Como uma existência social que guarda e encerra em si tanto os receios quanto as projeções de determinado processo civilizatório, a criança resta sob vigilância, e o que delimita e prescreve o seu “desenvolvimento” e organiza a sua vida, são os saberes que vão trabalhar a serviço de tal processo. A ideia que se tem de infância está plenamente devotada ao ideal de família burguesa
“Em torno da criança, a família burguesa traça um cordão sanitário que delimita seu campo de desenvolvimento: no interior desse perímetro o desenvolvimento de seu corpo e de seu espírito será encorajado por todas as contribuições da psicopedagogia postas a seu serviço e controlado por uma vigilância discreta.” (DONZELOT, 1986, p. 48)
“Desde que foi escavada pelo discurso social, a criança tornou-se mina de ideais, metal tão precioso que encarna, no nosso tempo, o veio de tantos alentos e de tantos mistérios, substituindo a devoção religiosa” (VORCARO, 2004a, p. 183) Porém, se compreendemos o campo político onde se insere a ideia moderna e contemporânea de infância entendemos o motivo de tais mistificações A ilusão objetiva que se forma é de que a criança é o mistério, ídolo incompreensível e enigmático que a cultura tenta descrever, disciplinar, prever. A criança toma posição de destaque, mas não há nada de misterioso em sua condição se pensarmos que todo alarmismo e toda aura de risco é forjada invisivelmente numa trama ideológica. Os males na infância (doenças, transtornos) são tomados como o titã que o nosso tempo deve enfrentar, dominar e vencer, assim a problemática infantil é
vista numa certa opinião massificada e os projetos “civilizatórios” da infância são defendidos com empenho por especialistas.
Mas como o clássico nos permite comparar (SAAVEDRA, 1981), esses “gigantes” contra os quais se luta nas problemáticas sobre a infância, são os moinhos de vento que o esclarecimento totalitário17 da ciência constrói, pela indigência de um pensamento que não consegue entender o mal-estar e o sofrimento psíquico para além da herança médica ou de um pragmatismo burocrático da psiquiatria atual com seus códigos.
O fascínio pela infância, em nossa visão, faz parte de uma complexa arquitetura da “sociedade disciplinar” (FOUCAULT, 2006) ou sociedade de controle, a vigilância e a formatação do psiquismo e do corpo infantil, é, não só a base sólida, mas um pilar necessário, mantido em boa parte pela ordem médica, para engendrar, a futura alienação do trabalho, a reprodução do capital, o adoecimento neurótico e compulsão ao consumo, entre tantos outros males que não são simplesmente consequências dos nossos tempos, mas a base organizadora da sociedade atual.
“Essa posição orienta a função delegada à criança de responder pelo futuro, função investida na polimetria do narcisismo parental e atualizada nos dispositivos, fronteira da capacidade operatória da psicanálise[...]” (VORCARO, 2004a, p. 183) A questão que tal trecho nos suscita é que o trabalho da psicanálise poderia ser considerado algo que sempre lida na fronteira de uma capacidade operatória, não só no trabalho com crianças, o trabalho do analista está constantemente defrontado com o equívoco ou o erro. Como um dos quatro impossíveis, analisar é um trabalho sempre às voltas com o fracasso como dissemos anteriormente, exatamente por isso só tem sentido enquanto preserva sua qualidade crítica e vislumbra um saber fazer com o erro; caso perca essa dimensão crítica radical, pode se tornar apenas mais um trabalho na lógica de preservação da ordem social, mais um imperativo da ordem. Deve haver, pois, algo de subversivo no trabalho do analista.
Aqui, preferimos não nos perguntar se o trabalho analítico com crianças nas instituição preserva ou não uma certa “essência” ou os cânones da clínica psicanalítica, colocamos a questão do avesso ao notar que o desafio de trabalhar com crianças na rede de saúde pública, é o mesmo desafio de todo trabalho analítico, fazendo advir um sujeito diametralmente oposto ao indivíduo burguês reinante em seu espaço privado. (ROSA, 2013)
17 Para maior aprofundamento na questão indicamos “Dialética do esclarecimento” . Segue o principal trecho que nos inspirou “A sociedade burguesa está dominada pelo equivalente. Ela torna o heterogêneo comparável, reduzindo-o a grandezas abstratas. Para o esclarecimento, aquilo que não se reduz a números e, por fim, ao uno, passa a ser ilusão.” (ADORNO, 1985, p. 20)
Trabalhar com a psicanálise no âmbito público pode nos abrir os horizontes para o campo social e político, com as contingências do nosso tempo histórico que cercam os sujeitos; é uma possibilidade para o trabalho clínico que se pretenda cada vez menos ensimesmado, enfadonho e elitista. As questões que cercam a infância, são sim, ícones de nosso tempo; a demanda escolar, que se converte em pouco anos nas exigências do mercado de trabalho; o narcisismo parental que anseia pela sua boa performance; as intervenções medicais que limitam sua errância criativa, testemunham isso.
