Com mais de trezentos anos de contato com os brancos, com um perfil histórico caracterizado por rejeições, aproximações, resistências e sendo um dos povos indígenas mais numerosos do Brasil, os Guajajara ocupam hoje onze terras
Indígenas, todas situadas na Amazônia oriental, do lado do Maranhão. Historicamente o médio Pindaré foi o seu habitat mais antigo.
Os Guajajara estão distribuídos nas seguintes áreas dentro do Estado26:
Área Município Povos Superfície Homologação População
Caru Bom Jardim Guajajara/Guajá 172.667,00 ha Dec 87.843 de
22/11/82 225
Rio Pindaré Bom Jardim Guajajara 15.003,00 ha Dec 87.846 de
22/11/82
535
Araribóia Amarante Guajajara/Guajá 413.288,00 ha Dec 98.852 de
22/01/90
4.100
Bacurizinho Grajaú Guajajara 82.432,00 ha Dec 88.600 de
09/09/83 1.650
Morro Branco Grajaú Guajajara 49,00 ha Dec 88.610 de
09/08/83 72 Canabrava Barra do Corda, Grajaú Guajajara 137.329,00 ha Dec 246 de 29/10/91 3.805 Lagoa Comprida
Grajaú Guajajara 13.198,00 ha Dec 313 de
29/10/91
252
Urucu/Juruá Grajaú Guajajara 12.697,00 ha Dec 382 de
26/12/91 448 Rodeador Barra do Corda Guajajara 2.319,00 ha Dec 88.813 de 04/10/83 83 TOTAL 11.170
Dentre os vários conflitos enfrentados pela população Guajajara do Pindaré atualmente, encontram-se o preconceito de moradores de regiões circunvizinhas que os impede de reconhecerem os limites de suas terras; as constantes epidemias que ainda causam mortes por doenças consideradas erradicadas; a posição de algumas lideranças Guajajara cooptadas por órgãos institucionais que acabam exercendo a mesma prática de favoritismo e “benefícios” pessoais, em suma, a mesma postura da política indigenista sustentada por diversas instituições que, em
26 Fonte: http://socioambiental.org/pib/epi/guajajar/loc.shtm e FUNAI, Diretoria de Assuntos Fundiários –
princípio, objetivam serem órgãos de intermediação a favorecer um processo de inclusão social dos povos indígenas de um modo geral.
E ainda, não obstante, no setor da educação não se percebe avanços, como a exigência da escola bilíngüe, que é assumida apenas em parte. Faltam também muitas escolas e profissionais de qualidade.
Para além dos conflitos internos e externos que esses povos enfrentaram ao longo dos séculos, de modo especial atualmente, as lutas empreendidas para se conservaram vivendo segundo os modos de sua cultura, ainda perduram em seus meios traços significativos de sua forma tradicional de existir e de compreensão de mundo.
Conservando-se ainda unidos pela mesma língua e tradições, os Guajajara do Pindaré apresentam-se, desde os primórdios até nossos dias, com relativa força de organização político-social. Como podemos verificar, no tempo da colonização, viveram sob o jugo da escravidão pelos colonos nas fazendas e reunidos em aldeias assistidas pelos jesuítas. Após a expulsão desses religiosos, gozaram de certa “liberdade”. Porém, no período do Império foram obrigados a se recolher em Colônias assistidas por nova leva de outros religiosos.
Com o fracasso dessas Colônias, os Guajarara saíram de um estado de aparente inação, retomaram sua força de resistência e capacidade de organização sócio-político-cultural. Com isso, reafirmaram a base de sua organização social na família extensa27; reestruturaram sua vida em Aldeias, em geral próximas a rios ou
igarapés, empreenderam toda uma luta pela retomada e posse de suas terras. Atualmente, suas casas são alinhadas em filas formando não mais que duas ruas. Suas aldeias continuam ainda relativamente pequenas, mas algumas chegam
27 Segundo Wagley & Galvão, a família extensa para o Guajajara é baseada no controle de um homem sobre um
número de “filhas” (suas próprias filhas e as filhas dos irmãos). Em essência, a família extensa Tenetehara é um grupo de mulheres relacionadas por parentesco, sob a liderança de um homem (WAGLEY &GALVÃO, 1955, p. 39).
a comportar até aproximadamente 400 habitantes. Ao contrário do passado, suas aldeias hoje têm caráter mais permanente.
