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SENTRAL VEST

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Certeau, ao escrever sobre leitura, associa ler a uma operação de caça, de modo que o leitor erra por espaços “desterritorializados”, no qual suas pegadas não deixam pistas.

Na sociedade atual, o autor entende que o papel social do leitor não se resume apenas a um construtor de sentidos, mas, credita a este como função, o consumo de livros, indispensável nessa cadeia produtiva da indústria cultural do livro. No entanto, as relações entre leitor e as obras literárias são tornadas complexas, na medida em que os elementos materiais de veiculação dos livros são sofisticados, o que tem impacto sobre a forma como o leitor faz a recepção dos livros. Elementos gráficos e ilustrações, assim como formas diferenciadas de diagramação, por exemplo, conferem representação aos personagens, contribuindo para o resultado final da leitura feita pelo leitor.

Ao analisar a relação entre o leitor e o livro, Certeau (1994) apresenta uma questão cara à escola, ao ponderar que hoje não se pode mais alimentar o mito de que uma nação pode ser remodelada pela educação, ao contrário da tradição inaugurada pelo Iluminismo:

“No século XVIII, a ideologia das Luzes queria que o livro fosse capaz de reformar a sociedade, que a vulgarização escolar transformasse os hábitos e costumes, que uma elite tivesse com seus produtos, se a sua difusão cobrisse todo o território, o poder

de remodelar toda a nação. Este mito da Educação inscreveu uma teoria do consumo nas estruturas da política cultural”. (p. 261)

Em que pese a mudança complexa da estrutura social, própria da sociedade pós-industrial em que vivemos, que invalida qualquer possibilidade de se moldar uma nação por meio de uma só variável, qual seja a Educação, o autor não alimenta o mito da escola como espaço de excelência da criação do vínculo entre leitor e livro. Pelo contrário, o autor aponta de forma inequívoca, um efeito colateral resultante do processo escolar de criação da leitura como objeto de ensino indispensável na formação do leitor, identificando, no espaço escolar, um processo de dissociação da atividade de leitura como atividade inerente à prática social:

“Tudo se passa na Educação como se a forma de implantá-Ia tecnicamente se houvesse realizado desmesuradamente, eliminando o conteúdo que lhe dava a possibilidade de ser e, desde então, perde a sua utilidade social.” (Certeau, 1994 p. 261)

Ainda, em relação ao papel social da leitura, Certeau (1994) refuta a proposição de que o texto escrito possa moldar o público leitor. Afirma que historicamente houve uma hierarquização entre leitura e escrita, opondo o produtor do texto, o autor ao receptor sem qualquer marca material, ao leitor. No entanto, mesmo com suas marcas indeléveis, o leitor, historicamente, se configurou em um peregrino construtor de sentido:

“O que se deve pôr em causa não é, infelizmente, essa divisão do trabalho (é muito real), mas o fato de assimilar a leitura a uma passividade. Com efeito, ler é peregrinar por um sistema imposto (o do texto, análogo à ordem construída de uma cidade ou de um supermercado). Análises recentes mostram que "toda leitura modifica o seu objeto", que (já dizia Borges) "uma literatura difere de outra menos pelo texto que pela maneira como é lida", e que enfim um sistema de signos verbais ou icônicos é uma reserva de formas que esperam do leitor o seu sentido. Se portanto "o livro é um efeito (uma construção) do leitor", deve-se considerar a operação deste último

como uma espécie de lectio, produção própria do "leitor". Este não toma nem o lugar do autor nem um lugar de autor. Inventa nos textos outra coisa que não aquilo que era a “intenção” deles. Destaca-os de sua origem (perdida ou acessória). Combina os seus fragmentos e cria algo não–sabido no espaço organizado por sua capacidade de permitir uma pluralidade indefinida de significações”. (p. 264-265) Esse trecho situa a tese à qual se apóia Certeau (1994): cabe ao leitor a produção de interpretações, o que faz do livro um objeto de sentido em potencial, no entanto, cabe ao leitor preencher com significações que a tessitura do texto possa permitir por meio desta atividade incerta, singular e desconhecida denominada leitura.

Certeau (1994) lamenta que as pesquisas produzidas no meio acadêmico persigam metodologias para o ensino de leitura, constatando que poucos esforços são feitos para desvendar o percurso da produção de sentido, através da leitura do livro, que possa ser efetivado no espaço escolar. Dentre esses esforços, a postura do leitor diante do texto teve uma mudança radical, sendo que podemos inferir que ao professor(a) falta o entendimento de que a leitura em voz alta teve suas funções restritas à situações sociais específicas e que a leitura silenciosa é ainda uma atividade a ser consolidada na escola:

“Através dessas pesquisas e muitas outras, busca-.se uma orientação na leitura que não se caracteriza mais somente por uma "impertinente ausência" mas pelos avanços e recuos, pelas táticas e pelos jogos com o texto. Vai e vem, ora captada (mas por que, então, que desperta ao mesmo tempo no leitor e no texto?), jogando, protestando, fugindo. (...) Por outro lado, porém, em seu nível mais elementar, a leitura se tornou há três séculos uma obra da vista. Ela não é mais acompanhada, como antigamente, pelo ruído de uma articulação vocal nem pelo movimento de uma mastigação muscular. Ler sem pronunciar em voz alta ou a meia-voz é uma experiência "moderna", desconhecida" durante milênios. Antigamente, o leitor interiorizava o texto: fazia da própria voz o corpo do outro, era o seu ator. Hoje o texto não impõe mais o seu ritmo ao assunto, não se manifesta mais pela voz do leitor. Esse recuo

do corpo, condição de sua autonomia, é um distanciar-se do texto é para o leitor o seu habeas corpus”. (p. 271-272)

Assim, o autor sublinha que a leitura em voz alta foi cedendo lugar para uma leitura silenciosa, de forma que um conjunto de postura que deviam ser impingidas ao corpo foi gradativamente se distanciando durante a atividade leitora, cedendo lugar a outra estética corporal, em que a introspecção e o isolamento, no processo de recepção da obra literária, foram valorizados.