Assim, verificamos os principais impasses da escuta analítica da criança na instituição, a intervenção do discurso médico e capitalista através dos códigos diagnósticos e dos psicofámacos; o campo institucional como a sua pluralidade de saberes e a necessidade de dialogar com a equipe para construir uma direção de tratamento, a presença dos parentes da criança com suas queixas e apelos também demandado atenção e escuta. E pontuamos, que, apenas ouvindo a toda essa pluralidade de vozes que cercam o sofrimento infantil que se conseguirá ouvir a criança, rompendo com seu processo de silenciamento.
“Somente neste século é que as crianças adquirem no imaginário social o status de ‘esperança da humanidade’ refletindo em si mesmas a auto-estima e as frustrações dos adultos.” (VOLNOVICH, 1993, p. 19) o que nos atesta o quanto a infância se torna o lugar testemunhal de uma organização social que se ampara na submissão sincrônica a certos ideais, que necessitam se marcar o mais precocemente possível no vivente para assim se perpetrar com uma força quase inquestionável, ganhando ares de “natureza humana” e colocando para além do processo social a ideia de origem dos comportamentos, ações e desejos humanos.
A modernidade enceta no infans a perspectiva de futuro “Enfim, na modernidade, a criança tornou-se lugar próprio para a aposta no futuro da civilização.” (VORCARO, 2011, p. 220) “lugar de prevenção e ortopedia rumo ao ideal de civilização.” (VORCARO, 1999, p. 12) Uma nova organização social coloca a infância no lugar de apostas e projeções: “Nasce então, com a queda das monarquias, ‘Sua majestade o bebê’, centro do universo familiar.” (VOLNOVICH, 1993, p. 23) Assim, tantos saberes se dão como ferramentas a esse processo, organizando “’estratégias de familiarização’ que uma sociedade instrumenta em função das demandas político-econômicas.” (VOLNOVICH, 1993, p. 23) e os saberes respaldam como verdade natural para além do processo histórico, por isso tão inquestionável como dissemos anteriormente.
Na natureza infantil vai-se buscar agora os traços originários da ‘natureza humana’, natureza contraditória e perigosa por sua tendência aos vícios da
carne, tão assustadores para as classes emergentes, que se observava e analisava à luz do puritanismo luterano e da assepsia científica (VOLNOVICH, 1993, p. 12)
No dualismo de se pensar a criança, ora como natureza maligna, ora como anjo puro, que se revelam as bases de um processo onde um novo corpo social, o do infans, carece de representações buscando referências apenas nas conotações e referências religiosas que estão disponíveis na época.
No final do século XVIII, coexistindo com a representação da criança pecadora, aparece a imagem da criança-anjinho, correlata das teses naturalistas que colocam o ser infantil como um santinho, sendo o meio social o que o maligna. Essa criança ‘anjinho’ era essencialmente uma criança sem sexo, ou melhor dizendo, carecia de qualquer tipo de definição sexual. Como disse Fraçoise Dolto: ‘a criança deveria ser um anjo para não ser uma besta’ (VOLNOVICH, 1993, p. 24)
É Freud quem no final do século XIX início do XX que vai colocar em discussão o sexo dos anjos, atentando para como o infans entra no processo social partilhando das mesmas crises e confusões que os demais membros da sociedade, neste sentido é interessante constatar como ainda hoje as teorias sobre a sexualidade infantil ainda causam repulsa e mal-estar em boa parte das pessoas, não que a sexualidade adulta cause menos incômodo, mas suprimir a barreira que separa a vivência libidinal infantil do que é tido como vivência libidinal adulta, parece ser motivo de indignação, pois tomar o infans como sujeito, movido por seu desejo e sexualidade, subverte a possibilidade de fazer da infância “tabula rasa”, depositária dos ideais civilizatórios. “Será a psicanálise do início do deste século que terá a indigna missão de subverter o mito da infância ingênua e bondosa[...]” (VOLNOVICH, 1993, p. 24)
A psicanálise, pois, exerce um poder de crítica à cultura, e nesse sentido seu poder político se mostra como ferramenta tanto na atuação social como na prática clínica, se ao analista é vetada a possibilidade de exercer um poder sobre o paciente, sobre o analisando na transferência, esse mesmo lugar vazio da transferência é que reenvia a causa e dá margens para sua posição contestatória política, juntou ao que do inconsciente emerge como verdade.
Como não há exercício que se prive de poder, não há posição ou ação discursiva que não exerça poder, ao se retirar de um exercício de poder sobre o analisando o analista deve escolher para qual direção a sua presença e a sua força vão compelir, qual poder vai exercer, sobre o que. Avisado sobre o engodo da neutralidade e fazendo a escolha política de seus atos propomos que, para vigorara a ética da psicanálise, o exercício de poder do
analista se faz numa decisão política, se não há como sustentar esse lugar de morto na cultura, reproduzindo a posição da transferência, é na polis que a voz do analista deve se fazer presente como uma determinante política em sua ética e na decisão de qual será o seu poder enquanto lugar discursivo na cultura.
