A bacia, que tem como principal destinação o uso agrícola possui os dois insumos básicos: solo agricultável, que é abundante e a água, em menor disponibilidade. Apesar da existência desses dois recursos naturais, características peculiares da bacia impedem e limitam a ampliação das explorações agrícolas. Esses impedimentos e limitações passarão daqui para frente a serem tratados como problemas e como tais foi necessário identificá-los.
A identificação dos problemas baseou-se na realização de entrevistas com produtores, na análise de documentos técnicos relacionados à área de estudo e em visitas a diversos pontos da bacia. A partir das informações levantadas, procurou-se agrupá-los em grupos ou temas referentes ao uso da água e das limitações relacionadas à expansão da área agrícola, como:
1. Uso do solo;
2. Uso da água para irrigação;
4. Obras de Infra-estrutura hídrica e sistemas de irrigação; 5. Ações do Estado.
Esses problemas ocorrem de forma concomitante e muitas vezes atuam de forma sinérgica, resultando no surgimento dos conflitos entre os usuários pelo uso da água. Destaca- se a existência de conflitos, não de ordem quantitativa, mas qualitativa. Devido ao intenso uso de agrotóxicos, os empreendimentos que necessitam de água com qualidade se vêem prejudicados, como é o caso da aqüicultura. Um fato interessante a ser destacado é que os próprios agricultores irrigantes conhecem os problemas, mas, no entanto, poucas vezes buscam a solução para eles.
Uso do solo: ao se propor alguma melhoria no uso da água na agricultura fica
impossível dissociar uso da água e do solo. A maior conseqüência do mau uso do solo é a ocorrência da erosão (Figura 4.24). Esse processo, que ocorre naturalmente, se processa de forma muita acelerada em função da adoção de práticas culturais danosas ao solo e ao meio ambiente. Quando o solo se encontra desprotegido, a probabilidade de perda deste recurso por meio da erosão é alta.
Figura 4.24 – Crateras em propriedades rurais, provavelmente originadas por processos
erosivos que provocam o afloramento do lençol subterrâneo.
A erosão causada pela água carrega consigo partículas de solo, nutrientes químicos, matéria orgânica, sementes e resíduos de agrotóxicos que, além de causar prejuízos diretos à produção agrícola, poluem os corpos hídricos, causando a eutrofização e contaminando os seres aquáticos. Essas perdas causadas pela erosão elevam os custos de produção, aumentando a necessidade de utilização maior quantidade de fertilizantes e corretivos. A erosão também causa problemas de qualidade e disponibilidade de água, como:
Redução da capacidade de armazenamento dos reservatórios devida à sedimentação, acarretando o aumento dos custos de construção de barragens para os diversos fins, entre eles o abastecimento hidro-agrícola e hidrelétrico;
Elevação dos custos de tratamento da água.
Boa parte dos grandes agricultores têm tido a preocupação em evitar a erosão mantendo o solo protegido. Isso é identificado quando se percebe o aumento da área explorada por meio do sistema de plantio direto. Esse sistema consiste, resumidamente, em cultivar a terra sem que haja a aração e gradagem prévia do solo, sendo que a semente é colocada num em que não houve revolvimento. É um sistema bastante eficiente no controle do processo erosivo, em função da manutenção dos resíduos vegetais sobre a superfície do solo, promovendo a mobilização mínima desse, podendo reduzir em até 90 % das perdas de solo e água quando comparado com o sistema convencional de plantio.
Apesar das vantagens do sistema de plantio direto, o sistema convencional também é bastante utilizado. Uma das grandes limitações em relação ao uso do Sistema de Plantio Direto é a falta de conhecimentos técnicos sobre o tema, sobretudo em relação ao manejo das ervas daninhas com a aplicação de herbicidas.
Um outro ponto que merece destaque em relação à proteção do solo se deve à grande área desmatada. Na época em que houve a ocupação da bacia pelos agricultores, o próprio governo ao realizar os desmatamentos das novas áreas não respeitou os limites estabelecidos pelo Código Florestal. Era possível encontrar áreas 100 % desmatadas, desrespeitando a determinação de preservação de 20 % da área destinada a reserva legal.
Assim sendo, a ocupação desordenada que houve afetou significativamente a cobertura florestal, sobretudo próximo às nascentes, fazendo que estas diminuíssem sua vazão, até secando-as. A retirada da cobertura vegetal, com a conseqüente exposição do solo, é um dos principais problemas de uso dos recursos naturais na região das nascentes. O solo descoberto sofre o efeito erosivo das fortes chuvas, causando uma série de problemas já citados.
Uso da Água para Irrigação: a água, por parecer que é um recurso natural abundante,
é notadamente pouco valorizada. O Distrito Federal, devido a sua localização geográfica, é uma região pobre em relação à oferta hídrica. Em função de sua pequena ocorrência, faz-se necessária a sua parcimoniosa utilização, sobretudo na agricultura.
