2. Teori
2.2. Separasjon av lipider
(por ordem de aparecimento) Ferrugem, um escravo Dioniso Hércules um Defunto Caronte um Porteiro um Serviçal Hoteleira
Fogane, outra hoteleira um Criado
Eurípides Ésquilo Plutão
Coro:
primeiro como Pererecas
depois como Iniciados nos Mistérios Eleusinos
Personagens mudas: Carregadores de caixão Escravos citas
Serviçais
Musa de Eurípides
(O teatro é ao ar livre, formado por três seções principais: a plateia, a orquestra - um campo circular em torno de um altar - e um palco atrás desse campo, acessado por três degraus. Por trás do palco há uma espécie de painel, tão largo quanto a orquestra, feito de madeira e vime, em cujo centro, na altura do palco, há um edifício de madeira com uma porta central aberta, que leva aos bastidores. Também há dois caminhos, um à esquerda da orquestra e outro à direita, chamados párodos, que conduzem para fora do teatro.)
(Vem do párado esquerdo o deus Dioniso, um sujeito gordinho vestido como Hércules: traja uma pele de leão e carrega um tacape – típicos de Hércules – , mas ao mesmo tempo veste um manto amarelo e calça botas com grandes saltos – típicos de Dioniso150. Segue-o um escravo, Ferrugem,
montado num burro e sofrendo sob uma carga enorme. Ambos se dirigem à porta central do palco.) Ferrugem: É pra contar uma dessas mesmas piadas de sempre,
Que fazem toda plateia cair na risada, chefe?
Dioniso: Por Zeus, sim! O que quiser, tudo menos "ai, que aperto!!" Nem me venha dizer isso – já me deu um revertério!
Ferrugem: E uma bem sofisticada?
Dioniso: Nada de “tô arrebentando!” 5
Ferrugem: Mas o quê? Eu conto a de fazer rachar?
Dioniso: Por Zeus! É claro! Pode falar sem receio! Só não me diga uma coisa!
Ferrugem: Qual?
Dioniso: Que co' esse peso todo já te vem a cagarreia.
Ferrugem: Nem falar que, se um bom homem não tirar toda esse carga
Do meu lombo agora mesmo, logo vou me trespeidar? 10
Dioniso: Não me faz isso! Eu imploro! Que desse jeito eu vomito!
Ferrugem: Mas então qual é o motivo de eu carregar essa tralha, Se não é pr'eu imitar as personagens que faz Frínico, Pra não deixar de falar do tal Lícis e do Amípsias,
Que enchem as comédias deles sempre co'esses cacarecos151? 15
Dioniso: Não faz isso! Porque, sempre que tô vendo uma comédia, A cada vez que eu encontro tamanha prova de engenho, Tenho a impressão que perdi um ano completo de vida!
Ferrugem: Desagraça pouca é bobagem pr'esse pescocinho aqui!
Pois tá quase arrebentando, mas não vai contar piada! 20
Dioniso: (fingindo indignação) Diz se isso não é folga e uma falta de limite! Eu, Dioniso em pessoa, o próprio filho de Alambíquias152,
Padecendo andando a pé, e esse aqui montando o burro Pra não sentir canseirinha e não carregar um pesinho!
Ferrugem: (indignado) Mas eu não tô carregando?
Dioniso: Como se tão te levando153? 25
Ferrugem: Carregando isso aqui, oras!
Dioniso: De que jeito?
Ferrugem: Com mau jeito!
Dioniso: Mas o burro não carrega o peso que você carrega?
151 Frínico, Lícis e Amípsias são comediógrafos rivais de Aristófanes, ativos no final do século V. De suas obras restaram apenas fragmentos. Segundo a passagem, eles abusavam de uma cena típica, na qual colocava-se no palco um escravo levando uma carga enorme e fazendo comentários sobre seu desconforto muscular e intestinal (os comediógrafos frequentemente associam ao esforço físico a vontade de peidar e cagar). Apesar da condenação, Aristófanes faz aqui uma variação daquele tipo de cena.
152 Em lugar de “filho de Zeus”. No original se diz hyiòs Stamníou (“o filho do Jarro de Vinho”), identificando-se Dioniso com a bebida de que é deus.
153 Dioniso começa a parodiar o procedimento de “perguntas e respostas” aplicado pelos filósofos do século V(dentre eles, Sócrates) para provar ou questionar um ponto de vista. Mais tarde esse procedimento ganharia o nome de “erística” (quando o único objetivo é vencer o oponente e se empregam argumentos falaciosos) e “dialética” (quando se quer realmente provar a verdade de um ponto e se utilizam argumentos lógicos).
Ferrugem: Não o que eu tô carregando! Pode ver! Zeus tá de prova!
Dioniso: Mas como assim carregando, se tá sendo carregado?
Ferrugem: E como eu vou saber disso? Ai, que aperto... no meu ombro! 30
Dioniso: Se você diz que o jumento não te serve mais pra nada, Troca de lugar com ele e carrega nas suas costas!
