O Parque Nacional da Tijuca está localizado em um remanescente de “Floresta Atlântica litorânea” (senso Morelato & Haddad 2000), ou Mata Atlântica senso amplo, em relevo escarpado da cadeia de maciços da Serra do Mar na região sudeste do Brasil, entre 22°55’ e 23°00’S e 43°11’ e 43°19’W (Figura 1). Possui aproximadamente quatro mil ha, subdivididos em quatro setores. É cercado pela matriz urbana da cidade do Rio de Janeiro, uma megalópole com aproximadamente seis milhões e duzentos mil de habitantes (IBGE 2010) (Figura 2).
Uma vez que a vegetação original foi quase totalmente excluída pelo desmatamento, para o plantio de café e outros usos do solo (Abreu 1992), a vegetação secundária que hoje recobre o PARNA Tijuca resulta, em grande parte, de medidas conservacionistas. Tais medidas, quando iniciadas há cerca de 200 anos atrás, apenas conseguiam dificultar o desmatamento. Mas, a partir de meados do século 19, quando foram realizadas as primeiras desapropriações e as principais ações de revegetação (Atala
et al. 1966; Castro Maya 1967; Oliveira 1987; Abreu 1992), elas ajudaram a consolidar a concepção de uma “floresta plantada”, a partir daquele que pode ser considerado o primeiro projeto de restauração florestal nos trópicos (Rodrigues et al. 2009).
Outras ações contribuíram para a consolidação deste paradigma, como as reintroduções de elementos da fauna (Coimbra-Filho & Aldrighi 1971 e 1972, Coimbra- Filho et al. 1973 e Coimbra-Filho 2000) (Figura 3) e, talvez a regeneração a partir dos próprios reflorestamentos (Oliveira et al. 1995). Entretanto, o processo sucessional originado a partir de “pequenos trechos... cobertos por mata primária...” (Atala et al. 1966), remanescentes em algumas das encostas mais íngremes (Oliveira et al. 1995) tem sido negligenciado.
Além do que, admitindo-se um espaçamento de cinco metros entre as mudas e um índice de 10% de replantio em função das perdas, provavelmente foi efetivamente plantada uma superfície da ordem de 170 ha. Considerando que o PARNA Tijuca apresenta hoje uma extensão de cerca de 4 mil ha, o montante plantado corresponderia a menos de 5% do total, confrontando radicalmente a noção de que a “Floresta da Tijuca” seria em sua maior parte plantada (Oliveira 2007).
Figura 1. a) Mapa esquemático da América do Sul, modificado de http://www.bibliosoft.pt/ (2010). b) Estado do Rio de Janeiro, com remanescentes florestais da Mata Atlântica, modificado de Fundação SOS Mata Atlântica (2008); c) Imagem de satélite do Maciço da Tijuca, circunscrito por parte da área urbana da Cidade do Rio de Janeiro, modificada de
Google Earth (2010), RJ. d) Mapa esquemático modificado de ICMBio (2008). A numeração refere-se aos perfis posicionados às margens de estradas pavimentadas que recortam o setor “A” do Parque Nacional da Tijuca, Rio de Janeiro, RJ.
Figura 2. Base cartográfica digital, a partir de imagem de satélite, com os limites do parque. Em vermelho o setor “A”, Floresta da Tijuca. Parque Nacional da Tijuca, Rio de Janeiro, RJ. Ao redor do parque o adensamento urbano da cidade. Fonte: Cedida pelo ICMBio. Elaborada sobre base cartográfica do Instituto Pereira Passos, SMU, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.
Figura 3. Tucano-de-bico-preto (Ramphastos vitelllinus ariel Vigor, 1826) alimentando-se de frutos de palmito jussara (Euterpe edulis Mart.). Fotografia de R. R. de Oliveira. 1992 ap.
