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2.5 Global Influences - The Empirical Research

2.5.2 Selective Studies on Global Influences on Education

No Tractatus, se não de forma explícita, ao menos implicitamente Wittgenstein defendia a idéia de que deve ser possível um conhecimento direto daqueles objetos que são dados imediatamente em minha experiência. São aqueles objetos dos quais Russell afirmou que temos um conhecimento por familiaridade e, ainda segundo Russell, a compreensão do sentido de um enunciado somente é alcançada por aquele que tem familiaridade com os objetos que são referidos pelos nomes que aparecem em sua construção; com isso Russel podia admitir que o significado de certas palavras, aquelas que referem os objetos da experiência, pode ser conhecido no confronto direto com os objetos

referidos por elas28, no caso, a própria experiência. Para Russell os objetos simples, os átomos de que é constituída a realidade, são os dados dos sentidos (sense data). Deles temos um conhecimento direto, imediato, e por isso mesmo este tipo de conhecimento não está sujeito ao erro, é imune ao erro e irrefutável. É isso o que Russell chama de um conhecimento por ‘familiaridade’, ou seja, conhecimento direto ou por contato. Para ele, os dados dos sentidos podem ser “pequenos pedaços de cor ou sons, coisas momentâneas... predicados ou relações e por aí em diante” (RUSSELL, 1978, p. 54)29. Segundo o princípio de familiaridade de Russell, a compreensão de toda e qualquer proposição depende de que ela seja composta por nomes que referem esses objetos dos quais estamos em contato direto. Esses objetos de familiaridade são os constituintes últimos do mundo extralingüístico e toda linguagem significativa deve ser constituída de elementos tais que estejam numa relação direta com estes objetos, os átomos lógicos (nomes).

O empirismo lógico abraçou a noção de que o processo de análise lingüística deveria levar à redução de todos os enunciados de forma a chegar aos enunciados elementares que os constituem. Nesse processo, chega-se aos enunciados que não podem mais ser analisados: os enunciados que referem as experiências (dados dos sentidos). Os empiristas lógicos também aceitaram a idéia de que os enunciados sobre as experiências imediatas são incorrigíveis, e são verificados pela comparação direta do próprio enunciado com a experiência que refere. Esses enunciados são considerados a base de todas as outras proposições, portanto a base para todo conhecimento possível. Além disso, os empiristas lógicos admitiam que o significado das palavras que compõem os enunciados elementares devesse ser estabelecido por um processo de definição ostensiva. Obviamente, a possibilidade de que assim se possa chegar ao

28 “Não podemos entender o significado da palavra ‘vermelho’ a não ser pela visão de coisas

vermelhas. Não existe nenhum outro modo pelo qual isso pode ser feito. É inútil aprender as linguagens ou procurar em dicionários. Nenhuma destas coisas ajudar-nos-á a entender o significado da palavra ‘vermelho’”. (RUSSELL, 1978, p. 66)

29 No Tractatus Wittgenstein não dá um exemplo do que possa ser um objeto, mas admite que eles

sejam os constituintes simples da realidade. O parágrafo 46 das Investigações parece remeter justamente à essa noção, quando tenta compreender o que seriam as partes constituintes simples da realidade: “estes elementos primitivos eram os ‘individuals’ de Russell e os meus ‘objetos’

estabelecimento do significado da palavra é devida ao fato de que uma palavra definida ostensivamente pressupõe a familiaridade com o objeto apontado.

Em comum a estas teorias está a idéia de que é possível uma forma de conhecimento direto dos dados dos sentidos, que são compreendidos como sendo objetos reais da experiência subjetiva. Em conseqüência, é preciso admitir a existência de objetos que são como que internos ao sujeito, uma vez que só podem ser acessados pela própria experiência subjetiva, de modo que estes objetos não podem ser compartilhados e por isso mesmo não podem servir como fundamento para uma linguagem comum. Pelo contrário, os dados dos sentidos comprovam a possibilidade e mesmo a exigência de que a linguagem tem, em última instância, como fundamento objetos privados. Toda linguagem deverá ser considerada e explicada tendo como base e fundamento último essa linguagem primária privada, que refere o imediatamente dado na experiência de cada um. Essa idéia é muito forte, a ponto de Russell afirmar que uma linguagem logicamente perfeita seria uma linguagem privada. A forma de verificação dos enunciados que referem os dados dos sentidos deverá ser uma definição ostensiva privada, num processo em que o sujeito como que aponta para a sua própria experiência e dela afirma ou nega algo numa descrição. A definição ostensiva privada segue o modelo das definições ostensivas de palavras que referem objetos físicos, no sentido de que uma definição é dada por algo que está fora da linguagem: o que explica o lingüístico é o extralingüístico.

No caso das sensações, a definição ostensiva ocorre internamente. Aquele que tem uma sensação, por meio da introspecção tem acesso a ela, como um objeto privado e por meio de uma definição ostensiva interna, associa a ela uma palavra. A conseqüência de tal consideração é que apenas o próprio sujeito que realiza tal associação poderá conhecer o significado dessa palavra, uma vez que o objeto a ela associado não pode ser acessado por ninguém mais a não ser ele mesmo, por ser um objeto privado, que só pode ser experienciado pelo próprio sujeito, inacessível aos outros, portanto. Assim sendo, para a tradição empirista, em última instância o que dá significado às palavras é algo que só pode ser conhecido por cada um subjetivamente, a partir de seu próprio caso, ou seja, de

sua própria experiência privada, pois é a associação da palavra com este “objeto” o que garante à palavra sua significação. E, em conseqüência dessa postura, temos a impossibilidade de comunicação em relação ao que é objeto da experiência privada. Em outras palavras, temos aqui um exemplo de uma linguagem que deve ser considerada privada: nenhum outro poderá compreender tal linguagem, a não ser o próprio sujeito que tem a experiência e com ela pode associar palavras.

