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1. INTRODUCTION

1.5 Sequencing Technologies

Tanto o extrativismo, como o assalariamento temporário em propriedade de terceiros são atividades que, ao contrário do cultivo do arroz, não resultam imediatamente no suprimento da subsistência. Em outras palavras, a produção de subsistência deixava de estar integrada107 à produção mercantil e às formas de obtenção de renda,

convertendo-se atividade paralela e, sobretudo, uma atividade concorrente. Logo, havia a tendência de redução da roça de subsistência e, por conseguinte, aumento das atividades com fins estritamente comerciais – além de aumento da dependência do mercado.

Fica patente que, por essa época, a mercantilização em geral provocou, na produção promíscua ainda existente na área entre Registro e Iguape, uma redefinição nas técnicas de produção e no destino dos excedentes. Por conseguinte, em termos gerais, a produção doméstica de alimentos diminuiu no transcorrer do processo de incorporação, incidindo, de um lado, nas condições de reprodução da vida caipira e, de outro, nas condições de vida dos trabalhadores, empobrecendo a ambos (MÜLLER, 1980, p.73).

Contudo, até a década de 80, as oportunidades econômicas geradas no município foram insuficientes para promover uma completa conversão da organização cabocla numa organização principalmente voltada ao mercado, de modo que a lavoura de subsistência ainda resistiu como meio fundamental à sobrevivência e manutenção da

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É bastante sugestivo que o arroz tenha sido a primeira cultura comercial da região. Tanto o arroz, como a mandioca surgiram e se desenvolveram, antes de mais nada, em função da subsistência do lavrador e povoador, de modo que, de início foram exclusivamente lavouras para o consumo (cf. PETRONE, 1966, p.166).

família no meio rural. Todavia, concluímos que, em tais condições, isto é, enquanto a família precisou manter sua roça de consumo paralelamente às outras atividades de caráter mercantil, o volume total de trabalho que realizava tendia a ser maior que no passado. E este trabalho adicional, tendia a ser substituído tão logo a família tivesse possibilidade de adquirir no mercado sua subsistência, o que vem a validar novamente a suposição de que a organização cabocla perdia sua autonomia e se descaracterizava.

Falemos sobre a extração do palmito para elucidar tais tendências. Segundo Renato Queiroz (1983)108, as condições de extração do palmito eram bastante difíceis. O

palmiteiro passava dias na mata, distante da família e sem qualquer conforto no trabalho. Estava exposto às intempéries, tinha uma alimentação deficiente, e sofria com a solidão. Contudo, a situação mais hostil era sentida em seu sítio. Ausente boa parte do mês, o sitiante viu sua roça minguar.

Com o gradual abandono da lavoura, passou a ter necessidade de adquirir a subsistência por meio da compra. Freqüentemente, segundo R. Queiroz, era o próprio comprador de palmito que fornecia ao palmiteiro os produtos de que carecia, estabelecendo, assim, um vínculo de dependência, semelhante àquele exercido pelo antigo dono de armazém. Agora, porém, sem a unidade dinâmica “subsistência/comércio”, “valor de uso/valor de troca” – representada pelo arroz – a exploração do sitiante pelo agente intermediário, pelo dono da indústria, pelo patrão ou pelo proprietário da terra tornava-se muito mais perniciosa, uma vez reduzido seu fundo de consumo. Paradoxalmente, o sitiante se via cada vez mais dependente dos mesmos.

Segundo R. Queiroz, o caboclo era fraudado e explorado pelo comprador de palmito na hora da avaliação e do pagamento do produto. E não raro, acabava ficando em dívida com o comprador, que além de pagar mal, ainda o fazia através de permuta de mercadorias – entre elas a pinga – de modo que conseguia se apropriar antecipadamente do produto trazido.

