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Sentralstimulerende stoffer

In document Rus i Trafikken (sider 18-22)

“Queria ser a voz em que uma pedra fala”. (Manoel de Barros, 1998)

Na tentativa de identificar os sonhos plurais da comunidade São Pedro Joselândia, mergulharmos no imaginário dos entrevistados, com a intenção de resgatar a importância do envolvimento e participação comunitária na conservação e preservação da RPPN. Neste sentido, há aqueles que vêem com bons olhos a criação da RPPN, mas apontam algumas necessidades para construção de sonhos que sejam plurais para a consolidação da reserva.

“Eu gostei do Sesc Pantanal porque o projeto é de conservação. Só que está faltando é o Sesc entrar em conjunto com a comunidade de Joselândia para desenvolver alguma atividade. Precisamos realizar alguma coisa em conjunto e não desenvolver somente os seus projetos e esquecer da gente”.

“Está faltando mais integração entre a comunidade vizinha e o Sesc Pantanal”.

Se por um lado existem aqueles que reclamam a falta de unidade entre o Sesc Pantanal e a comunidade do entorno nas estratégias de conservação e preservação da área protegida, por outro lado, existem aqueles que demonstram satisfação com as ações do Sesc em torno da criação da RPPN. Veja alguns depoimentos dos moradores:

“Eu acho uma coisa maravilhosa à criação da RPPN. O Sesc está realmente preocupado com a natureza e com a comunidade também”.

“Quando o Sesc chegou aqui, essas fazendas já estavam praticamente desativadas. O problema é que as pessoas daqui são ingênuas e para eles o Sesc é novidade. Eles não entendem a preocupação do Sesc em proteger um patrimônio natural”.

Se analisarmos bem, o Sesc gera emprego até maior que as fazendas. “Em época de fogo, contratam equipes de prevenção de incêndio”..

“Eu acho que a criação da RPPN foi uma boa para a preservação da mata, os bichos, a natureza em geral. Com o Sesc, houve mais preservação”.

“Nós estamos desligados e afastados da Prefeitura de Barão de Melgaço, que era para dar apoio para nós. Mas eles não têm nem contato conosco. Quando precisamos é o Sesc que ajuda”.

“Aqui é um lugar isolado, e o Sesc está nos trazendo emprego e a conservação da natureza”.

(Depoimentos orais)

Neste contexto, identificamos que o Sesc Pantanal procura trabalhar dentro de uma dimensão política de compensação, com a geração de empregos para as pessoas que vivem no entorno da área protegida, com as atividades de guarda-parque e brigatista para a prevenção das queimadas na época de seca. Identificamos ainda que a principal escola da comunidade, que funciona com a educação básica, de competência do Governo do Estado, está esquecida tanto pelo poder público estadual quanto municipal (de Barão de Melgaço), e também recebe um pequeno apoio logístico do Sesc em suas atividades. Por conta disso, há aqueles que vêem o Sesc como útil e fundamental para o

bom desempenho da comunidade, que há décadas sofre com o descaso nas áreas de bem-estar social, educação e saúde.

Todavia, Diegues (2000, p. 43) comenta que para assegurar a conservação das áreas protegidas não basta considerar os nativos como parceiros juniores e inferiores, utilizando-os como guarda-parques. Neste sentido o autor alerta que a experiência tem demonstrado que freqüentemente a criação de guarda-parque local, isolada de outras medidas de melhoria das condições de vida e renda da comunidade, leva a ressentimentos e à desorganização do sistema de produção.

“Na elaboração das estratégias de conservação, essas populações não somente deve ser ouvido, como devem dispor de poder deliberativo nos órgãos de decisão, o que raramente acontece em países como o nosso”.

(Ibidem, 2000, p. 43)

Uma prova cabal de que as comunidades biorregionais não têm participado dos processos de criação de áreas protegidas, é identificada neste estudo pelos depoimentos orais de moradores nativos do local. A esmagadora maioria reclama que nunca foi ouvida na criação de áreas protegidas e na transformação do pantanal em patrimônio da humanidade.

“Quando tombou isso aqui como patrimônio histórico da humanidade, nenhum pantaneiro foi consultado”.