Nessa perspectiva, Certeau (1994) concebe uma série de imagens sugestivas sobre a atividade leitora. A primeira delas diz respeito a uma característica específica da relação do leitor com o texto: transportar para diferentes lugares de maneira a não ser possível a marcação do lugar no tempo, o que o autor denomina como ubiqüidade:

"Leio e me ponho a pensar... Minha leitura seria então aminha impertinente ausência. Seria a leitura um exercício de ubiqüidade? Experiência inicial, até iniciática: ler é estar alhures, onde não se está, em outro mundo; é constituir uma cena secreta, lugar onde se entra e de onde se sai à vontade; é criar cantos de sombra e de noite numa existência submetida à transparência tecnocrática e àquela luz implacável que, em Genet, materializa o inferno da alienação social.” (p. 269)

Outra característica é o processo de desterritorialização dos espaços construídos pelo leitor, devido à fugacidade inerente ao ato de ler:

“O leitor é o produtor de jardins que miniaturizam e congregam um mundo. Robinson de urna ilha a descobrir mas, "possuído" também por seu próprio carnaval que introduz o múltiplo e a diferença no sistema escrito de urna sociedade e de um texto. Autor romanesco, portanto. Ele se desterritorializa, oscilando em um não-lugar entre o que inventa e o que modifica. Ora efetivamente, como caçador na floresta, ele tem o escrito à vista, descobre urna pista, ri, faz "golpes", ou então, como jogador, deixa-se prender aí. Ora perde aí as seguranças fictícias da realidade: suas fugas o exilam das certezas que colocam o eu no tabuleiro social.” (Certeau, 1994: p. 269)

Por fim, de maneira sugestiva, define que a leitura é uma operação de caça, em que o leitor é um nômade circulando pela espacialidade de sentidos propiciados pelo texto:

“Longe de serem escritores, fundadores de um lugar próprio, herdeiros dos servos de antigamente, mas, agora trabalhando no solo da linguagem, cavadores de poços e construtores de casas, os leitores são viajantes; circulam nas terras alheias, nômades caçando por conta própria através dos campos que não escreveram, arrebatando os bens do Egito para usufruí-los. A escritura acumula, estoca, resiste ao tempo pelo estabelecimento de um lugar e multiplica sua produção pelo expansionismo da reprodução. A leitura não tem garantias contra o desgaste do tempo (a gente se esquece e esquece), ela não conserva ou conserva mal a sua posse, e cada um dos lugares por onde ela passa é repetição do paraíso perdido.“ (Certeau, 1994: p. 269-270). Esse trecho nos leva a inferir que a leitura é uma atividade atemporal, no sentido de que os gestos e todo o esforço de produção de sentidos são desmaterializados, e utópica, na medida em que suas marcas não são materializadas em nenhum território.

Nessa perspectiva, Chartier (1994) desenvolve pesquisa que se apóia em três aspectos: o texto, o livro e a leitura, de forma que:

“A leitura não está, ainda, inscrita no texto, e que não há, portanto, distância pensável entre o sentido que lhe é imposto (por seu autor, pelo uso, pela crítica etc. e a interpretação que pode ser feita por seus leitores; conseqüentemente, um texto só existe se houver um leitor para lhe dar um significado”. (p.11)

Chartier aponta que estudos podem aclarar a clivagem entre um tipo de leitura intensiva, em que está inscrita a leitura em voz alta, ligada à tradição da oralidade, e a leitura extensiva, apoiada na leitura silenciosa, em que o espaço privado é destacado (p. 23).

Retomando Barthes, Certeau (1994) apresenta os três possíveis tipos de leitura: aquela que se apraz em deter-se em certas palavras, a que vai correndo até o fim e “não consegue esperar”, a que cultiva o desejo de escrever (p. 272). Evidencia, então, a autonomia do leitor, as possibilidades do leitor em relação ao texto, seja movido por interesse especial de aspectos trazidos pelo texto, seja pelo prazer de ler.

Sintetizando, os trabalhos de Certeau destacam a dimensão social da experiência leitora, por conseguinte a necessidade de o leitor aprender a interagir com os textos nas diferentes práticas sociais. Ao situar historicamente a mudança do uso social da leitura, inclusive a configuração do leitor como consumidor de livros, revela a importância da leitura na conquista da cidadania. Por sua vez, ao estabelecer relações entre o texto, o leitor e o livro, os aportes teóricos de Chartier sublinham uma dimensão pessoal própria de cada leitor, pela construção de um repertório individual de gostos, predileções, desejos, interesses e necessidades subjetivas de procura pelos textos.

A constituição do leitor é obra complexa que se dá na complementaridade dessas duas dimensões, no sentido de que é indispensável garantir o uso da leitura em função das necessidades advindas das práticas sociais e incentivar o gosto pessoal, o prazer de ler, para construção de um repertório individual.

Consideramos que contribuir para a formação desse sujeito leitor seja uma tarefa da escola. Na próxima seção, nosso objetivo é a discussão de quais os problemas e dificuldades de apropriação de práticas de leitura para o espaço educativo, a partir da constatação e crítica de como tem sido orientado o trabalho escolar voltado para o desenvolvimento das competências leitoras.

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