Competence Embodiment
7.4 Segmentation and positioning
A atividade jornalística, a luta no campo da imprensa e a militância no movimento operário desencadearam perseguições e repressão política contra o militante Pedro Augusto Motta e seus companheiros de ideal.
A chamada “lista negra” é uma tática de repressão recorrente entre os patrões em todo o Brasil do período, e mundialmente praticada. É uma das formas de repressão aos militantes que se destacavam, e visava, a um só tempo, desmontar a militância minando suas condições de subsistência, afastar estes trabalhadores dos demais e amedrontar os indivíduos, distanciando-os, “pelo exemplo”, de uma atuação social organizada. A esta forma de repressão somam-se outras sofridas pelos militantes e também pela imprensa operária, desde o empastelamento das composições nas sedes dos jornais e oficinas gráficas, apreensão de jornais, prisão de destacados militantes, invasão de suas casas, fechamento e proibição da circulação dos jornais, multas, deportações, espancamentos, expulsões e até mesmo assassinatos. As páginas da imprensa operária, e os prontuários de polícia, estão “recheadas” de denúncias nesse sentido.
Muitos trabalhadores sofreram perseguições, em diversas partes do Brasil, inclusive no Ceará das primeiras décadas do século XX. A temática da repressão é permanente na imprensa dos trabalhadores nesse momento da história do Brasil. No Voz do Graphico, repetidas vezes se publicam denúncias de transferência forçada para outro Estado, proibição do direito de associação e deportações. No 1º de Maio de 1921, o Voz do Graphico denuncia a perseguição e deportação, por parte das forças policiais do Ceará, do camarada Luiz Araújo, noticiada no artigo intitulado “PERSEGUIÇÃO ESCANDALOSA”, registrando
(...) o nosso protesto que sintetize bem o pensamento do operariado cearense o dos homens independentes desta terra, e este protesto é contra a indecorosa e violenta deportação de nosso camarada Luiz Araújo. Em plena democracia republicana [...] sem alteração, na ordem burguesa nem greves que preocupem o governo, é cinicamente atraído ao posto policial engaiolado e deportado sem mais satisfações, um homem sem crime e sem culpa, pelo simples fato de ser operário consciente.202
Nesse contexto de perseguição e repressão política no Brasil, que se acentua ainda mais nos anos 1920, a vida se torna difícil para muitos militantes.
Pedro Augusto Motta é um dos alvos da repressão, uma das razões que determinam sua ida para São Paulo. Como ele, outros tantos trabalhadores saíram de sua terra natal em busca de trabalho e fugindo às perseguições praticadas pelo Estado e potentados locais. Contudo, a “migração” não pode ser explicada apenas em razão da repressão.
Em maio de 1923, Pedro Augusto Motta sai de Fortaleza em direção a São Paulo, onde o anarquismo tinha enraizamento no seio do movimento dos trabalhadores. Como se viu, Pedro Motta estabeleceu relações, teceu laços de camaradagem com grupos editores de jornais anarquistas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Pelas páginas do Voz do Graphico, anuncia-se o recebimento de jornais de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Pará, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, entre outros lugares. Desde 1920 iam e vinham cartas, livros, textos, manifestos, boletins, um variado conjunto de materiais que atestam o intercâmbio e as relações que se forjam entre os militantes no período. Algumas fontes deixam entrever as afinidades, como quando o jornal A Plebe anuncia o envio do livro Verbo de Fogo, de Pedro Augusto Motta, para São Paulo:
Verbo de Fogo
O camarada Pedro A. Mota, de Fortaleza, Ceará, vem de publicar um folheto sob o título acima, enfeixando poesias sociaes de sua lavra.203
Entre os anos de 1921 e 1922, o militante Pedro Motta envia diversos artigos e cartas, correspondendo-se regularmente com o grupo editor do jornal A Plebe, em São Paulo. Em julho de 1922, publica o artigo “E os operários?”, primeiro artigo de sua autoria encontrado no periódico libertário paulista. No artigo, escrito em tom irônico e na forma de um diálogo – semelhante em alguma medida ao livro Entre Camponeses, do anarquista italiano Errico Malatesta – o militante demonstra estar afinado com o anarquismo defendido no Programa Comunista Anarquista publicado n’A Plebe:204
E os operarios?...
Eis as palavras que, naturalmente, devem ter se desprendido dos lábios esbranquiçados de cada um desses seres classicamente chamados e apontados de nullos, quando, por curiosidade e nunca por amor, deixaram os seus amortecidos olhos se deslizarem, pressurosos, pelas columnas dos jornais burguezes a vêr se encontravam alguma cousa que viesse, como
203 A Plebe, São Paulo/SP, Ano IV, Nº 126, 05 de novembro de 1921.
sempre, lançar dos quatro angulos do Orbe as celeberrimas e deslavadas mentiras de que são férteis, traduzindo a quéda mortal da nossa ideia; – as ideias libertarias – e, deste modo, os nossos investigadores camaradas terem assumpto e occasiao bastante propicia para, judiciosamente, desmascaral-os, e supplicial-os com o azorrague da Verdade, da Razão e da Justiça.
