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1. INTRODUCTION

1.5 Self-esteem and suicide

1.5.2 Self-esteem deficits in suicide

A Transdisciplinaridade, conforme apresentada por Basarab Nicolescu, é uma nova visão de mundo, com o objetivo de compreender o mundo presente (NICOLESCU, 1999). É também um novo tipo de conhecimento (NICOLESCU, 2000a), surgido a partir de um movimento indispensável de constituição de laços entre as disciplinas que emergiu na metade do século XX, representado pela Interdisciplinaridade e pela Transdisciplinaridade.

A Interdisciplinaridade propõe a “transferência de métodos de uma disciplina para a outra” (NICOLESCU, 1999, p. 52), podendo ser em grau de aplicação, em grau epistemológico ou em grau de geração de novas disciplinas. Apesar de ultrapassar as disciplinas, ainda “[...] sua finalidade permanece inscrita na pesquisa disciplinar” (NICOLESCU, 1999, p. 53).

Já a Transdisciplinaridade, por meio do prefixo “trans”, “diz respeito àquilo que está ao mesmo tempo entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e além de qualquer disciplina” (NICOLESCU, 1999, p. 53 – grifos do autor). Possui três eixos constituintes, a saber, Níveis de Realidade, Lógica do Terceiro Incluído e Complexidade.

De acordo com Nicolescu, Realidade é “aquilo que resiste a nossas experiências, representações, descrições, imagens ou formalizações matemáticas” (NICOLESCU, 2000a, p. 17). Compreende a estrutura da realidade como multidimensional (várias dimensões, vários Níveis de Realidade) e multirreferencial (várias visões, vários pontos de vista, vários Níveis de Percepção), composta por uma estrutura ternária, formada pelo sujeito transdisciplinar, pelo objeto transdisciplinar e pela zona de não-resistência ou terceiro oculto (ver figura 1). E o

Figura 1 - Realidade Transdisciplinar

Fonte: NICOLESCU, 2007, p. 45.

Nicolescu compreende Nível de Realidade como sendo “um conjunto de sistemas invariável sob a ação de um número de leis gerais”. Então, “dois Níveis de Realidade são diferentes se, passando de um ao outro, houve ruptura das leis e ruptura dos conceitos fundamentais” (NICOLESCU, 2000a, p. 18), mas isso não impede os dois níveis de coexistirem. Todos os Níveis de Realidade, tanto do objeto, quanto do sujeito, são descontínuos e incompletos. A integração e continuidade é dada à zona de não-resistência (NICOLESCU, 2007).

Por meio da ideia de Níveis de Realidade se depreende que a Realidade é formada por esses diferentes níveis, que são percebidos pelos sujeitos por seus diferentes Níveis de Percepção. Todos esses Níveis de Realidade e de Percepção são interligados (termo de interação X) por uma zona de não-resistência “de absoluta transparência às nossas experiências, representações, descrições, imagens e formulações matemáticas”, ou seja, é “àquilo que não se submete a nenhuma racionalização” (NICOLESCU, 2000b, p. 132), o que ele denomina de

sagrado – (ver figura 2). Ainda argumenta que “se há um Nível de Realidade que elimina o sagrado, então sua auto-destruição é gerada” (NICOLESCU, 2007, p. 43).

Figura 2 - Níveis de Realidade, Níveis de Percepção e Termo de Interação X

Fonte: Nicolescu (2002, p. 47; 2008, p. 5).

Na parte da esquerda estão desenhados, simbolicamente, os Níveis de Realidade (NR) do objeto transdisciplinar. À direita, estão representados os Níveis de Percepção (NP) do sujeito transdisciplinar. No meio, se encontra o ponto de interação X, local da zona de não-resistência. O índice n pode ser finito ou infinito, exemplo: “NRn,..., NR2, NR1, NR0, NR-1; NR-2,..., NR-n” (NICOLESCU, 2002, p. 47), que,

um a um, tem correspondência com um Nível de Percepção,“NPn,..., NP2, NP1, NP0,

NP-1; NP-2,..., NP-n” (NICOLESCU, 2008, p. 9).

Dois níveis próximos, NR1 e NR2, estão unidos pela Lógica do Terceiro

incluído. Essa lógica considera que há uma terceira possibilidade integrada pela

interação entre dois pares de opostos – “terceiro termo que é ao mesmo tempo A e Não-A” (NICOLESCU, 2002, p. 51) –, que, em outro Nível de Realidade, se complementam, sendo assim, uma terceira representação diferente das anteriores (ver figura 3). “A terceira dinâmica, aquela do estado-T, é exercida em um outro Nível de Realidade, onde aquilo que percebemos como desunido está de fato unido

e aquilo que parece contraditório é percebido como não contraditório” (NICOLESCU, 2002, p. 51), e assim por diante ao longo dos Níveis de Realidade, como exemplificado na figura 3. O autor acrescenta que “na lógica do terceiro incluído, os opostos são antes contraditórios: a tensão entre os contraditórios promove uma unidade que inclui e vai além da soma dos dois termos” (NICOLESCU, 2000a, p. 24) e deve ser aplicada em casos de natureza complexa, pois justamente promove a integração e não a exclusão.

