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Nessa visão, a questão básica é a idéia de desenvolvimento como algo impossível de ser alcançado por todos os países. Ou seja, desenvolvimento é uma ilusão, um mito, algo inatingível. Nessa vertente pode-se trabalhar com duas linhas. A primeira é a apresentada por Arrighi (1997) cuja questão central é a pouca mobilidade ascendente dentro da economia capitalista – desenvolvimento é ilusão. A segunda é a visão de Furtado, que diz que desenvolvimento é mito, no sentido de “orientar, em um plano intuitivo, a construção de visão do processo social” (VEIGA, 2008).

Para demonstrar sua tese, Arrighi utiliza como variável a distribuição da população mundial pelo produto nacional bruto (PNB) per capita entre 1938-1983. Neste período praticamente não houve qualquer mobilidade ascendente, com exceção de Japão e Itália ao grupo dos “desenvolvidos” e de Coréia do Sul e Taiwan no grupo dos “países em desenvolvimento”. A análise dele é pouco precisa, pois de forma análoga aos que associam desenvolvimento à industrialização, ele associa desenvolvimento com riqueza (VEIGA, 2008).

A essência dos adeptos desta visão é que desenvolvimento é uma ilusão, pois seria impossível que todos conseguissem acumular riqueza a ponto de ingressarem no núcleo dos países desenvolvidos. Uma critica a essa visão refere-se à análise baseada exclusivamente em variáveis econômicas, deixando de lado os processos histórico-culturais e o progresso não linear das sociedades (RIVERO, 2002). Assim, eles não conseguem

perceber a disfunções estruturais, culturais e sociais que demonstram a inviabilidade dos países subdesenvolvidos ascenderem ao padrão de desenvolvimento almejado (VEIGA, 2008).

Para Rivero, a impossibilidade dos países “em desenvolvimento” está na miséria cientifico - tecnológica e quando isso se associa a explosão demográfica então, é improvável a ascensão, pois países nesta situação investem em produtos pouco intensivos em tecnologia e, dessa forma não geram recursos suficientes para criar empregos e sanar necessidades de uma população sempre crescente. Nessa mesma linha encontram-se Majid-Rahnema e Rist. Todos estes, se encontram na linha de pensamento da desconstrução da idéia de desenvolvimento, no entanto nenhum deles aponta uma alternativa para o desejo coletivo de evolução e progresso (VEIGA, 2008).

Outro teórico que descreveu desenvolvimento como mito foi Furtado (1974). No entanto, sua análise vai em direção diferente dos autores citados anteriormente. Para ele, mito congrega uma série de hipóteses que não podem ser testadas. Assim, a idéia de desenvolvimento como algo a ser conquistado pelos países periféricos pode ser instrumento para justificar as formas de dependência (FURTADO, 1974). Para este autor, o debate sobre desenvolvimento está centrado na idéia de universalização deste e o objetivo maior é alcançar os níveis de consumo dos países centrais. Ou seja, é o prolongamento do mito do progresso (VEIGA, 2008).

A essência do debate é questionar a generalizada hipótese de que “o desenvolvimento econômico, tal qual como vem sendo praticado pelos países que lideram a revolução industrial, pode ser universalizado.” (FURTADO, 1974, p.16). Para Furtado esta noção de desenvolvimento é um mito, pois não é possível generalizar os padrões de consumo dos ricos em escala planetária, em virtude da exclusão que o processo de desenvolvimento, tal como se tem verificado, tende a promover.

Segundo o autor, os teóricos do crescimento não se atentaram para as conseqüências deste processo no plano cultural e menos ainda, aos impactos no meio ambiente. A visão linear de progresso foi abalada com o crescimento das grandes metrópoles modernas e seus conseqüentes problemas sociais, econômicos, culturais e ambientais. Com essa clareza, Furtado utiliza uma abordagem hitórica-estruturalista para análise do processo de desenvolvimento e de progresso e trabalha dimensões não só econômicas, mas, também sociais, culturais e políticas.

O autor levanta duas questões fundamentais. A primeira se refere à constatação do caráter de mito moderno do desenvolvimento econômico. A segunda, diz respeito aos impactos do processo econômico no meio físico (tema pouco explorado no contexto

histórico da época: 1974). Ele salienta a importância do estudo preparado para o Clube de Roma – “The limits do growth”, que abandona a hipótese de sistema aberto referente à fronteira dos recursos naturais. Com essa idéia, o estudo coloca uma grande questão:

...que acontecerá se o desenvolvimento econômico, para o qual estão sendo mobilizados todos os povos da terra, chega efetivamente a concretizar-se, isto é, se as atuais formas de vida dos povos ricos chegam efetivamente a universalizar-se? A resposta: se tal acontecesse, a pressão sobre os recursos não renováveis e a poluição do meio ambiente seriam de tal ordem... que o sistema econômico mundial entraria necessariamente em colapso (FURTADO, 1974, p. 19).

