Vários estudos de economia solidária têm identificado que elementos subjetivos, como o carisma (ou a chamada liderança carismática), exercem influência no processo de construção dessas relações interinstitucionais, seja qual for o tipo. Nesse sentido, alguns estudos que abordam o papel do carisma na construção de relações interinstitucionais na economia solidária, de forma paralela, se remetem à idéia da
associação dos chamados aspectos internos nos chamados aspectos externos (os quais seriam a própria interinstitucionalidade ou relações entre atores institucionais).
Nesse sentido, outra questão levantada a partir da reflexão das desigualdades e que vem sendo levantada por algumas pesquisas (Girard, 2006; França-Filho, 2006) é a presença dos diversos interesses intrínsecos àquelas relações. Cada ator institucional envolvido em relações como aquelas (inclusive as cooperativas, enquanto sujeitos da economia solidária) possuem interesses envolvidos.
Os pesquisadores citados acima (França-Filho, 2006; e Girard, 2006), tal qual Schiochet (2006), fazem menção à questão do conflito de interesses envolvidos no processo de construção dessas relações interinstitucionais entre os atores nelas inseridos.
Alguns estudos abordam a questão dos conflitos de interesses (tanto na esfera interna quanto na externa) como elementos que também exercem influência nos chamados aspectos externos, ou na interinstitucionalidade. Semelhantemente, a idéia do carisma (Girard, 2004), conforme abordado, também é um elemento que influencia a construção da interinstitucionalidade.
A idéia, portanto, da capacidade de construção de consensos nesse processo, segundo Girard (2006), é uma habilidade que, quando presente entre atores, contribui para o estabelecimento do que a autora chama de redes sociais entre os diversos atores envolvidos nesse processo. Semelhantemente, quando ausentes tais habilidades, o processo de construção de redes sociais (ou vínculos interinstitucionais) entre os atores presentes é comprometido.
A questão dos conflitos e dos consensos é sustentada pelo conceito de campo (Bourdieu, 1976), o qual pressupõe a existência de competição entre atores, em função dos seus interesses os quais, em última instância, acabam por explicar a ação do indivíduo num campo específico. No campo da economia solidária, de acordo com essa lógica (França – Filho, 2006), há interesses de várias ordens representados: interesses políticos, econômicos, dentre outros, para citar apenas aqueles que o presente pesquisador considera os mais evidentes quando se trata de relações entre atores institucionais.
Nesse sentido, a idéia do conflito de interesses interinstitucionais ou da construção dos consensos entre os atores institucionais influenciam diretamente a construção das relações interinstitucionais na economia solidária. Essa vertente de análise suscita à noção da influência das relações de pessoalidade nas configurações que
as relações de interinstitucionalidade acabam tendo, já que a idéia do consenso e dos conflitos são postos em negociações entre indivíduos. Alguns, como referido acima, podem possuir a habilidade para construção de consensos, vindo a se tornar uma ferramenta atuante na esfera das relações pessoais e que pode influenciar o processo de construção desigual de relações interinstitucionais entre cooperativas de mesma natureza da economia solidária.
A idéia de “campo”, utilizada acima por França-Filho (2006), como ferramenta conceitual analítica para se analisar a literatura da economia solidária, levanta um ponto de extrema importância para se realizar um levantamento acerca dos fatores que contribuem para a desigualdade das Relações Interinstitucionais: a questão do “interesse”. Alguns autores reforçam a idéia de se analisar a economia solidária por meio do conceito de “Campo”, ao verificarem, em seus estudos, a presença de conflitos de interesses que acabam por interferirem nas relações interinstitucionais.
Para Bourdieu (1976), o campo é um espaço de lutas por poder e competições por prestígios, privilégios. Acerca do “campo científico”, o autor se refere:
“o que está em luta são os monopólios da autoridade científica (capacidade técnica e poder social) e da competência científica (capacidade de falar e agir legitimamente, isto é, de maneira autorizada e com autoridade) que são socialmente outorgadas a um agente deteminado” (Bourdieu, 1976:112).
Transpondo a idéia de campo do autor para a questão das interações entre os atores institucionais, num campo de disputas políticas (políticas públicas), os conflitos de interesses envolvidos nessas relações são percebidos na questão da legitimidade da participação desses atores no processo de formulação e execução dessas políticas.
“Igualmente há uma crescente disputa interna (entre os diversos sujeitos) e externa (destes sujeitos com outros e organizações sociais) quanto ao significado da economia solidária e a posição que cada um ocupa nesta disputa” (Schiochet, 2006:vii).
