1.4 Bakgrunn
1.4.3 Selvmord
O autor aproxima as análises filosóficas sobre a linguagem à teoria de tradução, colocando que a tradução existe justamente porque há línguas diferentes. Entretanto, é somente quando exposto a essa pluralidade de códigos que o sujeito reflete sobre a estranha
ordem da linguagem humana no que diz respeito à verdade nela contida.
O processo de decodificação e codificação dos atos de fala, apesar de ficar mais evidente quando dizem respeito a sistemas diferentes, deve ser também pesquisado em atos comunicativos intra-linguais, pois “dentro ou entre línguas, a comunicação humana equivale
a uma tradução” (STEINER, 1992, p. 49).
A expansão das abordagens teóricas de tradução para a área de teoria da linguagem aponta a possibilidade da estranha ordem da verdade do mundo que a linguagem representa sob os padrões lingüísticos que utilizamos para nos expressarmos, determinar a forma como percebemos o mundo. Noção essa que comparo à idéia de projeção de formas de vida de Wittgenstein.
Sua proposta é: análises sobre a natureza da linguagem, como um lugar comum epistemológico, devam considerar os estudos da tradução não só sob aspectos técnicos e convencionais. Dessa forma, por intermédio da metáfora do mito de Babel, Steiner argumenta que o logo do cosmos como verdade universal espelhada pela linguagem ideal estaria fadado a não ser mais encontrado em nenhuma língua.
Segundo o autor, nem o desenvolvimento dos estudos lingüísticos de constructo universal fundamentados na semântica e na gramática gerativa de Chomsky, nem os esforços das pesquisas antropológicas foram capazes de responder a esta questão que Levy Strauss
considera o mistério supremo da antropologia (STEINER, 1992, p. 51).
Não há dois sujeitos que compartilhem contextos associativos idênticos (p. 178), pois estes são compostos da totalidade de existências individuais por compreenderem não somente a
97 soma de memória e experiências pessoais como também um reservatório de subconsciente particular que difere de pessoa a pessoa. Não existe fac simile de sensibilidade, nem espíritos gêmeos (STEINER 1992, p. 178).
Conseqüentemente, todas as formas de discurso pressupõem um elemento de especificidade individual, como um idioleto, não necessariamente sob a noção de linguagem privada de Wittgenstein, que, conforme já argumentado neste trabalho, estabelece primeiramente o limite de mundo pelo limite da linguagem para, a seguir, atrelar as questões sobre as regras do jogo ao sistema de referências subjetivas delas.
Se obedecidas as regras como ordens em jogos, uma vez preestabelecidas, a tendência é justamente que ocorra o estranhamento durante as circunstâncias da interação. A partir da reflexão sobre o estranhamento, é possível refletir sobre as expectativas que por vezes estão descontextualizadas.
O fato de haver referências subjetivas sobre o significado de determinadas palavras ou gestos, a interpretação que se faz dele em contexto deverá passar pela verificação pública para ser validado e apontar para a possibilidade de desenvolvê-lo a partir da adoção de visão panorâmica do contexto mediante a competência estratégica de reconhecimento de sentidos negociáveis intersubjetivamente. No caso da tradução entre autor, tradutor e leitor.
Análogo à Wittgenstein, Steiner considera que todo o registro de comunicação humana carrega consigo uma expressão de conteúdo pessoal, podendo até mesmo a percepção panorâmica do som de determinadas unidades mínimas fonéticas desencadear associações e valores simbólicos específicos. Qualquer forma de expressão e código simbólico está sujeita a contingências de memória e de novas experiências, cujos valores semânticos são afetados por questões tanto individuais quanto histórico-culturais.
