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Na década de 1950, quando surgiu o GEPE-Piedade165 Fortaleza apresentava acelerado crescimento populacional (COSTA, 2005) e se divulgava no contexto nacional a orientação do Conselho Federativo Nacional da Federação Espírita Brasileira (FEB)166, no sentido de organizar e unificar o movimento espírita, com a finalidade de dar maior consistência ao trabalho de difusão e visibilidade às atividades de estudo e prática doutrinária.

Exatamente a ênfase na pedagogia espírita ancorada numa relevante produção literária psicografada por espíritos de elevada envergadura intelectual e moral, faz do espiritismo um campo aberto à evolução do conhecimento nas suas diferentes áreas. Reforçado pelo ideário moderno-espiritualista de uma fé raciocinada que tem a ciência como via para entendimento, através da razão e da intuição, das leis naturais ou divinas, cujo percurso evolutivo da humanidade no plano terreno depende do esforço individual em promover a reforma íntima ou transformação moral, com base nos ensinamentos cristãos, a fim de se estabelecer uma sociedade em que os valores humanos se sobrepunham aos de ordem material.

Quando os fundadores167 do GEPE-Piedade se reuniram, em 1951, para deliberar sobre a formação de mais um grupo para difusão do espiritismo em Fortaleza, na conjuntura nacional se observava dois movimentos opostos que, por via indireta, provavelmente influenciaram nessa iniciativa de expansão do movimento espírita em terra alencarina168.

De um lado, os pressupostos materialistas que se infiltravam no ideário político-cultural da academia, a minar qualquer possibilidade de diálogo com a dimensão religiosa, por outro, as lições de amor e humildade emanados das ações

165 Doravante iremos designar os centros espíritas vinculados ao GEPE, colocando como diferencial o nome do bairro ou outro indicativo do lugar onde estão localizados: GEPE-Piedade; GEPE-Água Fria; GEPE-Praia do Futuro, GEPE-Messejana, em Fortaleza e GEPE-Jaguaretama, no município do mesmo nome, no sertão central do Ceará.

166 Criado em 1949, por ocasião da assinatura do Pacto Áureo, também conhecido como a Grande Conferência Espírita, realizado na sede da Federação Espírita Brasileira (FEB), no Rio de Janeiro.

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Os primeiros sócio-fundadores do GEPE foram José de Melo César (1º presidente); José Elias Correia (vice- presidente) e Francisco Marques do Nascimento (secretário) e realizaram essa reunião inicial na residência de José Elias, que já se prontificara a fazer doação de um terreno com uma pequena casa para sediar o grupo espírita nascente. Espaço que após muitas reformas abriga hoje o GEPE-Piedade.

168 Referência cultural à contribuição literária do romancista José de Alencar que com suas obras imortais eternizou o sertão cearense com seus personagens e suas paisagens singulares.

generosas e caritativas do espírita Chico Xavier que, através dos dons mediúnicos, concedia consolo àqueles que se encontravam fragilizados diante da perda de entes queridos. E modelava por intermédio das práticas social-caritativas e de abnegada conduta de vida, uma dinâmica religiosa singular, para além da concepção religiosa ou do debate de ideias de fundo filosófico moral. Ao sintetizar o catolicismo devocional na mediação do diálogo com os espíritos, Chico Xavier demonstrava seu poder de doação, fraternidade e tolerância para com os diferentes credos religiosos. Com Chico Xavier o espiritismo se firma no Brasil como dimensão religiosa, pois “sua trajetória foi esboçada como tipo ideal da matriz católica” (FERRERA, 2008, p.120), capaz de construir ponte invisível entre mundos que se comunicam sem se ater aos limites ideológicos ou diferenças sociais.

Sem olvidar, que os princípios filosóficos do espiritismo são todos ancorados numa política de paz para humanidade, independente das ideologias políticas que configuram os diferentes regimes governamentais. Porque a natureza humana em sua gênese espiritual aspira por uma condição existencial pautada não na violência, mas na possível harmonia das diferenças, que engrandecem a obra divina no sentido de uma totalidade cósmica, em que se realinhem pelo prisma da evolução: Deus, homem e natureza. Tal possibilidade se evidencia quando se compreende que “no universo só o espírito representa o elemento uno, simples, indivisível e, por conseguinte, logicamente indestrutível, imperecível, imortal!” (DENIS, 2005, p.63).

FIGURA 9 - Sede original do GEPE-Piedade, 1951 FONTE - Portal do GEPE, 2011

Sediado numa casa humilde, inicialmente, o GEPE-Piedade (FIG.9), conforme assevera Klein (2000), referendado em Leopoldo Machado (1950), investiu no binômio instrução-educação. Em regime de três turnos funcionava a Escola Humberto de Campos, com 130 alunos matriculados na alfabetização, porque para àquele confrade “a mais alta finalidade do Espiritismo [...] é ser, antes de mais nada, uma casa de instrução e educação” (MACHADO cf. KLEIN, 2000, p.91) Em parceria com a prefeitura a Fundação-criança, como era conhecida, foi o primeiro projeto social a alavancar as atividades evangélico-doutrinárias do GEPE, ao caracterizar uma forma de apropriação e uso do espaço pelo víeis pedagógico espírita no ainda incipiente sítio urbano de Fortaleza.

Paulatinamente o GEPE-Piedade, com suas ações focadas no estudo doutrinário, na tarefa mediúnica, no tratamento espiritual e nas atividades de promoção social começa a se projetar no contexto urbano da capital como uma alternativa religiosa, de fundo espiritualista, que busca sua legitimação pelo prisma da expressão máxima da codificação espírita: fora da caridade não há salvação (KARDEC, 2007). Conceito estruturante da DE que sinaliza para a necessidade inadiável da conduta

solidária e fraterna, em função de “uma maior atuação e visibilidade do Espiritismo em uma geografia de ação para com a sociedade” (GODOY, 2007, p.70) fortalezense.

Em sintonia com essa orientação de alteridade, o GEPE-Piedade vai alargando seu projeto social e religioso, e se firma como um espaço de assistência fraterna e lócus pedagógico da cultura espírita. Tendo o estudo doutrinário como centralidade de suas ações e a fenomenologia mediúnica, no âmbito da dessobesseção, como aporte de auxílio e orientação para todo àquele que busca o entendimento dos conflitos existenciais. Após duas décadas de atuação em uma pequena casa de alvenaria, que já passara por várias reformas, a coordenação percebeu que não era mais possível acolher satisfatoriamente toda a demanda naquele espaço que já esgotara todas as possibilidades de ampliação.