A floresta atual apresenta elementos arbóreos que atingem a 25-30 metros, além de epífitas, cipós, arbustos e ervas (Figura 4). Dentre as árvores, destacam-se pelo porte, frequência ou características cênicas as famílias Myrtaceae, Rubiaceae, Lauraceae, Arecaceae, Fabaceae, Meliaceae, Euphorbiaceae e Melastomataceae (Oliveira et. al. 1995). A cobertura vegetal – Floresta Ombrofila Densa Submontana e Montana (senso Veloso et al. 1991), forma um dossel contínuo (Figura 5), em estágio secundário tardio ou clímax local, em aproximadamente 35% da área total do Maciço da Tijuca (112 km2) (Coelho-Netto et al. 2007). Entretanto, é comum serem encontradas espécies exóticas, resultado de ações culturais que antecedem à recomposição da vegetação, como frutíferas, remanescentes de tratos culturais, como o café, ou ainda em consequência de ações paisagísticas, particularmente de estilo francês, implementadas em alguns locais de uso mais intenso no parque (Atala et al. 1966; Castro Maya 1967). Dentre as espécies exóticas mais marcantes podem ser destacadas a jaqueira Artocarpus heterophyllus Lam. (Moraceae) (Figura 6), subespontânea localmente e mono-dominante em alguns trechos do parque (Abreu 2008), a dracena (Dracaena fragrans (L.) Ker Gawl., Asparagaceae), (Figura 7) e eucaliptos (Eucalyptus, Myrtaceae).
Figura 4. Em primeiro plano, aspectos gerais da mata. Em segundo plano, a pressão urbana no Maciço da Tijuca, Rio de Janeiro – RJ. 2008.
Figura 5. Imagem de satélite obtida em 2008 demonstrando a continuidade da cobertura vegetal em um trecho do Setor “A” do Parque Nacional da Tijuca, Rio de Janeiro, RJ. Em destaque e numerados os locais da implantação dos perfis de estudo. 1 – Centro de Visitantes; 2 – Largo do Bom Retiro; 3 – Morro do Archer; 4 – Morro do Alto Mesquita; 5 – Morro do Almeida 1; 6 – Morro do Almeida 2; 7 – Açude da Solidão e 8 – Vale Encantado. Modificado de: http://earth.google.com/intl/pt/.
Figura 6. Aspecto da alta produção de frutos por indivíduo da jaqueira Artocarpus
heterophyllus Lam. (Moraceae),
subespontânea localmente e mono-dominante em alguns trechos do parque. Fonte: Abreu (2008).
Figura 7. Aspecto da dominância da exótica invasora Dracaena fragrans (L.) Ker Gawl. (Asparagaceae), às margens das estradas pavimentadas que recortam o setor “A” do Parque Nacional da Tijuca, Rio de Janeiro, RJ. 2008.
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A geologia, o relevo e os solos são associados à falhas tectônicas do Terciário. O Maciço é formado por “gnaisse facoidal e gnaisse de biotita”, sendo freqüentes declividades superiores a 45o e afloramentos rochosos (Costa 1986, Eirado Silva et al. 1991). O relevo apresenta afloramentos e encostas com declividades acentuadas, sendo o ponto mais alto o Pico da Tijuca, com 1021 m (Figura 8). Os solos são lixiviados, rasos nos trechos mais altos das encostas, apresentando vários metros nos fundos de vale. Predominam os Latossolos, sendo frequentes ainda Neossolos e Cambissolos (Rosas et al. 1992). Em sete dos oito perfis aqui estudados os solos foram classificados, em termos de textura, como “franco-arenosos”, com exceção de um teve seu solo classificado como “areia franca” (D’Arrochella 2008).
Figura 8: Hipsometria do trecho de estudo, com a localização dos perfis listados em amarelo. Parque Nacional da Tijuca. Setor “A” (Floresta da Tijuca) do Parque Nacional da Tijuca, Rio de Janeiro, RJ. Fonte: D’Arrochella (2008).
