O Muquém é um pequeno povoado rural, pertencente ao município de União dos Palmares. Situado a 4 km da cidade sede do município, o Muquém é habitado por uma “comunidade remanescente de quilombo”, conforme certificação emitida em 2005 pela Fundação Cultural Palmares, órgão vinculado ao Ministério da Cultura, publicada no Diário Oficial da União (BRASIL, 2005b). Sua população, no período da pesquisa, era estimada em, aproximadamente, 507 pessoas, distribuídas entre 123 famílias36.
As pessoas declaram-se integrantes de uma única família que, segundo uma das versões relatadas por uma pessoa entrevistada, formou-se a partir de um casal, cujo cônjuge era “um negro fugido da Serra da Barriga, depois da destruição do Quilombo”, que se casou com uma jovem da região. O negro chamava-se Muquém, originando-se daí o nome do povoado.
A suposição de que todos fazem parte da mesma família é reforçada pelo uso do sobrenome Nunes, usado por quase todos os moradores.
O sentimento de pertencimento a uma mesma família se expressa no modo de vida comunal, pautado em valores como a solidariedade. Até o modo de partilhar o espaço físico, sem separação por cercas entre as parcelas pertencentes a cada família, caracteriza o modo de organização coletiva da comunidade.
Até meados do século passado, a comunidade de Muquém era referência na região pela produção artesanal de cerâmica utilitária, atividade tipicamente feminina, que era repassada de mãe para filha, desde a infância, num movimento histórico natural. Os homens participavam com a apanha de lenha para queima das peças e na comercialização dos produtos nas feiras da região. Em depoimentos, mulheres da própria comunidade informaram: “A gente aprendia fazer as louça brincando, vendo as mães fazer. A tradição do barro era um costume natural, que passava de mãe pra filha. Toda mulher de Muquém sabia trabalhar no barro. Hoje isso mudou”.
A produção de cerâmica artesanal era o principal meio de vida da comunidade, ao lado do trabalho dos homens na agricultura e na pesca no rio Mundaú, às margens do qual se localiza o povoado e do qual se retiravam o barro para o artesanato. As mulheres fabricavam,
em grande quantidade, todo tipo de peças, que denominavam de “louça”, usadas na cozinha e na mesa: panelas, potes, jarras, chaleiras, cuscuzeiros, pratos, tigelas, aribés37 e outras.
Explicando o desaparecimento da procura de utensílios de cerâmica, uma das senhoras entrevistadas afirmou: “Com a modernização, aos poucos, foram aparecendo vasilhas de alumínio, de vidro, de louça branca e de plástico, e o barro foi sumindo da cozinha e da mesa”.
Hoje, restam apenas duas senhoras que ainda resistem, fabricando panelas de barro para vender: “São mulheres da cidade que compram as panelas de barro como folclore, pra dizer assim pras visitas – ‘Olhe, eu vou fazer uma feijoada lá em casa na panela de barro’. Tem, também, uns restaurantes que compra” (moradora entrevistada).
Há, aproximadamente, dez anos, o Serviço Brasileiro de Apoio a Micro e Pequenas Empresas (Sebrae)implantou um projeto em Muquém para incentivar a produção de cerâmica decorativa, com o objetivo de atrair o turismo para o povoado, gerando renda para a comunidade. Foi construído um barracão para reunir todos os artesãos no mesmo local, com salas individuais para cada artesão confeccionar suas peças e uma área de exposição coletiva destinada às vendas.
O projeto não teve o sucesso esperado, segundo a presidente da Associação, “porque as pessoas são desunidas”. Apenas uma artesã, a única cujos trabalhos foram projetados fora dos limites da comunidade e até fora do país, mantém seu “ateliê” no barracão. Outros artesãos, incluindo homens que passaram a fazer peças decorativas, trabalham em suas próprias residências, mas se queixam da falta de apoio dos órgãos públicos.
Destacam-se, dentre as peças de cerâmica produzidas atualmente, miniaturas das “louças” que eram fabricadas anteriormente para uso doméstico – panelinhas, potinhos, jarrinhas e outras, que os artesãos passaram a denominar de souvenir, termo introduzido no universo vocabular da comunidade, provavelmente, com a intervenção de órgãos públicos e privados ligados à área de turismo.
A perda do mercado de cerâmica utilitária como fonte de renda da comunidade provocou mudanças em seus meios de vida. No presente, a comunidade busca garantir sua existência através da agricultura de subsistência, criação de animais domésticos para consumo, ocupações subalternas na agroindústria canavieira, em declínio na região, e das aposentadorias rurais das pessoas idosas.
Com a escassez do trabalho assalariado na região, os homens migram, temporariamente, para cortar cana nos estados de Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo e Paraná. Os casados deixam suas mulheres e filhos desamparados, aguardando envio de algum dinheiro para sua manutenção. Entre os solteiros, muitos deixam suas namoradas e noivas aguardando sua volta com dinheiro para realizarem o sonho de casar e constituir uma família.
Em diversos depoimentos, são relatadas as condições extremamente precárias dessa migração, desde o transporte clandestino dos trabalhadores, financiado pelos proprietários de usinas e fazendas de plantação de cana dos estados de destino, até casos de regime de trabalho semiescravo. Dificilmente, esse tipo de trabalho é registrado, conforme assegura a legislação trabalhista do País.
Apesar de condições tão adversas, a maioria das pessoas entrevistadas considera que vale a pena os homens correrem os riscos das migrações, pois há casos de trabalhadores que conseguem retornar com “um bom dinheiro”. Mas há, também, relato de casos de trabalhadores que não suportaram o regime exaustivo e as condições precárias de trabalho, adoeceram, não receberam assistência dos empregadores, penalizando suas famílias, que se viram obrigadas a enviar-lhes, por outros migrantes que se dirigiram para o mesmo local, alimentos e dinheiro destinado à passagem de volta para casa38.
A migração é citada, por alguns professores entrevistados, como uma das causas do abandono das classes de alfabetização pelos homens adultos.