A forma em que o irrigante da bacia utiliza a água revela que, na sua maioria, ele se baseia na sua experiência própria e não em critérios técnicos oriundos da pesquisa. Quando perguntados sobre como é feito o manejo da irrigação, é quase consenso que ele é
desconhecido. A determinação do quanto e quando irrigar é algo muito aleatório. O momento de irrigar se baseia apenas no teor de umidade encontrado em baixo da botina do irrigante, método chamado “rasta pé”. Lamentavelmente o que se vê ainda hoje é a aplicação de água por meio de equipamentos de irrigação sem a menor critério técnico.
É comum encontrar irrigantes que fazem o controle da água aplicada quando essa satura completamente o solo, dando sinais de escoamento superficial. Esses agricultores desconhecem o fato que uma pequena parte de seus lucros estão indo embora juntamente com água escoada.
Também existem irrigantes que seguem, sem o menor questionamento, as regras de operação pré-estabelecidas pelos fabricantes dos equipamentos de irrigação, levando apenas em consideração a lâmina aplicada.
O método de manejo mais conhecido na região se baseia na determinação do teor de umidade do solo, registrado através do tensiômetro. Apesar da simplicidade do desse método, muitos agricultores têm dificuldade ao ler o tensiômetro ocasionando erro na leitura, aplicando assim uma lâmina d’água inadequada. Em alguns casos a utilização do tensiômetro foi abandonada por dificuldade em se encontrar peças de reposição.
Os outros métodos que se baseiam no estado hídrico da planta ou na variação do balanço hídrico do conjunto planta-atmosfera, apesar de já consagrados pela pesquisa, não são conhecidos pelos irrigantes.
Assistência Técnica e Nível Tecnológico: assistência técnica tem um papel importante
em qualquer atividade agrícola, em especial na atividade agrícola irrigada. Ela é a ponte entre os avanços tecnológicos obtidos por meio da pesquisa e os seus usuários. Também faz o papel inverso, levando à pesquisa os desafios e problemas encontrados pelos agricultores. Ressalta- se que o trabalho do extensionista é intenso, sendo necessária a sua presença periódica na propriedade, seja observando o desenvolvimento da cultura seja apontando as soluções para eventuais problemas.
A EMATER-DF vem desenvolvendo trabalhos na bacia atendendo aos pequenos e grandes produtores, levando conhecimento, mostrando resultados positivos de tecnologias adotadas e valorizando e defendendo os interesses dos produtores rurais. Cabe salientar que a EMATER é o órgão do governo com maior aceitação por parte das comunidades rurais.
Em relação ao nível tecnológico, apesar da adoção de sistemas de irrigação por pivô- central, aspersão convencional e gotejamento apontarem a para um médio/alto nível tecnológico, constatou-se que o nível tecnológico é bastante variado.
A dificuldade em se adotar novas tecnologias ainda está muito presente em campo, podendo se destacar algumas causas distintas. Uma das causas se deve naturalmente a uma característica cultural do próprio agricultor. O choque entre a adoção de uma nova tecnologia e o abandono de uma técnica já dominada é angustiante.
Outra causa se deve aos recursos financeiros. Qualquer mudança no sistema de irrigação implica novos investimentos e o irrigante já está com sua capacidade de endividamento em seu limite com dificuldade de acesso a novos créditos. Tem-se também o medo justificável que ao se mudar de sistema de irrigação, realizar novos investimentos não ter água suficiente para atender o seu uso. O surgimento de novos usos a montante dos usuários já implantados é uma realidade.
Infra-Estrutura Hídrica: foram executadas várias obras que visavam o aumento da
área irrigada na bacia do rio Jardim, atendendo aos pequenos e grandes irrigantes. As obras direcionadas aos pequenos irrigantes baseavam-se na construção de canais de irrigação de uso coletivo, os denominados Canais Derivadores (Figura 4.25). Esses projetos possuem como principal característica à derivação por gravidade das águas do curso de água natural, por meio de um canal onde estão instalados os sistemas individuais de captação para pequenas áreas irrigadas, as quais são operadas de forma individual. Os irrigantes cujas captações se localizam próximas à derivação do curso d’água, têm uma garantia maior de fornecimento durante o ano. Aqueles irrigantes localizados no trecho médio e final desses canais só têm a garantia do fornecimento de água no período de chuvas, onde a demanda de água para irrigação é baixa.
Figura 4.25 – Canal de desvio do rio Jardim que atende os usuários do Núcleo Rural
Um dos fatores marcantes para essa falta de água se refere à forma de construção desses canais. A sua concepção original só previu a escavação direta no solo, não sendo revestidos na sua totalidade. Devido ao razoável tempo de existência desses canais, à falta de manutenção preventiva e de investimentos para a recuperação de trechos assoreados, esses canais apresentam problemas de perda de água por infiltração.
As obras de infra-estrutura hídrica cujos beneficiados são os grandes irrigantes se basearam, basicamente, na construção de barramentos. Essas obras têm um pequeno porte e regularizam pequenas vazões. De forma semelhante aos canais de derivação, não foram realizadas manutenções preventivas e reparadoras.