1. INTRODUCTION
1.1. SEMICONDUCTORS, OXIDES, AND COEXISTENCE
As paisagens urbanas contempor‰neas, de muitos e profusos acentos verticais, expandidos por territ—rios super edificados, podem ser vistas como s’mbolo amplificado de um poder muito antigo, corporificado pela entidade que o abriga. Desde que a cidade surgira e se desenvolveu ao longo da hist—ria, por sociedades ditas urbanas, nela atua um poder que concentra gentes e suas institui•›es, poder que anima a vida edificada em um habitat complexo, paisagem em cont’nua muta•‹o, paisagem de afirma•‹o e
contradi•‹o de dom’nios. O meio urbano configura-se na hist—ria como l—cus din‰mico do exerc’cio desse poder, meio propiciador de transforma•›es.
A urbe Ž um legado hist—rico, artefato humano constru’do socialmente. Ela Ž o grande anfiteatro em que atuaram e atuam culturas diversas, suporte f’sico, continente da pr—pria vida que a cidade, em sua din‰mica, anima no tempo. Ela Ž por n—s constru’da, ela tambŽm em n—s atua: cidade e sociedade em mœtuo desenvolvimento. Ainda que grande parte das estruturas f’sicas permane•am mais tempo, enquanto a sociedade j‡ Ž outra, elas s‹o sempre adaptadas ˆ nova cultura, h‡bitos e demandas.
Nos anos que inauguraram o sŽculo XXI, a popula•‹o mundial tornou-se predominantemente urbana. Entre distintos n’veis de qualidade, grande parte das pessoas no mundo passou a habitar em cidades, sobretudo nas regi›es metropolitanas. Das pequenas e grandes cidades que comp›em o chamado Primeiro Mundo ˆ forma•‹o de extensas favelas nos pa’ses pobres, v•-se um panorama de grande desigualdade, onde operam redes altamente tŽcnicas ao lado de abismos sociais. Tal quadro que se processa junto ao
desenvolvimento das diversas indœstrias sob a hegemonia e reprodu•‹o do capitalismo que, por sua vez, adapta-se ˆs transforma•›es, influi na cultura, difunde e intensifica uma geografia de exclus‹o e viol•ncia expressa, entre outras formas, na chamada expans‹o urbana perifŽrica, territ—rios do abandono, ˆ margem da cidade oficial.
Desde sua remota origem, constituindo-se como forma representativa de uma sociedade mais din‰mica, em contraste com a vida alde‹, a urbe, no curso de sua transforma•‹o, desenvolvendo-se como habitat humano mais complexo, configura-se no presente sobre territ—rios amplamente constru’dos,
estruturados por meio de diversos dispositivos tŽcnicos. A forma urbana, antes uma concentra•‹o claramente circunscrita, definida geograficamente em um determinado s’tio, com um nœcleo preciso e seu entorno Ñ como certos conjuntos urbanos, assim abrigados intra-muros nos tempos da cidade antiga, medieval e barroca, por exemplo Ñ expande-se no territ—rio por um urbanismo em redes, a configurar uma paisagem isotr—pica, um territ—rio reticulado, em formas tentaculares.
Frente a este panorama atual e imersos na urbe dita hist—rica, est‹o presentes volumes arquitet™nicos, realidades fragment‡rias, vest’gios que nos remetem ao passado da vida em cidade, com suas distintas idades. Fragmentos de matrizes anci‹s, outrora recipientes de remota vida urbana, representam e simbolizam tempos e espa•os j‡ distantes na mem—ria, contudo significantes, a testemunharem outras sociedades e suas culturas. Em ru’nas, remanescem hoje inscritos na paisagem de cidades que se mantiveram vivas na hist—ria. Ao produzirem e transformarem seus tecidos urbanos, as sociedades inscrevem no territ—rio a sua pr—pria condi•‹o
humana, revelada pela paisagem. Tal muta•‹o se realiza por um processo de crescente complexidade, a exemplo de novas institui•›es que surgem, para para, em parte, regular a vida urbana.