Os Guajajara estabelecem uma relação de parentesco muito estreita. Visitam- se entre si, considerando principalmente as aldeias próximas. Tanto no casamento como nas mudanças de uma aldeia para outra, a escolha é feita tendo por base a organização de parentesco. Nesse sentido, nos primeiros anos os recém-casados moram com os pais da mulher. Em seu depoimento a coordenadora do CIMI, professora Rosimeire afirma:
A organização social dos Guajajara é baseada na família extensa, que é composta por um grupo de famílias nucleares unidas entre si por laços de parentesco. Apesar do longo tempo de contato com a sociedade regional, têm encontrado em sua cultura formas dinâmicas para se adaptar à realidade. Suas aldeias têm a forma de caminhos com ruas paralelas ou casas “jogadas” sem obedecer aparentemente uma organização. Localizam-se sempre próximas a rios ou lagoas. Atualmente são fixas, podendo ter sido construídas por uma única família ou por várias famílias. As casas são de taipa ou de alvenaria (devido a financiamento da CVRD – Companhia do Vale do Rio Doce). As aldeias têm independência uma das outras. Essa independência é mediada por relações de parentesco e rituais que existem entre aldeias diferentes, mas próximas. Cada aldeia tem seu cacique, mas existem algumas onde há mais de uma liderança por causa de rivalidades entre famílias extensas. Os critérios para escolha das lideranças são qualidades individuais (oratória, etc), consangüinidade, afinidade e conhecimento do português e talento diplomático - essas duas últimas para saber lidar com o mundo dos brancos (Entrevista realizada em 11.09.2006).
Circula ainda o sistema de troca de produtos materiais e de dinheiro na relação entre os Guajajara e os brancos das proximidades, e com aqueles que por lá aparecem, vez por outra. Em algumas aldeias os índios “negociam” com pessoas de fora da aldeia, recebem fumo, cachaça, perfume, móveis, eletrodomésticos, roupas, celulares, aparelhos de tecnologia moderna, enfim tudo o que para eles não é acessível. Por outro lado, como “pagamento”, os índios permitem que os de fora da aldeia entrem na mata, explorem a floresta, devastem os rios, explorem a terra, utilizem métodos modernos e agressivos no uso da terra e seus derivados. Em decorrência dessa comercialização, aumenta a destruição das riquezas naturais das áreas dos indígenas.
Também entre os Guajajara, em geral, cada aldeia dispõe de um chefe que goza de prestígio tanto econômico quanto político. O “capitão”, antes apontado pelo
SPI28 e atualmente determinado pela FUNAI28, tem uma função política,
diferentemente de quando esta função era associada, no passado, ao chefe de guerra, e é exercida por aquele que entremeia as relações entre os índios e os brancos. O chefe é alguém escolhido do sexo masculino e via-de-regra é dotado de qualidades pessoais. Trata-se de pessoas que por sua presença e cargo impõem e suscitam determinado respeito, tanto entre seu povo indígena quanto no meio dos brancos com os quais se mantêm em contato. No entanto, atualmente esses critérios para a chefia têm enfraquecido sempre mais na aldeia.
É preciso enfatizar, porém, que se existe algo entre os Guajajara, intrinsecamente ligado à cultura é o trabalho, pois Maíra29é quem orienta o viver, o trabalhar, a relação com a caça e a pesca. Nesse sentido há uma correspondência íntima entre o trabalho e o universo espiritual. Todo o fazer Guajajara em torno da natureza exige o ato de “pedir permissão”, do contrário pode acarretar males para a pessoa, para o grupo familiar e até para toda a aldeia. Esses afazeres do cotidiano Guajarara do Pindaré compõem a planta, a caça, a pesca, a medicina. Em suma, para que possa viver bem e em paz, o Guajajara se orienta pelo sobrenatural. Isso mostra as marcas diretivas da influencia religiosa para todos os seus afazeres do cotidiano.
Ademais, como nos primórdios da colonização, a economia dos Guajajara continua tendo suas bases nos princípios da economia de subsistência. Em entrevista à coordenadora do CIMI no Maranhão, a professora Rosimeire afirma que,
uma das principais atividades de subsistência dos Guajajara atualmente é a lavoura onde plantam mandioca, macaxeira, arroz, abóbora, feijão, etc. Praticam também a pescaria principalmente para consumo familiar e esporadicamente para venda. É possível encontrar um ou outro indígena vendendo peixe logo depois da ponte do rio Pindaré, sentido Santa Inês- Bom Jardim. Praticam também a coleta, mas devido ao processo de
28 Fundação Nacional do Índio - órgão do governo Federal fundado em 1967 em substituição ao SPI, para cuidar
da política indigenista oficial (ZANNONI, 1999, p. 19).