Dahi, pois, a razão de ser deste meu artiguete, – com o titulo – E os
operários?... [...]
Não julguem os nossos camaradas, os que nos lêem e nos comprehendem que estejamos aqui a implorar compaixão dos sanguessugas das nossas energias, dos inimigos da humanidade, como que procurando receber favores seus a nosso favor. Não. O que queremos e fazemos é mostrar, á luz meridiana, o desprezo que elles [refere-se aos políticos profissionais, homens de governo e funcionários públicos] sempre votaram ás classes productoras. E mais: queremos com exemplos [...] esclarecer, elucidar, fazer despertar a consciencia adormecida dos nossos irmãos de infortunio para que venham de comprehender a nefasta, a perigosa e intoleravel situação em que vivemos. Queremos consolidar a sua mentalidade e, depois, perguntar-lhes:
– Temos ou não bastante razão para combatermos a continuação do Estado, á forma de governo, o principio de autoridade?
– Necessitamos ou não de uma transformação radical na sociedade presente?
– Precisamos ou não de destruir esse velho mundo, apodrecido e corrupto, para fazel-o resurgir na perfectibilidade de um mundo novo?
Cremos que sim. Mas para tal fazermos é imprescindível a organização syndical anarchista, a fundação de escolas, grupos, nucleos de educação racionalistas, baseadas e regidas por programmas delineados nos sãos principios da grande ideia redemptora – o communismo anarchico.
Precisamos, pois, em synthese completa, construir na integridade moral, intelectual e social de cada trabalhador a monumental concepção creadora de toda a Sociedade Futura, que é: DESTRUIR PARA CONSTRUIR.
E assim, teremos, nós e os nossos camaradas, o ensjeo, a occasião de saborrearmos o fructo de uma vida nova e gozarmos o espetaculo de um mundo novo.205
Na edição de 22 de julho de 1922, na sessão “Correio Plebeu”, A Plebe acusa o recebimento de uma missiva do libertário cearense, umas das primeiras a aparecer no jornal. Os anarquistas editores do periódico ficaram “cheios de conforto moral” após lerem a carta, que trazia em suas linhas alento e ânimo, enviando resposta na forma de uma nota, com título “Pela prosperidade d’A Plebe”, que aproveita para transcrever trechos da carta de Pedro Motta enviada dias antes:
Se A Plebe tem inimigos declarados e incondicionaes, tambem conta com amigos sinceros e decididos. Disso temos constantemente animadoras demonstrações.
Ainda agora recebemos de Fortaleza, Ceará, uma carta do companheiro Pedro A. Móta, que nos encheu de conforto moral.
Depois de judiciosas considerações sobre a propaganda libertaria, o camarada Móta, correspondendo ao apello publicado no n. 182 d’A Plebe, em que demonstravamos as difficuldades de sua existencia, resolveu
prestar o seu concurso a este órgão de batalha anarchica com o auxilio seguinte:
“Como as minhas posses (bem podeis avaliar as condições economicas de um trabalhador aqui, onde as classes laboriosas em sua quase totalidade é inimiga do ideal e amiga intransigente do catholicismo, lepra damninha que lhes corróe inteiramente, desde o physico ao mental) são naturalmente nenhumas, resolvi desta data por diante abandonar o vicio do fumo e destinar o seu gasto diario (200 réis diarios) a esse jornal que, mais do que nunca, precisa continuar a circular nem que seja uma vez por mez.
Sei que o meu concurso quasi nada adianta, mas se todos quantos se dizem amigos fieis do grande ideal libertario usassem desse desprendimento, posso afirmar, ‘A Plebe’ não morreria jamais.”
Diz o camarada Móta que o seu concurso nada adianta. Não concordamos.
A Plebe, que não recebe e não quer e repelle auxílios outros que não
provenham dos partidarios de sua obra, vive das contribuições modestas, pequeninas de camaradas e symphatizantes.
Justamente nesse facto é que se assenta a sinceridade, a inteireza de sua feição libertaria.