Diante desse cenário de disputas e conflitos, Girard (2004 e 2006) menciona o possível papel das lideranças carismáticas comumente presentes nesses grupos como um elemento que pode influenciar nessas capacidades de consenso e, por conseguinte, “coesão social”. A capacidade de construção de consensos e de mediação de conflitos é um conhecimento que está presente na dinâmica da economia solidária, sob o aspecto do “capital social” (Girard, 2006). Contudo, como demonstram alguns estudos, esse conhecimento ou habilidade também não é distribuído igualmente. O que se entende é que tal capacidade ou habilidade pode ser uma característica intrínseca a algumas pessoas no grupo social. O que remete, aqui, à idéia da “liderança carismática” (Girard, 2004), sendo o “carisma” (Silva, 2007), uma característica que pode estar intimamente relacionada com a idéia das relações de pessoalidade (amizade, confiança).
Streit (2006), por exemplo, constatou, a partir da sua pesquisa de campo realizada em três cooperativas de catadores de materiais recicláveis do Distrito Federal entre os anos de 2005 e 2006, que, em uma das cooperativas estudadas, havia um grave “problema”19 em relação à liderança: tanto referente a “aspectos internos” quanto a
“aspectos externos”. Alguns desses “problemas” também foram identificados por Mauro (2006). Por exemplo, um dos impactos dos “problemas” da liderança em „aspectos internos‟ da cooperativa seria, por exemplo, a não convocação de eleições por parte do líder da cooperativa. Relacionou-se, ainda, neste estudo, o “problema” da liderança na cooperativa em questão, com o fato de que as pesquisas dos dois autores referidos demonstraram que a mesma cooperativa, à época da realização daqueles estudos, era aquela que possuía a menor quantidade de relações interinstitucionais construídas, dentro do universo da amostra de cooperativas estudadas pelos dois pesquisadores.
Ao “problema”, posto por Streit, associou-se alguns trabalhos que verificaram o papel da “liderança carismática” em cooperativas como as estudadas acima. Essa associação teve como objetivo verificar se os estudos já apontavam para uma associação entre forma (ou tipo) de comportamento da liderança com os resultados obtidos nos „aspectos internos‟ e „externos‟ das cooperativas.
19 É importante fazer referência à natureza científica do estudo realizado por Streit (2006). O mesmo é voltado a uma análise “Administrativa” das cooperativas. Portanto o autor, quando se refere à “problema” da liderança, o mesmo possivelmente analisa a situação com um viés normativo acerca daquela variável; de como uma liderança em um empreendimento deveria se comportar e qual papel deveria exercer. O que interessa para a presente pesquisa é a idéia de que a forma como a liderança de uma cooperativa se porta influencia nas relações interinstitucionais construídas pela cooperativa.
Segundo Girard (2004), “é importante observar que, freqüentemente, há um líder carismático na comunidade, mas sabemos, também, que a comunidade constrói o líder que permite a identificação do grupo” (Girard, 2004:203). A autora segue sua explanação se referindo ao fato de que a composição do grupo (e das reciprocidades ocorridas internamente entre os seus indivíduos) cria formas de suprimentos coletivos das necessidades individuais, além de “recriar formas democráticas, quando os interlocutores não são por demais distantes” (ibidem). Os interlocutores que a autora se refere, provavelmente, correspondem aos atores institucionais que estabeleceram relações com a cooperativa estudada na oportunidade aos próprios membros das cooperativas. Pois, após essa referência, Girard complementa: “o que se observa na dinâmica atual de um reagrupamento de forças – sob a idéia da responsabilidade social – é uma necessidade de todos (...)” (idem:203).
É importante se observar que a entrevistada na pesquisa de Girard (2004) se refere ao termo saber conquistar novas parcerias como o segredo do sucesso. Percebe- se nitidamente que há subjetividades envolvidas no processo referido de conquista de
novas parcerias. Nesse discurso há a presença de certos elementos oratórios de convencimento no processo de conquista, o que pode estar relacionado à característica da liderança carismática, referida por Girard (2004), e, assim, ao carisma, também referido por Silva (2007). O que, por sua vez, se refere à característica das relações de pessoalidades, como aquelas presentes nas relações de amizade, camaradagem, vizinhança, ou de reciprocidades ou socialidades a nível primário (Caillé, 1998 e 2004).