Furtado trabalha esta questão, antes abordando três elementos significativos, que não podem ser esquecidos neste debate: o caráter predatório do processo de civilização; a criação de valor econômico nas sociedades modernas que provoca processos irreversíveis de degradação ambiental e a ingênua idéia de que os problemas ambientais provocados podem ser resolvidos pelo progresso tecnológico.

Em face da evolução estrutural do sistema capitalista, o autor parte de uma questão: “que opções se apresentam aos países que sofreram a deformação do subdesenvolvimento em face das presentes tendências do sistema capitalista?” (FURTADO, 1974, p. 21).

Primeiro, ele contesta a idéia de desenvolvimento como uma seqüência de fases necessárias. Ou seja, não há relação entre países jovens e subdesenvolvimento. O que mede desenvolvimento é a acumulação de capital aplicado aos processos produtivos e o grau de acesso aos bens finais. Para explicar este pensamento, Furtado faz uma análise histórica dos processos de evolução do sistema capitalista.

As transformações econômicas no século XIX (particularmente, na segunda metade) se deram em torno de dois processos: aceleração da acumulação de capital nos sistemas de produção e a intensificação do comércio internacional. O aumento da produtividade do fator trabalho deu origem a um fluxo crescente de excedente que foi utilizado para intensificar mais a acumulação e financiar a ampliação e diversificação do consumo privado. Uma questão fundamental para o estudo da evolução do capitalismo industrial é saber como este excedente foi apropriado e como foi orientada a sua utilização.

De acordo com Furtado, a primeira fase do capitalismo industrial canalizou este excedente para a Inglaterra que se transformou em centro orientador das finanças do mundo capitalista. Esta promoveu e consolidou o sistema de divisão internacional do trabalho que foi o marco do capitalismo industrial. Este sistema tendeu a concentrar geograficamente o processo de acumulação de capital. A segunda fase foi marcada por uma reação a este processo. É o período de consolidação dos sistemas econômicos

concentração/centralização das decisões no plano nacional. Isto facilitou a concentração de poder econômico e a emergência de grandes empresas.

Uma questão fundamental levantada pelo autor: por que nem todos os países conseguiram alcançar o mesmo patamar de industrialização? O atraso relativo (grau de acumulação) faz com que o processo de industrialização fosse diferenciado. Desta forma, os demais países não orientaram este processo para a formação do sistema econômico nacional e sim, para completar o sistema internacional. Esta é uma diferença fundamental no processo de desenvolvimento, pois, os países considerados desenvolvidos iniciaram seu processo no caminho inverso. Ou seja, primeiro consolidando e fortalecendo a economia nacional para depois entrar num sistema internacional.

Neste contexto, as empresas multinacionais surgem para ampliar o grau de integração dos sistemas econômicos internacionais. São elas, num processo de industrialização pautado pela “substituição de importações” (característica dos países subdesenvolvidos) que assumem a direção deste processo. Surge a terceira fase do capitalismo industrial, que se inicia com a integração das economias nacionais centrais e o avanço das grandes empresas multinacionais.

A maior característica do capitalismo nesta fase é que ele prescinde de um Estado, nacional ou multinacional com a pretensão de estabelecer critérios de interesse geral disciplinadores do conjunto das atividades econômicas. (FURTADO, 1974, p.35). Ou seja, há uma transformação das funções do Estado e emergência de uma nova forma de organização política.

O autor discorre sobre esta fase do capitalismo industrial enfatizando o papel das grandes empresas nas novas relações entre centro e periferia. De acordo com o autor, as grandes empresas tiveram um papel fundamental no processo de industrialização dos países periféricos, processo distinto da industrialização dos países centrais. Nestes, da industrialização decorre fluxos de novos produtos e elevação de salários. Há expansão do consumo e, uma consolidação das economias nacionais. Nos países periféricos, há um processo de “mimetismo cultural” e requer permanente concentração de renda a fim de que as minorias possam reproduzir as formas de consumo dos países do centro.

A noção de “mimetismo cultural” é um elemento importante na teoria de Furtado. Nas origens históricas do subdesenvolvimento se encontraria, assim, uma dependência cultural que está na base do processo de reprodução das estruturas sociais correspondentes. Este mimetismo cultural produziria uma situação de extrema desigualdade nos países periféricos. De um lado, grupos sociais afluentes, reproduzindo os padrões de consumo dos países

centrais e de outro, grupos sociais submetidos a níveis mínimos de subsistência, excluídos do consumo moderno.