E quando ella não pude viver assim, do esforço daquelles que sentem a necessidade de sua existencia, deixara de apparecer.206
Pedro Motta publica artigos, em uma coluna nomeada “Do Ceará Proletário”, dando conta de notícias, informes e análises sobre o movimento operário no Ceará, um deles intitulado “O que são as organizações de trabalhadores hoje existentes”, registrando informações pormenorizadas sobre a situação da organização operária no Ceará.207 Outro escrito juntamente com o operário gráfico e camarada Manoel Paulino de Moraes, discute a situação dos trabalhadores, a perseguição dos anarquistas pelos “‘fascistas’ na Itália”, debatendo o avanço do fascismo no país europeu, alertando para os riscos do regime fascista se espalhar por outros países e ainda destacando situações similares ocorrendo no Brasil naquele período.208
Entre outros artigos, cartas, notas e poemas desde Fortaleza, nos anos 1922 e 1923. Do ano de 1921 até 1923 várias fontes atestam as relações de Pedro Augusto Motta com o grupo editor d’A Plebe. O envio de notícias, artigos e inclusive o envio de contribuições, como podemos verificar na coluna “Munições Recebidas”, d’A Plebe, na qual o militante cearense aparece de modo recorrente na parte destinada à “Lista de Administração”209:
206 A Plebe, São Paulo/SP,Ano V, Nº 186, 22 de julho de 1922. 207 A Plebe, São Paulo/SP, Ano V, Nº 192, 10 de julho de 1922. 208 A Plebe, São Paulo/SP, Ano V, Nº 193, 21 de outubro de 1922. 209 A Plebe, São Paulo/SP, Ano V, Nº 192, 07 de outubro de 1922.
Figura 1: Seção “Munições para A Plebe”
A Plebe atesta, por mais de uma vez, o recebimento de exemplares de seu livro de poesia social. Em um dos anúncios, diz que a venda do folheto será revertida para a manutenção do periódico210:
Figura 2: Nota sobre o folheto “Verbo de Fogo”, de Pedro Augusto Motta.
Essas trocas demonstram suas relações de militância, relações políticas, que se faziam desde o ano de 1921, o que se pode verificar pelas páginas d’A Plebe. De outro lado, demonstram que ocorria entre os grupos militantes um intenso intercâmbio de jornais e ideias.
Observando a correspondência e o intercâmbio pelas páginas dos jornais do Ceará e São Paulo, vemos surgir uma relação de militância, e Pedro Augusto Motta vai sendo acolhido por essa rede de solidariedade, que parece ter no jornal A Plebe o seu núcleo. Assim, os laços de proximidade política vão se apertando, e ao mesmo tempo se solidificando as relações de solidariedade, sedimentando o pensamento e prática libertária do operário gráfico cearense.
A sua ida para São Paulo e as possíveis razões da saída de sua terra natal demonstram um perfil de militância marcado pela mobilidade, comum entre os militantes anarquistas, tanto no Brasil como internacionalmente. Pedro Motta tem uma trajetória marcada pela “mobilidade da militância”. A pesquisadora Silvia Pertersen chama atenção para a mobilidade da mão-de-obra e a mobilidade dos militantes entre os centros urbanos do país, demonstrando ser esta uma característica recorrente na vida dos militantes e dos trabalhadores de modo geral.211 Segundo a autora, nesse período muitos trabalhadores, por variados motivos, acabavam tendo que migrar de seu lugar de origem para outro, por necessidade de trabalho, perseguições políticas, incentivos dos governos, entre outras razões. A migração se dava, em grande parte, de um centro urbano para outro, em geral entre cidades em vias de industrialização e com um proletariado em formação, como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre.212
Em março de 1923, A Plebe publica na coluna “Recados Plebeus” uma nota dirigida a um local desconhecido (marcado com “?”), perguntando sobre a ida de Pedro Motta a São Paulo, deixando entrever que seu grupo editor já aguardava o militante:
211 PETERSEN, Sílvia Regina Ferraz. Cruzando fronteiras: as pesquisas regionais e a história
operária brasileira. In: ARAÚJO, Ângela M. C. (Org.) Trabalho, Cultura e Cidadania: Um balanço da história social brasileira. São Paulo: Scritta, 1997, p. 93-98.
212 Ao se observar o movimento sindicalista e anarquista do mesmo período, verificam-se intensa
migração de militantes também internacionalmente, antes mesmo da virada do século. Muitos estudos ressaltam essa característica dos militantes do período, em especial dos militantes anarquistas, que guarda relações com a proposta internacionalista do movimento libertário e do sindicalismo revolucionário e com as perseguições que esses militantes sofriam nos seus países de origem, acabando por serem deportados e se exilarem em outros países. Para citar alguns dos militantes mais conhecidos, que têm sua vida marcada pela migração nacional e internacional: Errico Malatesta, Mikhail Bakunin, Oreste Ristori, Neno Vasco, Gigi Damiani, Florentino de Carvalho, entre outros. Um dos autores que defende essa ideia é PARIS, Robert. Biografias e “perfil” do movimento
operário na América Latina: algumas reflexões em torno de um dicionário. Biografia, biografias. Dossier Biografia. Revista Brasileira de História. São Paulo, vol. 17, n°. 33, 1997, p.09-31.
Figura 3: Seção “Correio Plebeu”
Em 1º de Maio de 1923, o militante cearense se encontra em São Paulo, como se pode verificar em seu artigo “Recordações de um feito proletário”.213 Daqui em diante, sua trajetória militante continua no jornal A Plebe nos círculos anarquistas da capital paulista, como será tratado no capítulo seguinte.