Em termos climáticos, a análise realizada por Mattos (2006), a partir de médias anuais de 1966 a 1990, registrados no Posto termo-pluviométrico do Alto da Boa Vista, a
347 m de altitude – Bairro no qual está situado o setor “A” Floresta da Tijuca, do PARNA Tijuca – obteve média de 21,5 ºC, média das máximas de 26,2 ºC, média das mínimas de 17,9 ºC. A precipitação média foi 2277 mm, sempre com valores superiores a 100 mm mensais. A maior média das máximas ocorreu em fevereiro (30,0 ºC) e das mínimas em julho (15,1 ºC). O clima do Alto da Boa Vista, até 500 metros de altitude, faixa sobre na qual situam-se cinco dos oito perfis de estudo (Quadro 1), é do tipo “Af – Clima úmido de floresta tropical”. Para altitudes acima dos 500 metros, faixa na qual situam-se os outros três perfis estudados o clima é do tipo “Cfa – Clima temperado, mesotérmico, super- úmido”, considerando a classificação de Köppen (1948), e de acordo com Mattos (2006). Considerando a classificação de Nimer, até a altitude de 950 metros – faixa na qual situam- se todos os perfis estudados (de 385 a 700 m) (Quadro 1) – o clima é “Tropical sub-quente, super-úmido” (Mattos 2006).
Os perfis de estudo, estabelecidos encosta acima das estradas, buscaram padronizar possíveis diferenças decorrentes do recorte da estrada no perfil da encosta (Ribeiro & Zaú 2007). Em relação à declividade das encostas, em média, os perfis apresentaram valores estimados entre 16 e 23o. A orientação geográfica geral das encostas no trecho analisado é SE, entretanto, os perfis apresentam orientação geográfica variada representando parte da geodiversidade local (Quadro 1).
Quadro 1. Posição geográfica (graus, minutos, minutos decimais), orientação e altitude da porção mais baixas dos perfis de estudo (A1 a A8) no Parque Nacional da Tijuca, Rio de Janeiro, RJ. N – Norte; NE – Nordeste; SE – Sudeste; O – Oeste; SO – Sudoeste.
Perfis de estudo Latitude Sul Longitude Oeste Altitude (m) Orientação
A1 - Centro de Visitantes 22° 57' 321' 43° 16' 816' 470 SO
A2 - Bom Retiro 22° 56' 827' 43° 17' 456' 660 N
A3 - Morro do Archer 22° 56' 972' 43° 17' 254' 620 NE
A4 - Morro do Alto Mesquita 22° 57' 395' 43° 17' 060' 505 SO
A5 - Morro do Almeida (1) 22° 57' 555' 44° 17' 193' 405 O
A6 - Morro do Almeida (2) 22° 55' 577' 43° 17' 222' 395 O
A7 - Açude da Solidão 22° 57' 707' 43° 17' 319' 410 SE
A8 - Vale Encantado 22° 57' 803' 43° 17' 262' 385 SO
Características locais tornam o parque fundamental para cerca de 31 mil pessoas que têm suas residências atendidas diretamente pelas águas que drenam de suas vertentes (ICMBio 2008) (Figura 9). Além disso, o Parque Nacional da Tijuca, por ser uma floresta urbana (senso Magalhães 2006), cercada por uma megacidade, sofre com problemas como poluição atmosférica (e.g. Oliveira & Lacerda 1988; Mello 2001), incêndios (e.g. Silva Matos et al. 2002; Rodrigues & Silva Matos 2006), pressão imobiliária, tráfego, lixo e processos de perda de vegetação associados (e.g. Oliveira et al. 1992; Zaú 1994; Oliveira
et al. 1995; Coelho Netto 2005, Coelho Netto et al. 2007).
Figura 9. Cascata Taunay (“cascatinha”), Parque Nacional da Tijuca, Rio de Janeiro, RJ. Um dos principais pontos turísticos do parque e fonte de abastecimento de água para milhares de pessoas da cidade do Rio de Janeiro. 2008.
O Parque Nacional da Tijuca, além de ser uma Unidade de Conservação de Proteção Integral (ICMBio 2008), encontra-se dentro de áreas prioritárias em termos de conservação, tanto em escala mundial (Brooks et al. 2006) quanto nacionalmente, uma vez que compõe parte da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica (UNESCO 2010) e está incluído no Corredor de Biodiversidade da Serra do Mar (Conservação Internacional – Brasil 2010). As ações de conservação assumem maior relevância considerando ainda que o parque recebe cerca de dois milhões de visitantes ao ano, sendo a Unidade de Conservação Federal mais visitada do país (ICMBio 2010a), especialmente por seu atrativo paisagístico e histórico-religioso, o Cristo Redentor, juntamente com outros pontos turísticos, recreativos, de lazer e aspectos ambientais.