Outro aspecto importante na teoria de Furtado é a tendência da importância da periferia no que diz respeito a dois aspectos: aos recursos naturais e à mão-de-obra. Os países do centro tornam-se cada vez mais dependentes de recursos naturais concentrados nos países periféricos. E, também porque as grandes empresas encontram na mão-de-obra barata um dos principais pontos de apoio no conjunto do sistema.

Ainda, de acordo com o autor, um fator significativo no processo de evolução do capitalismo é a debilidade do Estado como instrumento de direção e coordenação das atividades econômicas. No entanto, o crescimento do aparelho estatal é inevitável, como vetor de infra-estrutura e serviços, garantia da ordem jurídica e imposição de disciplina às massas trabalhadoras. Ou seja, o Estado é débil num campo e extremamente eficiente em outro.

Este processo leva a uma necessária modernização do Estado e uma relativa autonomia como organização burocrática. Um setor que os Estados periféricos podem exercer sua autonomia é o da defesa dos recursos naturais. Como a expansão do capitalismo no centro depende cada vez mais de recursos naturais da periferia, isto poderia ser um trunfo, um instrumento de poder destes países, se bem articulados entre si. No entanto, ter o controle dos preços de alguns recursos pode ser importante, mas não altera significativamente o processo evolutivo do conjunto do sistema capitalista. Seria preciso um processo de redistribuição de renda para que este fator seja significativo.

De acordo com Furtado, o processo de acumulação tende a ampliar o fosso entre um centro, em crescente homogeneização e uma constelação de economias periféricas. A hegemonia das grandes empresas na orientação do processo de acumulação traduz-se em dois processos diferentes. No centro, há uma tendência à homogeneização dos padrões de consumo e na periferia, um aumento da desigualdade social. Esta orientação faz com que a pressão em relação aos recursos naturais seja grande.

O autor identifica dois tipos de pressão. Um de origem malthusiana: o aumento da população rural dependente da agricultura de subsistência faz com que aumente a pressão sobre os recursos naturais. No entanto, esta pressão se esgota nas fronteiras dos países (áreas delimitadas). Desta forma, afeta pouco o funcionamento do conjunto do sistema. O segundo tipo refere-se aos efeitos diretos e indiretos da elevação do nível de consumo das populações e está ligado à orientação geral do processo de desenvolvimento. A renda concentrada nos países centrais agrava a pressão pelos recursos naturais que gera necessariamente um processo de crescimento econômico. Esta concentração amplia o

fosso entre centro e periferia. Ou seja, se houvesse maior distribuição, o crescimento dependeria menos da introdução de novos produtos e mais da difusão dos produtos já conhecidos, o que significaria um coeficiente mais baixo de desperdício. Assim, a concentração de renda aumenta a pressão sobre os recursos naturais. Este tipo de pressão é cumulativo e exerce pressão sobre o conjunto do sistema.

Na visão de Furtado, o aumento da pressão está sob a capacidade de controle do homem. No entanto, ele reconhece que esta pressão não pode ser desconsiderada, pois boa parte destes recursos está localizada nos países periféricos. Para este autor:

a nova orientação do desenvolvimento teria que ser num sentido muito mais igualitário, favorecendo as formas coletivas de consumo e reduzindo o desperdício provocado pela extrema diversificação dos atuais padrões de consumo privado dos grupos privilegiados. Nesta hipótese, a pressão sobre os recursos muito provavelmente se reduziria. (FURTADO, 1974, p. 74).

Segundo ele, as possibilidades evolutivas para os países periféricos são bastante amplas. Num extremo, situa-se a hipótese de persistência da atual tendência: concentração de renda. Outra possibilidade está no reforçamento das burocracias que controlam os Estados periféricos. E em outro extremo, estão colocadas as possibilidades de modificações políticas de fundo, sob a pressão das massas excluídas. Ou seja, uma mudança na orientação do processo de desenvolvimento. Esta, combinada com a melhora nos termos de intercâmbio, diminuiria a pressão sobre os recursos naturais.

Diante destas considerações, Furtado chega à conclusão geral de mito do desenvolvimento econômico, sendo que o estilo de vida do capitalismo será sempre o privilégio de uma minoria. O custo em termos de depredação do meio ambiente deste estilo de vida é tão elevado que generalizá-lo levaria a um inexorável colapso da civilização. Ou seja, o desenvolvimento econômico para os países pobres é irrealizável. Esta idéia (desenvolvimento econômico) é um dos pilares da dominação dos povos periféricos.