Os volumes arquitet™nicas e estruturas das engenharias, a conformarem o tecido urbano expresso pela paisagem, podem ser vistas como imagem complexa, consubstanciada nos processos animados pela sociedade em seu movimento Ñ cuja din‰mica pressup›e a mudan•a Ñ a gerar artefatos
urbanos na constru•‹o do pr—prio habitat, palco de suas a•›es no tempo. Da’ a import‰ncia do estudo transversal da arqueologia, pois para compreender o palimpsesto do ambiente urbano, n‹o apenas a evid•ncia f’sica dos objetos, mas o referencial imagŽtico Ž tambŽm essencial para compreender a
Importa relevar que este estudo produz uma narrativa. Ela, por sua vez, gera novas imagens, por relacionar e confrontar as fontes e suas temporalidades, quando ent‹o, no escavar da mem—ria daquilo que um dia existiu, tal
narrativa nos d‡ uma certa medida da muta•‹o, revelando-nos as origens do que hoje se v• inscrito na paisagem urbana.
O sentido das ru’nas, dos vest’gios incorporados em novas constru•›es e da pr—pria aus•ncia do que antes havia, quando no lugar se localiza novas formas erigidas, de modo amplo e no ‰mbito das muta•›es que
experimentamos na crise de nosso tempo (crise do pr—prio tempo!),
assumem um valor mais ’ntimo e essencial: compreendem a nossa mem—ria no mundo, s‹o testemunhos œnicos, pe•as fundamentais do mosaico
narrativo da longa experi•ncia humana de se viver em cidade. Por isso, parte integrante deste universo fragment‡rio s‹o apenas imagens daquilo que o transformar da paisagem suprimiu no tempo. Desenhos, pinturas, gravuras, fotografias, filmes... Em seus respectivos suportes Ñ inclusive sob a forma eletr™nica Ñ tais imagens s‹o artefatos visuais significativas desta mem—ria.
Como compreender esse patrim™nio hist—rico no ambiente urbano? Que experi•ncias podemos ter frente a esse testemunho, o que nos diz, mostra e revela? Imputamos aos vest’gios do passado certos valores pelos quais nos identificamos culturalmente no curso da hist—ria. Mas quais mem—rias e sentidos podemos (re)encontrar, (re)elaborar e (re)construir diante de tais fragmentos na atualidade da vida urbana?
No imagin‡rio sobre a cidade, desde a remota Antiguidade, algumas estruturas constru’das comparecem, especialmente, como muito
representativas ou mesmo definidoras da paisagem urbana e, sobretudo, dos poderes que nela se expressam com tanta evid•ncia; entre elas, relevam-se duas: a muralha e a torre.
Tanto a antiga estrutura altiva quanto o arranha-cŽu contempor‰neo, projetam-se como formas n‹o apenas arquitet™nicas, mas sobretudo imagŽticas.
Verticalidades implantadas no territ—rio, que atuam como forte dispositivo do poder na paisagem. A torre, ao se construir como acento vertical na cidade, imp›em-se como imagem, objeto para ser visto em sua singularidade. Na iconografia da paisagem urbana, encontramos os acentos verticais e as muralhas como fei•›es representativas de muitas cidades na hist—ria. Os muros que ainda existem na paisagem contempor‰nea, h‡ muito n‹o mais atuam como estrutura defensiva, desde quando novos dispositivos de guerra foram desenvolvidos. Contudo, seria leviano afirmar que aquela antiga estrutura desaparecera totalmente... Ela, na verdade se traduz em novos muros na cidade do presente, muitas vezes invis’veis... As torres, por outro lado, permanecem na forma urbana, ainda erguidas em alturas cada vez mais surpreendentes. Ela atuou na cidade antiga, ao seu tempo. E conforma, hoje, num outro contexto, parte significativa de paisagens, sobremodo nas grandes cidades.
