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Postulando, dessa forma, que os textos sincréticos possuem um plano de expressão em que linguagens variadas estão presentes com seus traços distintivos, mas que em regimes de interação produzem novos sentidos, próprios desse conjunto derivativo de significantes diversos de cada uma das linguagens, e um plano de conteúdo no qual os recursos estilísticos estão articuladas de acordo com a intencionalidade da manipulação, encontra-se nos portais de notícias a manifestação do texto sincrético, cuja identidade é forjada na pluralidade de linguagens.

Com a disponibilidade da internet para o grande público, a partir da década de 1990, o jornalismo tornou-se também on-line, especialmente presente nas agências de notícias, sem traços relevantes na forma de se constituir ou com uma diagramação que

146 Ibid. p. 61.

147 GREIMAS, A. J.; COURTÉS, J, Dicionário de Semiótica, op. cit., p. 454.

148 FIORIN, J. L. Para uma definição das linguagens sincréticas. In OLIVEIRA, A.C e TEIXEIRA, L

(orgs). Linguagens na Comunicação – desenvolvimento de semiótica sincrética. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2009, p. 33.

75 lhe conferisse identidade. Embora manifestado em um plano de expressão diferente (o meio digital), o plano de conteúdo permanecia articulado com a mídia impressa, que viria a aprofundar os temas de forma a serem divulgados em reportagens no dia seguinte ou durante a semana. A cultura digital e as mudanças de hábitos por parte dos leitores/destinatários concretizaram alterações nos planos de conteúdo que passaram a se manifestar com maior eficácia na expressão sincrética. Neste contexto, os sítios de notícias foram se modernizando, buscando fidelizar o destinatário com procedimentos discursivos plurais149.

Com o tempo, os portais tornaram-se espaços que materializam regimes de visibilidade gerados pelos efeitos produzidos em meio à diversidade das linguagens, demarcando a intencionalidade do sujeito produtor do discurso ao alinhavar textos verbais, visuais, pictóricos, imagéticos ou sonoros para gerar a significação. Esses efeitos de sentido podem ser muito variáveis, como: fazer-parecer-verdadeiro, fazer-parecer- fantástico, fazer-não-parecer-absurdo etc. Os elementos significantes de cada uma dessas linguagens interagem na composição do significado, mas mantêm, mesmo nesse novo contexto, as características individuais.

Apesar dessa pluralidade, ainda espelhados em semelhanças com a construção do discurso jornalístico dos meios impressos, os portais de notícias enunciam, predominantemente, um texto sincrético verbovisual, mas em oposição àquele, devido à mobilidade do ambiente digital (móvel vs imóvel), entretanto, ao se darem a ver para o leitor/destinatário, exigem um procedimento para leitura que os tornem imóveis (não- móveis) e, neste momento, figuram-se como quadros imagéticos compostos por fotografias, ilustrações e textos verbais, tal qual as páginas de um jornal impresso. Ou seja, são objetos complexos, com programas narrativos variados, que buscam estados de

76 transformação entre sujeitos e que procuram, no nível discursivo, estabelecer o contrato fiduciário entre enunciador e enunciatário.

Conforme já discutido, a estética de um portal de notícias pode ser comparada à da primeira página de um jornal impresso, pela divisão topológica de seu espaço, abrigando temas nos mosaicos on-line de forma muito parecida com os mosaicos impressos: alto - as principais notícias são enunciadas acima, em destaque, em um arranjo de títulos, fotos e pequenos textos; meio - assuntos cotidianos secundários, esportes e fait

divers; baixo – folhetins, celebridades e fotos – com a inserção de publicidade em seu

todo. No entanto, a materialidade entre o suporte impresso e o eletrônico, ou seja, a qualidade estésica de ambos os meios, estabelece a ruptura entre tal similaridade. No objeto sincrético, de acordo com Oliveira150, as marcas da actorialidade, espacialidade e temporalidade balizam a atividade sensível e cognitiva do sujeito em seu fazer interpretativo e estão inscritas na expressão e no conteúdo com as indicações dos modos como os sentidos, já que o corpo todo é sensibilizado pelos efeitos de sentido e engajados a agir na apreensão. Diante disso, a autora postula haver na interação que se desenrola entre enunciador e enunciatário, na performatividade que faz ser as estruturas semionarrativas, uma enunciação das interações discursivas que deixa na construção, não só as pistas do posicionamento, mas também as do sentir com a marcação de estesias e dos mecanismos de sua convocação e performatividade.