29 MA’ÍRA – é o mais importante dos heróis culturais. Por ele os Tenentehara explicam o mito da criação do
homem, da mulher, da natureza, dos seres. Ubbiali explica que pelas suas façanhas, Ma’ira foi o maior pajé e o maior guerreiro da terra, pois ele possuía poderes imensuráveis, criando e dominando os homens e a natureza. Ma’ira ainda hoje representa, talvez no nível de inconsciente, um certo ideal para ao Tenetehara cuja maior aspiração é transferir os poderes dele para o seu próprio domínio (UBBIALI, 1998, p. 3)
destruição que sofreu o seu território essa atividade diminuiu com o passar do tempo (Entrevista realizada em 12/02/2007).
Quanto à divisão do trabalho, as leis que demarcavam anteriormente esta divisão, entre os Guajajara, eram bem mais rigorosas e observadas à risca. Embora continue ainda bem demarcado o lugar do homem e o da mulher, entre eles, mais recentemente, percebe-se a existência de certa flexibilidade. Dessa forma, tanto para os papéis masculinos quanto para os femininos, as funções continuam sendo bastante definidas.
A divisão das tarefas é realizada com um sentido de complementaridade. É nessa perspectiva que Zannoni (1999) constata como tarefas reservadas ao homem e à mulher Guajajara, que em geral, está ligada ao uso ou ao preparo de produtos da roça ou da caça.
MULHER HOMEM
. É a primeira que desperta pela manhã; . Prepara o ‘desjejum’ ou o chibé;
. Dedica-se ao artesanato, enquanto a comida está cozinhando;
. Realiza o plantio na roça (após ser limpa pelo marido);
. Planta macaxeira, amendoim, mandiocaba, gergelim, inhame, cará, batata, fava, abóbora, melancia, jerimum, croá, algodão; . Tem a obrigação de ir à roça todos os dias; . Na roça, arranca a mandioca, põe-na de molho para pubar, prepara a massa para fazer a farinha, capina o mato, colhe algumas batatas ou abóboras;
. Cuida das caças pequenas; . Cuida da distribuição da carne;
. Recebe o homem à entrada da casa (quando retorna do mato);
. Cuidas dos trabalhos domésticos (cozinhar, lavar, varrer a casa e o terreiro);
. Colhe as frutas silvestres;
. Recolhe os peixes no cesto (no ato da pesca);
. Pesca com anzol;
. Trabalha com algodão e sementes: faz a rede, capacete, bracelete, colar, saiote.
. Levanta mais tarde e providencia a lenha; . Pisar arroz, por ter função de troca, que é função masculina;
. Cuida dos serviços mais pesados da roça: o broque, a derrubada, a queima, o aceramento, a atividade da coivara;
. Planta o arroz, o feijão, o milho e mandioca; . Preocupa-se com a caça; trata a caça grande - veado, caitetu, porco queixada, anta, guariba – tira a pele e as entranhas;
. Providenciar a lenha;
. Construir a casa (embora sendo um bem de propriedade da mulher);
. Faz os trabalhos da roça que exigem mais força física (depois entrega a roça à mulher); .Traz os produtos da roça (na maioria, colhidos pela mulher) para casa;
. Colhe os produtos de troca a serem vendidos na cidade;
. Tirar o mel;
. Pesca – quando com asfixiante (timbó); . No artesanato o homem trabalha com palha, talas de guarumã e madeira.
. Confeciona o tapiti, balaio, tupé, peneira para bacaba e juara, urupema para peneirar mandioca, quibano, cestos, esteiras, cofos, arco, flecha, badogue, maracá, apito, buzina e pife (taquara ou taboca).
Algumas tarefas são praticadas tanto pelo homem quanto pela mulher, como por exemplo, na roça devem cuidar da limpeza da área após o plantio, carregar água, cuidar da coleta (dependendo do produto); na pesca (dependendo o tipo da pesca); confeccionar artesanato (dependendo do tipo de material usado) (ZANNONI, 1999).
Com relação aos jovens e as crianças, Zannoni (1999) menciona apenas que,
levantam-se mais tarde, nessa ordem: primeiro as meninas e depois os meninos. Pela manhã, após acender o fogo, é comum, especialmente nos dias de frio (de junho a setembro), ver crianças de cócoras ao redor do fogo procurando aquecer-se. É também uma maneira para os pais e os filhos conversarem sobre alguns trabalhos do dia que começa (ZANNONI, 1999, p. 101).