Figura 3 - Nível de Realidade (NR) e o Terceiro Incluído

Fonte: Baseada em Moraes (2008, p.122) e em Nicolescu (2002, p. 51; 2008, p. 7).

O princípio da relatividade diz que não há um nível mais importante do que o outro, nenhum tem lugar privilegiado a partir do qual se compreende os demais Níveis de Realidade. Temos a existência de pelo menos 3 Níveis de Realidade: nível macrofísico, nível microfísico e realidade virtual. Ele sugere a existência de um quarto: das supercordas, “que unifica as interações físicas” (NICOLESCU, 2007, p. 45) e afirma ainda que podem existir outros nos sistemas naturais:

Baseado na definição dos Níveis de Realidade, nós podemos identificar outros níveis nos sistemas naturais. Por exemplo, nos sistemas sociais, nós podemos falar sobre o nível individual, o nível geográfico e histórico da comunidade, o nível tempo-espaço-ciber da comunidade e o nível planetário. (NICOLESCU, 2007, p. 45)

Levando em consideração a estrutura ternária da realidade (objeto transdisciplinar, sujeito transdisciplinar e interação/terceiro oculto), Basarab acrescenta que podemos deduzir “outros níveis ternários extremamente úteis na análise de situações concretas” (NICOLESCU, 2007, p. 46):

Tabela 1 - Níveis ternários distribuídos na estrutura ternária da Realidade

Objeto transdisciplinar Sujeito transdisciplinar Interação

Níveis de organização Níveis de estruturação Níveis de integração Níveis de confusão Níveis de linguagem Níveis de interpretação

Níveis físicos Níveis biológicos Níveis psicológicos

Níveis de ignorância Níveis de inteligência Níveis de contemplação Níveis de objetividade Níveis de subjetividade Níveis de complexidade Níveis de conhecimento Níveis de entendimento Níveis de ser

Níveis de materialidade Níveis de espiritualidade Níveis de não-dualidade Fonte: Baseada em informações de Nicolescu (2007, p. 46-47)

Sobre as experiências religiosas e de criação artísticas, Basarab explica que elas “não podem ser equiparadas a Níveis de Realidade. Elas meramente correspondem a atravessar níveis na zona de não-resistência” (NICOLESCU, 2007, p. 48).

Nesta visão ternária da Realidade, que engloba sujeito transdisciplinar, objeto transdisciplinar e o sagrado, sendo estas três facetas da Realidade, Nicolescu (1999, p. 82) comenta que sem uma delas, a Realidade deixa de ser real e se torna “fantasmagoria destrutiva”, ou seja:

A Realidade reduzida ao Sujeito gerou as sociedades tradicionais, que foram varridas pela modernidade. A Realidade reduzida ao Objeto leva aos sistemas totalitários. A Realidade reduzida ao sagrado leva ao fanatismo e aos integralismos religiosos. Uma sociedade viável só pode ser aquela onde as três facetas são reunidas de maneira equilibrada. (NICOLESCU, 2007, p. 82). A partir, também, dos Níveis de Realidade, compreendemos que o espaço entre as disciplinas e além delas está cheio de possibilidades, como o vazio quântico: “da partícula quântica às galáxias, do quark aos elementos pesados que condicionam o aparecimento da vida no universo” (NICOLESCU, 1999, p. 54). O autor também comenta que a Lógica do Terceiro Incluído cria uma estrutura aberta da unidade dos Níveis de Realidade, isso implica na “impossibilidade de uma teoria completa e auto-referente” (NICOLESCU, 2002, p. 51), e, sendo assim, concebe um conhecimento para sempre aberto.

Levando em consideração os Níveis de Realidade, a Lógica do Terceiro Incluído e a Complexidade, Nicolescu formulou os três axiomas da metodologia transdisciplinar (NICOLESCU, 2010, p. 24):

1. Axioma ontológico: há, na natureza e sociedade e em nosso

conhecimento da natureza e sociedade, diferentes Níveis de Realidade do objeto e, correspondentemente, diferentes Níveis de Realidade do sujeito.

2. Axioma lógico: A passagem de um Nível de Realidade para outro é

garantida pela lógica do terceiro incluído.

