• No results found

O estudo de campo efectuado permitiu ter uma visão geral da reabilitação e das medidas de melhoria do comportamento térmico-energético aplicadas.

Levando-se em conta o que foi observado, destacam-se as seguintes conclusões:

• As medidas de melhoria são aplicadas, principalmente, em duas situações:

Em edifícios bastante degradados e devolutos, cujo ano de construção é anterior a 1950, em que apenas são mantidas as paredes exteriores. Nesses casos são efectuados importantes trabalhos de reforço estrutural e o interior do edifício é profundamente alterado. Dado que geralmente apresentam paredes de elevada espessura, e que portanto contribuem para uma massa térmica relevante, não é usual serem isoladas termicamente. As medidas aplicadas são essencialmente ao nível de: coberturas, envidraçados e sistemas mais eficientes de água quentes sanitárias (não necessariamente sistemas solares térmicos). Note-se que, nestes casos, os custos das medidas a aplicar são uma pequena parcela comparativamente com o custo total da empreitada;

Em edifícios (ou fracções) da década de 1950, correspondendo ao início das estruturas de betão armado e paredes de alvenaria em tijolo. No caso de reabilitação apenas de determinada fracção, as medidas aplicadas estão relacionadas com a redução da permeabilidade ao ar dos envidraçados e com o isolamento de coberturas (no caso em que se situem sob a cobertura). No caso de reabilitação de edifícios, em conjunto com uma profunda alteração do espaço interior, são também aplicados: isolamento de paredes pelo exterior, isolamento de coberturas, vãos envidraçados de comportamento térmico melhorado.

• Raramente são aplicadas medidas de melhoria térmico-energéticas em edifícios mais recentes, nomeadamente no que se refere aos de estrutura de betão armado com paredes duplas de alvenaria (normalmente sem isolamento na caixa-de-ar). Embora existam graves problemas de conforto interior, os condomínios não têm, geralmente, a capacidade de investimento suficiente para levar a cabo essas medidas. Nestes casos, as intervenções levadas a cabo dizem respeito, única e exclusivamente, a reparações na fachada (e.g., reparação de fendilhação, pinturas) e na cobertura (e.g., infiltrações de água, degradação do revestimento de impermeabilização). Nesses casos, aquando de reparações nas coberturas, os condomínios não aplicam isolamento térmico. Essa aplicação fica a cargo dos proprietários dos últimos andares, caso estes assim o entendam.

• A maioria das reabilitações visam a venda dos imóveis após a reabilitação e por isso algumas das soluções passiveis de serem aplicadas são consideradas, pelo dono-de- obra ou pelo projectista, inestéticas e que prejudicariam o valor do imóvel (e.g. manutenção da caixilharia e vidro existentes colocando uma segunda janela)

• Destaca-se que os edifícios visitados que não se destinavam a venda, mas que ainda assim são reabilitados, beneficiavam, em parte, de fundos de investimento do QREN, o que permitiu a aplicação de medidas de melhoria do comportamento térmico energético.

Os aspectos observados permitiram, também, concluir que as medidas de melhoria são aplicadas com maior frequência em:

1. Coberturas – Apresentam-se como elemento do edifício mais exposto à acção dos agentes atmosféricos. De facto verificou-se que, regra geral, as coberturas apresentam vários problemas estruturais e de ocorrência de humidades associados à perda de estanquidade do revestimento. Note-se que praticamente todas as coberturas observadas nas obras foram demolidas e reconstruídas. Por esse motivo não é difícil perceber que as coberturas foram os elementos onde mais frequentemente foram aplicadas medidas de melhoria de comportamento térmico- energético.

2. Vãos envidraçados - Levando em conta os aspectos observados nas obras visitadas verifica-se que, a par da reabilitação térmico-energética das coberturas, os vãos

envidraçados são os elementos dos edifícios mais substituídos. Note-se que, numa parte significativa dos casos, a caixilharia existente não apresenta grau de degradação tal que inviabilize a sua recuperação. Verificou-se, ainda, que existe uma tendência crescente para diminuir a permeabilidade ao ar desses elementos, quer seja pela aplicação de sistemas de batentes (ou oscilo-batente) ou, como no caso da Obra 10, pela incorporação de perfis vedantes. A redução da permeabilidade ao ar da envolvente, associada à falta de ventilação natural, poderá trazer problemas nomeadamente no que diz respeito à qualidade do ar interior e à ocorrência de condensações.

3. Paredes – Verificou-se frequentemente a aplicação de isolamento de paredes exteriores, nomeadamente em edifícios construídos após 1950 em que as paredes exteriores são constituídas por alvenaria de tijolo furado com cerca de 30 centímetros. Geralmente, em edifícios onde apenas a envolvente é intervencionada, o isolamento é efectuado pelo exterior.

