• No results found

Selected illustrations

In document Moral motivation in dictator games (sider 126-138)

Trond Halvorsen 1

3.2 Experimental design

3.6.2 Selected illustrations

O projeto FrameNet é baseado na semântica de frames de Fillmore, a qual se desenvolveu pela insatisfação de estudos do léxico baseados em traços. Com essa metodologia, a estrutura complexa da ligação entre palavras com o mesmo campo semântico não era retratada nem a riqueza da própria estrutura interna de cada palavra. Em virtude disso, Fillmore postulou a noção de “frame” e, com o uso de ferramentas computacionais, o projeto tem sido continuamente aprimorado. Hoje podemos visualizar os frames de que as palavras se constituem na página na internet do projeto, além das relações entre tais frames.

Embora a disponibilização do projeto FrameNet seja muito útil, os dados presentes no site devem ser usados com alguma cautela. Três razões embasam essa posição. Primeiramente, o projeto explora a semântica lexical do inglês e, por mais que semelhanças sejam visíveis, estamos estudando a língua portuguesa. Não podemos afirmar que as relações conceptuais, por serem dessa natureza, são codificadas da mesma maneira nas línguas. A esse respeito, Perini (em elaboração) afirma:

[Um] ponto precário na posição do FrameNet é a crença de estarem lidando com unidades puramente cognitivas, muito pouco coloridas por sua expressão linguística. Já tive ocasião de criticar essa ilusão, presente em boa parte dos trabalhos de ciência cognitiva (Perini, 1988); Baker a expressa na seguinte passagem:

Pelo fato de que os frames conceptuais são muito pouco dependentes das línguas [...], o componente frame conceptual (com exceção das unidades lexicais) da base de dados FrameNet relativa ao inglês pode servir de ponto de partida para realizar uma base de dados FrameNet relativa a outra língua. [Baker, 2009, p. 44]

Mas isso depende de um “fato” que não foi demonstrado. O que é universal é a realidade, não a codificação linguística dela. E simplesmente não se sabe até que ponto as línguas estruturam diferentemente a realidade. Concordo que não é preciso partir do zero; mas o

FrameNet inglês só pode servir como fonte de ideias, nunca como hipótese mais elaborada, a partir de crenças (não “fatos”) não demonstradas.

(Perini, em elaboração)

Em segundo lugar, qualquer verbo que contenha algum conteúdo lexical relacionado com as características do frame em questão entra nele, independentemente de essas características serem centrais no significado das palavras ou não. A título de exemplo, pensemos no “frame awareness”, em que estão presentes muitos verbos de conhecimento. O verbo believe ( em português, acreditar) figura como um dos itens do frame ao lado de know ( em português, saber), que é diretamente ligado à percepção (mental) de algo, enquanto believe é diretamente ligado à crença que pode ou não ser baseada na percepção. Vemos aqui, assim como nos dados de Vilela (1992) discutidos acima, a presença, na mesma classe, de verbos que pressupõem e asserem um dado conteúdo.

Por último – e talvez mais importante, levando em conta o trabalho desenvolvido aqui -, são as relações temáticas apresentadas no FrameNet. Elas são as mais particulares possíveis: há mais de 1124 relações temáticas entre os verbos que constam do FrameNet. Em princípio, isso é bom, porque permite que visualizemos uma gama imensa de relações semânticas que os papéis temáticos – como tradicionalmente abordados na literatura – não deixam entrever. Entretanto, um risco que se corre (e é o que parece que acontece no FrameNet) é distinguir relações que não são reconhecidas pela língua. Nem toda diferença cognitiva é codificada na língua; muitas vezes, duas categorias cognitivas são representadas de uma só forma na língua.

6) João andou até a estação. Agente

7) O carro andou na pista do meio. Agente

Embora saibamos cognitivamente da diferenciação entre pessoas e objetos, isto é, sabemos que objetos não andam, não comem, não dormem, não pensam e não fazem uma série de outras coisas que são atribuídas aos humanos, não parece haver nas construções da língua portuguesa diferenciação entre humanos e não-humanos no que diz respeito a

fazer algo ou sofrer uma ação. O que pode acontecer é, em virtude de o sujeito ser animado ou não, o significado geral da construção ser diferente, talvez, em virtude do nosso conhecimento de mundo, como em:

8) O namorado dela bebe demais. 9) Esse carro bebe demais.

Assim, fica evidente que uma grande relação cognitiva é tratada identicamente na sintaxe. Seguindo esse raciocínio, não há razão para que, no FrameNet, haja uma relação temática como Weapon (arma), da qual a palavra grifada nas orações abaixo é exemplo:

10) Você apertou ou não apertou o gatilho com a intenção de prejudicar meu cliente?9

As línguas portuguesa e inglesa, seguramente, não fariam distinção entre o constituinte o gatilho, na frase acima, e a bisnaga na frase (11).

11) João apertou a bisnaga.

Assim, reitero que, embora seja uma hipótese interessante a de individualizar as relações temáticas, deve-se tomar cuidado para não individualizá-las cognitivamente se o interesse é linguístico. Dessa forma, sigo Jackendoff (1990) que, sobre a estrutura conceitual, afirma: A estrutura argumental pode ser entendida como [...] a parte da

estrutura conceptual que a sintaxe consegue ‘ver’.

Por fim, uma exploração curiosa no projeto é a relação entre os frames que podem ser vistas graficamente, como na Figura 3 abaixo.

9 No original: Did you, or did you not, fire this GUN with intent to harm my client? Em: https://framenet.icsi.berkeley.edu/fndrupal/index.php?q=frameIndex. Acesso em 21/11/2011, às 15h04min.

Figura 3 – Interrelação entre os frames de Mental_activity

Fonte: https://framenet.icsi.berkeley.edu/fndrupal/FrameGrapher

Nos moldes do projeto, há um frame mais genérico que possui filhos com especificações de significado. Não obstante, tendo em vista as duas críticas acima – frames com verbos que fazem asserção e pressupõem um conteúdo e relações temáticas em excesso -, as relações entre os frames podem ser, por vezes, equivocadas.

In document Moral motivation in dictator games (sider 126-138)