A partir de fins do sŽculo XIX, ent‹o como fato urbano novo na hist—ria da cidade, o chamado arranha-cŽu Ñ nome a indicar qu‹o elevada poderia ser ent‹o a estrutura constru’da Ñ Ž, em primeiro lugar, produto de tecnologias que possibilitaram multiplicar sobre um mesmo s’tio Ñ e por muitas vezes Ñ a sua ‡rea œtil, elevando-se na paisagem novas express›es arquitet™nicas e da engenharia civil.
Ela, todavia, surgiu como meio prop’cio para aqueles que demandavam exercer sua atividade, ou habitar, numa certa ‡rea do territ—rio urbanizado que, de outro modo, n‹o seria poss’vel. A torre, por isso, adensa a ocupa•‹o onde se situa. Das novas tŽcnicas de constru•‹o em a•o, estruturas
monumentais puderam ser erigidas, como a Tour projetada pelo engenheiro franc•s Eiffel: inaugurada para a Exposition Universelle de Paris, em 1889, a grande Dame de Fer, nunca desmontada desde ent‹o, fora constru’da como imagem-s’mbolo do progresso industrial, do poderio da engenharia fin de si•cle; de tal modo que a estrutura, por fim, incorpora-se no imagin‡rio da cidade e da na•‹o, sendo atŽ hoje, um dos s’mbolos de Paris e da Fran•a.
Entretanto, para que o arranha-cŽu, bem como os prŽdios menores de v‡rios andares, fossem funcionais e habit‡veis, duas outras tecnologias foram essenciais: a m‡quina de transporte vertical de volumes, isto Ž, os
elevadores, desenvolvidos para transportar seres e produtos entre andares, em velocidade e com seguran•a; e a telefonia, um avan•o da tecnologia que instaura uma ruptura espa•o-tempo, antes j‡ provocada pelo telŽgrafo, que possibilitaria a comunica•‹o a dist‰ncia praticamente instant‰nea.
A torre, como artefato arquitet™nico funcional, difundira-se como principal recurso frente as demandas de localiza•‹o no territ—rio, que assim passa a ser constru’do em larga escala, com aval do poder publico, ao definir ‡reas urbanas que podem ser verticalizadas.
A paisagem das cidades no presente se renovam assim antigas
representa•›es do imagin‡rio, revelando-se pelo ritmo expresso na linha imagin‡ria contrastada no horizonte, a skyline. Spiro Kostof bem resume o uso do termo, propagado desde fins dos oitocentos, quando a estrutura arquitet™nica da torre, novamente ressignificada na hist—ria da cidade, difundir-se-‡ pelas paisagens urbanas no mundo.
Em suas palavras...
ÒOur word ÔskylineÕ, traditionally, meant Ôthe line where earth and sky meetÕ. The use of ÔskylineÕ to refer to buildings on the horizon is recent Ñ not earlier than 1876, and common by the 1890s. Not at all accidentally, another word, ÔskyscraperÕ, had come into use during the intervening decade. It was this new building type, or rather an agglomeration of its
specimens, that dramatically redefined the way city-form related to its natural setting and the civic messages it conveyed.Ó (Kostof 2006:279).
Ainda que sob contextos hist—ricos diversos, a torre permanecera, pois, como imagem de poder. Por este estrito sentido, isto Ž, da estrutura arquitet™nica singular, altiva, que tanto a hist—ria urbana quanto as representa•›es da arte ilustram, a simbologia da torre como imagem de poder Ž reescrita no tempo presente, em arquiteturas as mais diversas.
Ela permanecera, sob novas vestes, sobremodo como s’mbolo do poderio econ™mico, e, por extens‹o, pol’tico e sociocultural, no mundo urbano sob o capitalismo.
Quando uma diminuta ‡rea do territ—rio de uma das principais cidades contempor‰neas foi destru’da, revolvera-se o antigo drama das cidades anteriores no tempo. Um drama que, de tempos em tempos, atualiza-se na paisagem urbana. O ataque assim qualificado por terrorista, rememora antigos mitos de dom’nio, no exerc’cio de conquista da paisagem, por nela intervir, e com viol•ncia extrema, outro poder, ˆ ela antag™nico.
