• No results found

september 2015 av justis- og beredskapsminister Anders Anundsen

Civilização publicado na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro entre 16 e 23 de outubro de 1892. O romance, em geral, é lido como uma Nouvelle Phantaisiste, por ser essa a forma como Eça de Queirós se refere ao seu livro em carta a seu editor. Por causa dessa caracterização, a crítica tende a ler essa narrativa pautada simplesmente nessa classificação.

Este livro foi muitas vezes recebido como simples exercício artístico, ao contrário de suas obras anteriores, lidas pelo viés social. Por outro lado, e algum tempo depois, a crítica relê o romance e dá a ele um novo sentido, apontando para a sua complexidade, como o faz Lepecki: “o texto deste romance exige, na realidade, uma micro-leitura, a nível de cada palavra, o que constitui tarefa praticamente impossível” (LEPECKI 1974, p. 81).

A mesma estudiosa explicita o funcionamento e as circunstâncias do romance, apontando, ainda que tangencialmente, para a questão da História:

[…] só se pode fazer um esquema da temporalidade (história) das ações do protagonista, nunca um esquema das causalidades (enredo). A ausência sistemática da causalidade, revelada na recusa de análise do protagonista, sendo verossímil numa narrativa em primeira pessoa com as características deste, será também um indício quanto ao significado do texto: as causas de Jacinto não estão nele. Transcendem-no para enraizar em nível muito mais profundo: o da própria circunstância histórica e sociológica daquilo que ele representa (LEPECKI 1974, p. 129, nota 26).

A imposição da temporalidade sobre a causalidade faz parte da técnica que o narrador utiliza para reconstruir as ações de Jacinto, pois ao encobrir as causas próprias do protagonista, Zé Fernandes força sua impressão das coisas, fazendo com que seu discurso sobreponha-se ao de seu amigo.

As coordenadas cronológicas do romance são de difícil apreensão, pois mesmo um trabalho que utilize técnicas mais modernas para datar o romance passa pela dificuldade de entrar na imaginação do narrador, como é o caso de Luis Adriano Carlos, que busca informações relativas aos inventos e coteja as datas (ano, mês e dia), utilizando um calendário universal, para reconstituir algumas referências temporais, mas não foge de afirmar que

[…] em suma, ou Eça é realista, e a acção decorre nos primeiros anos da década de 90, ou é fantasista, e nesse caso deforma a temporalidade histórica, numa ficção em que o dígito e o número funcionam como elementos estruturantes, quer da narrativa, quer do próprio narrador (CARLOS 2005, p. 102).

Ao que parece, a datação deste romance não é muito precisa. Por isso, ao tentar datar, os críticos sempre acabam por relativizar os números, apontando duas ou mais datas para um mesmo evento.

Portanto, o tempo medido, que alguns críticos buscaram como marca do Eça realista, não dava conta da multiplicidade de sua obra. Assim, quando há uma empreitada por organizar cronologicamente A cidade e as serras,

142

_________________________________________________________________________________

acaba-se por relativizar as datas, já que o tempo sensível irrompe através do tempo medido.

Um narrador pouco confiável

Em A cidade e as serras o narrador é interno ao romance e sua posição de personagem secundário impõe a perspectiva de dentro da ação, que traz, com isso, a sua problematização.

Assim, esse narrador, caracterizado como homodiegético, traz consigo certas questões como: 1. Qual sua posição no interior da narrativa? 2. Quando narra? 3. Sua perspectiva domina a narrativa? 4. Qual sua ideologia?

O narrador neste romance configura-se pela sua posição secundária. Ou, dito de outra forma, o eu que enuncia a história possui uma dupla função de narrador e personagem, mas define-se por sua posição secundária em relação ao herói da narrativa. Desse modo, o narrador relega-se “deliberadamente para um plano de menor relevo que, no entanto, não diminui de modo algum sua importância como” responsável “por enunciados narrativos empenhados em veicular histórias em que se destaca, como elemento estrutural mais proeminente” sua própria figura (REIS 1975, p. 302). Portanto, em linhas gerais, a posição do narrador ao longo do romance oscila entre ser o coadjuvante da história narrada e ser o protagonista.

Por se tratar de um narrador incluído no seio da narrativa, importa saber sua posição espacial e temporal. Para isso, dois críticos, quase simultaneamente, trouxeram colaborações profícuas para a questão. Em primeiro lugar, Lepecki explica que

[…] o narrador interno, antes de se fazer sujeito de enunciação, foi sujeito de leitura. Enquanto sujeito de enunciação pode guardar certa independência em relação ao texto que produz, isto é, pode seleccionar o que deseja narrar. Todavia, o sujeito de enunciação só existe agora porque foi no passado sujeito de leitura (LEPECKI 1974, p. 126, grifo da autora).

Dessa maneira, Lepecki coloca o narrador como principal responsável pela construção narrativa, localizando sua enunciação posterior aos acontecimentos narrados, podendo, assim, construir o passado através de sua perspectiva presente.

Em segundo lugar, Carlos Reis explica a posição temporal do narrador:

[…] interpretando o acto de produção de um enunciado narrativo, o narrador situa-se num tempo posterior àquele que engloba os factos relatados em que participou como personagem, podendo fazer com que, por meio de diversos processos, se estabeleça na narração uma oscilação pela qual ora se realça a imagem do sujeito da enunciação ora a da personagem vivendo a diegese (REIS 1975, p. 303-304).

Se conjugar-se o excerto de Lepecki ao de Reis, teremos que o narrador organiza os fatos a posteriori, podendo, assim, contá-los de forma mais convincente, ou talvez, mais conveniente a ele. Por conseguinte, a narrativa é construída pelo narrador, que dá o tom e a moral da história.

143

_________________________________________________________________________________