“Assim, de lavradores a palmiteiros, os moradores viram-se compelidos a uma troca cada vez mais desigual, e impossibilitados a partir de então de retornarem à situação anterior, quer pela ausência de um ‘fundo de consumo’, perdido com o abandono das roças e das criações, quer pela introdução de hábitos, necessidades e estilo de trabalho até então pouco conhecidos. Muito embora não se vissem de imediato dissociados da terra que ocupavam, conseguindo manter ainda relativa autonomia no trabalho, na verdade já se aproximavam da perda de uma e da outra” (QUEIROZ, R., 1983, p.70).

Situação semelhante foi vivida por aqueles que se dedicaram à extração da caixeta – e o município de Iguape apresentava significativo potencial109 de exploração desta espécie.

Segundo o levantamento feito por uma equipe de pesquisadores do PPCAUB-USP110,

em convênio com a Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo (DIEGUES et al., 1991), “quando o caixetal se localiza próximo ao local de moradia, o caixeteiro desloca-se diariamente. Quando, ao contrário, a localização do caixetal impede o deslocamento diário, a equipe acampa no local de extração por 7, 15 ou 20 dias” (ibidem, p.47). Entre os entrevistados, aquele há mais tempo na atividade de extração da caixeta logo se desligou da agricultura – já o mais novo, e com pouca experiência na prática de extração, era pescador de manjuba, agricultor e realizava biscates diversos no período da entressafra. “Segundo as declarações, a renda advinda da extração da caxeta tem maior peso no orçamento dos entrevistados, na maior parte do ano” (ibidem, p.45). Além disso, a extração da caixeta era uma das atividades que melhor remuneravam (aqueles indivíduos com baixa qualificação profissional), e ainda por cima conferia certo prestígio ao extrator, dada a valorização intrínseca à atividade (DIEGUES et al., 1991, p.50).

A pesquisa ainda aponta a existência de dois tipos de intermediários nas relações

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Renato Queiroz dá grande importância para a atividade de extração do palmito, enquanto indutora de mudanças no povoamento de Ivaporunduva que estudou.

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Segundo o estudo do PPCAUB/SMA (DIEGUES et al., 1991), a maior incidência desta espécie no

município ocorria na área do Momuna, compreendendo Arataca do Momuna, Capuava do Momuna e Morro do Inglês; nas margens do Rio Carvalho; nas áreas adjacentes a praia da Juréia; na área do Pocinho e Ortalino (próximo à barra do Peroupava); nas cercanias do morro de Icapara; arredores do Jipovura; do Coveiro e área da Estação Ecológica de Chauás.

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entre os caixeteiros e a serraria: o caixeteiro-empreiteiro111 e o intermediário

autônomo. O segundo é o que mais se assemelha ao empreiteiro descrito por R. Queiroz (1983). Este intermediário formava uma equipe de caixeteiros, arrendava o caixetal, vendia a madeira à serraria e nunca atuava diretamente no corte (cf. DIEGUES et al., 1991, p.46-47). Não havia vínculo empregatício e nem salário fixo.

Com a redução da lavoura, as formas tradicionais de organização do trabalho também se viram ameaçadas. Apesar da mão-de-obra prevalecer familiar no fim da década de 60 e a prática de auxílio mútuo ser mencionada com freqüência pelo sitiante nas atividades de plantio e colheita, um morador anunciava que o mutirão tendia a se acabar. Sua observação partia de fundamentos bastante objetivos: o custo de um mutirão – visto que este requer a realização do fandango – tornava-se mais elevado que o custo de um camarada ou diarista. E isto, pelo que nos conta Maria Isaura Pereira de Queiroz112 (1969, p.84-87), era fato visível, perceptível e comentado pela população ribeirinha. Se oferecer um festejo tornava-se cada vez mais oneroso, está claro que a fartura dos mantimentos produzidos já não era mais a mesma – e em decorrência, a necessidade de comprar os caros produtos da chiboca, a vendinha do bairro, tornava-se maior.