O setor “A” – Floresta da Tijuca – é visitado por cerca de 316 mil pessoas por ano. Em média são 26.326 (±4.885) visitantes por mês (Parna Tijuca/ICMBio, dados de visitação não publicados referentes ao ano de 2009). Considerando que “a visitação é
igualmente distribuída, tanto nos dias úteis quanto nos finais de semana e feriados” (Freitas et al. 2002), se pode estimar que cerca de 880 pessoas por dia visitaram o parque em 2009. Já pelas estradas que recortam o setor “A” circulam anualmente quase 100 mil veículos. Em média são 8.250 (±1.155) veículos por mês, o que totaliza cerca de 275 veículos por dia (Parna Tijuca/ICMBio op. cit.). Os impactos da circulação destes veículos pelas estradas do parque são desconhecidos.
A ocorrência de eventos de precipitação intensa em vertentes íngremes, por vezes indevidamente ocupadas ou utilizadas, tendo como consequência a degradação da floresta, aliadas ao escoamento subsuperficial na base dos paredões rochosos leva a um aumento do processo erosivo e a movimentos de massa, especialmente nas vertentes norte e oeste do Maciço da Tijuca (Figueró & Coelho-Netto 2007).
Internamente, algumas áreas do PARNA Tijuca são recortadas por estradas supostamente estruturadas por volta de 1862 (Castro Maya 1967) (Figura 10). Uma grande reforma ocorreu entre 1943-46 (Castro Maya 1967) e outra em 1992, à época da Rio/92 (obs. pessoal). Entretanto, após eventos de precipitação muito prolongados e/ou extremos (Coelho-Netto et al. 2007) [e.g., ocorridos durante os anos de 1966 (ICMBio 2010a), 1988, 1996] também foram realizadas ações de restauração e reconstrução em vários trechos das estradas (obs. pessoal). Situação semelhante está sendo implementada em função das fortes chuvas de abril de 2010 (Figura 11).
Figura 10. Aspecto geral de um trecho de floresta no setor “A” do Parque Nacional da Tijuca, Rio de Janeiro, RJ, recortado por uma estrada pavimentada. 2006.
Figura 11. Movimento de massa de grande porte ocorrido às margens de uma estrada no Parque Nacional da Tijuca, Rio de Janeiro, RJ, em abril de 2010. ICMBio 2010b.
Atualmente as estradas são pavimentadas com asfalto, apresentando, em geral, cerca de 10 m de largura. E, apesar de ser conhecida a influência das mesmas nos movimentos de massa (Coelho-Netto et al. 2007), corroborada novamente em 2010 (Figura 12), não se conhece em que medida as estradas podem afetar outros aspectos da conservação do parque como, por exemplo, aqueles relacionados aos efeitos de borda.
Figura 12. Base cartográfica digital, com os limites do parque em vermelho. Os pontos representam os movimentos de massa associados às vias do parque em abril de 2010. Em azul deslizamentos de pequeno porte, em amarelo os médios e em vermelho os de grande porte. Parque Nacional da Tijuca, Rio de Janeiro, RJ. Ao redor dos limites do parque o adensamento urbano da cidade do Rio de Janeiro. Fonte: ICMBio 2010b.
Neste contexto de constante e intensa pressão antrópica e, em função da relevância da área para a cidade do Rio de Janeiro, os processos de degeneração do habitat assumem grande importância. O gerenciamento contínuo e adequado do parque é fundamental para a preservação da biota e para a perpetuação dos benefícios ambientais diretos e indiretos do parque, como a manutenção do potencial hídrico, o controle do processo erosivo, a
amenização de enchentes, a atenuação de variações térmicas, a redução da poluição atmosférica e sonora, a manutenção estética da paisagem natural e do próprio espaço como área de turismo, lazer, esporte, contemplação etc (ICMBio 2008).
Por essas especificidades, o PARNA Tijuca pode ser considerado uma área de destaque no cenário da conservação regional, nacional e mundial.