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Reconhecer a importˆancia da visibilidade n˜ao equivale, no entanto, a afirmar a identidade das suas modalidades. ´E poss´ıvel, nomeada- mente, distinguir entre uma modalidade pr´opria do “espa¸co p´ublico dos gregos”, centrado na ideia de polis, e uma modalidade pr´opria do “espa¸co p´ublico burguˆes”, centrado na categoria de “publici- dade”.7

A primeira pode ser caracterizada, de forma sum´aria, como pre- sencial – assenta na presen¸ca f´ısica de cada cidad˜ao perante todos os outros no quadro de um espa¸co comum, de que a agora ´e o s´ımbolo por excelˆencia –, igualit´aria – no sentido de uma igualdade agon´ıstica, constituindo os cidad˜aos uma comunidade de “iguais” (homoioi ) de que cada um procura, pela sua ac¸c˜ao e pelo seu dis- curso, atingir uma excelˆencia (aretˆe) que lhe permita distinguir-se de todos os outros8 – e exclusiva – ela est´a reservada aos cidad˜aos

e `a ac¸c˜ao e ao discurso destes no “espa¸co p´ublico”, excluindo todos aqueles – mulheres, crian¸cas e escravos – e todas as actividades – biol´ogicas, afectivas, produtivas – que s´o tˆem lugar no “espa¸co pri- vado”. Entendida desta forma – grega – a visibilidade confunde-se com a pr´opria cidadania, definida por Arist´oteles como a “capaci-

6

Cf. ibidem, versos 1441-1443, p. 145.

7

Seguimos aqui a distin¸c˜ao de Jean-Marc Ferry, “Las transformaciones de la publicidad politica”, in Jean-Marc Ferry, Dominique Wolton (org.), El Nuevo

Espacio Publico, Barcelona, Gedisa, 1995, pp. 13 ss.

8

dade de participar na administra¸c˜ao da justi¸ca e no governo”.9

A visibilidade de cada um perante todos os outros que caracte- riza a polis grega pressup˜oe, obviamente, como condi¸c˜oes funda- mentais, um territ´orio e um n´umero de cidad˜aos limitados.10 Numa

sociedade como a moderna, em que o territ´orio, o n´umero de cida- d˜aos e a complexidade da vida social aumentaram indefinidamente, conduzindo progressivamente de um homem “fixado ao solo”, “lo- calizado” e “enraizado” a um homem “m´ovel”, “n´omada” e ani- mado pelo “ideal de ubiquidade”11, a visibilidade torna-se uma

visibilidade in absentia, que se efectiva num espa¸co – o “espa¸coublico burguˆes” – cuja origem e existˆencia ´e indissoci´avel dos me-

dia, mais especificamente da imprensa. Enquanto tipo ideal, ilu-

minista, este espa¸co aparece como um espa¸co em que todos os in- div´ıduos, em condi¸c˜oes de paridade, “fazem uso p´ublico da raz˜ao, com a publicita¸c˜ao das suas ideias e a defesa argumentativa das suas posi¸c˜oes”12; em que, portanto, cada um tem direito `a visibili-

dade perante todos os outros. Ora, cabe-nos hoje constatar que, desde o tempo em que foi constru´ıdo, os factos n˜ao se tˆem cansado de contrariar tal tipo ideal. Com efeito, e como o mostra a “re- constru¸c˜ao” que Luhmann faz do conceito de “opini˜ao p´ublica”13,

o funcionamento dos media, mais especificamente da imprensa e do audiovisual, assenta em certas “formas e “distin¸c˜oes”14 que “de-

terminam o que ´e visto e o que n˜ao ´e visto, o que ´e dito e o que n˜ao pode ser dito”15, de um modo tal que a “evidˆencia” do que

9

Arist´oteles, Pol´ıtica, Livro III, 1275a 20-25, p. 187. Como adiante esclarece Arist´oteles, esta defini¸c˜ao de cidad˜ao “´e sobretudo a do cidad˜ao num regime democr´atico” (ibidem, 1275b 5, p. 189).

10

Cf. ibidem, Livro VII, 1326b 10-20, p. 499; Arendt, op. cit., p. 43.

11

Paul Val´ery, “Notre destin et les lettres”, in Oeuvres, Vol. II, Paris, Galli- mard, 1993, p. 1063.

12

Jo˜ao Pissarra Esteves, A ´Etica da Comunica¸c˜ao e os Media Modernos, Lisboa, FCG-JNICT, 1998, p. 203.

13

Cf. Niklas Luhmann, “Complexidade societal e opini˜ao p´ublica”, in A

Improbabilidade da Comunica¸c˜ao, Lisboa, Vega, 1993.