A chiboca representava uma nova forma de escoamento da produção e abastecimento nos bairros, e sua proliferação esteve também relacionada à diminuição da lavoura – a este respeito, as observações de Maria Isaura Pereira de Queiroz (1969) são preciosas. Para o sitiante, não compensava ir até a cidade113 levar sua reduzida

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“Ele é o responsável pela escolha dos companheiros na montagem da equipe, pela alimentação e pelo pagamento dos caixeteiros; em caso de acidente arca com o custo do socorro e o transporte. Está dentro de suas atribuições a escolha do caixetal, a avaliação da concentração das árvores, a extensão da área e o preço a ser pago ao proprietário da terra pelo arrendamento da vegetação [...] é especializado no corte é especializado no corte e sua remuneração, maior que a de seus companheiros, chega a três salários mínimos” (DIEGUES et al., 1991, p.45-46)

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Além desse fator, a autora aponta outros que também influíam para a inibição desta prática: a existência de protestantes no bairro, cuja religião proíbe a dança e não cultua imagens – e no fandango, a imagem de São Gonçalo, protetor dos violeiros, era celebrada. Além disso, a presença de nortistas, “temidos como valentões, amantes de briga e da pinga” aumentava as chances de que o fandango terminasse em contenda (QUEIROZ, 1969, p.87).

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Nesta época, próxima a década de 70, transitavam nas águas do Ribeira as lanchas da Companhia Sorocabana, levando 10 horas para se completar o trajeto de Registro à Iguape. Para usar este transporte para escoar a produção era preciso pagar um frete por saca, além do desembarque e o

produção de arroz, farinha e feijão. Mais fácil era deixar tudo na chiboca, a qual, por meio de escambo, oferecia sementes e bens de consumo indispensáveis.

O chiboqueiro era um tipo que associava as mesmas funções do dono de grandes armazéns de outrora; ao mesmo tempo fornecedor e financiador114. A diferença é que

este tem sua venda no interior do povoamento rural e a quantidade e a regularidade dos produtos que comercializa chegam a ser tão pequenas que ele mesmo “é compelido a fazer uma roça para seu sustento e, ele próprio, vender parcela de seu excedente” (MÜLLER, 1980, p.38). Müller (ibidem, p.38) chega a dizer que o chiboqueiro opera como comerciante, embora se reproduza como caipira, à medida que a transformação de mercadoria em dinheiro era rara e nem sempre ganhava autonomia na relação entre ele e o produtor.

Segundo Maria Isaura, a presença da chiboca se justifica principalmente pelo tipo de produção que comercializa: pequena e irregular. Assim sendo, a chiboca “se explica pelo tipo de escoamento da produção e não pelo serviço comercial que ela presta aos moradores locais: o serviço comercial decorre do tipo de produção” (QUEIROZ, 1969, p.95). A alta freqüência destas vendas – em bairros como o Jairê, de população escassa e notadamente pobre – foi atribuída ao fato de representarem a porta de comunicação com o comércio local115, através da qual o bairro era abastecido e seus

produtos escoados (ibidem, p.95-98). Ao mesmo tempo, a atividade das chibocas só se justificaria se existisse um agrupamento mínimo de pessoas, em condições precárias de acesso ao comércio e, porque não, com necessidades crescentes de adquirir produtos industrializados.

Contudo, tanto Maria Isaura Pereira de Queiroz (ibidem, p.43;98), quanto Petrone

beneficiamento do arroz (QUEIROZ, 1969, p.97). Além de muito dispendioso para o agricultor, este perdia muitos dias de trabalho até ir e voltar da cidade.

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“Na Baixada, o tipo característico do comerciante é o de um indivíduo de dupla função: é o fornecedor dos produtos não produzidos na região por um lado, e por outro lado, é quem compra os produtos locais dos sitiantes para colocá-los no mercado” (QUEIROZ, 1969, p.43).