Como complexa obra produzida pela sociedade Ñ e pelos poderes que nela atuam Ñ a cidade abriga em si a profus‹o de sentidos que sua realidade prov• e consiste no tempo. A grande cidade contempor‰nea, assim como as maiores cidades da Antiguidade, compreende um conjunto diverso de lugares Ñ onde se mora, trabalha, cultua, diverte, consome Ñ permeados por infra- estruturas que possibilitam sua exist•ncia e funcionamento. Podemos assim defini-la, mas apenas em parte, provisoriamente, por aquilo que toda cidade possui de comum, a par da diversidade de formas que assumiu na hist—ria: a concentra•‹o maior de gentes diversas num certo lugar de um territ—rio mais amplo que uma sociedade habita.
Mas isso n‹o d‡ conta de sua verdadeira dimens‹o, por sua irredutibilidade a termo œnico. A imagem da cidade como grande lar coletivo n‹o resume a experi•ncia, e precisamos complementa-la: a palavra cujo referente abrange esta imagem, n‹o permite contudo compreende-la de uma vez, mas sim deve ser lida na amplitude de imagens e representa•›es que a grande obra
humana, a urbe, propicia. Entre elas, a cidade como lugar privilegiado da produ•‹o de conhecimento. Entretanto, ao ver a cidade como um ponto da m‡xima concentra•‹o para o poder e cultura de uma comunidade (Mumford 2008), continuamos a procurar por uma imagem ut—pica de sua s’ntese.
A Torre de Terra
Da paisagem de uma antiga cidade, uma de suas estruturas arquitet™nicas que habita o imagin‡rio relacionado ao universo m’tico e religioso, desde a antiguidade, Ž a monumental torre sagrada Etemenanki, o cŽlebre zigurate babil™nico, a torre-templo de Marduk, o deus supremo da Babil™nia1 e de sua grande cidade. Seria desde o relato no Liber Genesis (XI:IX) que a
constru•‹o da estrutura arquitet™nica hist—rica, narrada no mito b’blico, fora imaginada de muitas formas e o tema atravessou o tempo, como fonte
inspiradora para tantos artistas que, a partir da leitura do Vetus Testamentum Ñ e tambŽm de relatos antigos, por exemplo de Her—doto2 Ñ produziram imagens representativas da torre.
Foram elas que apresentaram, muito antes dos estudos arqueol—gicos, uma forma idealizada da Torre de Babel.
Todavia, n‹o s‹o menos reais que o pr—prio fato arqueol—gico.
S‹o imagens que influ’ram profundamente, com sua ret—rica visual, a reiterar o poder do mito, por apresentar e oferecer uma imagem dele, a construir representa•›es no campo do imagin‡rio da cultura e da religi‹o, em v‡rias Žpocas e lugares, a partir do pouco que se sabia e ouvia Ñ por exemplo, nos c’rculos do antiquariato Ñ sobre aquela torre distante; em parte, imagens baseadas em descri•›es imprecisas encontradas nos relatos antigos, a exemplo da descri•‹o de Her—doto, quem, presume-se, a viu.
1 Na Mesopot‰mia, Marduk era o deus Criador. Dos cultos religiosos entorno ˆ ele, havia, especialmente, o rito
renovador do mundo. Conforme nos explica Eliade em suas palavras: ÒEssa renova•‹o consistia num enredo cultural, cujo rito principal simbolizava a repeti•‹o da cosmogonia. (...) Lembremos, todavia, que a Cria•‹o do Mundo, na Mesopot‰mia, era ritualmente repetida por ocasi‹o das cerim™nias do Ano Novo (ak”tu). Uma sŽrie de ritos reatualizava o combate de Marduk contra Tiamat (o Drag‹o que simboliza o Oceano primordial), a vit—ria do Deus e sua obra cosmog™nica. O ÔPoema da Cria•‹oÕ (Enuma elish) era recitado no Templo.Ó (Eliade 2002:50).