Resumindo todo ato de comunicação consciente ou inconsciente, baseia-se em uma construção complexa e fragmentada, que pode ser comparada a um iceberg quase totalmente submerso (...) cuja maior parte de conteúdo é individual e, no senso comum, privado (...). Quando nos comunicamos, falamos da “superfície” de nós mesmos (...). A ilusão da existência da opacidade na linguagem que vivenciamos em atos de fala públicos tornam-se essenciais para o equilíbrio da nossa psique. A língua articulada e internalizada constitui o principal componente e valida a nossa consciência enquanto seres humanos (STEINER, 1992, p. 181).
98 Apesar de, em certo sentido, o tradutor ser padronizado, aspecto que possibilita a normatização semântica de significados, é no uso de seu conteúdo associativo que testa sua identidade distinta. O uso da língua e sua mútua inteligibilidade são indivisíveis pois
Nossas línguas estruturam e são estruturadas pelo tempo, pela sintaxe do passado, do presente e do futuro (...) pelo fato de a linguagem ser em parte física e em parte mental, a gramática é temporal, cria e informa a experiência do tempo pelo falante (Idem, ibidem, p. 168).
A noção da estranha ordem da linguagem e da verdade nela contida poderia, portanto, ser mapeada como jogos de linguagem que representariam a forma como se organiza a experiência humana na linguagem e como ela é compartilhada com o grupo, dialogando com a matriz de tempo e espaço na qual o tradutor se localiza por intermédio de formas gramaticais.
Essa localização pode, portanto, ser feita a partir da elucidação do mapeamento das regras que o tradutor traz para os jogos, que também pode ocorrer como fruto de transição da gramática filosófica, que é superficial para a gramática de dimensão profunda de Wittgenstein, na qual se reconhece o “ar de família”.
As questões sobre o significado podem também ser analisadas sob o conceito de força ilocucionária de Austin, que esclareceria aspectos de intencionalidade sem ser necessariamente reduzida a um único método, no caso o lingüístico. A perlocução do tradutor teria conseqüentemente como ferramenta os aspectos perceptivos sobre o que está implícito, inferido, omitido sob determinadas circunstâncias, com propósitos específicos, prevendo diferentes espacializações que acarretam diferentes validações.
Apesar de reconhecer a importância de procedimentos semânticos, históricos e psicológicos para as análises da área, coloca que especificamente no caso de tradução de textos históricos, literários, poesia ou drama, os modelos de crítica desenvolvidos pela lingüística para justificar os desvios decorrentes da heterogeneidade de interpretações tornam- se tão subjetivos quanto imprecisos.
99 Até mesmo os estudos filosóficos sobre lógica simbólica, que reconheceram que deveria haver, de alguma forma, uma terceira realidade além do fluxo da linguagem, na qual o significado tem um status atemporal, não solucionam a determinação de todas as funções que um texto possa ter, consideradas as dimensões do contexto, distante da sua matriz.
No caso da tradução de um texto atemporal como o de Robespierre, ela pressupõe não somente o conhecimento léxico-sintático da língua estrangeira como também o de todas as formas de comunicação convencionalmente aceitas no contexto da época, fato que destaca a posição do tradutor como um outsider19 em relação ao autor.
Conseqüentemente, a busca filosófica pela racionalização ortográfica da personificação20 da cultura e da existência humana na linguagem em face da internacionalização da língua inglesa apresenta um desafio ainda não solucionado pelos modelos de crítica. Em virtude de sua utilização como um esperanto, código mundial de comércio, tecnologia e turismo, constitui o agente principal da destruição da diversidade lingüística anteriormente questionada pelos estudiosos da área.
Estudos sobre o status do significado, como a estranha ordem da linguagem humana, implica, portanto, esclarecimentos sobre a substância e os limites da tradução, no que diz respeito à possibilidade do tradutor como outsider, conseguir alcançar equivalência das regras utilizadas pelo autor (insider) utilizador das regras como insider (nativo).
A proposta para solucionar esse impasse é a do estudo hermenêutico21 acrescido de parâmetro de topologia cultural. Dessa forma, a noção da tradução como uma hermenêutica de responsabilidade, de restituição, de personificação permitiria ao tradutor superar o modelo
19A posição do tradutor como um outsider (estrangeiro) das regras sintático-semânticas e pragmáticas utilizadas pelo autor (insider) implica
estranhamento ainda maior do que o ocorrido na tradução de jogos intralinguais.
