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5.6 MWCNT-COOH Nanoparticle Based Drilling Fluid
5.6.3 SEM Pictures and Element Analysis of Filter Cakes
Nessa época o sertão parece a terra combusta do profeta; dir-se-ia que por aí passou o fogo e consumiu toda a verdura, que é o sorriso dos campos e a gala das árvores, ou o seu manto, como chamavam poeticamente os indígenas.91
A estiagem revela sua potencialidade no mundo natural de forma devastadora, criando um espaço lúgubre, como anuncia Alencar: ³DFKDSDGDTXHRVYLDMDQWHVDWUDYHVVDYDPQHVWH momento, tinha o aspecto desolado e profundamente triste que tomam aquelas regiões em WHPSRGHVHFD´.92 A paisagem seca tem em sua essência uma referência à dor, sendo assim, segundo Burke, capaz de produzir uma sensibilidade sublime.
A seca, portanto, desola uma terra que em sua essência possui vida, alegria e beleza. O WRP QRVWiOJLFR SHUSDVVD R WH[WR DR VH GHVFUHYHU D VLWXDomR GR PXQGR QDWXUDO ³SHOD YDVWD planura que se estende a perder de vista, se eriçam os troncos ermos e nus com os esgalhos ULMRVHHQFDUTXLOKDGRVTXH ILJXUDPR YDVWRRVVXiULRGDDQWLJD IORUHVWD´93 $VVLP³DR ORQJR do caminho, de um e outro lado, alvejavam, entre as maravilhas dos ramos queimados pelo sol, as ossadDVGRVDQLPDLVTXHMiWLQKDPVXFXPELGRDRVULJRUHVGDVHFD´.94 Alencar continua a descrever os efeitos da estiagem na paisagem:
90 BURKE, Ed mund. Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas idéias do sublime e do belo, p.86. 91 ALENCAR, José de. O sertanejo, p. 14.
92 Ibid. 93 Ibid. 94 Ibid., p. 15.
O capim, que outrora cobria a superfície da terra do verde alcatifa, roído até à raiz pelo dente faminto do animal e triturado pela pata do gado, ficou reduzido a uma cinza espessa que o menor bafejo de vento levanta em nuvens pardacentas.
O sol ardentíssimo coa através do mormaço da terra abrasada uns raios baços que vestem de mortalha lívida e poenta os esqueletos das árvores, enfileirados uns após outros como uma lúgubre procissão de mortos.95
A referência à morte ainda mais potencializa a dor. Morte e dor caminham lado a lado com o terror, construindo uma paisagem geradora de medo, pois se tratava de um espaço morto e, portanWRLQDSWRDVREUHYLYrQFLDKXPDQD&RPEHPDILUPD%XUNH³DVLGpLDVGHGRU e acima de tudo, as de morte causam uma impressão tão profunda que, enquanto permanecemos em presença de tudo quanto se julga ter o poder de infligir qualquer uma das duas, é imposVtYHOHVWDUPRVLQWHLUDPHQWHOLYUHVGRWHUURU´96 Além disso, para o autor, medo ou terror, que é uma percepção da dor ou da morte, manifesta-se exatamente pelos mesmos efeitos, com uma violência proporcional à proximidade da causa e à fragilidade do indivíduo.97
A morte também é representada pelos animais, ao tomar como exemplo a queda do gado durante a seca. A morte do boi e da vaca gerava grande comoção, devido esses animais serem um símbolo do espaço sertanejo, XPD YH] TXH ³>@ LQVSLUDUDP RXWURUD DV OHQGas sertanistas dos bois encantados, que os antigos vaqueiros, deitados ao relento no terreiro da ID]HQGD FRQWDYDP DRV UDSD]HV QDV QRLWHV GR OXDU´98 O gado compõem assim a paisagem morta³¬VYH]HVRXYH-se o crepitar dos gravetos. São as reses que vagam por esta sombra de mato, e que vão cair mais longe, queimadas pela sede abrasadora ainda mais do que inanidas SHOD IRPH´99 Para reforçar essa idéia Alencar se valeu de certas imagens-força de sublimidade, como a própria referência ao escuro quando trata dos espectros e sua relação com a morte: ³9HUGDGHLURV HVSHFWURV HVVDV FDUFDoDV TXH VH PRYHP DLQGD DRV ~OWLPRV arquejos da vida >@´.100
A melancolia toma conta do relato ao se relembrar dos animais que tomavam conta e GDYDP PRYLPHQWR j SDLVDJHP LQWHULRUDQD ³Estes ares, em outra época povoados dos turbilhões de pássaros loquazes, cuja brilhante plumagem rutilava aos raios do sol, agora
95 ALENCAR, José de. O sertanejo, p. 14.
96 BURKE, Ed mund. Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas idéias do sublime e do belo, p.71. 97 Ibid., p.137.