(Depoimento oral)

Para compreendermos melhor essa relação de contemplação de políticas compensatórias na criação de áreas protegidas, Freire (1970, p.34) nos ensina que “esta luta somente tem sentido quando os oprimidos, ao buscarem recuperar a humanidade, que é uma forma de criá-la, não se sentem idealistamente opressores, nem se tornam, de fato, opressores dos opressores, mas restauradores da humanidade em ambos”. Dessa forma, ele nos alerta que não se pode jamais entender esta “generosidade”, pois a

verdadeira generosidade está em lutar para que desapareçam as razões que alimentam o falso amor.

“Os oprimidos, que introjetam, na medida em que esta, implicando a expulsão desta sombra, exigiria deles que preenchessem o vazio deixado pela expulsão com outro conteúdo – o de sua autonomia. Ninguém tem liberdade para ser livre: pelo contrário, luta por ela precisamente porque não a tem”.

(FREIRE, 1970, p. 34)

Todavia, embora essas populações pratiquem um modo de vida ecologicamente mais equilibrado, vêm sendo negligenciadas quanto aos subsídios para a elaboração de políticas públicas regionais, assim como são as primeiras a sofrerem os impactos ambientais e as últimas a se beneficiarem das políticas de conservação ambiental (cf. Arruda, 1999 apud Sato et al, 2001,p.587). Nesse contexto, a participação ativa da comunidade se torna fundamental. Entretanto, ainda faltam mecanismos educacionais eficientes que realmente incentivem o exercício da cidadania da comunidade para a manutenção dos ambientes naturais e culturais do Pantanal.

Para Sato et al (2001, p.587), ”a participação ativa da comunidade faz-se fundamental”. Segundo ela, para tal participação, há que se criarem mecanismos educacionais eficientes que realmente incentivem a comunidade para a manutenção do ambiente. Neste rumo, ela comenta que rever o próprio conceito de “tradicionalidade” faz-se necessário, pois a mudança social dos povos tradicionais passa a ocorrer em tempos não tradicionais.

“Estas comunidades já incorporaram a biodiversidade em sua cultura, mas o acelerado desenvolvimento vem eliminando as espécies e trazendo a pobreza da região, em nome do perverso adjetivo ‘sustentável’.”

(Ibidem, 2001, p. 587)

Acredita-se que as populações pantaneiras regionais, caso venham a ter as informações necessárias e a posição de parceiros com direitos iguais, serão capazes de construir seu próprio futuro. É nessa esperança que este estudo pretende alertar que

novos olhares precisam ser construídos para o manejo das áreas protegidas no Pantanal, onde o mito da natureza intocável prevalece em detrimento das comunidades nativas que há séculos vivem naquele bioma e hoje se sentem discriminadas.

“Eu me sinto como senão estivesse no Brasil. A Constituição do Brasil diz que os brasileiros têm o direito de ir e vir. Quando chego na porta da reserva e vejo aquela placa dizendo que é proibida a entrada de pessoas estranhas, faço de conta que não vejo. Porque acho um afronto, um desrespeito, é uma falta de consideração com o povo da comunidade”.

(Depoimento oral)

Dentro deste cenário de exclusão das populações das áreas protegidas, Diegues (2002, p.37) nos alerta que “é fundamental enfatizar que as transposições de modelos americanos (Yellostostone) de parques sem moradores, vindo de países industrializados e de clima temperado para os países do terceiro mundo, cujas florestas remanescentes foram e continuam sendo, em grande parte, habitadas por populações biorregionais, estão na base não só de conflitos insuperáveis, mas na de uma visão inadequada de áreas protegidas”. Para ele, essa inadequação, aliada a outros fatores – graves conflitos fundiários em muitos países; noção inadequada de fiscalização; corporativismo dos administradores; expansão urbana; profunda crise econômica e a dívida externa de muitos subdesenvolvidos – está na base do que se define a crise de conservação.

Nos países do terceiro mundo, a conservação dos diversos ecossistemas tem levado à desestruturação de comunidades que mantinham relativo equilíbrio com o ambiente. Como resultado, dados os limitados meios financeiros e técnicos de que dispõe o Estado, essas áreas a serem protegidas são invadidas por interesses comerciais da indústria do chamado turismo ecológico que avança em nome de modelo de conservação das belezas cênicas de áreas como o Pantanal, entre outros ecossistemas dignos de conservação.

In document Rus i Trafikken (sider 18-22)