Reanimando o ato de Freud, que ao ouvir as histéricas viu que a sexualidade feminina sobre a qual calavam precisava ser expressa – e assim usou de seu poder para trazer para a cultura o que o inconsciente de suas pacientes lhe dissera – assim como Freud, na escuta do inconsciente, o analista pode se aliar a essa foça subversiva que eclipsada no inconsciente e administrada pelo recalque se mantém inaudível ou incompreensível na maior parte do tempo. O caráter político da práxis psicanalítica, assim como os princípios para o exercício de um poder, repousam na escuta do inconsciente e nas formas do sofrimento que fazem emergir criptografados os indícios de que há no sujeito uma força que clama pela restituição da voz que lhe é negada.
A condição do infans nos apresenta a radicalidade disso, como voz que ainda não se fez audível, o seu sofrimento é o que fala; como uma caixa de ressonância da cultura, como o inconsciente trazendo a política, ou seja, como o que condiciona o sujeito alçado para além de sua existência individual. A condição infantil trás em si, aglomerado nos sintomas que dialogam com as instituições, o que dessas organizações lhes é próprio e não pode ser abertamente dito nos meios onde ideologicamente a linguagem se ampara, escondendo as bases de uma opressão a criança é subjugada e silenciada. Assim seus sintomas mostram tanto a potência quanto as falhas deste grande Outro social, que não é por se sustentar imaginariamente ou ideologicamente que se faz menos simbólico, amarrando toda ordem social que estrutura os sujeitos e os permite falar e não falar, precisando se expressar de outros modos.
Na condição infans são esses outros modos de expressão que advém para falar uma verdade incômoda, verdade essa dos limites e incoerências do processo civilizatório, assim como seus restos, verdade da falta de sentido e das falhas do saber nas tentativas do esclarecimento científico, assim como a força tirânica do capitalismo que alimenta o seu desenvolvimento à custa de suprimir o sujeito. Verdade do mal-estar de podermos a qualquer momento também emprestar as nossas forças e a nossa práxis como analistas aos mesmo imperativos da ordem a que a instituição segue, formatando o sujeito para que ele não fale, ou não sustente uma posição discursiva que toma como legítimo o seu desejo.
Ao longo do trabalho colocamos como que o campo social formata e atinge o sofrimento da criança e que sua escuta pelo analista na instituição deve ocorrer sem
negligenciar os fatores políticos para os quais seu sofrimento e sintomas apontam, disso retiramos alguns princípios que podem nortear uma prática analítica que pretenda ir à contramão das formas hegemônicas, disciplinares e segregacionistas do capitalismo.
1- Opor-se à elitização da psicanálise que exclui de parte da população a possibilidades de fazer uso de seus recursos de tratamento. Essa oposição compreende questionar e renovar os fundamentos teóricos que restringem a prática, assim como demonstrar as consequências danosas dessa segregação, suas consequências sociais e políticas.
2- Demarcar a legitimidade do trabalho analítico para além do setting tradicional, de forma que o consultório privado se desmonte enquanto locus privilegiado de atuação, apontando ao mesmo tempo o quanto o isolamento do analista em relação ao campo e às forças sociais tornam sua prática ensimesmada e idealista, tal qual a dos cientistas nos laboratórios higienizados que prezam por seus resultados puros.
3- Compreender que o campo social é regido pelo poder do capital, que de forma material organiza a vida dos sujeitos e suas formas de encararem o sofrimento. Assim como determina as vias hegemônicas de tratamento através dos psicofármacos, alimentado os lucros da indústria na medida em que fabrica ideologicamente essa forma massificada de compreender o sofrimento.
Se Lacan (LACAN, 1996) considera que é preciso retornar a Freud e restaurar a lâmina cortante de sua verdade é porque a psicanálise tende a degradar-se e a religionar-se cada vez que encontra ouvidos, apoio e conforto nas bases sociais contra as quais, em algum momento, ela ainda fazia forças de enfrentamento. Logo, consideramos que a crítica, a insubordinação e a verdade subversiva do inconsciente são a senda pela qual o analista norteia seu trabalho, pois só assim vigorará a ética do desejo em sua prática, apontando para os engodos da ideologia que se traveste de grande Outro, imutável, imperativo, consistente.
Extrapolando o que as malhas do simbólico pode comportar, falando para além da vivência individual dos conflitos, o inconsciente aponta para a política. No inconsciente resta latente uma forma enigmática, reveste-se um discurso que ao nível da cultura não se pode colocar explicitamente. Com isso concluímos que só ouvindo o inconsciente como um emergente político, portador de uma verdade subversiva, que se pode proceder com uma ética na clínica.
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