Em virtude do que foi observado nas 27 obras considerou-se pertinente elaborar um quadro síntese (Quadro 5.2) que permitisse ter uma visão geral das medidas de melhoria do comportamento térmico-energético aplicadas.

Quadro 5.2 – Quadro síntese: medidas aplicadas em reabilitação

Soluções de melhoria do comportamento térmico-energético

Frequentemente Sempre

Coberturas Isolamento em coberturas inclinadas, colocado na laje de esteira Paredes exteriores Isolamento pelo exterior; Isolamento pelo interior

Vãos envidraçados

Caixilharia metálica com corte térmico e vidro duplo; Caixilharia em policloreto de vinilo (PVC)

Sistema de fecho de batente

Sistema de sombreamento pelo exterior ajustável; Sistemas de sombreamento pelo interior

AQS Esquentador ou Caldeira com classe de eficiência mais alta Sistemas de

climatização Pré instalação de ar condicionado; Sistemas AVAC Pavimentos Isolamento de pavimentos sobre espaços não aquecidos Ventilação Sistemas AVAC em edifícios de serviços

Raramente Nunca

Pavimentos Isolamento de pavimentos em contacto com o solo Paredes exteriores Isolamento na caixa-de-ar por injecção Vãos envidraçados Vidros duplos de baixa emissividade; Janelas duplas

AQS Sistema solar térmico

Sistemas de

climatização Sistema de recuperação de calor, Sistemas de biomassa

Ventilação Instalação de sistemas de ventilação natural ou mecânica em edifícios residenciais

É possível verificar que existe a tendência crescente para, em reabilitação, se aumentar o nível de isolamento da envolvente. Nesse sentido recorre-se, por um lado ao isolamento de paredes exteriores e cobertura, e por outro lado à melhoria das características térmicas dos envidraçados.

O principal objectivo dessa aplicação é reduzir o consumo energético devido às necessidades de aquecimento. De facto, o aumento do isolamento térmico da envolvente, bem como a diminuição da sua permeabilidade ao ar, têm benefícios consideráveis no Inverno, minimizando as perdas pela envolvente.

No entanto, no Verão, uma envolvente bastante isolada pode apresentar algumas desvantagens. Numa estação onde se prevê uma elevada incidência da radiação solar e ganhos de calor por condução importantes, uma envolvente altamente isolada opõem-se à transferência de calor para o exterior e ao arrefecimento nocturno, o que contribui para o aumento das temperaturas interiores, podendo prejudicar o conforto dos utilizadores. Esse é um aspecto importante para o clima português dado que se tem assistido a Verões cada vez mais longos e com períodos (de vários dias) com temperaturas extremamente altas.

Karin Chvatal [2007] efectuou um estudo sobre o risco de sobreaquecimento em edifícios com envolventes extremamente isoladas e estanques. Concluiu que, para edifícios residenciais, uma envolvente com tais características pode trazer economia de energia para o Inverno, sem elevação do sobreaquecimento no Verão caso sejam tomadas algumas medidas preventivas, nomeadamente através de arrefecimento nocturno por aberturas em fachadas e renovação franca do ar. O problema do sobreaquecimento agrava-se quando a inércia do edifício é fraca.

Nos edifícios de serviços, em grande parte devido aos altos ganhos internos, em simultaneidade com ganhos solares, a temperatura é elevada mesmo com baixos factores solares dos vãos envidraçados. Neste caso o contorno do problema é mais complicado, sendo importante estabelecer soluções de sombreamento eficazes e de ventilação.

Note-se que, no caso dos edifícios de serviços, o problema do sobreaquecimento, é de difícil solução, em grade parte devido aos elevados ganhos internos. Note-se que, em alguns casos, a temperatura interior é elevada, mesmo com baixos factores solares dos envidraçados. Esta situação levará, impreterivelmente, a consumos energéticos elevados e, consequentemente, ao agravamento da factura energética e das emissões de CO2 [CHVATAL, 2007].

Uma das formas de mitigar os riscos de sobreaquecimento é a utilização de sistemas eficazes de sombreamento, nomeadamente os sistemas móveis (ou ajustáveis) [APON, 2005].

A ventilação (natural e/ou mecânica) aplicada de forma a garantir o número de renovações por hora estabelecidas pelo RCCTE, visando a qualidade do ar interior, pode não ser suficiente para atenuar o sobreaquecimento de edifícios com inércia térmica elevada. Nesse sentido o arrefecimento nocturno da massa térmica é a solução mais eficaz na prevenção de situações de sobreaquecimento [ORME, s.d.].

A aplicação destas medidas é igualmente importante nos casos em que as varandas são transformadas em varandas envidraçadas.

Estes aspectos, nomeadamente da provisão de sistemas de ventilação desempenham um papel vital na durabilidade, na qualidade do ar interior e no desempenho global. Contudo a sua aplicação é bastante reduzida sendo basicamente restrita aos edifícios de serviços.

6. Conclusão