4.2 B RIX - UTVIKLING FØR OG UNDER FERMENTERING
5.1.3 Sensorisk analyse
C. Furtado, em “A economia brasileira” (1954) já está preocupado com as transformações da economia brasileira para o novo padrão e sua capacidade de acumulação, uma vez que o que está em jogo, de fato, é a produtividade do trabalho, em função da adoção de novas técnicas no processo de produção de mercadorias.
Se, o processo de formação de capital está intimamente ligado ao padrão técnico e o avanço da acumulação, por sua vez, não está dissociado da produtividade, da técnica e do crescimento econômico, então a constituição de um sistema econômico se faz necessário.
Quando se fala de sistema econômico entende-se como aborda J. Schumpeter (1961) da seguinte forma: “A totalidade das relações econômicas constitui o sistema econômico, tal como a totalidade das relações sociais constitui a sociedade. Se não se pode falar de valores sociais, há, contudo um sistema social de valores, um sistema social de valores individuais” (SCHUMPETER, 1961, p. 80).
Por outro lado, a incorporação da técnica e o próprio movimento maior da expansão da economia industrial, facilitam e fazem avançar a produtividade do trabalho e esse mecanismo cria um dinamismo que acaba deslanchando a acumulação da riqueza.
C. Furtado, naquele momento, década de 50, ainda não diferencia crescimento de desenvolvimento, no entanto, elabora, a partir da produtividade do trabalho, o que irá conduzir a especificidade do subdesenvolvimento que será o eixo determinante de sua interpretação da economia periférica brasileira.
Essa terminologia conceitual de Furtado já aparece nos seus primeiros escritos, como por exemplo, em “A economia brasileira” (1954, p. 54), no entanto, ainda não é
propriamente a discussão que somente se fará na década seguinte em diante, ao rebater as visões cêntricas de que o subdesenvolvimento seria uma etapa anterior ao desenvolvimento, o caminho natural percorrido pelos países, mas C. Furtado (1954) adianta esse debate quando analisa a teoria do desenvolvimento econômico (cap. VI, seção II, p. 211 e ss.). Ali ele já deixa claro que, “(...) o desenvolvimento econômico é essencialmente um fenômeno histórico. Cada economia que se desenvolve enfrenta uma série de problemas que lhe são específicos, se bem que muitos deles sejam comuns a outras economias contemporâneas” (FURTADO, 1954, p. 213; Grifo nosso).
O desenvolvimento econômico que é a combinação de fatores, a técnica impulsionando e produzindo mais produtividade e, portanto, mais acumulação, o que caracteriza justamente uma dada área geográfica subdesenvolvida é como esta se apropria da técnica existente. C. Furtado (1954) distingue os países desenvolvidos e subdesenvolvidos fazendo distinção ao fator da técnica quanto ao crescimento/desenvolvimento da seguinte forma:
O crescimento de uma economia desenvolvida é, portanto, principalmente um problema de acumulação de novos conhecimentos científicos e de progressos na aplicação desses conhecimentos. O crescimento das economias subdesenvolvidas é, sobretudo, um processo de assimilação da técnica prevalecente na época (FURTADO, 1954, p. 194).
Para C. Furtado, o progresso técnico tem íntima relação com o desenvolvimento econômico nacional e, portanto, com a idéia de construção de nação16. Para a economia brasileira, se, de fato, necessitamos fortalecer o sistema econômico nacional, incorre-se
16 Esta idéia que subjaz os trabalhos de Furtado nos anos 50/60/70 que é a questão do desenvolvimento
econômico nacional relacionando técnica, dependência tecnológica e a construção da nação que nada mais é que uma questão nacional aparece em M. Storper (1994) com a seguinte formulação ao tratar de desenvolvimento regional e a constituição de instituições em termos de Estado nacional: “... todo país precisa ter instituições que mobilizem os recursos para os seus setores de objetivo estratégico: o treinamento de mão-de-obra é sempre em parte uma questão nacional, como também a estruturação da pesquisa e desenvolvimento e os mercados de capital” (STORPER, In: Possibilidades de desenvolvimento tecnológico, comercial e regional em economias subdesenvolvidas, 1994, p. 25).
no propósito de diminuir a dependência tecnológica. Atento a essas questões, C. Furtado observa em “Perspectiva da economia brasileira” (1960) a seguinte formulação:
O seu desenvolvimento consiste, principalmente, em uma tentativa para assimilar a técnica criada por outros sistemas econômicos que lideraram o desenvolvimento industrial. (...) O desenvolvimento exigirá assimilação cada vez mais rápida da técnica. (...) contudo, (...) o desenvolvimento depende basicamente da poupança interna. (...) a dependência tecnológica também deverá ser superada com o desenvolvimento. Economia tão ampla, dotada de tão própria constelação de recursos como a brasileira, não poderá alcançar etapas superiores de desenvolvimento se não conseguir criar sua própria tecnologia (FURTADO,
1960, p. 54).