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No final da década de 60, tal era o marasmo econômico de Iguape que certos agricultores e comerciantes, conforme a localidade de suas instalações, preferiam fazer compras em Registro – já considerada “capital” do Vale do Ribeira – do que na própria sede de seu município. O Estaleiro é um exemplo de bairro cujas relações comerciais se estabeleceram com as duas cidades.

(1966, p.336) observaram a presença de comerciantes mais bem sucedidos que a média, e que possuíam um padrão de vida superior ao dos agricultores. Era o “maioral do bairro”, aquele que tinha melhores condições de arcar com as despesas de transporte e negociar com o comerciante da cidade. Não raro, sua atuação “se revestia de uma forma desapiedada de exploração do agricultor” (MEDEIROS, 1950 apud PETRONE, 1966, p.336).

Isso denota que o caboclo nunca escapou da sobre-exploração em todas as suas relações de troca, seja com o chiboqueiro, o comprador de palmito, o dono de engenho ou o comerciante da pesca116. A este respeito, nos fez pensar Godelier

(1981, p.38): é possível que, sendo demasiadamente pesada a sua exploração enquanto produtor de mercadoria, deixava o caboclo “de dispor de meios materiais e dos incitamentos psicológicos ao desenvolvimento da sua própria economia”117. Em outras palavras, se a possibilidade de acumulação do sitiante fosse maior, talvez tivesse tido a oportunidade de comprar melhores sementes, instrumentos de trabalho, insumos... e de tal modo, desenvolver sua economia, intensificar, modernizar sua agricultura e se incorporar às relações de mercado de forma menos subalterna.

Podemos dizer que, da segunda metade do século XX em diante, as famílias transitaram entre uma atividade e outra – quando não transitaram fisicamente entre os bairros – aproveitaram oportunidades de realizar “bicos”, aqui e ali, na cidade ou na propriedade de algum fazendeiro (ou mesmo pequeno e médio produtor rural); aproveitaram épocas de festas, como a do carnaval, Semana Santa e, principalmente, Festa de Agosto118, para irem à cidade, levar esteiras de perí, feixes de lenha e outros

produtos para vender; aproveitaram do palmito, mas “não se podia falar de um

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As redes, bem como as embarcações usadas na pesca eram de propriedade de alguém que comprava todo o pescado e monopolizava a produção. Essa mesma figura fazia o transporte até Iguape, onde o pescado era industrializado. No caso do Jairê, diz Pereira de Queiroz (ibidem, p.72), o comerciante da pesca era, ao mesmo tempo, o dono da chiboca.

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Godelier refere-se especificamente a produtores diretos das comunidades aldeãs e tribais dos Estados inca e asteca, os quais sofriam com a cobrança da corvéia ou de tributos onerosos.

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A “Festa de Agosto” é a forma como a principal festa popular de Iguape – a novena em louvor ao Senhor Bom Jesus de Iguape – é conhecida na região. É uma festa religiosa tradicional da cidade, que até hoje traz muitos romeiros e turistas, principalmente, da região Sul do Brasil. Como toda festa popular, paralelamente às procissões, romarias e missas, acontece uma feira onde se vende de tudo. Os iguapenses sempre aproveitaram esta oportunidade para ganhar um dinheiro extra.

palmiteiro que vivesse somente de derrubar palmeiras” (FORTES, 2000, 186). Enfim, lançaram mão de diversos119 recursos para garantir seu sustento, fazendo ainda

prevalecer a lógica da sobrevivência.

De resto, subsistiram de sua acanhada roça “de policultivos, com emprego de técnicas primitivas” (QUEIROZ, 1969, p.63) e da criação de pequenos animais. Para muitas famílias, o arroz continuou sendo produzido basicamente “para o gasto”, assim como a farinha de mandioca. “Todos entre os entrevistados fabricam farinha”, comenta Maria Isaura Pereira de Queiroz (ibidem, p.69).