98 ALENCAR, José de. Op.cit. 99 Ibid.
ermos e mudos como a terra, são apenas cortados pelo vôo pesado dos urubus que farejam FDUQLoD´101 Nessa passagem do discurso alencarino se pode perceber várias características sublimes. Dentre elas se percebe sublimidade, segundo Burke, como uma dor causadora do deleite, uma vez que ³>@DPHODQFROLDRDEDWLPHQWRRGHVHVSHURHPXLWDVYH]HVRVXLFtGLR são conseqüências da nossa visão sombria das coisas quando nesse estado de relaxamento do FRUSR´102
Outros aspectos sublimes dessa paisagem sertaneja alencarina estariam presentes nas referências feitas aos ³urubus´, animais sombrios, de plumagem escura, relacionados à morte, ao medo. Como também a citada ³carniça´, uma vez que os odores provenientes do mau cheiro gerariam uma dor moderada, devido serem desagradáveis.103 A estratégia prossegue na WHQWDWLYDGHHQYROYHUROHLWRUQDFRPRomRSDUDFRPXPDWHUUDTXDVHGHVIDOHFLGD³TXHPSela primeira vez percorre o sertão nessa quadra, depois de longa seca, sente confranger-se-lhe a alma até os últimos refolhos em face dessa inanição da vida, desse imenso holocausto da WHUUD´104 O discurso vai recrudescendo para sensibilizar mais o leitor em relação à situação calamitosa:
É mais fúnebre do que um cemitério. Na cidade dos mortos as lousas estão cercadas por uma vegetação que viça e floresce; mas aqui a vida abandona a terra, e toda essa região que se estende por centenas de léguas não é mais de que o vasto jazigo de uma natureza extinta e o sepulcro da própria criação.105
A paisagem seca presente em O Sertanejo se constituiu numa representação de um espaço morto, propício a desastres, como por exemplo, a queimada³2 incêndio, causado por alguma queimada imprudente, propagava-se com fulminante rapidez pelas árvores mirradas que não passavam então de uma extensa mata de lenha´106 A situação narrativa quanto à queimada foi potencializada a partir criação do medo: ³A labareda, como a língua sanguinolenta da hidra, lambia os galhos ressequidos, que desapareciam tragados pela fauce hiante do monstro´.107 Para tanto, Alencar fez uso da metáfora da serpente no momento em que descrevia o alastramento do fogo para imprimir terror, aspecto essencialmente sublime.
101 ALENCAR, José de. O sertanejo, p. 14.
102 BURKE, Ed mund. . Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas idéias do sublime e do belo,
p.140.
103 Ibid., p.92-93.
104 ALENCAR, José de. Op.cit. 105 Ibid., p.15.
106 Ibid., p.19. 107 Ibid.
Para muitos indivíduos (leitores), a serpente é tida como um dos animais mais asquerosos, medonhos e perigosos da natureza³No seio do denso pegão do fumo, que já submergia toda a selva, rebolcava-se o incêndio como um ninho de serpentes, que se arremetiam furiosas, enristando o colo, brandindo a cauda, e desferindo silvos medonhos´.108
Outro elemento sublime apresentado por Alencar durante a descrição da queimada se fez presente em relação ao som. Burke afirma que os sons podem gerar o sublime quando muito alto, capaz de intimidar a alma, aturdindo e perturbando a imaginação do homem,109 ao mesmo tempo esse som deu à paisagem sertaneja da seca uma idéia de movimento, dinamismo, veja-se a passagem abaixo:
Ao mesmo tempo parecia que a tormenta percorria a floresta e a devastava. Ouvia-se o mugir o vento, agitado pelo ressolho ardente e ruidoso das chamas; um trovão soturno repercutia nas entranhas da terra, e cada instante, no meio do constante estridor da ramagem, reboavam com os surdos baques dos troncos altaneiros os estertores da floresta convulsa.110
Assim se visualiza em Alencar vários elementos fonte de sublimidade durante a sua descrição da paisagem da seca. Enfim, tratou-se de uma representação de um espaço da tragédia da seca, espaço de uma dificuldade há muito já sabida sobre o sertão nortista. Sendo assim, mais perturbadora porque se aproximava da realidade da área, portanto, o seu poder de sublimidade foi maior. O sol nesse momento apresenta seu perfil sublime, pois sua relação com restante do mundo natural gerava medo, dor e a até mesmo a concretização de uma sensibilidade calcada na autopreservação, para Burke a base sentimento de sublimidade no imaginário humano.
É importante também perceber que essas passagens sobre a paisagem seca do sertão se localizam na parte inicial da obra, o primeiro capítulo do volume I, O Comboio. Isso não se dá de forma ingênua. Tratou-se de uma estratégia discursiva do autor para poder enaltecer posteriormente o que viria a ser o ³verdadeiro´ sertão: espaço da beleza. As descrições de Alencar vão tendo esse tom lúgubre. A terra em desfalecimento possui um valor simbólico enorme para se pensar o sertão nortista e seus problemas decorrentes da irregularidade climática da área. O leitor fica estarrecido perante a situação desse sertão trágico e por esse estarrecimento o sentido sublime se realça ao pensar o espaço sertanejo.
108 ALENCAR, José de. O sertanejo, p. 19.
109 BURKE, Ed mund. Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas idéias do sublime e do belo,
p.88-89.