Se analisarmos os três elementos mencionados anteriormente (reflexo – luz – forma), percebemos que são todos de cariz imaterial, assumindo claro, que a forma que me interessa é a sombra projetada. Conclui-se que tanto o reflexo como a luz ou a sombra são matérias imateriais. Como passar de um estado a outro é um assunto que se tem tornado desafio na minha prática artística.
É certo que muitos estímulos que são trabalhados posteriormente pela prática artística provêm muitas vezes de assuntos que não são matéria física. A chamada inspiração artística, está intimamente ligada a estímulos que recebemos de forma consciente ou inconsciente e que agem como desbloqueadores e incentivos externos que depois resultam em trabalho. Quando falamos principalmente os estímulos que surgem de forma consciente, este pode surgir de diferentes formas: com base em documentos teóricos, em objetos concretos, experiências pessoais, assuntos relacionados com a técnica como a cor a luz, etc. No meu caso, assumindo que a inspiração nasce de um olhar atento a um assunto em concreto, a luz, curioso é para mim perceber que os três elementos que provavelmente falo mais vezes ao longo
49 desta dissertação, são todos eles matéria intocável. Claro, está ligada ao elemento central: a luz.
“A luz, como matéria não tangível, constitui um desafio à percepção.” 33
O desafio que particularmente sinto ao ter como foco a luz como matéria e assunto no meu trabalho é simultaneamente aquilo que me move. Consciente que o desafio reside exatamente na curiosidade de perceber como materializar esses assuntos. Para mim a matéria não tangível torna-se mais delicada, ao mesmo tempo, sinto que a posso trabalhar de uma forma mais livre, porque de algum modo não está presa a nenhum objeto em concreto, ou seja, ela não existe se não por alguns instantes (reflexo, luz, sombra). Este instante, como já referi anteriormente, é o que na verdade me dá uma certa liberdade no meu trabalho. São formas, luzes e estados que se transformam consoante o estado do tempo, elas sim, estão dependentes - de uma condição meteorológica.
Assumindo a fragilidade dos assuntos que me interessam, importante também assumir o desafio de os materializar. Quais os materiais que melhor traduzem esta leveza e simplicidade?
[…] as matérias da arte não são permutáveis entre si, o que significa que a forma, ao passar de uma dada matéria para a outra matéria, sofre uma metamorfose. 34
Até à data, a resposta a esta pergunta tem sido bastante intuitiva. Não há propriamente um pensamento exaustivo para perceber que suporte resultaria melhor. Há sim, um trabalho de atelier, de tentativa-e-erro que me tem levado a essas respostas. Contudo, estou consciente que mesmo nas minhas tentativas de materializar estes assuntos há um certo retorno aos seus espaços.
A luz, matéria translucida, volta a uma matéria transparente(acetato) e é trabalhada de forma consciente na superfície. Alguns dos meus trabalhos exploram o suporte transparente tirando partido das suas potencialidades, assumindo a translucidez como meio de potenciar o trabalho. Mesmo que não pense muito no tema, tem sido inevitável a tendência de utilizar meios que potenciem estes
33Anabela Antunes Alves Mota, Que luz é esta que nos faz ver através do tempo, p.33
https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/28008/2/ULFBA_TES_982.pdf
50 assuntos, de alguma forma, esta potência está relacionada com uma aproximação de onde eles proveem.
Henri Focillion em A Vida das Formas explica-nos que a arte mais ascética “(...) não apenas é suportada pela matéria à qual escapa, como dela se alimenta.” 35
Há, portanto, um alinhamento natural, de quem se interessa por meios “puros”, de trabalhar com matéria que alimente esta “pureza”. Na minha prática isso tem se traduzido em suportes com características bastante díspares. O acetato como já referi anteriormente. O projetor de slides, que através do seu mecanismo (espelho, luz e lente) permite-nos ampliar e desmaterializar um objeto, ou pelo menos, dar-lhe outra leitura. Mais recentemente as caixas de luz como meio de intensificar cores e formas.
A potência desses suportes não se relaciona apenas pela aproximação das características da matéria original, mas também se revelam como um meio de evidenciar os elementos essenciais: a forma e a cor. Tornando-se a presença do objeto em si um elemento secundário. Materializar um assunto é então tornar-lhe conteúdo e meio de exploração, consciente que essa negociação tem de ser feita da forma mais fiel à matéria que nos interessa.