2
Do pintor flamengo Pieter Bruegel, o Velho (c. 1525/30 Ð 1569), h‡ duas imagens relativas ao mito b’blico da Torre de Babel. Nestas pinturas, a torre Ž erigida sobre uma paisagem contempor‰nea ˆ ele, do mesmo modo, ali‡s, como inseriu outras representa•›es de temas b’blicos em suas obras. A tela ao lado encontra-se exposta no Museum Boijmans Van Beuningen, em Rotterdam. Em suas torres, repleta de pormenores relacionados ao labor construtivo, Bruegel representa todas as fun•›es tŽcnicas do canteiro de obras de sua pr—pria Žpoca. Imagem: Silvio Luiz Cordeiro.
Quando os estudos arqueol—gicos indagavam sobre a prov‡vel forma da torre, eles partiram dos vest’gios de sua estrutura, por fim identificada entre as ru’nas remanescentes no s’tio da grande cidade da Babil™nia; mas, ao estabelecer um referencial imagŽtico vinculado aos vest’gios, embasado em estudos das fontes hist—ricas textuais e epigr‡ficas, ainda assim, persiste no imagin‡rio as diversas formas que a arte concebeu sobre esta torre no tempo. Estas formas, portanto, existiram como verdade para muitas
gera•›es. O mito, propriamente, revela-se como um fato inspirador (o mote) e, no conjunto, todos estes objetos Ñ a estrutura arqueol—gica, as imagens relacionadas ao mito (em seus distintos suportes f’sicos), os textos antigos e demais referencias arqueol—gicas e epigr‡ficas Ñ participam da biografia da torre.
Nas paisagens das antigas cidades da Mesopot‰mia, regi‹o considerada como o ber•o da civiliza•‹o urbana, as torres sagradas erigidas Ñ a exemplo de Etemenanki3 Ñ foram dispositivos essenciais ao poder dominante no seio da cultura das sociedades que l‡ viveram.
A imagem mostra um trecho da estrutura j‡ aproximando-se do topo do zigurate constru’do pelo rei Kurigalzu (XIV a.C.) na antiga cidade de Borsippa, atual Birs Nimrud (Torre de
Nimrud), no Iraque: v•-se claramente na ru’na o arranjo das fiadas na alvenaria de grandes
adobes. Levantada no sŽculo XIV a.C., a estrutura desta torre monumental representa Ñ junto aos demais remanescentes arquitet™nicos das antigas cidades da Mesopot‰mia Ñ a tŽcnica que, a partir da terra como matŽria-prima, tornara-se uma das mais importantes e difundidas tŽcnicas construtivas do habitat humano na hist—ria urbana. Imagem: Iraq. Birs Nimrud.
(Possibly the Tower of Babel). Detail view of the Tower. American Colony (Jerusalem), Photo Dept. 1932. Matson (G.
Eric and Edith) Photograph Collection / Library of Congress.
Assim, tais estruturas imponentes n‹o apenas reiteravam aquele s’mbolo nas paisagens urbanas, seja pela forma em si de sua arquitetura Ñ altiva em sua monumentalidade Ñ mas, sobretudo, afirmavam-no pelo trabalho envolvido no edificar do pr—prio s’mbolo, quando se arregimentara a m‹o-de-obra em canteiros imensos.
3
Pelo sentido desta express‹o sumŽria, o significado de E-temen-anki remete ao para’so e ˆ terra (ou submundo, ou ainda mundo sob o para’so celeste), ˆ arquitetura (casa, plataforma, templo) e ao ato fundador (sagrado, portanto), e que se traduziu, por exemplo da interpreta•‹o do assiriologista brit‰nico Andrew R. George, como house
of the foundation platform of heaven and underworld. In George, Andrew. The Tower of Babel: Archaeology, history and cuneiform texts. Dispon’vel em: <http://eprints.soas.ac.uk/id/eprint/3858>. Acesso: 05 abr. 2012.