No plano da economia, os interesses de comercialização terminaram por fazer com o que o homem na sociedade Guajajara exerça atividades que lhe conferem vantagem e status econômico. Isto se deve ao fato de ser o homem quem comercializa o produto, é ele quem conversa com ‘o de fora’ de sua sociedade. Portanto, ao negociar, o homem passa a ter dinheiro em suas mãos. Esta atitude de posse econômica, por sua vez, gera lugar de poder também na sociedade Guajajara.
Contrariando essa situação, contemporânea, Wagley e Galvão (1955), nos passam uma outra imagem:
Não existem indivíduos que vivam do trabalho de outros indivíduos: todos os homens adultos trabalham para conseguir o sustento básico. Os pajés apesar de receberem presentes pelas curas, plantam roças e trabalham como qualquer outro indivíduo. O ‘capitão’ de uma aldeia ou líder de uma família extensa despende nas roças o mesmo esforço que os outros que com ele cooperam. As jovens desde muito cedo, são compelidas a participar ativamente dos afazeres domésticos. Nenhum trabalho sistemático, porém, é solicitado dos rapazes até que passem o período de iniciação e, muitas vezes, até casarem. [...] Somente após a puberdade para que seja admitido pelo casamento a um grupo familiar é que o jovem tem de provar ser um bom trabalhador. [...] A mulher considerada preguiçosa é desprestigiada pelas companheiras do mesmo grupo familiar e dificilmente encontrará um marido. O homem que não planta roça é considerado um preguiçoso [...] (WAGLEY E GALVÃO,1955, p. 59).
Embora seja possível perceber traços similares de códigos de comportamento, presentes até hoje na sociedade Guajajara, podemos constatar que
atualmente existem transformações que em muito se distanciam da vida e das relações sociais dos Guajajara de antigamente.
O conceito de propriedade e de território, entre os Guajajara, é muito diverso dos conceitos do mundo ocidental e contemporâneo. Literalmente, propriedade para eles significa o espaço em que a aldeia está situada. A propriedade particular é o espaço da roça e somente enquanto estão em uso desta terra. Depois que não cultivam mais nessa roça, fica à disposição e pode ser utilizada por qualquer outra pessoa.
A casa e o que é colhido na roça, rigorosamente e em qualquer situação, é propriedade da mulher. Os utensílios, os animais domésticos geralmente são distribuídos de acordo com as funções do homem e/ou da mulher.
Somando-se a esses elementos encontramos o universo espiritual Guajajara, Eles, em sua visão de mundo,
[...] se referem aos sobrenaturais pela designação genérica de karowara, porém os distinguem em pelo menos quatro categorias: criadores ou heróis culturais, a quem atribuem a criação e transformação do mundo; os donos da floresta e das águas e dos rios; os azang, espíritos errantes dos mortos; espírito de animais. Os heróis culturais são sobrenaturais, porém não no sentido de divindade que seja necessário propiciar e reverenciar – são criadores cujos feitos lendários explicam a origem das coisas e do homem. Na mitologia são descritos como homens dotados de imenso poder sobrenatural. Viveram algum tempo na terra, que abandonaram pela residência eterna na ‘aldeia dos sobrenaturais’ (Karowaranekwahowo). Os heróis culturais criaram o homem, deram-lhe o conhecimento das cousas e trouxeram-lhe os alimentos (UBBIALI, 1998, p. 30).
Assim, a concepção espiritual é transversal à sua cultura e permeia todas as relações. Para eles o cosmo, a natureza, a pessoa humana, as divindades superiores foram criados em uma perfeita relação e assim precisam ser tratados. Para o Guajajara viver em harmonia com essas dimensões da vida é fundamental para que a vida continue seu percurso natural. Assim, “a caça, a pesca, a agricultura, o nascimento, a puberdade, a morte, estão relacionados com sua convivência com a natureza, os sobrenaturais e todos esses momentos acham-se explicados na relação do indivíduo com o mundo invisível que o envolve” (ZANNONI, 1999, p. 129).
Na mitologia Guajajara o ser sobrenatural maior é Ma’ira, que, segundo acreditam, viajou em busca da ‘terra bonita’ (Iwy porang). Ao encontrar o lugar ideal, criou o homem e a mulher, depois os ensinou a plantar mandioca e fazer farinha, trouxe o algodão e ensinou a tecer redes, roubou o fogo dos urubus e ensinou o homem e a mulher a assar a carne depois foi descansar. Ma’íra é um espelho no qual os Guajajara buscam se enxergar.