14

J´a que, como diz Luhmann, “as formas assentam sempre em distin¸c˜oes” (ibidem, p. 77). Luhmann refere-se, nomeadamente, `as distin¸c˜oes de tempo – antes/depois (a novidade) –, de quantidade – mais/menos – e de posi¸c˜oes de conflito – a favor/contra.

15

´e visto e dito – “os temas da opini˜ao p´ublica, as not´ıcias e os co- ment´arios na imprensa e no audiovisual” – tem por fun¸c˜ao esconder e encobrir o que n˜ao ´e visto nem dito, que ´e apenas o “realmente importante”.16 O que esta “reconstru¸c˜ao” tamb´em significa ´e que

o chamado “espa¸co p´ublico medi´atico”, longe de ser um espa¸co universal e igualit´ario, ´e um espa¸co em que s´o podem tornar-se vis´ıveis, ser vistos e ouvidos – ser sujeitos e/ou objectos dos “te- mas”, das “not´ıcias” e dos “coment´arios” de que fala Luhmann –, os indiv´ıduos que se enquadram em figuras ou categorias muito es- pec´ıficas. Utilizando uma linguagem mais ou menos metaf´orica, e apenas a t´ıtulo indicativo, diremos que essas figuras ou categorias giram `a volta da distin¸c˜ao central entre estrelas – entendendo por tal os indiv´ıduos que s˜ao, como se diz, “famosos”, cuja visibilidade ´e um processo mais ou menos cont´ınuo e cumulativo – e cometas – entendendo por tal aqueles que s˜ao, como tamb´em se diz, “ilus- tres desconhecidos”, cuja visibilidade ´e descont´ınua e pontual. No primeiro termo da distin¸c˜ao incluem-se, nomeadamente, os media-

dores – os pr´oprios profissionais dos media que, tendo como fun¸c˜ao

garantir a visibili- dade a determinados indiv´ıduos, a garantem em primeiro lugar a si pr´oprios – e os not´aveis – os indiv´ıduos que se destacam em determinados campos da vida econ´omica, pol´ıtica, social, cultural, desportiva, etc..17 No segundo termo incluem-se,

nomeadamente, os desviantes – os cidad˜aos comuns que s˜ao su- jeitos ou objectos de acontecimentos que escapam `a continuidade e normalidade das coisas, como no caso do homem que morde o c˜ao18, mas que n˜ao visam, em princ´ıpio, a visibilidade medi´atica

16

Ibidem, p. 85. Como observa Elisabeth Noelle-Neuman, ainda que a prop´osito de um outro texto de Luhmann, esta sua concep¸c˜ao de opini˜ao p´ublica aproxima-se dos resultados a que chegaram os investigadores americanos da co- munica¸c˜ao, nomeadamente os ligados `a “agenda-setting function”. Cf. Elisa- beth Noelle-Neuman, La Espiral del Silencio, Barcelona, Paid´os, 1995, pp. 201- 202.

17´

E a estes indiv´ıduos que se refere, fundamentalmente, o conceito de “media events” cunhado por Daniel Dayan e Elhiu Katz. Cf. A Hist´oria em Directo. Os acontecimentos medi´aticos na televis˜ao, Coimbra, Minerva, 1999.

18

Cf. Adriano Duarte Rodrigues, “O acontecimento”, in Nelson Traquina (org.), Jornalismo: Quest˜oes, Teorias e “Est´orias”, Lisboa, Vega, 1993. Acrescente-se que muito daquilo a que se chama a “ac¸c˜ao pol´ıtica”, protago-

–, e os provocadores – os indiv´ıduos que desencadeiam ac¸c˜oes que visam, em primeiro lugar, a obten¸c˜ao de uma visibilidade medi´atica “for¸cada” ou “violenta”, configurando aquilo a que Adriano Duarte Rodrigues chama os “meta-acontecimentos”.19 Note-se que estas

figuras ou categorias n˜ao s´o n˜ao s˜ao mutuamente exclusivas – a mesma pessoa pode ser, simultaneamente, um not´avel e um des- viante, como no caso do pr´ıncipe inglˆes, menor, que se embriaga – como o facto de um mesmo indiv´ıduo figurar em mais do que uma figura ou categoria s´o o valoriza como centro de visibilidade; dir´ıamos, ali´as, que o m´aximo de visibilidade medi´atica – a “not´ıcia explosiva”, como por vezes se diz – existe sempre que uma “estrela” se torna tamb´em “cometa”.

A Internet e os crit´erios de relevˆancia dos