como um domínio específico de propriedade. O aspecto mais importante dessa estrutura local de propriedade era o fato de se permitir comprar o gado livremente, mas só se autorizar a venda em determinadas situações, principalmente em severas necessidades de dinheiro (e.g. para comprar alimentos, roupas ou para arcar com custos escolares). Outro aspecto importante era que animais de pequeno porte, como suínos e aves, constituíam propriedade das mulheres e, portanto, poderiam ser utilizados de acordo com a vontade delas. Já o gado era considerado propriedade da família e qualquer decisão acerca dos bovinos tinha que ser tomada em comum acordo entre marido e mulher. Como a grande maioria dos homens jovens deixavam Lesoto para trabalhar em minas na África do Sul, eles preferiam voltar para casa com gado a voltar com dinheiro. A barreira à venda dos animais e a categorização do rebanho como propriedade familiar tornava o gado uma espécie de “fundo de aposentadoria” para aqueles trabalhadores.

Também em Uganda (DESHLER, 1965) a compra de gado era considerada uma espécie de previdência social e nas entrevistas que realizei com participantes do Projeto Quilombolas surgiram muitos relatos que caracterizam os bovinos como um tipo especial de investimento para garantir “um futuro melhor”. O dinheiro resultante da venda do gado era considerado também um recurso providencial em caso de necessidades imprevistas e para reinvestimento na propriedade rural71. A seguir reproduzo trechos de verbalizações de agricultores – já apresentadas no capítulo anterior – que evidenciam a forma bastante comum de caracterizar, também no Norte de Minas, os bovinos como uma espécie de poupança.

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Como apresentei no capítulo anterior, o agricultor J.A. – por exemplo – comprou a propriedade rural onde reside e trabalha com sua família com o dinheiro recebido pela venda de treze cabeças de gado. Segundo ele e sua esposa, a possibilidade de obter dinheiro com a venda de parte do rebanho da família foi fundamental para a aprovação de um financiamento. O argumento teria sido decisivo para convencer o gerente de um banco a conceder um empréstimo originado de uma linha de microcrédito rural para instalação de um sistema de irrigação na propriedade do casal. O recurso oferecido pela modalidade de crédito seria insuficiente para a instalação do sistema de irrigação, mas o dinheiro proveniente da venda do gado complementaria o valor necessário.

“se você compra uma galinha... claro que ela vai aumentar... se você caprichar... comprando um porco... claro que ele vai aumentar... e o gado... nem se fala... o gado é a melhor coisa... que mais dá... que tem aumento é o gado...” (L.J.)

“é costume de criar esse gado aqui tudo [em toda a região] (...) eu acho bom porque vai rendendo, né? vai aumentando...” (S.F.)

“a gente escolheu [iniciar a atividade de bovinocultura] porque ali a gente já fatura uma coisinha de valor [o gado adquirido]...” (G.N)

“toda vida eu tenho [gado]... toda a vida... é que eu gosto dos bichinhos... né? os gadinhos... eu gosto de criar (...) e se [a situação financeira] apertar dá para vender... né?” (J.F.)

“quem mora na roça... a hora que a gente lembra que precisa de um dinheiro... tem que vender... o bezerro é pra isso e a vaquinha pra tirar o leite...” (M.J.)

“eu tinha vontade de criar gado... porque gado já é um futuro... né? (...) o bom do gado é isso, né? (...) quando dá um aperto você corre e vende... é um trem que tem valor... precisou... corre lá e vende...” (A.C.)

Diferentemente de uma conta poupança em que o dinheiro se valoriza sem que o poupador tenha que fazer qualquer movimento, para o gado “render” ele precisa ser alimentado e essa é uma dificuldade que os agricultores demonstraram conhecer bem. Em situações de escassez de comida para o gado, vários agricultores que entrevistei mencionaram o fato de que os animais não eram alimentados de maneira uniforme. Era o que ocorria com J.A. que mantinha cativos em um pasto com capim mais volumoso e – segundo ele – mais nutritivo animais que aparentavam maior fragilidade ou vacas que haviam parido recentemente. Critério parecido era utilizado pela agricultora J.F. que deixou no pasto por ela alugado animais recentemente adquiridos de uma raça – segundo a agricultora – menos resistente à seca e que, portanto, necessitava de atenção especial. Havia também muitas evidências de que agricultores hindus escolhiam cuidadosamente quais animais mereciam mais comida e atenção. Por exemplo, bois utilizados para tração de implementos agrícolas recebiam melhor tratamento do que as vacas, mesmo as que haviam parido recentemente (HARRIS, 1966). O item a seguir é dedicado à exploração de diferentes formas de manejo do rebanho utilizadas pelas famílias participantes do Projeto Quilombolas.