3. Axioma epistemológico: a estrutura da totalidade dos Níveis de

Realidade ou percepção é uma estrutura complexa: todo nível é o que é porque todos os outros existem ao mesmo tempo.

Nicolescu comenta que os axiomas não podem ser demonstrados, por não serem teoremas. Suas raízes são os resultados advindos de pesquisas experimentais e teóricas e “sua validade é julgada pelos resultados de duas aplicações. Se os resultados estão em contradições com fatos experimentais, então eles devem ser alterados ou substituídos” (NICOLESCU, 2007, p. 43).

Em termos de pesquisa, a pesquisa disciplinar diz respeito, no máximo, a um Nível de Realidade. Já a Transdisciplinaridade se interessa pela “dinâmica gerada pela ação de vários Níveis de Realidade ao mesmo tempo” (NICOLESCU, 2000a, p. 12), que passa pelo conhecimento disciplinar e também se alimenta da pesquisa disciplinar, sendo complementar a ela. Não se constitui como uma nova disciplina, nem como uma hiperdisciplina, nem como a totalidade do conhecimento. Juntas a disciplinaridade, a pluridisciplinaridade, a interdisciplinaridade e a Transdisciplinaridade se constituem como flechas de um único e mesmo arco do conhecimento. (NICOLESCU, 1999)

A Complexidade é uma característica da realidade, da natureza, dos fenômenos, das relações sociais e naturais, ou seja, se encontra na própria natureza das coisas e dos seres, da vida, como do próprio Universo. É também “um tecido de elementos heterogêneos inseparavelmente associados” e, também, a “rede de eventos, ações, interações, retroações, determinações, acasos que constituem nosso mundo fenomênico” (MORIN; CIURANA; MOTTA, 2009, p. 44). Ela é nutrida pela explosão da pesquisa disciplinar e, ao mesmo tempo, ela determina aceleração da multiplicação das disciplinas. Ela “se mostra por toda parte, em todas as ciências humanas ou exatas, rígidas ou flexíveis” (NICOLESCU, 1999, p. 47). Ao mesmo tempo, é um macroconceito, que envolve e se constitui na interação entre outros vários conceitos, e, também, é uma construção humana, por ser uma teoria da qual

emergem o paradigma da Complexidade, a epistemologia da Complexidade, o Pensamento Complexo, que todos juntos, influenciam como se pensa e se constrói um método de pesquisa (MORIN; CIURANA; MOTTA, 2009).

Nicolescu (2007) comenta que há várias teorias da Complexidade que não incluem nem a noção de Níveis de Realidade e nem a zona de não-resistência. Mas ele identifica a compreensão de Complexidade de Edgar Morin como sendo compatível com essas noções. Orienta como sendo importante distinguir Complexidade horizontal, “refere-se um único Nível de Realidade”, e a Complexidade vertical, “refere-se a vários nívels de realidade” (NICOLESCU, 2007, p. 53). Completa dizendo que do ponto de vista da Transdisciplinaridade, “a Complexidade é a forma moderna do princípio muito antigo da interdependência universal” (NICOLESCU, 2007, p. 53), ou seja:

O princípio da interdependência universal implica o máximo possível simplicidade que a mente humana possa imaginar, o da interação de todos os Níveis de Realidade. Esta simplicidade não pode ser capturada por linguagem matemática, mas apenas por uma linguagem simbólica. A linguagem matemática aborda exclusivamente à mente analítica, enquanto a linguagem simbólica dirige-se à totalidade do ser humano, com seus pensamentos, sentimentos e corpo . (NICOLESCU, 2007, p. 53).

Morin, Ciurana e Motta, na perspectiva da Complexidade, compreendem que uma teoria “não é o conhecimento, ela permite o conhecimento. Uma teoria não é uma chegada, é a uma possibilidade de uma partida. Uma teoria não é uma solução, é a possibilidade de tratar um problema” (MORIN; CIURANA; MOTTA, 2009, p. 24). Além disso, percebem que a teoria só cumpre seu papel cognitivo, se o sujeito emprega plenamente sua atividade mental e, assim, percebem que essa intervenção do sujeito é que confere ao termo método seu papel indispensável para a teoria. Para que o método possa ser desenvolvido, ele precisa de “estratégia, iniciativa, invenção e arte” (MORIN; CIURANA; MOTTA, 2009, p. 24), pois o sujeito que o cria é capaz de aprender, inventar e criar durante o caminho da pesquisa. Assim, se estabelece uma dinâmica recursiva entre método e teoria, a teoria gera o método que regenera a teoria.

1.4 FORMAÇÃO DOCENTE E DOCÊNCIA À LUZ DA COMPLEXIDADE E DA