20 A expressão “personificação” é tradução da adjetivação do substantivo embodiment, que equivale também à “encarnação”, ambas
derivadas do verbo embody , que em inglês significa “incluir como parte de algo, ou incluir, mostrar ou representar por comportamento” (Cambridge International Dictionary of English).
21Termo originalmente teológico designa a metodologia própria à interpretação da Bíblia: interpretação ou exegese dos textos antigos,
100 triádico da distinção entre literalismo, paráfrase e imitação livre, o qual se tornaria contingente sagrado,
(...) seria irônico se a resposta para o mito de Babel, que vaticinou que os homens não conseguiriam mais uma linguagem universal que os permitissem interagir, não fosse mais o pentecoste e sim o pidgin, variação popular do inglês (STEINER, 1992, p.495).
Corroboro a posição de Steiner de que é necessário superar o modelo triádico de distinção entre literalismo, paráfrase e imitação livre, que aponta a dificuldade de os modelos de crítica lingüístico-semânticos aplicados à tradução encontrarem ao esclarecer essa estranha
ordem da linguagem. Esse fato levou as pesquisas da área a se debruçarem sobre a pragmática, como exporei a seguir.
Arrojo (1993) ratifica a problematização anterior em relação à influência da tradição logocêntrica nos estudos de tradução, na medida em que, para ela, o ato de interpretar a realidade ou o texto só poderia vir depois da compreensão da realidade nele contida. A tradução é, portanto, comparada à leitura detalhada que se faz de textos nativos ou estrangeiros, cuja expectativa é de que
(...) aquilo que necessariamente implica uma tradução – o desencontro com a origem com a diferença no tempo e no espaço que separa o original de sua tentativa de repetição e a interferência de pelo menos uma segunda voz autoral no processamento de significação – possa ser encaixado no bom comportamento previsto pelo racionalista de equivalências perfeitas e estáveis, imunes a qualquer perspectivismo (ARROJO, 1993, p. 53).
Contrapõe essa abordagem colocando que é na linguagem metafórica que o homem trabalha a verdade e não na essência das coisas. Conseqüentemente, não pode haver resgate total dos significados originais de um texto, ou das intenções de seu autor, porque nem o próprio autor estaria plenamente consciente de todas as suas intenções e de todas as variáveis que permitiram a produção de seu texto.
Considerando que os moldes logocêntricos são incompatíveis com a noção pragmática de jogos e de força ilcucionária na linguagem, as colocações de Arrojo corroboram os modelos de crítica de Hatim e Masom e Fawcett, segundo os quais o reconhecimento
101 pragmático do contexto é visto como estratégia de facilitação de alcance de fidelidade ao significado do original pelo tradutor.
Ora, se as convenções contextuais, além da recorrência logocêntrica aos registros sociolingüísticos, são pragmaticamente estabelecidas no momento em que o objetivo e as circunstâncias do texto são interpretados pelo leitor-tradutor, as projeções de formas de vida efetivadas como efeitos de perlocução de textos atemporais ficam mais sujeitas à verificação, problematizando o parâmetro de lógica consensual que analisei a partir da teoria dos atos de fala.
Nessa perspectiva, a pragmática fica incumbida de categorizar as diferentes tipologias de convenções contextuais a fim de serem estabelecidos parâmetros de validação do processo de significação das expressões lingüísticas em complementação ao aspecto veriditivo das descrições.
Herman Parret compila alguns estudos que procuram distinguir aspectos da filosofia da linguagem e da lingüística ligados ao contextualismo da pragmática e, em 1988, com a publicação de Enunciação e pragmática estabelece cinco tipos de pragmática, que admitem superposições e se relacionam aos tipos de contextos considerados relevantes para uma descrição e explicação do discurso e de outras seqüências semióticas.