Não é apenas o suporte que influência, mas claro também a técnica. São provavelmente os dois elementos base quando falamos de materializar – a técnica e o suporte. Há uma dificuldade em definir a hierarquia destes dois elementos, pois um não vive sem o outro e é sempre difícil chegar a uma unanimidade de qual é o que surge primeiro. Particularmente, no meu trabalho, nasceu primeiro o suporte, posteriormente tive de aprender a lidar com a técnica. Como o meu fazer artístico define-se por um lado experimental assumido, a exploração de suportes está sempre em primeiro lugar e posteriormente o domínio da técnica nestes suportes. Há, portanto, um assunto, depois um desejo de o materializar no suporte X e posteriormente uma necessidade de perceber qual a melhor forma de o materializar, escolhendo/explorando as técnicas mais adequadas para que o processo da materialização venha de encontro ao processo que o antecede, quando as ideias/vontades ainda só existem na memória ou em anotações.
“Somos assim levados a ligar a noção da matéria à noção de técnica que, na verdade, de modo algum estão separados.” 36
35 Idem, p.49
51 Materializar uma ideia é nada mais do que a meta final de um longo caminho. Um caminho de tentativas-e-erros, de decisões e indecisões, de pausas, de inquietações, de incertezas e certezas. De fazer e refazer, repensar e recuperar velhas ideias, atualizando-as trazendo para o agora. É um extenso percurso desde a imaginação até que percebemos que o que imaginamos é possível fazer, descobrindo, muitas vezes, que é possível fazê-lo de maneiras muito distintas. A todos estes acontecimentos chamamos processo.
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CONCLUSÃO
O texto apresentado resulta de uma tentativa de, através de um processo artístico, perceber e defender a relação da luz com o fazer. Das inúmeras formas que esta matéria se poderia desenvolver e partindo do meu trabalho, que vive muito da experiência, apresento, o que até agora surgiu como resultado desta exploração. Como referido na nota prévia deste documento, a luz nasce como resposta a uma problemática bem assumida no trabalho, a dificuldade de gerar novas imagens. O documento centra-se maioritariamente no processo criativo correlacionado com as temáticas apresentadas. Apresenta-se inicialmente o trabalho desenvolvido e, seguidamente, desenrola-se um conteúdo teórico que tem como principal objetivo identificar temas semelhantes ao que foi anteriormente exposto. Foi feito um estudo de trabalhos e processos que se relacionem com a luz nas artes plásticas. Desta forma foi possível compreender que o meu trabalho se enquadra num tema extremamente abrangente, que foi evoluindo ao longo dos tempos em processos tão diversos.
Ao longo do texto percebemos que os modos de explorar a matéria, também no meu trabalho, têm sido vários. Através do treino do olhar e da exploração de novas técnicas, a matéria luminosa passa a ter cada vez mais uma presença ativa. Enquanto que inicialmente era assumida com um papel secundário, ou seja, era apenas um meio gerador de imagens, atualmente ela torna-se num elemento presente. Nas obras mais recentes (caixas de luz e projetor) onde trabalho exatamente a luz, conseguimos perceber essa aproximação da matéria imaterializada que de algum modo se materializa, tornando-se substância. Ainda que as formas que nascem nesses suportes estejam relacionadas com elementos que são alterados pela luz (lagoas), nesses trabalhos, essas formas perdem o sentido se houver ausência de luz nos suportes.
Contudo, estou certa que a minha relação com esta matéria viverá de dois caminhos. Um caminho secundário em que a luz aparece de uma forma indireta, e um caminho mais direto onde o uso dessa matéria é parte integrante da obra.
Assumindo que a cor é um elemento visual muito presente no meu trabalho, estou consciente que esta também poderia ser um dos caminhos a seguir nessa dissertação. Esses dois elementos têm uma relação muito próxima. Vicent Goethe,
53 um dos grandes teóricos sobre cor e luz, afirmou: as cores são o agir da luz. Mas, como referi, a dificuldade de gerar novas imagens sobrepõe-se à parte prática, de atelier, em que a minha relação com as cores acontece. A luz torna-se então um assunto secundário do meu trabalho, talvez por ser uma área em que me sinto mais à vontade, que sai com toda a naturalidade e de forma tão intuitiva, perdendo o interesse para o presente documento.
