1.4. Moral extensionism
1.4.2. Sentientism
Para Foucault, em Arqueologia do Saber, o discurso não tem uma origem própria, ele é descontínuo, sem procedentes, “sem corpo”, “o vazio de seu próprio rastro”. Dessa forma, a análise de discurso não se pauta na busca pela origem e determinação desses discursos, mas no acontecimento em si, no momento de enunciação desses discursos, como o autor nos mostra a seguir:
É preciso estar pronto para acolher cada momento do discurso em sua irrupção de acontecimentos, nessa pontualidade em que aparece e nessa dispersão temporal que lhe permite ser repetido, sabido, esquecido, transformado, apagado até nos menores traços, escondido bem longe de todos os olhares, na poeira dos livros. Não é preciso remeter o discurso à longínqua presença de origem; é preciso tratá-lo no jogo de sua instância. (FOUCAULT, 2010, p. 28)
Seguindo o pensamento foucaultiano, a análise do discurso deve se voltar para o enunciado, na sua peculiaridade. O analista deve partir da descrição do acontecimento e, além disso, considerar as condições de produção que envolvem o momento histórico em que tal enunciado irrompeu. É preciso analisar a sua emergência, a relação entre outros grupos de enunciados, o espaço em que esse enunciado aparece etc. Nas palavras do autor:
A análise do campo discursivo é orientada de forma inteiramente diferente: trata-se de compreender o enunciado na estreiteza e singularidade de sua situação; de determinar as condições de sua existência, de fixar seus limites da forma mais justa, de estabelecer suas correlações com os outros enunciados a que pode estar ligado, de mostrar que outras formas de enunciação exclui. Não se busca, sob o que está manifesto, a conversa semi- silenciosa de outro discurso: deve-se mostrar por que não poderia ser outro, como exclui qualquer outro, como ocupa, no meio dos outros e relacionando a eles, um lugar que nenhum outro poderia ocupar. A questão pertinente a tal análise poderia ser assim formulada: que singular existência é esta que vem à tona no que se diz e em nenhuma outra parte? (FOUCAULT, 2010, p. 31) O enunciado é, portanto, único, não é possível haver outro em seu lugar, mas há ressonâncias dele em outros lugares, pois ele se repete em diferentes formas ao longo da cadeia discursiva. As regularidades enunciativas se dão no campo da repetição, da sucessão de ordens, na simultaneidade de relações. Elas são sequências enunciativas que dizem de uma mesma formação discursiva. Para Foucault, em Arqueologia do Saber, o importante é medir a sua extensão, até onde esse enunciado se repete, por quais canais ele se difunde, em que grupos circula etc. De acordo com suas palavras:
A descrição arqueológica se dirige às práticas discursivas a que os fatos de sucessão devem-se referir, se não quisermos estabelecê-los de maneira selvagem e ingênua, isto é, em termos de mérito. No nível em que se coloca, a oposição originalidade-banalidade não é, portanto, pertinente: entre uma formulação inicial e a frase que- anos, séculos mais tarde- a repetiu mais ou menos exatamente, ela não estabelece nenhuma hierarquia de valor; não faz diferença radical. Procura somente estabelecer a regularidade dos enunciados. Regularidade não se opõe, aqui, à irregularidade que, nas margens da opinião corrente, ou dos textos mais frequentes, caracterizaria o enunciado desviante (anormal, profético, retardatário, genial ou patológico); designa, para qualquer performance verbal (extraordinária ou banal, única em seu gênero ou mil vezes repetida), o conjunto das condições nas quais se exerce a função enunciativa que assegura e define sua existência. A regularidade, assim entendida, não caracteriza uma certa posição central entre os limites de uma curva estática- não pode, pois, valer como índice de frequência ou de probabilidade; especifica um campo efetivo de aparecimento. Todo enunciado é portador de uma certa regularidade e não pode dela ser dissociado. Não se deve, portanto, opor a regularidade de um enunciado à regularidade de outro (que seria menos esperado, mais singular, mais rico em inovações), mas sim a outras regularidades que caracterizam outros enunciados. (FOUCAULT, 2010, p. 162, 163).
Não é preciso buscar a origem do enunciado, o trabalho do analista se dá em investigar as condições de produção em que tal enunciado emergiu e os diversos sentidos estabilizados a partir dele. É preciso analisar os pontos em que os discursos se assemelham para entender o efeito de sentido que tal regularidade suscita.
Uma certa forma de regularidade caracteriza, pois, um conjunto de enunciados, sem que seja necessário- ou possível- estabelecer uma diferença entre o que seria novo e o que não seria. Mas as regularidades não se apresentam de maneira definitiva. [...] Temos, portanto, campos homogêneos de regularidades enunciativas (eles caracterizam uma formação discursiva), mas tais campos são diferentes entre si. Ora, não é necessário que a passagem a um novo campo de regularidades enunciativas seja acompanhada de mudanças correspondentes em todos os outros níveis dos discursos. Podemos encontrar performances verbais que são idênticas do ponto de vista da gramática (vocabulário, sintaxe e, de uma maneira geral, a língua); que são igualmente idênticas do ponto de vista da lógica (estrutura proposicional, ou sistema dedutivo no qual se encontra situada); mas que são
enunciativamente diferentes. (FOUCAULT, 2010, p. 164).
Ao explorarmos esse conceito em nosso corpus, exploraremos como surgem as regularidades enunciativas e como se repetem tanto em dizeres como em imagens nas comunidades virtuais. Isto é, verificaremos, na espessura dos materiais analisados, as regularidades enunciativas que conferem certa unidade ao discurso feminista e uma posição de ativismo digital. Trabalharemos, portanto, com o conceito de regularidades enunciativas como um de nossos conceitos fundamentais no processo analítico.