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Em vários aspectos, a cultura grega representou a base para a civilização ocidental nas artes, no teatro, na literatura e na política,

influenciando significativamente os valores da nossa cultura. Muitos dos nossos atuais questionamentos, assim como a busca de respostas para as dificuldades do homem, originalmente já faziam parte da cultura grega. Nessa sociedade se formalizam na estética e na filosofia os conceitos de força, de beleza e de juventude. Sob essa ótica, o velho representa um ser impossibilitado de corresponder a esses ideais, ocorrendo, dessa forma, ou sua completa desvalorização ou se estabelece um lugar de troca socioerótica da beleza da juventude pela sabedoria da velhice. Frente à devoção grega ao Belo e a associação da velhice às degenerações físicas ocorre, de certo modo, um aprofundamento da cisão entre juventude e velhice. Por exemplo, a velhice era designada por Hesíodo como “triste velhice”, pois enquanto a morte podia representar um grandioso e heróico fim, a longevidade estava ligada à própria noção de decrepitude. Para o povo grego, o ideal, segundo a própria mitologia, era a juventude eterna. Freqüentemente os velhos aparecem na mitologia e historiografia como figuras odiosas. Ao longo dessa civilização ocorreram diversas revoltas, nas quais os jovens lutaram contra os velhos tiranos que deviam ser descartados e mortos. A mitologia e a literatura mostram com freqüência a necessidade de os jovens ocuparem os lugares dos velhos, e relata a luta titânica entre os filhos e a geração mais velha. Nesse sentido o mito de Cronos é sugestivo.A Mãe Terra (Gaia) deita-se em união com o Pai Céu (Urano), numa identificação do Pai Primeiro com os povos invasores. O abraço interminável do par primordial produziu uma

descendência de monstros. O pai desgostoso lançou-os ao Tártaro. Mas a grande Mãe enfureceu-se com a perda dos filhos, mesmo horripilantes. Quando conseguiu que um desses filhos – Cronos – chegasse à idade adulta, pediu-lhe que se vingasse de Urano. Para isso deu-lhe uma foice e quando Urano, ávido de amor, se deitou à noite sobre a esposa, Cronos cortou-lhes os testículos.

Mais tarde, Cronos assumiu o poder e se casou com a irmã, Réia. Gaia e Urano, moribundos, haviam profetizado que Cronos seria destruído por algum descendente; assim, a cada ano, quando Réia tinha um filho, ele o devorava. Porém, com o nascimento de Zeus, Réia não suportou mais a perversa e demoníaca destruição e devolveu o filho à Mãe Terra, que o levou para uma caverna onde seria cuidado por ninfas da floresta. Zeus cresceu e acabou cumprindo a profecia, libertando os deuses e deusas do ventre da mãe.

A aliança fraterna pela qual Zeus liberta seus irmãos e o apego de Cronos ao poder, que, temendo ser destronado, devora os filhos, ilustra bem o conflito com as novas gerações, o que pode ser entendido também como vã tentativa de deter aquilo que é impossível. O mito evidencia alguns aspectos importantes: quando os deuses “envelheciam”, eles se transformavam em figuras cruéis. Mostra ainda a dificuldade que os mais velhos têm em aceitar o poder dos jovens e, em contrapartida, os jovens se revoltam contra o poder dos gerontes.

Outras narrativas míticas nos apontam para a dificuldade do envelhecer. Segundo Beauvoir:

O mito de Tirésias estabelece uma relação que encontramos freqüentemente entre a idade, a cegueira e a luz interior. Tornado cego pela cólera de Hera, Tirésias recebeu de Zeus, em compensação, o dom da profecia; dava respostas infalíveis a todas as perguntas. Foi assim também que os gregos imaginaram também o velho Homero cego: o poeta, assim como o profeta, é tanto mais inspirado quanto menos o mundo exterior existe para ele. As lendas mais significativas são que esta fosse acompanhada de uma eterna juventude como nas lendas de Títono e Éson. Na história de Éson rejuvenescido no limiar da morte pelos sortilégios de sua nora Medéia, expressa-se o velho sonho de uma eterna juventude. A primeira mostra que a decrepitude parecia aos gregos um flagelo pior que a própria morte. Aurora, obtendo para seu esposo a imortalidade, esqueceu de pedir que esta fosse acompanhada de uma eterna juventude. (1970, p. 121)

Por outro lado, tal como em outras sociedades também na sociedade grega o conceito de honorabilidade associava-se à velhice. Os termos gera e géron, usados para designar o envelhecer, também tinham a conotação de idade e de honra. O líder da polis possuía um conselho de anciãos. Era depositado nessas figuras um lugar de sabedoria.

Essa configuração social entrelaça-se com as mudanças políticas e sociais que ocorriam na polis, pois havia também a necessidade de a classe rica manter seus escravos e conservar o seu poder e, para isso, havia sempre o Conselho de Gerontes. Eles negavam aos mais jovens o exercício de determinadas funções, como a magistratura. Assim, os mais velhos mantinham uma autoridade dentro de uma escala social.

Os membros do Conselho, formado por 28 anciãos, eram conhecidos por Gerúsia. Os gerontes que faziam parte desse conselho tinham sempre seu poder ligado à ordem monárquica; é um conselho mais aristocrático do que senatorial. Os velhos que são respeitados estão ligados às suas origens aristocráticas. A forma de transmissão cultural que os velhos exercerão sobre os mais jovens está ligada à educação. Aos mais velhos cabiam os ensinamentos a serem transmitidos às gerações mais jovens. Propagar valores e legados poderia, também, ser uma via pela qual os jovens passassem a respeitar os seus mestres.

A obra de Sófocles, Édipo em Colono, retrata esse drama. Édipo, tendo chegado à velhice, é guiado por sua filha Antígona até finalmente encontrar o bosque sagrado. Nessa peça, o coro formado por velhos entoa uma canção que mostra o horror que a velhice representa; as palavras entoadas continuarão a soar durante muitas gerações. Na tragédia fica claro que o ser humano deve resignar-se ao seu destino. Édipo também aprendeu, ao longo de sua trajetória errante, que diante do destino só existe a resignação e a velhice faz parte desse percurso.

Eurípides, por sua vez, tece um hino de consagração à juventude, em Heracles, e mostra o quanto a velhice é horrível e cheia de tristeza. Apesar da grande influência dos velhos na cultura grega, manifesta-se constantemente o temor da decrepitude e a valorização do ideal de beleza e vigor vinculados à juventude.

A dicotomia que, nas culturas em geral, se apresenta como oposição entre sabedoria versus decrepitude, bondade versus egoísmo, apenas reflete o que de fato pode ocorrer em qualquer sociedade. Trata-se dos percursos potenciais que a realidade do envelhecimento apresenta: há velhos que se tornam ainda mais infantis, egoístas, cruéis e nada sábios, assim como há velhos que, embora restringidos em sua capacidade física, permanecem socialmente capazes de assumir tarefas relevantes.

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