Uma das conseqüências inevitáveis dessas idéias é o solipsismo, segundo o qual existe apenas o próprio eu e suas experiências subjetivas. Não há nenhum modo de afirmar a existência das outras mentes nem do mundo externo dos objetos físicos. Isso acontece porque, de acordo com os pressupostos do solipsismo, decorrem duas conseqüências: uma epistemológica, segundo a qual só eu posso saber se tenho uma experiência e outra ontológica, segundo a qual só eu posso ter minhas experiências. E disso decorre fatalmente uma conseqüência semântica, de acordo com a qual só eu posso conhecer o significado das palavras associadas com as minhas experiências, nenhum outro poderia conhecer esse significado.

No Tractatus Wittgenstein admite uma certa forma de solipsismo, mas associado com a tese da distinção entre dizer e mostrar, pois é ela que permite “decidir a questão de saber em que medida o solipsismo é uma verdade”. E isso porque “o que o solipsismo quer significar é inteiramente correto; apenas é algo que não se pode dizer, mas que se mostra”. (TLP, 5.62). Mas o que é isso que o solipsista quer significar? Ora, que o mundo é o meu mundo, do que decorre que os limites da linguagem significam os limites de meu mundo. (TLP, 5.62).

De acordo com o Tractatus, para que os signos lingüísticos possam receber significação, dependem de que sejam associados a algo. Os nomes são associados aos objetos que referem por meio do método de projeção que é “pensar o sentido de uma proposição”. (TLP, 3.11). Ora, essa projeção depende de um eu que a realize, portanto, a significação dependerá de uma ação desse eu. Para que os objetos possam ser nomeados, e para que esses nomes sejam significativos, eles devem ser dados a um eu, a um sujeito. Há uma correlação

entre os objetos que são dados a esse sujeito e o método de projeção, pois o eu só poderá realizar a projeção sobre aquilo que a ele é dado, o que significa que o pensável será um mundo que é dado para um sujeito. Por isso, os limites do que pode ser pensado serão os limites desse mundo que é dado a um sujeito, a um eu. Disso se pode dizer que os limites do meu pensamento são os limites do meu mundo. E por isso: “que o mundo seja meu mundo, é o que se mostra nisso: os limites da linguagem (a linguagem que, só ela, eu entendo) significam os limites de meu mundo”. (TLP, 5.62).

Mas, em uma analogia com o olho e o campo visual, Wittgenstein deixa claro que este eu não é o sujeito empírico, psicológico, mas o “eu metafísico”, e nesse sentido afirma que “o eu filosófico não é o homem, não é o corpo humano, ou a alma humana, de que trata a psicologia, mas o sujeito metafísico, o limite – não uma parte – do mundo”. (TLP, 5.641). Do sujeito empírico, enquanto corpo ou mesmo enquanto “alma”30 podemos afirmar que existe, que ele faz parte do mundo. Isto significa que deste sujeito podemos falar, pois tanto o corpo quanto os processos mentais podem ser descritos enquanto fatos do mundo. É o mesmo que dizer que o corpo e os processos mentais podem ser pensados.

Entretanto, não é este o sujeito para quem o mundo é dado, que tem experiência do mundo e que “pensa o sentido da proposição”. Este é o sujeito metafísico, que não faz parte do mundo, porque ele não é um fato. Este sujeito não pode ser descrito e, por isso mesmo, dele não se pode falar: ele não é um objeto do mundo que possa ser conhecido ou do qual se possa ter experiência. O sujeito metafísico é o sujeito que pensa e que representa e que resulta da consideração de que “o mundo é meu mundo” e se não é parte do mundo, é sim o seu limite; este é o sujeito para quem o mundo é dado, do que se conclui que “eu sou meu mundo”. (TLP, 5.63).

Voltando à analogia do olho e do campo visual, podemos dizer que o olho vê, mas não faz parte daquilo que é visto; o olho não faz parte do campo visual.

30O que Wittgenstein está chamando de “alma” deve ser compreendido em relação aos aspectos

psicológicos de um sujeito, que envolve os eventos, estados e processo mentais, os quais podem ser investigados e descritos pela psicologia, devendo ser considerados, portanto, como eventos, estados e processos empíricos. Nesse sentido são fatos, que podem ser descritos e pensados.

Porém, ele é a condição para que algo seja visto; nada poderia ser visto se não houvesse um olho para ver; ele está nos limites do campo visual e dali constitui esse campo. Da mesma maneira, o sujeito para quem o mundo é dado não faz parte do mundo, mas ele é a condição de possibilidade para que algo do mundo possa ser pensado e para que dele possamos falar. O sujeito metafísico é quem realiza as relações projetivas da linguagem sobre o mundo, assim inserindo sentido na linguagem. As relações projetivas devem ser compreendidas como atos desse sujeito metafísico, atos que preenchem de significação a linguagem.

Mas desse sujeito nada se pode dizer, posto que está fora do mundo, nos seus limites, por isso mesmo, como já dito acima, é que Wittgenstein afirma: “o que o solipsismo quer significar é inteiramente correto; apenas é algo que não se pode dizer, mas que se mostra”31. E podemos então afirmar que, se desse sujeito nada se pode dizer, temos que aceitá-lo como algo que se mostra como condição para tudo aquilo que pode ser dito, ele é a condição para que algo possa ser pensado e representado.