Se Ž verdade que o significante de muitas formas erigidas age ao elevar olhos fiŽis aos cŽus Ž porque a sua arquitetura envolve um simbolismo cuja profundidade penetra em tempos abissais, por exemplo da representa•‹o da montanha sagrada4, inscrita na mem—ria religiosa de v‡rias culturas. Tal simbolismo se consubstanciou em imagens muito antigas, quando a exist•ncia humana no Mundo, assim como a pr—pria exist•ncia do Mundo, explicavam-se nas vias do sagrado pela cosmogonia. Por isso, o antigo habitat urbano se construiu em refer•ncia, ou, propriamente dito, em rever•ncia ˆ sacralidade do Cosmos, a representar esse v’nculo. E assim, muitas estruturas arquitet™nicas traduziram a comunh‹o da antiga forma urbana com o sagrado, na funda•‹o do lugar, morada daquela cultura e civiliza•‹o.
No acervo fotogr‡fico em que se encontra, o t’tulo que a identifica remete ˆ possibilidade desta estrutura ser a Torre de Babel. Na verdade, trata-se do ‰mago exposto do velho zigurate em ru’nas da antiga Borsippa (atual Birs Nimrud) e a escala humana como refer•ncia. A imagem anterior, Ž um recorte extra’do desta. Imagem: Iraq. Birs Nimrud.
(Possibly the Tower of Babel). Detail view of the Tower. American Colony (Jerusalem),
Photo Dept. 1932. Matson (G. Eric and Edith) Photograph Collection / Library of Congress.
4 Na paisagem natural, certas montanhas, como se sabe, foram Ñ e ainda o s‹o Ñ presen•as identificadas ao
universo do sagrado, como esp’ritos divinos ou morada de divindades. Entre as mais conhecidas montanhas sagradas est‹o, por exemplo, o Olimpo, o Everest, o Fuji, o Kailash, o Ararat, Uluru, as Cinco Grandes Montanhas
Deste modo, a presen•a da torre atuava para conectar aquela humanidade ao eixo existencial inferno Ð terra Ð cŽu, ou, em outras palavras, a axialidade vertical dos planos ditos inferior (do alŽm, subterr‰neo e negativo) Ð terrenal (da exist•ncia contempor‰nea) Ð superior (do alŽm, celeste e positivo)5, a que a verticalidade da torre atualizaria com a sua forma arquitet™nica simb—lica.
Podemos sugerir, a partir do simbolismo do dispositivo na paisagem, que ao remeter para o eixo de conjun•‹o de planos, a forma desdobra-se ainda em significantes temporais: passado Ð presente Ð futuro. E da’, pode-se inferir da forma simb—lica da torre, na experi•ncia do objeto vivenciado no tempo presente, que o superior remete tanto ao passado (cosmogonia), quanto ao futuro, do porvir, do que se espera, do que a leitura do cŽu prediz. O passado ainda pode ser referido ao ch‹o: sob ele, os mortos foram enterrados. Assim como o futuro, na medida em que sob a terra as for•as da vida agem: ao ser cultivado, espera-se pelas colheitas que vir‹o.
A percep•‹o do tempo, como um suceder, um fluxo, origina-se dos ciclos temporais do movimento da Terra em torno do Sol, expressos pela mudan•a do clima, assim observados na Natureza Ñ as Quatro Esta•›es Ñ ciclos c—smicos, portanto, assim como o levantar e poer do Sol, a definir o dia. As torres sagradas das cidades da Mesopot‰mia pontuavam assim o horizonte daquela plan’cie irrigada, elevando-se na paisagem de um vasto territ—rio estruturado para prover a subsist•ncia e, sobremodo, possibilitar o excedente alimentar, controlado pela autoridade urbana e sacerdotal. Trata-se, ent‹o, de formas urbanas essencialmente marcadas com os s’mbolos de uma religi‹o em que o poder pol’tico se identificava, ambos, portanto, construtores