Ferrugem: Ai, desgraça! Se eu tivesse ido pra lutar no mar,
Co’ a alforria, eu te mandava um “pau no cu” dos mais sinceros154!
Dioniso: Desce logo, vagabundo! Já tamos perto da casa 35 Da pessoa pra quem temos que fazer umas perguntas.
(Ferrugem desce do burro, com dificuldade, para não deixar a carga cair. Dioniso sobe no palco e bate ao lado da porta central violentamente)
Escravo! Ei, ei, escravo! Ei, tem gente aqui na porta!
(Aparece Hércules no centro da porta, sem sair. É um sujeito grande, truculento e glutão, com uma voz cavernosa)
Hércules: Quem foi que bateu na porta? Pareceu uma centaurada Querendo invadir a casa. Me diga logo o que foi!
Dioniso: (para Ferrugem) Ei, escravo!
Ferrugem: Que que foi?
Dioniso: Reparou nisso?
154 A referência é à recente batalha de Arginusas (cf. prefácio). Ferrugem se lamenta de não ter participado dela e, consequentemente, não ter sido liberto, pois, como homem livre, poderia se vingar dos maus tratos do mestre.
Ferrugem: No quê? 40
Dioniso: Viu? Ele ficou com medo!
Ferrugem: De que fosse um doido! Zeus!
Hércules: (à parte, surpreso) Eita, mas que porra é essa?
(ri ruidosamente)
Ai, Deméter! Eu me explodo! Nem mordendo a língua que eu seguro a gargalhada!
Dioniso: Meu amigo, chega aqui! Tô precisando de ajuda.
Hércules: (à parte) Vou rachar de dar risada, se eu olhar mais um segundo 45 Essa pele de leão com esse mantinho amarelo!
(sai da casa e se põe ao lado de Dioniso)
Um tacape nessa mão e nos pés aqueles tamancos? (para Dioniso) De onde você tá chegando?
Dioniso: Trepei na popa do Clístenes155!
Hércules: Pruma batalha naval?
Dioniso: Sim! Ele mandava e a gente
Ia enfiando o esporão! (faz uma dança balançando o quadril para trás e para frente)
155 Clístenes era um famoso ateniense, conhecido por seu comportamento efeminado. Aqui inventa-se uma situação em que Clístenes é um trierarca, o comandante de um trirreme, e Dioniso um dos hoplitas a bordo. No original há uma possível brincadeira entre epibateúo (ser um dos hoplitas que tripulavam o navio) e epibaíno (“montar”, usado também com sentido sexual).
Afundamos dez navios156! 50
Hércules: Vocês dois? (apontando para Ferrugem)
Dioniso: Sim! Por Apolo!
Ferrugem: Foi aí que ele acordou!
(Ferrugem fica se equilibrando pra não cair com a carga)
Dioniso: E uma hora eu tava lá, lendo a Andrômeda157 no barco
Quando de repente veio sobre mim uma paixão Que varou meu coração e o demoliu sem piedade.
Hércules: Qual o tamanho da paixão?
Dioniso: (faz um gesto amplo com as mãos) Do tamanhinho do Mólon158. 55
Hércules: É mulher?
Dioniso: Não é.
Hércules: Menino?
Dioniso: Não é não! De forma alguma!
Hércules: Então é homem?
156 A principal maneira com que os atenienses afundavam os barcos dos inimigos era usando um esporão afixado à proa.
157 Título de uma tragédia de Eurípides, que narrava como a princesa etíope Andrômeda, presa pelo pai a uma rocha para ser devorada por um monstro marinho e aplacar a fúria do deus Poseidon, foi resgatada pelo herói Perseu, apaixonado por ela. O fato de a leitura da tragédia despertar um “desejo” em Dioniso é menção ao teor fortemente erótico daquela peça.
Dioniso Aiai!
Hércules: Você dormiu com o Clístenes?!
Dioniso: Deu pra rir da minha cara? Pô, Hércules, eu tô mal! Esse meu anseio aqui me consome de uma forma....
Hércules: De que forma, Dionisola?
Dioniso: Não consigo nem falar! 60 Deixa, que eu vou comparar com algo que você domina:
Você já se apaixonou por alguma feijoada159?
Hércules: Feijoada? Ô se já! Umas mil vezes na vida!
Dioniso: Eu fui claro ou você quer “que faça nova exposição160”?
Hércules: Eu sou bom de feijoada! Nem precisa falar mais! 65
Dioniso: Um desejo desse tipo me devora, uma paixão Por Eurípides!
Herácles: Aquele que tá morto faz um tempo?
Dioniso: E não tem ninguém na terra que me tira a decisão De sair em busca dele.
Hércules: Quer dizer que vai pro Inferno?
Dioniso: Sim, por Zeus! E vou ainda mais embaixo se preciso! 70
159 Hércules era costumeiramente representado na comédia como um glutão (cf. As Aves). 160 Citação da tragédia Hipsípile, de Eurípides (fr. 763), que se encontra em estado fragmentário.