O texto centra-se e desenvolve-se na luz e em como esta age no meu trabalho. Nasce de uma urgência e necessidade de gerar formas. De futuro, prevejo que poderá haver uma investigação relacionada com temas que me entusiasmam, isto é, o avistamento de pequenos seres e bactérias nas lagoas e, através da luz e do uso do microscópio, a sua representação. Identifico também como um futuro processo a utilização de um retroprojetor, potencializando imagens e representando-as noutros suportes. Enquanto mantiver uma ligação próxima com a prática do desenho/pintura, estou certa de que esta será a matéria que me irá ajudar a dar resposta às várias problemáticas artísticas.
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55 ANTUNES, Anabela, Que luz é esta que nos faz ver através do tempo, 2016
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56 IMBROISI, Margaret, MARTINS, Simone, Neoimpressionismo
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ÍNDICE DE IMAGENS
Fig.27 Caravaggio, Cristo na coluna, c.1607. Pintura a óleo sobre tela. 134,5 cm × 175,4 cm
Museu de Belas Artes de Ruão, Ruão
Fig.28 Georges de La Tour,The Magdalen with the Smoking Flame, c. 1636, Pintura a óleo sobre tela 128 cm × 94 cm
Louvre, Paris
Fig.29 Claude Monet, Meules, 1890, Pintura a óleo sobre tela 72.7 cm x 92.6 cm © Sotheby’s
Fig.30 Paul Cézanne, Mont Sainte-Victoire, 1902, Pintura a óleo sobre tela, 73 cm x 91.9 cm
Philadelphia Museum of Art
Fig.31 Georges Seurat, A Sunday on La Grande Jatte,1884, Pintura óleo sobre tela, 208 cm x 308 cm
Art Institute of Chicago
Fig.32 Vincent van Gogh, A Noite Estrelada, 1889, Pintura a óleo sobre tela, 74 cm × 92 cm
Museu de Arte Moderna, Nova Iorque, EUA
Fig.33 Thomas Wilfred, Study in Depth,1959. Projector, elementos elétricos e de iluminação e uma tela de projeção, 142 dias, 2 hrs., 10 mins.
Hirshhorn Museum and Sculture Garden, Smithsonian institution, Washington, D.C Fig.34 James Turrell, Sloan Red,1968, Instalação,
Häusler Contemoprary Zürich, 2018 ©Mischa Scherrer
Fig.35 Robert Irwin, Untitled (dawn to dusk),Instalação, 2016 Chinati Foundation, Marfa
© Alex Marks
Fig.36 Jorge Martins, Sem título, 1984, Óleo sobre tela, 240 x 170 cm Coleção CAMJAP
Fig.37 Pedro Calapez, inc #05, 2006, acrílico sobre painel de alumínio, 210 x 252,8 x 35,5 cm
©Pedro Calapez
Fig.39 Anish Kapoor,Cloud Gate, 2004 ©Mike Warot/Flickr
Fig.40 Holfgang Tillmans, Vista instalação Lighter, 2008 Hamburger Bahnhof Museum fur Gegenwart
58 Fig.42 Wolfgang Tillmans,
Silver Installation VII, 2009
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fig.1 Beatriz Brum
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fig.2 Beatriz Brum sem título-fogo, 2015
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fig.3 Beatriz Brum
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fig.4 Beatriz Brum
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fig.5 Beatriz Brum sem título, 2016
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fig.6 Beatriz Brum sem título, 2016
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fig.7 Beatriz Brum
67 fig.8 Beatriz Brum sombra1, 2016 fig.9 Beatriz Brum sombra2, 2016
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fig.10 Beatriz Brum
apontamentos,
69 fig.11 Beatriz Brum luz capturada1, 2015 fig.12 Beatriz Brum luz capturada2, 2016
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fig.13 Beatriz Brum
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fig.14 Beatriz Brum
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fig.15 Beatriz Brum
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I
Fig.16 Beatriz Brum fotografia sombra, 2016 fig.17 Beatriz Brum fotografia luz, 201674
fig.18 Beatriz Brum
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fig.18 Beatriz Brum
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fig. 19 Beatriz Brum
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fig.20 Beatriz Brum sem
78
fig.21 Beatriz Brum
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Fig.24 Beatriz Brum
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fig.25 Beatriz Brum
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fig.26 vista exposição Histórias,
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fig.38 Beatriz Brum chapas de alumínio, 2015
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Fig.40 Beatriz Brum
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Fig.43 Beatriz Brum Vista exposição Bruma, 2016
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OUTROS TRABALHOS
fig.1 Beatriz Brum
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fig.2 Beatriz Brum
89
fig.3 Beatriz Brum
90
fig.4 Beatriz Brum
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fig.5 Beatriz Brum
92
fig.6 Beatriz Brum