Formulamos a hipótese de uma enunciação enunciada da estesia que operaria por meio das instalações do sentir nos arranjos estéticos que organizam toda e qualquer plástica da expressão e do conteúdo. Na plástica sincrética que materializa as escolhas da enunciação para organizar o enunciado, ao lado da concretização das marcas de actorialização, temporalidade, espacialidade, estariam incrustadas nas caracterizações do ator, de sua condição estética que o movem por

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mecanismos somáticos e intersomáticos de apreensão do sentido com seu corpo e os sentidos. No fazer da enunciação, esse percurso a mais do enunciador traçado para o enunciatário é justamente instalado nas materialidades das qualidades plásticas dos arranjos que produzem as impressões estéticas no desenrolar discursivo das operações de processamento da orientação sensível rumo ao sentido (OLIVEIRA,

2009, p.32).

Ela ressalta que, nessa abordagem, os mecanismos estéticos, assim como os racionais, estão instalados no nível discursivo em função dos tipos de texto e que a tarefa de comprovação da hipótese formulada no sincretismo na mídia impressa, abre novos estudos com o objetivo de depreender regimes de configuração do sensível e o modo como as qualidades plásticas, assim como as figurativas e patêmicas (paixões), por sua fisicalidade, afetam o sujeito. Segundo Oliveira151, “a dimensão sensível e suas marcas se apresentam como a condição para o sujeito da enunciação passar do ato de sentir ao de experienciar o sentido”.

O paralelismo entre os jornais impressos e os portais do jornalismo on-line guarda semelhanças em suas visualidades. No entanto, é importante que se considere a diferença sensível entre ambas as mídias. De acordo com Gomes152, abordar o sincretismo no texto jornalístico é necessariamente lidar com as diferentes materialidades do plano da expressão das linguagens que os constituem, de modo geral a visual (fotografia) e a verbal (escrita), buscando observar sua estruturação numa forma única de expressão, veiculadora de um todo de sentido. Segundo ela, ao escolher conjugar as diversas linguagens, o sujeito da enunciação captura, de forma mais totalizadora, a adesão do enunciatário, tornando- lhe mais difícil escapar à manipulação.

No jornal, o recurso de sincretizar diversas linguagens chega a ser mesmo uma necessidade, uma maneira de o sujeito da enunciação

151 Ibid., p.133.

152 GOMES, R.S. O Sincretismo no Jornal in Linguagens na Comunicação – desenvolvimentos de semiótica sincrética. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2009, p. 215.

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colocar em ação não só o permitido e o obrigatório, a verdade construída segundo a forma do aceitável, mas também o indizível (ou por ser proibido ou por ser ainda inominável), no entanto já visível e experimentado. Constrói-se, assim, ao lado do dizer sério e controlado pelas injunções do gênero e dos limites ideológicos, de modo sorrateiro ou sugestivo, o implícito, o humorístico, o sensível, a emoção inefável

(GOMES, 2009, p. 216).

A autora considera que um caminho metodológico de análise do sincretismo no jornal é a possível separação dos planos de conteúdo e da expressão para apreender, mais eficazmente, o modo de organização de cada um desses planos. No plano do conteúdo, Gomes explica que as linguagens podem estar em oposição entre si ou uma pode redimensionar (por ampliação ou redução) ou recriar (metafórica ou metonimicamente) os sentidos da outra. Ela destaca que, em qualquer procedimento de sincretização do conteúdo, mesmo que surja a oposição como categoria que explica a correlação entre linguagens, há sempre uma base isotópica que a sustenta. A suspensão das diferenças opositivas que caracterizam o sincretismo se dá, assim, a partir de traços ou categorias de significação comuns, mas também se inscreve na existência mesma das diferenças que não se perdem nem se anulam, atuando na sua constituição.

Essas categorias de análise (redundância, oposição, redimensionamento e ressignificação), portanto, não ocorrem de maneira estanque. Podemos, então, pensar numa graduação que vai da redundância dos conteúdos à oposição entre eles, considerando o surgimento dessas categorias como interseções de qualidades semânticas como o contraponto e a reiteração (GOMES, 2009, p. 220).

Segundo Gomes, uma forma de estudar a construção formal da expressão sincrética, é a observação da colocação em página, da edição, da distribuição dos conjuntos significantes, por um enunciador competente capaz de conjugar e integrar as

79 diferentes linguagens. Gomes153 ressalta que, “pensando assim, considerando o jornal como um objeto sincrético em que os formantes de natureza visual predominam, são as categorias de ordem espacial, topológica, que dominam a organização expressiva das linguagens”. Ela relaciona as categorias que surgem dessas relações e que podem orientar a abordagem como: Categorias Topológicas154 Retilíneas: · alto vs baixo · direito vs esquerdo · intercalado vs intercalante · ortogonal vs diagonal Curvilíneas:

· Concêtricas: central vs periférico · Não-concêntricas:

® globais: englobado vs englobantes ® Parciais: cercado vs cercante

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