Para as sociedades retardatárias, o próprio sistema capitalista mundial impõe determinadas lógicas que dificultam que os países tenham capacidade de controlarem seu tempo histórico. Isto quer dizer que a técnica processada nos países do centro do sistema quando são transpostas as economias periféricas muitas vezes causam muito mais mal que propriamente benefícios. Daí, a necessidade do planejamento (inicialmente visto como programação preliminar), e o papel do Estado, na melhor das hipóteses e certamente é de fundamental importância.
Nesse aspecto, C. Furtado não é um estatista como querem alguns, mas aquele que quer adequar as transformações ocorridas em que pese o interesse maior da nação, da coletividade, através do Estado nacional propriamente dito.
A programação preliminar, nada mais é que a reunião de dados estatísticos em torno da economia geral em que o desenvolvimento do sistema econômico passa por necessidades e a utilização dos recursos escassos (poupança e crédito) precisam ser orientadas, dada as reais prioridades da economia, uma vez que, “(...) deveria ter como objetivo eliminar os principais focos de desequilíbrio e poderia circunscrever-se aos setores onde reconhecidamente existem pontos de estrangulamento. Trata-se de colocar o sistema econômico em condições propícias a uma programação mais ampla e efetiva” (FURTADO, 1960, p. 67).
Toda sociedade produz seu excedente econômico que nada mais é que uma poupança futura, ou como afirma G. Arrighi (1998, p. 221), “(...) riqueza é renda a longo prazo”. Ainda, conforme G. Arrighi (1998, p. 215), “(...) a capacidade de um Estado de se apropriar dos benefícios da divisão mundial do trabalho é determinada principalmente por sua posição (...) numa hierarquia de riqueza”. Entretanto, como isso será aplicado na geração de riqueza depende do grau de desenvolvimento técnico de uma dada formação social.
Nas sociedades industriais há uma tendência de que o sistema técnico, absorvedor da ciência, utilize-a na acumulação de riqueza e estabeleça que a produtividade do trabalho sofra mudanças a partir do padrão de uso dessa técnica. Lembrando que, conforme Theotônio dos Santos (1987) o excedente econômico “(...) é um conceito que expressa a relação geral entre a reprodução simples e a reprodução ampliada possível ou real das diferentes sociedades. (...) o excedente econômico é expresso em bens materiais, é uma relação entre produção e consumo, entre necessidades e produto social” (SANTOS, Th., 1987, 125).
Quando C. Furtado aborda a questão do excedente econômico sua preocupação está voltada para o sistema econômico e sua capacidade em aumentar sua produtividade e, por conseguinte, aumentar a acumulação da riqueza em termos nacionais.
Nesse aspecto a tendência precípua do sistema é produzir economias de escala (mais produção, aumento do poder de compra da coletividade). O lucro proveniente das trocas (produtores e consumidores) é que impulsionará a formação de capital, pois isso obrigatoriamente, numa economia industrial, acelera-se o progresso tecnológico e o agente econômico, produtor de mercadorias, tende dessa forma, a poupar e diminuir os custos de produção.
É sempre bom observar, conforme Th. dos Santos, anteriormente citado, que o aumento da produtividade gerado pelo progresso técnico-científico se expressa no capitalismo num excedente econômico crescente ... (SANTOS, Th., 1987, cap. 3, p. 121- 183). Ou mesmo que “(...) A mudança tecnológica segue as diretrizes impostas pela lógica da acumulação capitalista e o excedente crescente gerado pela aplicação de novos avanços tecnológicos serve aos fins do funcionamento do próprio sistema” (SANTOS, Th., 1987, p. 200).
O grande problema do desenvolvimento, portanto, é a capacidade do sistema de gerar desigualdades socioespaciais no território. Veremos como isso se dá na interpretação de C. Furtado na seção seguinte.